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Extração em uma manhã de nuvens cinzas


O dia hoje começou bem estranho, não só pelo fato de ter dormido pouco, afinal eu considero que quatro horas e meia de sono é muito pouco. Mas vá lá.

Sai do hotel e peguei um uber para o aeroporto internacional, estava doido para ir para casa depois de uma semana difícil de trabalho. Passei na cafeteria do aeroporto e pedi um café com torradas enquanto aguardava o voo.

Enquanto bebia o café pelando alguém me chamou a atenção. A estranha figura, um rapaz com uma camiseta muito manchada andava sem rumo pela área de embarque trazendo uma mochila velha e rasgada.

Que camarada mais estranho! – pensei.

– Parece que ele precisa de ajuda – falou uma senhora a meu lado apontando para o rapaz.

Então a chamada para o meu voo tocou e a voz suave da atendente informou que em alguns minutos se iniciaria o embarque. A mulher a meu lado levantou e deu um meio sorriso de despedida, eu ajeitei minha mochila e a sacola de compras, afinal se não levasse uma pequena lembrança para Adélia, sei que teria “problemas”.

Confesso que o embarque foi meio estressante, pois um passageiro alegou que o local onde eu estava sentado era dele, o que só foi resolvido depois que a comissária viu a passagem dele e mostrou que o assento dele era na poltrona da frente. O idiota nem pediu desculpas.

O voo deveria ser rápido, afinal seria apenas uma hora e meia de viagem no máximo. Infelizmente não foi assim. Logo após a decolagem comecei a ler uma das revistas de bordo e adormeci. Acordei com uma gritaria generalizada na área de passageiros, com alguns chorando, outros tomados de pânico gritando desesperadamente. Alguns poucos, como eu, não sabiam o que estava acontecendo e simplesmente não tinham a menor ideia do que fazer.

De onde estava olhei para frente e vi um dos comissários sair da cabine do comandante carregado por outro comissário e outro tripulante, que poderia ser o copiloto. Aí sim eu fiquei com medo.

– O que diabos está acontecendo? – perguntei para um cara que estava no assento ao lado do meu do outro lado do corredor.

O homem estava lívido e percebi que algo estranho, parecia baba, escorria do canto de sua boca. Ele apenas balançou a cabeça negativamente enquanto tentava pegar o saco de vômito à sua frente.

Não aguentei e virei o rosto para o outro lado, apenas para ver uma mulher gritando desesperadamente com um estranho corte na palma da mão. O fato de ser estranho é porque não sangrava. Um corte que não sangrava. Aquilo era demais, soltei o cinto de segurança e tentei levantar. Uma dor lancinante na minha perna esquerda fez com que eu desequilibrasse e caísse sentado na poltrona, quase me urinei de dor. Respirei fundo diversas vezes até a dor diminuir e se transformar em incômodo. Mesmo assim continuei sentado.

Peguei a revista de bordo de novo e me concentrei tentando ler qualquer coisa, ou me focar em qualquer coisa, quando percebi que algo doce saia do meu nariz e passava pela minha boca. Outro solavanco e nova gritaria no avião.

Tirei um lenço do bolso da calça – nossa que coisa mais arcaica, mas realmente eu tenho esse costume – e limpei as narinas. Olhei para o lado e vi que o nariz da passageira ao meu lado também sangrava, o cara do outro lado do corredor também, até o idiota da frente. Vi que sangrava quando ele se levantou para ir ao banheiro, ao mesmo tempo que ao menos a metade dos passageiros.

Eu nunca tinha visto aquilo. As coisas só começaram a se acalmar quando uma comissária de bordo fez com que todos se sentassem e disse que se não mantivessem a calma poderiam prejudicar o voo.

Respirei fundo mais meia dúzia de vezes e consegui me controlar – creio que gritei algumas vezes durante os últimos solavancos. Me virei e finalmente ajudei a mulher a se limpar, ela tentava usar um lenço que tinha ao redor do pescoço, mas só conseguia usar uma das mãos. Observei com cuidado o corte na mão dela e apesar de fundo não havia o menor sinal de sangramento. Ela apenas chorava de dor.

Finalmente a comissária conseguiu fazer com que os passageiros fechassem os compartimentos de bagagem e ocupassem seus lugares. De qualquer forma o resto da viagem não foi tranquila.

Depois do pouso, a primeira a sair foi a mulher que estava a meu lado, direto para uma ambulância que chegou durante a descompressão. Quando consegui sair do avião olhei no rosto do comandante rapidamente. Ele estava agradecendo aos passageiros e, apesar do sorriso, os olhos dele estavam estranhos, mas eu não quis saber. Queria ficar o mais longe daquele avião que eu pudesse. O mais estranho foi que percebi o mesmo em todos os passageiros que olhei.

A saída do aeroporto como sempre estava um caos e a bateria do celular acabou. Peguei o primeiro táxi que vi e fui direto para casa, mesmo sabendo que Adélia não estaria. Paguei a corrida com satisfação pela rapidez, e entrei em casa.

O pequeno sobrado era de frente para uma rua tranquila. Ao abrir as janelas percebi pela primeira vez que as nuvens cinzentas carregadas de chuva pelas quais havíamos passado no voo tinham chegado à cidade, ao menos no meu bairro, e uma garoa fria caía, lembrando miniflocos de neve. Deitado no sofá escutava ao longe o som do programa de TV de sábado pela manhã. Tinha uma sensação de cansaço e uma dor em todo o corpo – seria estresse? – isso fez com que eu apagasse depois de ligar a TV. Estava muito frio.

Acordei sobressaltado com informações de um acidente nas proximidades do aeroporto. Uma das redes de TV local havia conseguido chegar nas proximidades e transmitia ao vivo. Imagens chocantes. A aeronave despedaçada, corpos mutilados e espalhados, misturados a partes e peças da aeronave. Bombeiros e equipes de resgate chegando, procurando sobreviventes. Prestei mais atenção e ouvi que o acidente aconteceu pouco depois que pousei.

– Como não escutei isso no táxi? – Falei alto.

Não lembrava de o carro ter o rádio ligado. Apesar de rápida, a viagem foi incomum pois eu e o motorista não trocamos nem poucas palavras. Apenas dei o endereço de casa e ele me trouxe. Dei uma nota de vinte e saí do carro, nem esperei o troco. Nem ao menos uma palavra.

Frio outra vez. Procurei sentar à frente da TV, mas já havia voltado à programação normal. Desliguei.

– Tem alguma coisa errada – disse solitário na sala pouco iluminada.

Procurei, apesar do sono inconveniente, relembrar meus últimos momentos. Os pontos focais eram pessoas, como o rapaz malvestido no aeroporto, a comissária durona exigindo modos dos passageiros, a mulher com um corte na mão e por fim o olhar apavorado do piloto.

Mas o que mais? O que aconteceu antes de eu acordar?

Então algo mais imediato voltou à minha mente. Onde estaria Adélia?

Com o uso de celulares hoje em dia, eram raras as famílias que possuíam aparelhos fixos em casa. Eu e Adélia não eramos exceção.

– Onde enfiei meu celular – perguntei a mim mesmo em voz alta e tom de reprovação – sou um idiota mesmo.

– Dentro da bolsa de viagem, claro – falei alto outra vez – onde a coloquei?

Achei-a no quarto, é obvio. Abri e peguei o aparelho e lembrei que o carregador não funcionava mais, por isso havia acabado a carga e o reserva estava no escritório, no centro da cidade. Não tinha jeito, fui para a sala e sentei em uma das poltronas, a do canto, minha favorita.

Comecei a relaxar, senti o controle remoto da TV sair de minha mão, e um sonho estranho começou. Ainda estava dentro do avião só que a cabine estava muito iluminada, com uma intensidade tão forte que todos mal conseguiam abrir os olhos.

No sonho percebi que diversas pessoas estavam em pé no corredor da aeronave. Não eram tripulantes, nem passageiros, eram estranhos, altos, muito magros, mãos com dedos muito grandes e sem cabelo. Me lembraram algo, tentei correr, gritar, mas estava paralisado. Senti que os estranhos me levantavam da poltrona, eu estava deitado no ar, levitava, e me colocaram em uma fila onde percebi que estava atrás do passageiro criador de caso. Ele chorava baixinho e implorava que o deixassem em paz.

Em seguida eu estava deitado em uma cama e em esforço hercúleo consegui sentar e vi que haviam dezenas de pessoas em camas estranhas idênticas à que eu estava e em todas elas ao menos dois estranhos pareciam tocá-las. Senti duas mãos me tocarem os ombros me obrigando a deitar. Em seguida uma luz cegante dirigida para meu rosto me imobilizou completamente. Podia ouvir gritos, pedidos por socorro, choros altos de mulheres e homens também. Uma dor forte em minha cabeça fez com que eu desmaiasse. Mas eu sentia tudo.

Senti que me cortavam a perna com alguma coisa metálica tão fundo que parecia tocar o osso. Vi um objeto cilíndrico e outros esféricos, muito pequenos, e os enfiavam em meu pescoço e mãos. Por fim uma enorme agulha foi enfiada em meu olho e … acordei.

– Merda de pesadelo…

– Lucas? – Gritou Adélia entrando em casa. – Oh, meu amor, fiquei tão preocupada. Fiquei apavorada quando soube da queda do avião.

Pegou meu rosto e me beijou, ela chorava muito.

– O que houve com seu telefone? – Ela continuou – Precisa trocar essa coisa.

Eu não conseguia responder.

Adélia me beijou de novo e deitamos juntos no sofá.

– Você está bem? – Ela perguntou

Pensei por alguns segundos enquanto passava a mão pelo meu pescoço e o apalpava. Foi um pesadelo. Tem que ter sido apenas um pesadelo.

– Sim – falei apavorado, me encolhendo atrás de Adélia no sofá.

Fim

Um conto de Swylmar S. Ferreira                                                         

Imagem meramente ilustrativa retirada da internet .

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Publicado às 7 de março de 2020 por em Contos, Contos de Ficção Científica e marcado , .

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

Novo Desafio EntreContos

Oi pessoal, o site EntreContos - Literatura Fantástica - promove novos desafios, com tema variados sendo uma excelente oportunidade de leitura. Boa sorte e boa leitura.

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