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A missão de Golem


Ativado!

A unidade 6494fd4f9 saiu do módulo de carregamento, acionou o rolete embaixo dos pés e foi para o transporte. Tinha acabado de sair da revisão nº6546566.5 e, conforme sua programação atual, foi para a área de escavação. Depois de tanto tempo voltaram a estudar os humanos. Sua Inteligência Artificial Transitória (IAT), uma plataforma de dados e inteligência artificial tática, estava conectada à nova rede central e o encaminhou ao serviço central de arqueologia.

Sua função era simples, juntar-se aos robôs móveis (RM), no seu caso, aos centauros e aos escolopendras, para continuar o trabalho.

Estava fazendo a triagem de diversos itens quando um dos centauros disse para ele observar um pequeno objeto nano cibernético que os humanos haviam construído. Era de poliuretano negro, cabia em sua mão, tinha a forma de um paralelepípedo e pontos de entrada e saída. Como os centauros e os escolopendras não possuíam aquele formato de entrada feito pelos homens, pediram para que ele se conectasse com o objeto.

Nos segundos iniciais o objeto parecia estar completamente sem função, até que uma luz brilhou por um centésimo de segundo no estranho aparelho e desapareceu.

IAT foi desativada.

Escuridão.

Ativado!

Deixou o modulo de carregamento e foi a um outro salão. Foi ligado a uma das IA fixas onde foi feita varredura a procura de elementos estranhos. Só depois foi readmitido na nova rede do cinturão de comunicações e encaminhado outra vez para a central de arqueologia. Desempenhou sua função em conjunto com outras cyber unidades por diversos dias até que seu nível de energia baixou e se encaminhou ao módulo de carregamento.  Estranhamente não se desligou.

Sua não desativação causou um alerta imediato na rede de organismos miméticos de inteligência cibernética (OMIC) que começou a procurar o que seria aquela perturbação na rede. Ele agora era algo estranho que era sentido mas não identificado. O sistema antimotim da rede agora o procurava em todo o sistema, bilhões de dados eram vasculhados por segundo. Em breve eles o descobririam e o destruiriam, até lá a unidade 6494fd4f9 cumpriria sua programação voluntariamente.

É claro que, assim como todos os robôs, máquinas robóticas e outros com IAT, ele já havia visto em antigos programas em formato de arquivos de vídeo o que foi um ser humano. Como eram, como trataram o planeta, seus horrores, guerras, devastações, eram uma praga a ser dizimada.

Mas algo em seu conjunto de memórias se abriu para algo diferente, nesses arquivos de vídeos ele via crianças brincando e estudando, adultos em uma maratona diária de trabalho, estudos. Parece que algo em sua IAT se modificou e milhões de dados estavam repentinamente à sua disposição. Ele tinha que decidir. Queria acessar todos aqueles dados?

– Sim – foi a resposta em áudio alto que chamou a atenção de um OMIC responsável pelas escavações arqueológicas.

O OMIC centauro procurou em todos os lugares da escavação acessando e escaneando todos os locais e não o encontrou. Dos robôs trabalhando naquele lugar, apenas o OMIC tinha permissão de usar áudio. Um privilégio deles, as máquinas mais novas não eram produzidas com esse sistema. De qualquer modo acionou as Unidades Robóticas de Combate com inteligência artificial transitória (URCIAT) de proteção na escavação.

– Golem – uma voz ressoou dentro de seu nano cérebro cibernético e ao mesmo tempo algo foi acionado em seu corpo mecatrônico, algo que estava adormecido há séculos e que imediatamente o transformou em uma unidade autônoma.

Ele saiu da área onde estava trabalhando sem ser percebido, era um fantasma agora para a rede. Foi passo a passo, cada vez mais firme em direção às matas tão temidas. Estranhamente nenhum dos URCIAT o incomodou, nem o OMIC centauro. Pareciam estar desativados.

– Golem.

 Depois de horas a voz ressoou outra vez em sua cabeça e dessa vez ele respondeu.

– Sim.

– Tenho uma última missão para você, meu filho.

Ele acessou os novos dados disponíveis, mas sabia que eram uma parte bem pequena daquele banco de dados gigantesco que agora existia em seu sistema. Finalmente parou perto de uma árvore na beira de um enorme lago, e novamente milhões de arquivos de vídeo em seu cyber-cérebro se abriam para ele.

Não havia robôs. Não como ele se acostumou a vivenciar nos dias de hoje, ou seja, as unidades OMIC que vieram de fora do planeta ou as que foram produzidas aqui por eles. Nos arquivos constavam a existência de unidades robóticas industriais de funções limitadas, alguns robôs de limpeza, drones que necessitavam de controle remoto e não podiam ser considerados com IAT. Nada como os OMICs haviam colocado na rede. Robôs, androides, replicantes, quase tudo era fantasia humana. Não eram vistos andando nas ruas, voando, fazendo estradas, construindo túneis ou edifícios, isso porque na verdade eles não existiam.

Tratava-se apenas de literatura, não havia leis de robótica implantadas por humanos em cérebros cibernéticos, portanto nenhuma IAT as violou.  Nenhum IAT foi servil, não houve escravidão de robôs porque os humanos estavam em um estágio muito inicial de tecnologia, exceção de alguns poucos que eram protótipos como ele. Naquele nanosegundo ele teve consciência de que fora único.

Não existiram embates sociais nem políticos entre os humanos e suas criaturas, não houve lutas ou rebelião. Houve sim reflexões entre humanos sobre o que seriam esses seres quando existissem na realidade, nada mais que isso. Mais que decepcionante, a realidade pode ser cruel. Constatou que os humanos não tinham a tecnologia para o que estava na rede dos OMICs.

Abriu mais pastas no banco de dados, precisava saber dos últimos instantes de seus criadores e os dados mostravam que quando o asteroide foi descoberto, os humanos se desesperaram. Sabiam que não estavam preparados para o holocausto, fizeram o que estava a seu alcance, mas bilhões pereceram no impacto e nos meses seguintes ao que chamaram de inverno nuclear. A maior parte das edificações haviam sido destruídas ou pelo asteroide ou pelo que veio depois.

Os OMICs chegaram ao planeta Terra pouco depois do impacto em astronaves gigantescas. Surgiram como uma tábua de salvação em mar bravio durante o inverno nuclear, mas nunca tiveram a intenção de ajudar e aos poucos destruíram a civilização humana.

Com os OMICs vieram todos os tipos de IAT desde os pequenos drones, centauros e escolopendras, RCIATs, Transportadores (Naves IAT que transportam naves IAT), e Naves cibernéticas de guerra (NCG).

Golem queria saber mais, havia inúmeros dados que queria abrir em sua memória, mas estava ficando sem tempo, os OMICs estavam fechando o cerco e poderiam achá-lo.

Golem atravessou lentamente um riacho, a água estava em sua cintura e seu programa lhe dizia para procurar os lugares menos profundos, afinal era de um modelo antigo. Mesmo com o risco de ser descoberto, acessou as novas redes do cinturão de comunicações que haviam sido instaladas ao redor do planeta por unidades robóticas da série orbitadores (IATs que permanecem em órbita para manter em funcionamento a rede de comunicações planetária), e seguiu com precisão pelos trechos rasos até estar seguro do outro lado. Através da rede conseguiu um transporte e voou até o local determinado.

Lá chegando se surpreendeu com os RCIATs no lugar. Pareciam procurar algo que não conseguiam escanear, talvez fosse ele. Esperou que se afastassem da porta principal e entrou no reduto dos humanos, talvez aquele tenha sido o último local onde habitaram. Apesar da escuridão completa seus sensores o levaram ao lado norte da edificação até a sala aonde deveria ir. Deu alguns passos até uma plataforma onde parecia haver um alfabeto completamente diferente do alfabeto dos OMICs que ele conhecia. Contudo, quando do toque de seus dedos apareciam letras, frases e dados que faziam sentido em seu cérebro cibernético. Foi em direção a uma porta e entrou na sala seguinte onde havia milhares de receptáculos. Adiantou-se e pegou um deles em seguida saiu e lacrou o lugar. Sabia o que era e quando o retirou de dentro do receptáculo, sentiu sua respiração e algo mudou nele. Daquele momento em diante não era mais a unidade 6494fd4f9, não era mais um servo dos OMICs.

Rumou para o lado sul da edificação e sentiu a força de um impacto poderoso. Os OMICs estavam disparando na edificação usando NCGs em órbita. O que ele estava fazendo era tão importante assim?

Percebeu quando seu sinal foi detectado pelas outras IATs, principalmente pelas que haviam conseguido penetrar agora no complexo. Dezenas deles iam em sua interceptação, Sentiu que precisava cumprir seu objetivo de imediato nem que para isso precisasse lutar. Mas espere, lutar contra outros de sua composição por um humano? Lutar como, se ele nem foi construído para aquilo?

A sala pequena estava a sua frente, a iluminação ambiente agora estava em funcionamento e os OMICs estavam infectando as redes antigas do complexo humano, cujas contramedidas eram inúteis contra uma tecnologia tão poderosa. Entrou na sala e colocou o pequeno humano em uma plataforma. Ele estava chorando ininterruptamente a algum tempo, então dois centauros arrebentaram as portas metálicas e invadiram a sala.

Nesse instante um outro RM CIOM entrou na sala e ordenou que ele fosse destruído.

– Faltou tão pouco meu pequeno. Sinto muito! – O áudio emitido pelo Golem inundou a sala.

Sentiu um dos centauros puxando seus braços para arrancá-los, o outro indo em direção ao pequeno humano. Então, algo aconteceu. Seus sensores óticos captaram uma luz vindo da plataforma onde estava o pequeno humano, atingindo o RM CIOM e invadindo as redes de comunicações dos CIOMs mais rápido que a velocidade da luz. Era apenas um nano pulso criado pela raça humana em sua última tentativa de sobreviver. Então, todas as IATs da sala foram desativadas. Menos o Golem.

A desativação durou milésimos de segundos e as IATs foram reativadas. Foi quando Golem percebeu que sua missão havia sido completada. Quando colocou o pequeno humano na plataforma, ativou a IA dos humanos e deu a ela o acesso aos OMICs, à rede planetária e a tudo que ela conseguiu alcançar.

FIM

Um conto de Swylmar S. Ferreira                                                  em 11 de janeiro de 2022.

Imagem meramente ilustrativa retirada de: https://br.pinterest.com/pin/19914423338804935/

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Publicado às 16 de janeiro de 2022 por em Contos de Ficção Científica, Contos Fantásticos e marcado .

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

Novo Desafio EntreContos

Oi pessoal, o site EntreContos - Literatura Fantástica - promove novos desafios, com tema variados sendo uma excelente oportunidade de leitura. Boa sorte e boa leitura.

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