Fantasticontos, escritos e literários

Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

Eight Barrabás


Parte I – Eight

– Gostaria de poder dizer a vocês que está tudo bem. – Diz o homem no centésimo andar da torre de trabalho delta 9. Parecia desatento naquele instante, observando a Megalópole na madrugada.

– Gostaria que todo o mundo fosse assim – diz apontando em direção aos grandes vidros que formavam as paredes externas da edificação e mostravam a megacidade com quase cinquenta milhões de habitantes e virando levemente o rosto para observar seus colegas de reunião continuou.

– Gostaria de dizer também que não houve ataques, destruições em massa, mortes em massa, e que os efeitos de tudo isso foram pequenos, mas isso não seria verdade.

Deu um par de passos para trás na direção da mesa de reunião onde um grupo estava reunido ouvindo atentamente o que ele dizia.

– Gostaria de dizer – continuou – que as perdas de vidas após a chegada dos nossos “visitantes” foram mínimas, mas seria um absurdo. – falou voltando-se para encarar os outros membros da reunião.

– A verdade é que foi diferente em cada lugar, cada cidade, cada país, isto é, quando ainda tínhamos este conceito de país.

Parou rapidamente e olhou direto no rosto de cada um dos estavam sentados na mesa e depois continuou.

– Lembro que em algumas vezes as cidades foram divididas, como a nossa, outras direcionadas apenas para humanos como foi o caso de nossa cidade irmã. Em casos extremos destruídas.

– Mas temos que nos adaptar à nova realidade e no nosso caso fomos muitos felizes e devemos nos esforçar para manter esse bom relacionamento com os “novos irmãos”, que tanto beneficiou nossa cidade e à nossa espécie.

Carlos Roiter olhou novamente para a mesa onde diversas pessoas se sentavam e em silêncio prestavam atenção ao que ele falava. A reunião tinha mais de três horas e a seu ver os assuntos estavam esgotados e naquele momento ele a estava apenas finalizando.

Passou os olhos rapidamente pelo que era conhecido como o Conselho Governamental Híbrido. Além dos quatro “novos irmãos”, mais sete membros eleitos pela população eram os responsáveis diretos ou indiretos pela gigantesca evolução da cidade.

Atracta – nome escolhido por “eles” trinta e cinco anos atrás, significava: “lugar das brisas mornas” no idioma original de Kaltor – tinha nesse período evoluído social e tecnologicamente ao menos o triplo da maioria das outras cidades e estavam à frente das mais de duas mil grandes “cidades aproveitadas” e de todas era uma das que mais se destacava. E quanto ao nome, pensou, era melhor que Nova São Paulo, Nova Brisbane, Nova Lisboa ou Nova Orlando como algumas das outras.

– Terminamos Governador? – Perguntou um homenzinho atarracado, chamado Paulo Izar.

– Claro – respondeu Carlos com um belo sorriso. Era um homem bonito, na casa de seus cinquenta anos, alto, forte e inteligente – podemos continuar na próxima data agendada.

Izar olhou para o homem ao seu lado e acenou com a cabeça. Arlindo Silva concordou e os membros humanos do Conselho se levantaram e saíram, exceto os “novos irmãos” que após os outros saírem se aproximaram do Governador.

– Ainda não esgotamos a conversa – falou nervosamente o general que comandava as forças de ocupação kaltonianas no planeta. Estava irritado desde o princípio da reunião e pouco se falou sobre o que realmente lhe interessava: os terroristas.

– O problema com aquilo que vocês chamam de resistência e que para nós não passa de mais um grupo terrorista, aumentou em praticamente todas as cidades deste planetinha de merda – disse desdenhoso – E não vamos tolerar novos ataques aos nossos soldados ou nossos Centros de Controle, muito menos às nossas naves.

O kaltoniano tremia de raiva ao socar a própria mão.

– São uns terroristas miseráveis e pretendo acabar com todos, nem que tenha que destruir todas as cidades.

Carlos ouviu as ameaças em silêncio, vendo que o alienígena tremia mais que o normal naquele momento. Sabia como funcionavam aquelas situações. Um deles falava e os outros cercavam mostrando uma tática de intimidação elaborada. Deu um passo para trás e encostou em um dos pilares.

– Nós estamos tentando General K’You-Hiz, pode ter certeza de que a Guarda Governamental está investigando e em breve teremos uma solução para esse inconveniente. – Carlos sorria novamente – Esses ataques virtuais à rede de comunicação, que são o maior problema, logo serão resolvidos. Já conversamos sobre isso e você concordou que sua rede é muito frágil. Quanto aos ataques às naves e aos soldados… estamos tentando resolver – Disse o governador levantando levemente os ombros.

O General K’You-Hiz de um pequeno passo a frente e seu rosto quase tocou o rosto do governador. Ele estava enfurecido a tal ponto que um de seus oficiais precisou tocar em seu ombro.

– Escuto isso há vinte de seus anos ou mais. Os ataques virtuais à rede de comunicação planetária não são o maior problema. É apenas um dos problemas que você já deveria ter arrumado aqui em sua cidade. Eliminei seu antecessor por isso, então… – olhou Roiter de alto a baixo – trate de fazer seu trabalho.

Mesmo acostumado a ver os “novos irmãos” da casta guerreira de perto, ainda era estranho para Roiter tê-los a poucos centímetros de seu rosto. Não era medo o que sentia, nem asco ou ódio, era simplesmente o incômodo de ver tantos implantes nano cibernéticos em um único corpo, no caso de K’You-Hiz, na cabeça.

– Você já passou dos limites – a voz agora era baixa e calma surpreendendo até seus assistentes. Roiter estava tão perto que seus rostos quase se tocavam. O kaltoniano olhava nos olhos do humano e estavam tão próximos que podia ver a cor castanho escura da íris – hoje mesmo fui informado da chegada de um destruidor imperial BGads. Em breve eles iniciaram nova colheita de humanos e pretendem iniciar ataques contra os terroristas na cidade irmã. Vocês não resolveram a situação, agora é nossa vez.

Deu dois passos para trás e uma última olhada para Roiter que permanecia impassível.

Enquanto K’You-Hiz e seus dois asseclas deixavam a sala, Roiter e K’Tiel-Zal, seu vice-governador escolhido pelos “novos irmãos”, se entreolham. Com tudo aquilo, a respiração do humano nem mesmo havia se alterado. K’Tiel-Zal, por alguns segundos se perguntou qual dos dois era o mais perigoso.

– Ele está zangado! – afirmou o alienígena sentado do outro lado da mesa – não entendi o que ele disse.

Roiter o conhecia bem e sabia que sua lealdade estava com Kaltor. Apesar de ele não ser da casta guerreira, e sim da casta administradora, ele era muito bom no que fazia. Sempre admirou a sociedade kaltoniana de castas, divididas em administradores, guerreiros e religiosos. A divisão, às vezes, simplificava toda a sociedade deles.

– Lamento muito, não queria que o velho ficasse assim – Carlos falou pesando cada palavra – mas ele vai fazer o que meu amigo? Destruir Atracta?

– É uma opção – disse o kaltoniano em meio ao que eles chamavam de sorriso – mas existem inúmeras opções a mais. A grande questão hoje no planeta são os terroristas.

Roiter olhou-o e sem uma expressão sequer no rosto, respondeu.

– Sim, você tem razão, precisamos nos esforçar mais para acabar com essa resistência – continuou – Vocês precisam ter em mente que aqueles que vocês chamam de terroristas para a maioria dos humanos são um grupo de resistência.

– E para diminuir a influência deles precisamos pelo menos duplicar a Guarda Governamental e ter tropas mais bem treinadas e melhor armadas. Assim poderemos desencorajar os membros das células da resistência – olhou nos olhos do kaltoniano à sua frente – Só não acredito que atacarão a cidade, não com mais de dois milhões do seu povo vivendo aqui, junto com os humanos.

– Talvez o aumento das tropas governamentais seja a solução – continuou K`Tiel-Zal, tentando manter o tom ameaçador de seu compatriota – talvez se colocarmos tropas kaltonianas diminua o ímpeto de seus irmãos humanos… é sempre um risco. Atacar as cidades é sempre mais viável.

– Mas destruir cidades inteiras e matar milhões de inocentes, incluindo seu próprio povo, não pode ser uma opção viável, meu caro – falou, sentando-se.

– Lembre-se do que aconteceu da última vez que “deram um exemplo”. Vocês quase provocaram uma rebelião incontrolável quando desceram suas tropas.

Os dois ficaram em silêncio, mas K’Tiel-Zal lembrava claramente do resultado que culminou na execução do último administrador e na inutilização de sua nave capitânia.

Lembrou-se por alguns momentos do ocorrido. Cinco de suas naves de transporte B`Gads foram destruídas, das que eram chamadas de astronaves que transportavam astronaves. Destruídas por armamentos que eles nem sabiam que os humanos eram capazes de produzir, que eles simplesmente desconheciam e naves orbitais destruídas por massas metálicas esféricas catapultadas do solo do planeta. O ataque dos humanos resultou em dezenas milhares de mortos nas astronaves, além de destruir parte da rede de comunicação com Kaltor.  

Pior ainda foram os resultados da incursão por terra, onde ao menos a metade da força de ocupação pereceu por todo o planeta. A resistência havia conseguido fazer engenharia reversa nas armas que capturaram e pareciam estar preparados para a incursão. Mas o mais emblemático foi ver que milhares de kaltonianos residentes naquele mundo lutaram ao lado dos humanos.

Os membros do governo provisório acreditavam que aquilo seria impensável e levou a uma reação inédita do Governo Kaltor em proibir novos ataques e esfriar os ânimos. “Já investimos demais nesse lugar” – dissera um dos líderes na capital dos “novos irmãos”.

A voz do humano o trouxe de volta de seus pensamentos.

– No fundo vocês sabem que é quase impossível parar esses grupos de resistência – continuou Roiter – esses criminosos são como as hidras das lendas daqui do meu mundo, corte uma de suas cabeças e duas outras nascerão em seu lugar.

– Acha que K’You-Hiz tem medo disso? – Perguntou com um sorriso nos lábios.

Roiter não respondeu, não precisava, sabia que ele tinha. Sabia que naquele momento todos os invasores tinham medo da resistência, principalmente do grupo chamado Eight e do líder deles, que os kaltonianos denominaram pejorativamente Barrabás, em alusão ao personagem da história humana. Mesmo com o passar das décadas, eles ainda se achavam os salvadores da humanidade.

Esperou alguns segundos para ver se K`Tiel-Zal falaria mais alguma coisa. Então apenas se levantou e saiu da sala de reuniões deixando o Kaltoniano para trás. Enquanto se afastava da sala e seguia pelo corredor do gigantesco delta 9 em direção ao seu gabinete, lembrou-se que a hidra da lenda era tão venenosa que matava os homens apenas com seu hálito. A resistência hoje era tão perigosa quanto a criatura da lenda. Somente os novos irmãos não queriam acreditar nisso.

****

Sentado no alto do edifício e olhando ao redor, Lucius olhava com tristeza e pensava no distópico mundo que se tornou a Terra. Atacna, a cidade irmã de Atracta, sofrera as consequências de diversos ataques maciços dos “novos irmãos”.

Atacna era a cidade que não conseguiam dominar, uma cidade de humanos. Os “novos irmãos haviam dado esse nome que no idioma kaltoniano significava: “lugar dos mares calmos”. Ela acabou se tornando um símbolo para a humanidade e um desafio para os “novos irmãos”, pois suas armas mais potentes não conseguiam chegar aos túneis mais profundos, que se transformaram em gigantescos cemitérios de soldados kaltonianos.

O ataque inicial ocorreu três décadas atrás e não causou grandes estragos na cidade, mas deixou alguns milhares de mortos, principalmente pessoas soterradas em escombros de edifícios. Já a segunda onda, acontecida há uma década e meia deixou mais de dois milhões de humanos mortos no lugar. Mesmo a altíssima tecnologia trazida pelos invasores – era assim que a resistência os chamava – não serviu de muita coisa em uma cidade devastada.

Foi impossível a reconstrução, talvez porque na realidade os humanos não demonstraram interesse em fazê-lo. A maior parte da população sobrevivente foi para a cidade irmã.

A realidade era que a baixa qualidade de vida e as inúmeras cidades arrasadas, destruídas no processo de assimilação, o ar ruim das fabricas alienígenas, a água malcheirosa e meio azeda eram só o básico da miséria que era imposta a noventa por cento do que havia restado da população humana na cidade. E isso acontecia em grande parte das cidades do mundo.

A vida em Atacna era difícil, principalmente para os que haviam ficado lá e muitos temiam que aqueles que haviam sido levados para participar da suposta colonização B`Gadiana e Kaltoniana fossem muito piores. Destes humanos que haviam sido designados para as chamadas colonizações, em sua maioria, deles ninguém nunca mais ouviu falar. Já os que viviam nas cidades hibridas eram privilegiados.

Para Lucius era difícil não pensar nos que haviam sido levados. Imaginava as dificuldades e os horrores que passavam os humanos escolhidos para colonizar um mundo do qual nunca tinham ouvido falar.

 – Escravos – disse pensativo enquanto observava um incêndio ao longe.

A cena dantesca infringia horror a seus olhos, o rancor crescia em seu íntimo ao imaginar seus irmãos humanos sendo mortos naquele lugar. Mesmo tendo conseguido avisá-los com antecedência graças ao comandante Blue, sabia que nem todos haviam conseguido sair a tempo. Viu horrorizado um tornado de fogo gigantesco parecia se estender aos céus.

 – Outro ataque – falou em voz baixa para uma figura que parecia se esconder nas sombras da edificação semidestruída – miseráveis – olhou de soslaio para ver se Blue ainda estava ali. Viu que ele balançou positivamente a cabeça.

– O que fazer agora, comandante? – Questionou Lucius. Havia momentos em que ele não sabia o que fazer.

– Esperamos. – Disse em uma resposta seca.

O homem nas sombras se movimentou para mais perto de Lucius. Dali ele podia olhar com mais clareza os diversos incêndios na cidade arrasada. Aquela torre era o melhor ponto de observação que existia. Dali, além de ver toda a cidade, ainda podiam ver as luzes de Atracta ao fundo.

– Um paradoxo – disse a Lucius – Em breve vai acabar, você vai ver. Se isso – falou apontando para mais disparos vindo de uma nave em orbita, formando o que eles chamavam de tornado de fogo – é o melhor que podem fazer, em breve estarão em maus lençóis.

Lucius olhou o homem a sua frente e sorriu. Era bom estar ao lado dele, mesmo que raramente e por poucos minutos. Mesmo que em muitos daqueles encontros duvidasse do que ele dizia. Mas não podia deixar transparecer suas dúvidas, principalmente porque não seria bom para os demais grupos de resistências dali e das outras cidades, florestas, ou outros lugares que haviam se juntado ao comandante Blue.

Nos últimos dez anos ele se tornara uma lenda. Ataques maciços contra os kaltonianos, destruindo grande parte da rede de comunicações inimiga no planeta e toda a comunicação intergaláctica na Terra. Isso, fora os ataques às tropas de solo e módulos de voos, mostraram nesses anos que a resistência humana era forte. As duas outras espécies que haviam participado da invasão desistiram em menos de uma década devido às baixas pesadas. Além disso, não havia recursos para todos no planeta.

– Vamos seguir o plano. Quer que eu peça às células para que evitem ataques as naves Kaltor? – Perguntou Lucius.

– Nem pensar… eles estão atarantados com os ataques. Deixe que se preocupem e se atacarem alguma cidade limpa, vamos mandar uma surpresa para eles em órbita. Prepare os comunicadores.

Lucius percebeu o sorriso por baixo da máscara. Veio em sua mente a lembrança do dia em que foi convidado para entrar para a resistência de Atacna. Convidado não, intimado. Alguns de seus amigos de infância estavam lá. E ele foi o último a entrar, ao menos dos que ainda tinham contato ou que estavam vivos, exceto os colaboracionistas.

Os dois homens ainda ficaram olhando as chamas infernais do outro lado de Atacna. Os bairros mais perto da zona portuária e das praias não existiam mais. Centenas morreram nos ataques nas últimas horas.

Tudo começou devido a uma nova tentativa de incursão dos kaltonianos, buscando membros do Eight. Mas a resistência sabia que se tratava de mais uma incursão em busca de escravos para trabalhar em outros planetas ou ainda que serviriam de alimento aos BGads, já que haviam se infiltrado nas redes de comunicação e descoberto o que os invasores estavam planejando. Aqueles disparos eram sem dúvida de armas BGads, já que os kaltonianos não tinham aquela tecnologia. 

Lucius viu Blue olhar um cronômetro que acionava entre os disparos. O poder dos tornados de fogo estava cada vez maior, significando que o destruidor imperial BGads estava em uma orbita muito baixa para conseguir maior destruição. Isso os deixaria ao alcance das armas da resistência. Será que os kaltonianos não os haviam avisado? – pensou quase sorrindo ao antever o que viria.

Olhou Blue ligar o comunicador – eles tinham quatro segundos no máximo para usá-lo – ficou alguns instantes mudo até que ouviu algo como um clique e alguém avisou que a astronave estava no alvo.

– Agora! – a voz de Blue estava mais serena que o normal.

Um disparo surdo partiu do solo em direção à órbita. Lucius viu um brilho no céu, um estrondo, e repentinamente uma chuva de destroços começou a cair no mar. Em seguida os ataques contra a cidade pararam. Os homens sorriram um para o outro. A astronave BGads não existia mais.

Um breve abraço serviu como despedida, muito pouco para amigos de mais de três décadas. Sabiam que os BGads dificilmente tentariam nova coleta de escravos e que naquele destruidor estavam as mais avançadas tecnologias que possuíam e mesmo assim haviam conseguido derrubá-lo. Destrui-lo.

Lucius ainda ficou mais alguns instantes enquanto Blue descia as escadarias em ruínas e desaparecia em uma infinidade de túneis que existiam embaixo da cidade e que agora abrigavam milhares de pessoas, muitas delas membros da resistência, que teimavam em não sair dali.

Lucius também ficaria ali se pudesse. Tinha que voltar à sua vida, iria por determinados túneis até a cidade irmã. Lá voltaria à sua loja e ficaria com o que restou de seus vizinhos e amigos, alguns deles, inclusive, invasores. Por que não?

Atacna estava perdida para sempre, como sua mulher e filhos. Estranho que naquele momento não conseguia se lembrar do nome antigo da cidade.

Blue já havia atravessado aqueles túneis milhares de vezes, desde que a invasão começara. Conhecia-os tão bem quanto as ruas de Atracta, sabia exatamente onde estava. Subiu a escada de ferro de um dos túneis subterrâneos que dava acesso as ruas de Atacna. Estava no centro da cidade ou pelo menos no que restava dele. Teve dificuldades em empurrar a tampa de bueiro que dava acesso à antiga avenida, pois havia um pedaço de parede em cima. Aquele lugar para ele era um choque de realidade, a cada vez que ia ali lembrava de quem ele era de verdade e qual era o seu real objetivo em todos aqueles anos.

Blue caminhou entre os destroços de edifícios e carros por algumas ruas. Chegou a ver pessoas pulando de alegria ao ver os destroços caírem no mar, pessoas miseráveis andando e se escondendo, algumas apavoradas com sua presença, em sua maioria famintas. Talvez algumas delas, naqueles dias, até se esquecessem que eram humanas.

Blue chegou até a praça interna de um grupo de edifícios, onde um jardim havia sido construído em áureos tempos. Era o lugar aonde queria chegar, onde ele acreditava que estavam os restos mortais de sua mulher e de seus três filhos. Era o lugar onde o seu verdadeiro eu, nos momentos mais escuros e difíceis de sua vida, queria estar.

A arma usada pelos filhos de Kaltor não apenas matou centenas de milhares de pessoas que estavam na cidade, pessoas desesperadas, apavoradas com o que estava acontecendo. As consequências do uso de tal arma transformaram-nas em pó.

Aproximou-se de uma das pilastras que seguravam o lugar, se sentou e pegou um pequeno embrulho que estava em um dos bolsos de sua calça. Abriu e retirou de dentro uma barra de chocolate que dividiu em três. Retirou também uma flor que começara a murchar e colocou tudo à frente de quatro figuras indistintas. Mesmo assim ele via claramente que uma delas sentada no chão com as pernas recolhidas era adulta, e tinha três pequenas crianças agarradas a ela. Há três décadas, aquelas pessoas um dia foram sua família.

Não sentia nada naquele momento. Mesmo assim uma lágrima solitária fugiu de seus olhos. Blue se levantou e voltou para passagem e de lá rumou para o que era a sua vida atual.

Tomou todo o cuidado do mundo para não ser visto outra vez, ali sabia que não tinha amigos nem inimigos. Demorou um pouco até achegar no lugar onde queria ir. Andou por uma série de ruas na cidade de Atracta, algumas quase vazias, outras com bastante vida se entrepassando até chegar na entrada da edificação do setor híbrido. Colocou os olhos na altura de um dos sensores e a porta abriu, andou pelo corredor vazio até chegar aos elevadores, um deles já o aguardava. Sua nova vida era estranha e saiu quase que dentro da casa. O dia clareava, ouviu passos leves vindos por trás e sentiu no rosto o beijo de sua mulher Kaltoniana.

Um conto de Swylmar Ferreira em 10 de setembro de 2022.

Imagem meramente ilustrativa retirada de: https://br.pinterest.com/

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Publicado em 10 de setembro de 2022 por em Contos, Contos de Ficção Científica.

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A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

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