Fantasticontos, escritos e literários

Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

Se


Acordei cedo, um quarto quase espartano, uma casa simples, um contraste para mim. Aprendi, afinal, que preciso de muito pouco para viver.

O dia chuvoso e cinzento somado ao barulho da garoa forte caindo sobre a terra nua espelha minha alma. É apenas um dia, dentre muitos, milhares, milhões. Caminho pela cidade, velha pelos padrões dos seus habitantes, jovem para mim. É mais uma dentre as muitas em que vivi, mas apesar de ser uma megalópole com milhões de habitantes nem se compara àquela onde eu nasci.

Passo entre milhares de seres vivos e vejo seus rostos, tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes, repletos de sentimentos, de vontades, desejos. Pressinto seus sentimentos, alegrias, tristezas. Enxergo suas almas, abertas tão fáceis de ver. Algumas claras, encantadoras, límpidas, outras escuras, sujas, obscenas, mas também atraentes, ao menos para mim.

Gosto da vida, de andar nas ruas da cidade. Prefiro a manhã, me sinto livre, sempre foi assim. Perambular pelo centro, pelas ruelas e becos, observando os homens, suas manias, seus costumes, apenas gosto de continuar a observá-los.

Do outro lado da calçada vejo um tumulto. Um grupo de pessoas rodeia alguém caído ao chão. Um carro de polícia chega e seus ocupantes se juntam à roda. É quando resolvo atravessar a rua para observar melhor. É uma mulher que está em trabalho de parto. Os policiais a ajudam a ter o nenê, todos aplaudem e a ambulância chega. Em meio a balburdia uma senhora idosa diz: ela deu à luz!

A frase não sai de minha cabeça. Continuo a andar até meu antiquário e conforme caminho, em minha mente voltam lembranças enquanto passo pela parte antiga da cidade. O que alguns chamam de locais históricos para mim é e sempre foi o presente.

Lembro de detalhes dos lugares onde vivi, de onde nasci… a cidade celeste. Lembro do Pai… amoroso, paciente, bondoso e ao mesmo tempo severo conosco, nos ensinando, lembro de meus irmãos e de como eu era feliz em suas companhias. Quanta saudade!

Chego a minha loja, um antiquário que possuo há algum tempo, é a terceira geração. Eu as enumero para cada atividade que exerço, já fui soldado, carpinteiro, artista, engenheiro, médico, político, vagabundo, tantas coisas e tantas vezes que já nem sei. A loja ocupa o andar térreo da edificação de três andares. Os outros dois são alugados a diversos locatários, aos quais nem vejo.

Loreta me espera em pé do lado de fora do prédio. Entramos e deixo a porta de vidro entreaberta, tenho muitos clientes – nenhum agora – e é um bom momento para refletir e relembrar. A frase vem outra vez a minha mente: ela deu à luz.

O nascimento o que é? Nascer de uma mulher? Brotar do solo?  Eclodir de um ovo? Tudo isso? Ou simplesmente nada disso? Depois de todo esse tempo ainda me sobrevêm duvidas. O que é nascer? Ser criado em um momento de esplendor? Como eu …

Tantas e tantas vezes já pensei sobre isso.

Sentado em uma poltrona de frente para a porta de vidro, lembro de outro lugar onde pensamento parecido me assaltou.

Naqueles dias a cidade onde eu vivia era sem cor. Seu principal monumento, hoje famoso em todo o mundo, não existia. Era apenas um sonho nefasto na mente do artista. A escrita era para poucos, o conhecimento apenas para os afortunados. Naquele lugar amei uma mulher. Já havia amado muitas, mas esta foi algo diferente. Ela tinha um que de nobreza, classe, estilo, beleza, paixão palpável e ao mesmo tempo singeleza. A conheci profundamente, sua alma doce me encantava, eu renascia a cada dia em que estava em sua companhia, havia muito não apreciava aquele sentimento bruto e ao mesmo tempo vigoroso que é o amor.

O amor de uma mulher pode também ser um nascimento? Reflito.  

E se eu não a tivesse amado?

Se tivesse apenas fugido, como em inúmeras vezes. Mas eu a amei! Foi uma das poucas vezes que fiz questão de amar.

Com o tempo ela apenas se foi, como as outras.

O amor é eterno, e ao mesmo tempo etéreo, efêmero. Sempre sucumbi à beleza das filhas dos homens.

Alguém abre a porta, o tilintar de um grupo de pequenos sinos me devolve à realidade. Um homem entra. Loreta – a assistente – caminha em sua direção e o atende, ela sabe que não gosto ser incomodado nestes momentos. Ele procura um porta jóias para a esposa, um adereço que viu na vitrine, vejo que está encantado com a pequena peça. Mesmo assim ele me nota. Questiona quem sou.

Ouvi uma vez ela comentar com alguém que eu era a mais antiga das peças de antiquário da loja.

Se ela soubesse…

Minha mente divaga, vou mais além no passado, para um local vívido, fulgurante. De construções belíssimas, à beira do mar, um tempo de filósofos, de homens de toga, reunidos em uma sala ampla com dezenas de estátuas de deuses pagãos. Criados por eles para amainar seus temores, suas crenças, seus horrores. Ali eram decididos destinos, vida, morte, era um tempo em que eu ainda sentia o desejo de influenciar a cultura do homem, sua civilização. O tempo em que deuses e homens caminhavam juntos pela terra. Sentia ainda o desejo de modificá-los intelectualmente… seus pensamentos, a maneira de ser. O fiz.

E se eu não o tivesse feito?

A amargura que me vem é velha conhecida, uma amante que se recusa a me abandonar. Sinto falta daqueles dias.

Fui chamado por muitos nomes em muitas eras. Ao longo do tempo reuni discípulos em minhas casas, que se tornaram sábios, filósofos, historiadores, líderes, generais, construtores das maiores civilizações que este triste mundo já conheceu. Escolhi para eles esposas, concubinas, ensinei-lhes a lógica, o livre pensamento, a geometria, a filosofia, o direito. Eu os acompanhei por décadas que se transformaram em séculos.

Senadores, monarcas, príncipes …. ensinava aos sábios, aos humildes, principalmente aos homens comuns. Com eles criei leis, influenciei costumes, vivi com eles até cansar.

O conhecimento é também uma forma de nascimento, de aprender, fazer, ensinar. Conhecer é retirar aos poucos os véus da ignorância, dos preconceitos, é amar a vida, admirar a realidade.

Infelizmente os homens tornaram-se algo que não lhes ensinei. Vaidade… tudo são vaidades.

Simplesmente os abandonei, como outrora fui abandonado.

De longe observei o passar dos dias, dos meses, dos anos desses meus filhos, meus discípulos. Então eles simplesmente se perderam na vaidade, tristeza, corrupção, loucura…

E se eu não os tivesse deixado?

Aqui sentado, em uma de minhas milhares de reflexões penso: o que seria uma história de terror e o que a diferenciaria de um conto de amor?

Amar as filhas dos homens? Terror ou simplesmente amor.

Outro tilintar do sino na porta, alguém sai.

Ao recordar, tenho um sentimento misto de orgulho e arrependimento. Orgulho, por ver que parte daquilo que tentei lhes ensinar, ainda vive hoje nos povos que deles se originaram, que com eles aprenderam. Arrependimento por tê-los abandonado, ter desistido, não ter percebido que ainda não estavam prontos para seguir com pernas próprias seu destino.

Volto à atenção ao antiquário, levanto. As pernas dormentes em um corpo velho não são de grande valia.

– Vou almoçar – diz a moça.

– Vá – respondo.

Estou muito melancólico hoje, creio ser a garoa, a umidade, os momentos de chuva forte neste clima enlouquecido. Passo em frente a um espelho e vislumbro a imagem nele refletida. Um homem velho, como muitos outros que já vi.

A mente é algo doentia, nos prega peças, lembranças que teimam em retornar, de épocas há muito esquecidas, poder-se-ia dizer de outras vidas. No mesmo espelho, vejo um jovem forte, orgulhoso, desobediente … vaidoso. Vejo outros a seu lado, são meus irmãos.

Saudade se abate sobre mim.

Não vejo meus irmãos há séculos, milênios talvez. Espere! Essa não é a verdade, há pouco tempo, em outra cidade, outro continente, ao caminhar por uma de suas ruas à beira rio, um eu vi. Os mesmos cabelos encaracolados e a barba rala, estava envelhecido, magro e mal vestido – Klarrael, falei.

Nossos olhos se cruzaram por um breve instante, um mútuo reconhecimento quem sabe, atravessei a rua repleta de carros e pessoas em seu vai e vem frenético e me aproximei.

– Tzarriel – ele sussurou. De seus olhos lágrimas brotaram, pude captar a dor, solidão, amargura e arrependimento. – O que eu fiz meu irmão? – Disse com voz quase imperceptível.

Estendi a mão para tocá-lo, ele não permitiu, dando um passo atrás, virou-se rápido entre os transeuntes e desapareceu entre os homens. Ele que era tão forte, belo, vigoroso, que tanto amava as filhas dos homens.

E se eu o tivesse seguido e amparado?

O tempo é mágico. Faz-nos esquecer o sofrimento, atenua a angústia e aflora o arrependimento.

Um dia, dei ouvidos a irmãos que tomavam conta dos portais, éramos muitos. Éramos jovens!

Ah! A juventude pensa que a tudo conhece, tudo sabe, tudo controla. Viemos dos céus, lá era o nosso lugar, nosso repouso, nossa habitação. Mundos, viagens fantásticas, cores, sons, criaturas.

Outro olhar no espelho e tenho a certeza que esses olhos viram coisas que homem algum jamais verá. Meu coração aperta.

– Como o tempo passou.

Não há mais culpa. Não há mais por que me culpar.

A sabedoria sempre foi dada aos eleitos e éramos nós os eleitos. Ao aqui chegar, deparamos-nos com criaturas imperfeitas, que proliferavam neste mundo. Tínhamos uma missão, um objetivo a ser alcançado e necessitávamos de ajuda e para tanto escolhemos o homem.

O destino do homem sempre foi o trabalho, para tal foi recriado, para fazer o trabalho dos filhos dos céus. Mudados foram para tal. Eram Sua mais nova criação, uma criação do mais puro amor.

Amor e suas vertentes. São de tantos tipos: filial, fraternal, paternal, maternal, dentre outros.

Ainda me recordo, como se ontem fosse, um de meus irmãos sentinelas se enamorou de uma das filhas dos homens.

– Que mal faz – nos disse ele, apaixonado, o tolo.

Então muitos pela primeira vez repararam nelas, graciosas, belas. As tomamos como esposas, mesmo sabendo que suas vidas eram breves e com elas tivemos filhos e gerações que se misturaram aos homens. Ensinamos-lhes tudo.

Sabíamos que tal ato era uma violação à Lei. E fomos punidos. Foi dito que também geramos gigantes, monstros terríveis, devoradores de homens, bestas ignóbeis, cruéis. Apenas desculpas para dizimá-los, esquecê-los, arrasá-los.

– Um pai não deve sobreviver aos filhos. – Falo alto, quase um grito.

Loreta me observa em silêncio, não havia reparado seu retorno. Vou para a pequena sala de administração.

Fomos punidos por ensinar aos homens os conhecimentos dos céus e por amar suas filhas.

E se não as tivéssemos amado?

Mais um dia chega ao seu ocaso, o sol mais uma vez se deita na eternidade me deixando apenas a tristeza da noite. De meus outros irmãos há eras não tenho noticias, o afastamento foi uma solução natural. Quem sabe existam alguns como eu que ainda teimam em caminhar na terra, mas sei que muitos apenas se foram. Agora eu gostaria apenas de voltar para casa onde nasci, para a cidade celeste, a cidade nos céus.

Do lado de fora despeço-me de Loreta, fecho a loja e como todos os fins de tarde vou até a praia, ando pela areia até o mar tocar minhas pernas. Vejo jovens rindo, alguns jogam bola na areia, casais namoram à orla. Em outras épocas de meu passado quem sabe eu pudesse ser contaminado com a alegria, mas nos últimos tempos – não.

Sei que é chegada a hora de ir, assim como havia cansado de intervir, cansei de observar a evolução dos homens. O que lhes foi ensinado não foi de todo perdido. Eles aprenderam, evoluíram, criaram consciência, andam sobre suas próprias pernas e principalmente, fazem seu próprio conhecimento. Percebo o quão se parecem conosco agora.

Estou cansado de caminhar na escuridão sem a Graça, o arrependimento explode em meu peito, mas resta um pequeno fio de esperança e mais uma vez caio de joelhos e peço a meu Pai seu perdão.

Quem sabe se...

Fim

Um conto de Swylmar S.Ferreira                                              em 05 de fevereiro de 2022.

Imagem meramente ilustrativa retirada de: br.pinterest.com/pin/654077545864244546/

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Publicado em 5 de fevereiro de 2022 por em Contos de Ficção Científica, Contos Fantásticos.

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

Novo Desafio EntreContos

Oi pessoal, o site EntreContos - Literatura Fantástica - promove novos desafios, com tema variados sendo uma excelente oportunidade de leitura. Boa sorte e boa leitura.

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