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Eight Barrabás Parte 2 – Conspiratum


Roiter acordou, sentou-se na cama e olhou para o lado. Sua esposa ainda dormia. Definitivamente ela tinha belas pernas, belas nádegas e, é claro, um belo rosto, mesmo para uma Kaltoniana. Se descobrissem ele estaria morto. Ela também, mas era um risco que ambos haviam decido ser aceitável.

Sabia que era odiado pela maioria dos humanos que o considerava o maior colaboracionista do planeta. Mesmo seu antecessor que governara a cidade pelo medo não foi tão desprezado como ele. Mas a maioria tinha medo de falar, pois sabiam que, no mínimo, perderiam seus privilégios. 

Nas últimas três décadas Atracta se tornara uma das três maiores cidades da Terra e com certeza a melhor para se viver. A água era a mais limpa, raramente faltava comida e tinham um padrão de vida invejável, que não existia nem nas vila remotas que continuavam totalmente humanas.

Depois do ataque com o raio da morte, os “novos irmãos” investiram pesadamente em diversas cidades. Queriam atrair humanos para suas colonizações fora da Terra. Uma vida melhor em um lugar melhor, diziam. 

Essas promessas em suas redes de propagandas tiveram um pequeno sucesso, só que pequeno demais para o que eles queriam, então vieram os grandes expurgos.

Esses expurgos, lembrava ele sentado à mesa da cozinha bebendo uma xícara de café fervendo, era o processo de expurgar, expulsar, exilar e (ou) mesmo eliminar parte da população do planeta à força, no caso, nativos da Terra.

Bebeu o resto da xícara de café, que ele mesmo havia feito à moda antiga, enquanto pensava nas dezenas de milhões de seres humanos que ou haviam sido ludibriadas pela propaganda alienígena e mandadas para fora da Terra ou simplesmente capturadas e expulsas de seu próprio mundo.

– Já está acordado? – K’Syr o abraçou e colocou a cabeça em seu peito.

– Sim, estou pensando nos ataques do Eight. Preciso que a Guarda Governamental seja mais efetiva. Para isso preciso que esteja mais bem armada, que seja muito treinada. Talvez até peça seus conselhos – disse rindo – enquanto ela o olhava.

– Talvez eu o aconselhe – ela falou sorrindo – o que quer com eles?

De início os relacionamentos entre humanos e Kaltonianos eram punidos com a morte no caso dos humanos e com o banimento no caso dos kaltonianos. Teoricamente nada havia mudado, exceto a realidade e décadas de convívio entre as duas raças. 

Esse tipo de relacionamento não era encorajado até hoje pelos conselheiros kaltonianos, muito ao contrário. 

Tempos atrás K’Syr precisava que alguém se aproximasse do novo governador, mas sabia que a tarefa não seria fácil, ele era muito arredio. Tentou inicialmente colocar algum humano de sua confiança ao lado dele, mas não deu certo. Depois designou um dos seus assessores da A`Bkjria para ser seu vice e também não funcionou. 

Então, para sua surpresa, ele foi visitá-la na Torre um e foi muito simpático. Será que uma amizade funcionaria entre um membro da A`Bkjria e um representante do governo, pensou. 

Bem. Funcionou até demais.

Ela procurava sempre tentar se convencer que apenas o usava para interesses Kaltonianos e que sabia que era recíproco, mas depois de algum tempo tinha que reconhecer que eles tinham algo mais. Ainda não sabia o que era, mas tinham. Recusava-se a admitir que amava aquele humano. 

– Preciso desencorajá-los – disse Roiter.

-Viu que derrubaram outra nave essa noite? Isso tem que parar ou General K’You será destituído.

K`Syr ficou surpresa com as palavras de Roiter, achava que ele odiava o general quase tanto quanto o general o odiava.

– Não acredito que o está defendendo. Por quê?

– Isso será muito ruim para os negócios.

– Você já tentou de tudo, desde recompensas até ameaças de execuções. Ninguém fala nada. Não é culpa sua.

Ela estava séria agora, sabia que em Atracta o Eight era o único grupo de resistência – aprendera a tratá-los assim – que sobreviveu. Eram tão fechados, tão coesos em seu núcleo principal que pareciam ser uma família Kaltoniana, pareciam irmãos de ninhada. Os melhores investigadores da A`Bkjria não conseguiam nada.

Lembrou-se que uma vez haviam conseguido identificar uma das células do Eight. Perseguiram e mataram os seis membros daquele grupo. No mesmo dia toda a equipe da A`Bkjria que participou da perseguição foi assassinada. 

A hidra, como Roiter os chamava, eram realmente perigosos, mas como chegaram a ter tanto poder? – K`Syr foi até o terraço da casa e se sentou na cadeira ao lado de Roiter.

Nos primeiros anos da invasão a A`Bkjria havia numerado os grupos de resistência no planeta, que chegavam aos milhares. Pensaram em eliminar toda a população, mas quem faria o trabalho que eles queriam? Inteligências artificiais tinham que ser bem controladas exigindo recursos gigantescos e os Kaltonianos sabiam disso. 

Trazer outras espécies seria uma solução, mas teriam dificuldades em viver ali, um ambiente extremamente hostil. Os kaltonianos mesmos eram uma das espécies mais adaptáveis da galáxia e tinham dificuldades. Fazer reformação do planeta, até era pensável, mas o custo tornaria impossível. Tudo dispendia recursos. 

Em Atracna, nos primeiros anos, a A`Bkjria e forças policiais recriadas com humanos e Kaltonianos, tentaram de tudo contra os grupos terroristas, conseguindo eliminar diversos deles, menos o Eight. Quando as forças de ocupação começaram execuções em massa, foram atacados com violência e mortos sem piedade. 

K`Syr vivia em Kaltor quando a Torre Alpha foi destruída enterrando quase toda a força policial hibrida e muitos agentes da A`Bkjria. Lembrava-se bem que todos diziam que a Terra era o pior lugar de se ir. 

Mas o Eight passou a ser realmente temido em Kaltor quando deram a ordem para destruir a cidade de Atracna pela segunda vez em 20 anos. O ataque conjunto das forças BGads e Kaltonianas reduziram a cidade a escombros com um número de habitantes mortos incalculável. 

A resposta do grupo culminou com a destruição das astronaves transporte e de guerra em órbita e mesmo algumas das que estavam mais afastadas no sistema solar. Centenas de milhares de Kaltonianos e BGads pereceram nas naves em uma única noite. A nave mãe BGads teve seu propulsor destruído em uma explosão interna, um custo imensurável, fazendo que ela ficasse presa ali para sempre. Então simplesmente parou. Os humanos pararam de atacar, como se de repente estivessem satisfeitos com os resultados. 

Os humanos obviamente tinham interesses que ela ainda não conseguia compreender.

O alto comando Kaltoniano suspeitava que humanos haviam feito engenharia reversa nas tecnologias que haviam obtido, mas eles tinham algo mais. Um exemplo era o disruptor sônico usado na noite anterior. K’Syr sabia que aquela tecnologia devia ter sido comprada pelos humanos de alguma outra espécie, ou então dada a eles, o que seria pior. Isso evidenciava que seus inimigos sabiam do planeta e dos recursos.

A única coisa que ela queria nesse momento era passar o dia em paz.

Ao anoitecer, no outro lado da cidade, na região mais próxima da área industrial, Lucius e Tulio jantavam tranquilamente.

– Você acha que arriscamos muito? – Perguntou Lucius.

– Por quê? Você tem medo de ser visto comendo com um dos comandantes da Guarda?

Ambos riram da situação.

– Você e eu somos cidadãos exemplares Lu. Não tem motivos para alguém nos delatar para a Guarda Governamental ou, pior, para a A`Bkjria.

Depois de jantar Tulio pegou um pequeno disco translúcido do tamanho de uma moeda e colocou na mesa. Tulio o girou como faziam antigamente nas brincadeiras de cara e coroa. Não havia som e dentro de um certo alcance nada era ouvido de dentro ou de fora.

– Os Kaltonianos estão em pé de guerra. O comandante da Guarda, General K`klis está cotado para assumir a o comando das forças. Dizem que K`You pode renunciar a qualquer momento.

Lucius conhecia aquele sorriso no rosto do amigo. Era nervoso e com certeza um pouco de frustração. Vinte anos atras, quando da criação das forças híbridas, ele fora um dos primeiros “voluntários”. Chegou ao posto máximo que um humano poderia alcançar. 

– Isso não vai acontecer. Ninguém tem interesse na saída do atual comandante. 

– Estive ontem com Lindão – continuou Lucius – e ele disse que nada disso foi citado na reunião do Conselho Governamental Híbrido. O governador não tem interesse nisso. O alto comando Kaltoniano também não. K`You é de uma família importante da casta guerreira na capital deles e nem se cogita uma substituição dessas. 

– Só falta me dizer que nem a resistência quer a mudança.

Lucius não respondeu, ao invés disso meneou a cabeça em direção à porta do restaurante. Tulio pegou o pequeno disco que girava sobre a mesa e o guardou no bolso.

Quatro homens da Guarda Governamental entraram e foram aonde eles estavam. Um deles sorriu para os homens sentados, falou algo no ouvido de Tulio e deu um passo para trás.

-Tá na hora de ir Lu – Tulio sorriu verdadeiramente, levantou e abraçou o amigo – Dê um abraço no Lindão. Diga que estou com saudades.

– Pode deixar – Lucius ficou vendo o amigo sair do restaurante. Pode notar que depois o clima ficou mais ameno. Depois que eu sair, pensou, as pessoas poderão comer em paz. Chamou o garçom, colocou sua pulseira sobre tablet e ouviu o click indicando que seus créditos haviam trocado de mãos. Sorriu ao lembrar que Tulio nunca pagava nada, se levantou e foi embora.

****

K’You-Hiz retirou a chave transponder da aeronave que os humanos chamavam “carinhosamente”de bug. Reconhecia que realmente se parecia com um inseto terrestre conhecido como zangão, mas era apenas coincidência. Acionou o propulsor e foi direto para a área de residência das autoridades de Atracta, um pequeno refúgio subaquático que os Kaltonianos haviam estabelecido nos primeiros dias.

Se satisfez com a certeza de ver a família em breves momentos, mas antes precisava falar com alguém e pousou o bug no jardim da casa. Sabia que naquela hora havia apenas uma pessoa ali, desligou e manteve o transponder desligado, saiu da nave caminhou até uma das entradas laterais da casa, colocou a mão na porta de correr de vidro e abriu.  Foi até o local que os humanos chamavam bar, pegou duas taças e as encheu, a primeira com uma bebida que os humanos chamavam rum e a segunda com elixir szak. No fundo achava que os sabores eram parecidos, mas cada um na sua.

Atravessou a sala e ligou as luzes. Em breve a noite cairia e a escuridão seria total, diferente de Kaltor, onde o sistema binário fazia com que a noite fosse apenas uma penumbra. Abriu a porta de correr daquela sala e foi sentar à beira de um pequeno lago repleto de peixes. Nunca entendeu criar aquelas criaturas se não fosse para comer, mas os humanos são assim mesmo. Ouviu o barulho do transporte humano e em seguida os passos do proprietário.

– Oi – K’You-Hiz apontou com a mão livre para a bebida em cima da mesa. Olhou o homem sorridente que se sentara na cadeira ao seu lado.

– Oi – o homem fechou os olhos por poucos segundos enquanto bebia. – Quer mais elixir?

– Sim – K’You-Hiz finalmente conseguia relaxar – Não posso demorar, desliguei o transponder e pode chamar a atenção. Seria uma merda de explicar nós dois sentados bebendo a beira do seu laguinho – riu demoradamente enquanto o outro foi pegar as bebidas e trazê-las para a mesa – qualquer hora dessas tenho que experimentar viver em uma casa humana.

– Você vai gostar – virou-se para K’You-Hiz e falou seriamente – creio que vão tentar uma nova onda de ataques, mas antes disso tentarão substituí-lo. Conseguimos decifrar um dos novos códigos B`Gads e eles mandaram três transportes cargueiros para cá. Devem chegar em um ou dois dias. Não posso permitir isso.

– Nem eu – K’You-Hiz havia acabado de encher outra taça – mesmo com derrota após derrota o triunvirato não consegue aprender. Em breve o império Ogzagul conseguirá cortar não só o transporte, mas também a rede de comunicações do Triunvirato conosco, aí será o princípio do fim para o meu povo. 

– Há quanto tempo dura isso?

– Mais de um dos seus séculos – olhou para o humano que parecia distante – no princípio eram apenas escaramuças, nem sabíamos da existência deles. As batalhas foram piorando ao longo do tempo. 

– O seu mundo é apenas um depósito de recursos para essa gente, assim como para nós.

– Preciso perguntar algo que está fora do nosso acordo – disse K’You-Hiz – a arma que usaram para derrubar o destruidor imperial BGads, foi adquirida dos Ogzagul?

O homem olhou diretamente nos olhos do alienígena para responder

– Não K`You, os espiões deles jamais nos propuseram uma coisa dessas, nem sei se eles têm essa tecnologia – olhou seriamente o kaltoniano – isso é papo para outra hora. 

– A arma vem de um tempo em que um amigo viveu longe de casa. Preciso ir.

K’You-Hiz ficou vendo o outro ir embora acabou de beber seu szak, pegou o outro copo e levou consigo, entrou no bug e foi para casa onde os destruiu. Há muito tempo não tinha um encontro tão bom. Descobriu que o Império Ogzagul não estava vendendo armas naquela região. Sorriu enquanto abraçava seus filhos.

Um conto de Swylmar Ferreira

Imagem meramente ilustrativa retirada da internet

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Publicado às 23 de outubro de 2022 por em Contos de Ficção Científica e marcado .

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DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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