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Acho que você não é uma aeromoça de verdade


Depois de um longo período de trabalho com tecnologia da informação, finalmente chegou a vez de Rafael tirar férias para um merecido descanso. Havia conseguido um excelente desconto em um hotel à beira da praia, daqueles pé na areia mesmo. Falou com sua noiva Gabriele, fizeram as malas e partiram para uma semana de férias juntos, afinal seria uma comemoração pelo segundo ano que decidiram morar juntos.

Acordar no primeiro dia ouvindo o barulho das ondas batendo nas areias da praia foi engrandecedor e desestressante. Tomaram um belo café da manhã e depois foram caminhar pelas areias brancas. Apesar do grande número de pessoas, a praia, talvez por ser uma cidade pequena, era limpa, e de um azul-esverdeado transparente, com ondas pequenas e águas quentes.

Haviam combinado caminhar todos os dias, afinal Gabi era uma atleta, corria pela manhã todos os dias algo em torno de quatro quilômetros no bairro onde moravam. Rafael é o que se costuma chamar de atleta de escritório ou, se preferirem, atleta de sofá.

– Vamos logo, Rafael – quero andar e você fica enrolando. Ou quer ir ao banheiro de novo? – Falou Gabi, rindo.

– Vamos então – ficou rindo das zoadas dela. Mesmo curtindo com sua cara ela continuava linda.

Andaram uns dois quilômetros e ele estava colocando as tripas para fora quando chegaram de volta aos guarda-sóis que o hotel disponibilizava aos clientes. Comprou uma água e secou a garrafa em poucos segundos, precisava hidratar rapidamente. Logo em seguida foram para a água, relaxar e brincar. Ficaram assim quase todo o dia, exceção no almoço que já estava acertado no hotel. No final do dia foram para a cidade passear e quem sabe fazer um lanche antes de retornar e dormir.

Apesar de saber que realmente precisava de alguns dias de descanso, também queria dar um presente para Gabi. Ela sempre fazia tudo o que ele queria… bem, quase tudo.

Aprendeu desde o início que não adiantava brigar pois ela sempre conseguia convencê-lo que tinha razão e, além disso, como diziam alguns dos poucos amigos que tinha feita na vida, ela era areia demais para o caminhãozinho dele. Alta, talvez uns dois ou três centímetros maior que ele quando descalça, corpo atlético e extremamente linda com aqueles olhos castanhos muito claros, quase amarelos, cintura fina, quadris largos, trabalha como comissária de bordo em uma empresa aérea. Rafael sabia que ela era sensacional.

À noite o lanche foi simples, pelo menos o de Gabi. Ele entrou em um X-tudo. Depois voltaram a pé para o hotel, afinal era perto, menos de oitocentos metros, segundo a recepcionista. Mentirosa.

Nos três dias seguintes, a rotina foi a mesma com raras diferenças como: ir comprar uma canga nova e um maio um pouco menor para ela, ou deixar de almoçar no hotel e lanchar na cidade, afinal, estavam de férias. Combinaram fazer um passeio de barco até os corais no quinto dia e o barco sairia muito cedo. Essa seria a cereja do bolo, o ponto alto das férias

****

Dico não acreditou em seus olhos quando descarregava a caminhonete na beira da praia naquela manhã.

– A mulher é muito gostosa – disse para Val sem tirar os olhos da mulher caminhando com um cara na beira da praia.

– Ah, se ela me desse bola – respondeu Val em tom de brincadeira enquanto entregava os refrigerantes e cervejas para a lanchonete na beira da praia – Deixa de ser babaca e continua a descarregar as bebidas que eu tô fazendo tudo sozinho.

Val ainda viu o amigo olhando o casal que se afastava em direção ao hotel. Esse cara não vai aprender nunca, pensou, enquanto lembrava que Dico e Neném, outro amigo deles, passaram uns mal bocados com a polícia por ficar falando besteiras para as turistas dos hotéis à beira mar.

– Tu não aprende nunca mesmo, né ô babaca – falou alto olhando o amigo, enquanto Dico pegava dois engradados de refrigerantes e levava para a lanchonete. Ainda viu os olhos do amigo procurando ao longe – Tu tens família cara, você ia gostar se alguém olhasse assim pra tua mulher?

Mas se Dico escutou o que ele falou, nem deu sinal. Val ainda pensou que a mulher do amigo era bem razoável. Melhor que muitas mulheres dali e ele não dava valor.

– Otário – disse mais para si mesmo do que para o amigo ouvir. Jamais teria uma mulher como aquela, não merecia nem a dele…

****

Foi tudo muito rápido. Gabi mal viu os dois homens chegarem na caminhonete cinza, desbotada pela idade e carcomida por ferrugem, descerem do carro. Um deles, o maior, puxou uma arma e colocou na cara de Rafael que deu um passo atrás na tentativa de protegê-la. O menor ficou mais atrás com um cano de ferro, mas os gritos ferozes dos dois homens, as ameaças de morte e empurrões tinham conseguido o intento: intimidá-los.

Viu Rafael se atracar com o que estava armado. Ambos eram grandes e a tensão em poucos segundos era insuportável – alguém vai morrer ela pensou – então o menor deles acertou a cabeça de Rafael com a barra de ferro, derrubando-o de imediato.

– Rápido, Neném! Coloca ela no carro e vamos – disse o homem com a arma.

****

Rafael acordou ainda zonzo. De início não sabia o que tinha acontecido, procurou se levantar e acabou caindo sentado. A cabeça doía muito. Então, lembrou-se de tudo.

– Gabi? – Gritou.

Não teve dúvida, saiu meio andando, meio correndo em direção à cidade, passou por algumas lojas, lanchonetes e carrocinhas de sorvete ou de pipocas. Sentia que algo viscoso teimava em cair pelas suas orelhas, descendo pelo rosto. Era sangue. Todos o olhavam, alguns ainda tentavam ajudar, outros se afastavam com expressão de medo, mas tudo escureceu de novo.

Quando acordou estava no pronto socorro da cidade, com dois policiais e um enfermeiro ao seu lado. Contou rapidamente a eles o que havia acontecido. Como haviam sido abordados pelos dois homens, de como havia enfrentado um deles e lutado pela arma e como tudo apagou.

O enfermeiro disse-lhe que tinha tido muita sorte, que apesar de ter perdido bastante sangue, ia ficar com dor de cabeça alguns dias, mas que se a pancada fosse mais um pouco para o lado estaria morto.

Mas naquele momento a única preocupação de Rafael era sua noiva. Não parava de pensar nela. Foi com os policiais até o lugar onde haviam lanchado. De lá foram até o local onde os homens haviam levado Gabi. Viu os policiais se olharem com cara de dúvidas, viu iluminarem o lugar da luta e foi com eles estrada a dentro. Andaram alguns quilômetros em cada direção, mas era noite e não encontraram nada.

Rafael teve uma crise de choro que aos poucos se transformou em raiva e em poucos minutos em apatia e frustração, quando percebeu que não poderia fazer nada. Por fim, o levaram até a entrada do hotel e o deixaram lá.

****

Gabi estava imóvel dentro da caminhonete velha, com a faca no pescoço. Dico, agora ela sabia quem era quem, segurava a arma velha e enferrujada em uma mão e a faca na outra. Neném dirigia destrambelhadamente pela estrada de terra e dentro do carro os três ocupantes davam pulos enormes.

Naquele momento, enquanto os dois homens conversavam muito alto, quase aos gritos, ela pensava em quando chegou na cidade onde morava, em quão demorada foi a viagem, em quanto os outros passageiros do módulo e ela também sofreram para chegar lá. Pensou também nas paisagens monumentais que a maioria dos olhos daquele mundo jamais viriam.

Mas as lembranças que mais afloravam em sua mente eram as de Rafael caído no chão sangrando. Sinceramente sabia que ele não era um homem muito bonito, nem muito inteligente é claro, mas isso era normal naquela espécie. Apenas considerava-o como sua alma gêmea, afinal, como aprendera ali em um antigo ditado: as almas se procuram.

Pensou de novo em Rafael, em quão corajoso e tolo ele foi em enfrentar aqueles bandidos na tentativa de salvá-la. A freada do carro parando abruptamente e a voz de Dico na noite escura tirou-a do devaneio.

– Agora eu vou comer você.

Aquilo pareceu-lhe tão absurdo que Gabi simplesmente riu. Não havia atravessado metade da galáxia para ser morta por uma criatura vil e asquerosa como aquela. Enquanto se transformava falou para ele:

– Não, criatura medíocre. Eu vou comer vocês.

Dico agora tentava levantar o vestido da mulher e afrouxou a faca que estava no pescoço dela. Já havia soltado a arma no piso do carro quando sentiu que algo estava errado. Mesmo no escuro da noite os olhos dela continuavam claros e naquele momento eles eram verdadeiramente amarelos, parecendo maiores do que deveriam ser. Seu instinto ainda fez com que tentasse se afastar e usar a faca. Era tarde demais.

A mulher já havia arrancado grande parte da frente de seu pescoço com uma dentada, incluindo sua traqueia. Ainda levou breves momentos para morrer. Antes, ouviu os berros de Neném quando ele ligou a lanterna do celular iluminando o banco traseiro do carro, mostrando a criatura com boca aberta. Sentiu seu esfincter soltar e urinou-se todo de medo. Segundos antes de morrer viu-a mastigando parte de seu ombro, simplesmente arrancado do lugar como se fosse papel.

Neném tentou correr. Conseguiu abrir a porta, mas antes de sair foi puxado para dentro de novo com tanta força que seu braço foi arrancado e jogado pela janela. Entrou em choque. Percebeu a mão enorme da criatura puxar seu pescoço para baixo e uma leve dor ainda foi percebida em seu cérebro quando a bocarra alcançou seu pescoço por trás.

Não seria a primeira vez que ela devorava humanos, apesar de não serem nem de longe sua preferência alimentar.

****

Gabi olhou a cena e aos poucos, como todo bom transmorfo, voltou ao formato de corpo que mais lhe interessava. Normalmente não fazia aquele tipo de coisa, comer humanos. Mas aquilo havia escapado ao controle. Teria que recomeçar toda sua vida outra vez, relatar aos de sua espécie o que havia ocorrido e torcer para que não houvesse punição.

Mas e Rafael? Seu coração palpitou ainda mais forte. Amava aquele homem. Decidiu que ficaria com ele e pronto. Correu mata a dentro na direção do mar e quando chegou, saltou para dentro, lavou-se de todo o sangue dos dois homens que lhe cobriam o corpo. Quando saiu do mar voltou à sua forma humana e foi andando calmamente em direção ao local em que havia sido raptada. Não havia ninguém lá. Então foi andando devagar, quase brincando, para o hotel.

****

Quando Rafael abriu a porta do quarto, viu a luz acesa e Gabi deitada sonolentamente na cama. Correu para abraçá-la.

– O que aconteceu? Perguntou ele.

Gabi o abraçava carinhosamente enquanto se beijavam.

– Pulei do carro quando entramos em uma estrada de terra e corri. Consegui fugir e voltei para o hotel.

****

No dia seguinte Rafael e Gabi foram até a polícia, onde ela contou que havia conseguido pular do carro, que entrou na mata e fugiu em direção à praia. Estava um pouco arranhada e dolorida por ter rolado ao menos duas ou três vezes na estrada de terra, mas estava bem.

Os policiais não falaram que haviam encontrado o carro pela manhã e partes dos corpos dos dois homens. Não informaram também que seguiram rastros de um animal grande que desapareceu no mar. Jamais falariam aquilo para ninguém. Por estranho que pareça, quem mais sentiu a falta dos homens foi um amigo deles, Val.

Rafael e Gabi voltaram para casa e para suas vidas. Às vezes, depois de todo o ocorrido, Rafael tinha sonhos estranhos com uma criatura enorme com grandes olhos amarelos fitando-o na escuridão.

Fim

Um conto de Swylmar S. Ferreira 31 de maio de 2019.

Imagem meramente ilustrativa retirada de: pt.dreamstime

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Publicado em 5 de junho de 2019 por em Contos.

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DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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