Fantasticontos, escritos e literários

Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

O viajante sem rumo e a dimensão da escuridão


…“et lux in tenebris lucet, et tenebræ eam non comprehenderunt …”

Confesso que a vista não é das mais bonitas, contemplar o vácuo não é para qualquer um. Ainda mais quando se está prestes a experimentar o extremo da vida. Vida?

Aproveito ao máximo o tempo que resta, a única parede é reflexo da escuridão. Ouço passos por trás da porta por onde entrei e prendo a respiração. Este lugar é apenas um piso projetado no vácuo onde um campo de energia imita uma cela de prisão.

Quando fui trazida aqui haviam outros pisos com prisioneiros, inclusive o que estava servindo de teto e que poucas horas depois foi recolhido. Quando aconteceu tive a impressão de assistir um corpo sendo ejetado na imensidão e desaparecer.

A luz que consigo ver sai fragilizada do piso metálico e serve apenas para aumentar a solidão.

Penso em quem estava na cela de cima, quem seria? Qual teria sido o motivo daquela punição?

O passar do tempo aqui tem uma grandiosidade imensurável.

Luz e trevas, trevas e luz.

Uma linha.

Infinita…

****

Henry Dias abriu a porta do armazém da empresa de entregas onde trabalhava nos últimos dois anos. Era uma empresa pequena e tinha orgulho de entregar eficientemente a maior parte das mercadorias que recebia. Tinha um slogan que aparecia sempre em uma propaganda de televisão acompanhada de uma música que, naquele momento, não saia de sua cabeça.

Ele começou na empresa como entregador, logo passando à gerência em menos de um ano. Claro que gerou inúmeros descontentamentos entre alguns colegas não tão ousados, mas não se incomodava de trabalhar. Nem mesmo madrugada adentro, se necessário.

O impacto do vento cortante do mês de junho, quando abriu a porta pesada de metal, quase fez com que desistisse de ir para casa. Ao menos lá dentro da empresa estava quente – pensou. Era certo que neste ano o clima frio do inverno parecia avisar que não estava para brincadeiras e que a presença de neblinas e das comuns tempestades de raios, seria uma constante. Principalmente as madrugadas, mesmo que razoavelmente longe do lago.

Olhou para os lados e procurou pelo alarme eletrônico. Inseriu sua senha de oito dígitos, acenou para José, o segurança que passaria o resto daquela noite dentro da empresa, e fechou a porta de aço logo atrás de si. Ia andando em direção à portaria e lembrou que quando foi contratado, pensou se era realmente necessário todo aquele aparato de segurança. Não precisou pensar muito na resposta, afinal a soma dos valores que estavam normalmente guardados, esperando a entrega aos seus donos, era bastante elevada.

Saiu no portão principal e rapidamente desapareceu na neblina da madrugada. Conforme andava, além do medo de ter que andar sozinho pelas ruas do bairro na madrugada, pelo eterno medo de assaltos, lembrou que um alerta de raios sobre a cidade o havia deixado preocupado.

Pior! Passou as últimas duas horas escutando José falar sobre os diversos acidentes que haviam ocorrido na cidade devido a raios, deixando um ou dois mortos e, ao menos, uma dúzia de feridos.

Henry olhou o relógio, apertou um dos botões do lado direito e uma fraca luz azul iluminou o mostrador anunciando quatro e três da manhã. Estava atrasado, o ônibus estaria no ponto em menos de cinco minutos. Resolveu pegar um atalho, apressou o passo e entrou em uma ruela que dava em um terreno baldio. De lá atravessaria as avenidas até o ponto de ônibus. Sabia que, àquelas horas, tinha pouco movimento de carros.

A cada passo dado na ruela ele parecia se aprofundar cada vez mais no interior do denso nevoeiro. Henry parou preocupado. Seu senso de direção dizia que deveria seguir em frente, mas aquele beco não parecia ter fim. Mal conseguia ver a luz emitida por duas luminárias, uma em cada lado nas paredes. Tirou o celular do bolso, viu a imagem da mulher como pano de fundo, deu um breve sorriso entre um passo e outro e acionou a lanterna eletrônica para ajudar a parca iluminação do lugar. Saiu, enfim, no terreno baldio, que estranhamente estava ocupado com dezenas de contêineres metálicos que ele nunca tinha visto ali. Para piorar, começou a chover.

Aquela era a hora menos indicada de se apavorar, pensou. Respirou o mais fundo que pode, até conseguir um relativo controle emocional, deu alguns passos e olhou para o alto de três contêineres superpostos e para o teto da construção mais próxima. Um estrondo forte e viu o para-raios da edificação iluminar e ele caiu de joelhos no chão. Estava enjoado e tonto, teria sido atingido? Não, claro que não.

Olhou ao redor. Estranhamente em sua frente havia outra passagem. E um estranho cheiro exalava do lugar, como se houvessem queimado algo como borracha ou plástico. Aquilo irritou suas narinas e garganta. Começou a tossir e seus olhos lacrimejavam sem parar.

A brisa morna e fétida continuou a passar por ele enquanto caminhava em direção aos contêineres. Talvez fosse o efeito da neblina estranha em seus olhos, talvez simplesmente cansaço, mas as paredes das construções e os contêineres pareciam se deformar, formando um círculo de ventos cada vez mais fortes, carregando pedaços de metais e entulhos de velhas construções. Pensou em gritar, chamar por socorro.

Quando avistou a luz intensa se chocar contra as estruturas metálicas, era tarde demais. Percebeu algo passando por seu corpo e simplesmente apagou.

Henry abriu os olhos e ficou tentando se levantar. Ainda de quatro, olhou para cima e para os lados, a tempo de ver a neblina ficar mais densa. A eletricidade estática parecia iluminá-la, indicando um caminho que ele, depois de conseguir ficar em pé, seguiu longamente. Olhou o relógio e este mostrou a hora: quatro e quatro da manhã.

Um minuto! – Pensou – Um mísero minuto! Conseguiu dar mais alguns passos antes de ficar completamente tonto e cair definitivamente ao chão.

****

Henry abriu lentamente os olhos e aos poucos foi percebendo uma gritaria intensa, seria discussão? Alguém gritava chamando por uma enfermeira. Tentou levantar e sentiu as mãos fortes de uma mulher o empurrando de volta para a cama.

– Fique deitado Henry – disse ela – que bom que você voltou.

– Mãe? – Respondeu sem entender o que estava acontecendo – Voltei de onde?

Era tarde demais. Naquela altura dos acontecimentos, Dona Evangelina, ou mama Lina como a chamava, já o abraçava. Ele, por sua vez, abraçou com força a senhora à sua frente, beijou-a no rosto e ficou em silêncio o mais que pode.

– Estamos juntos mãe. Juntos.

Henry não tinha o costume de “visitar” hospitais frequentemente, mas aquele era o mais estranho que já tinha visto. Desde os uniformes usados pelas equipes de plantão – todos usavam negro – até as paredes coloridas e enfeitadas do lugar.

Passaram-se aos menos um par de horas, com Mama Lina fazendo perguntas estranhas, algumas que ele não sabia responder, quando um homem vestindo terno entrou.

– Bom dia, sr. Dias. – o homem conhecido como Hans Grobells riu só e jocosamente da brincadeira que acabara de fazer – A Segurança Planetária o encontrou desmaiado no porto seco 4992 deste setor e o trouxe para a unidade de tratamento.

O que o homem da Segurança Planetária falava, se é que era assim chamada, não fazia o menor sentido para Henry. Ia perguntar se era alguma brincadeira, quando sentiu sua mãe apertar sua mão, como se pedisse silenciosamente para que ele ficasse quieto.

– Então sr. Dias – continuou Grobells – sua situação é, no mínimo, estranha. Consta em seu prontuário de cidadão que era membro da guarda especial de investigação da segurança planetária e foi dado como desaparecido há quatro anos. O relatório sugere um acidente, pois o senhor caiu em um rio enquanto passeava de barco – puxou uma espécie de tablet, da finura de uma folha de papel, que estava enrolada e guardada em seu antebraço. – O reclamante foi Helena Dias, sua irmã.

Aquilo já tinha ido longe demais. Porto seco, desaparecido há quatro anos, irmã… nunca tive irmã, pensou. E que coisa sensacional aquele aparelho enrolado como fosse papel… Esse cara é maluco, e ao mesmo tempo tem uns brinquedos muito legais – como eu nunca vi propaganda daquele troço? – pensou, ficando cada vez mais inquieto.

– O dr. me desculpe, mas não entendo nada do que está falando. – Disse para Grobells, que naquele momento estava bastante sério.

– Não sou doutor – disse Grobells rispidamente, arqueando uma das sobrancelhas – estou aqui para interrogar o senhor sobre esse lapso temporal, sr. Dias. Quatro anos é muito tempo. E além do mais…

Henry já havia perdido a paciência com o homem e ia perguntar o que estava acontecendo, afinal, pelo que havia visto se tratava de um hospital e se ele não era médico, que diabos era e o que estava fazendo ali? Interrogatório?

Ia se levantar do leito quando mais duas pessoas entraram no quarto. O homem se vestia de preto como os da equipe de atendimento. Trazia no ombro direito dois equipamentos que retirou e colocou no peito e braço direito de Henry. Ele sim era médico, pensou. Estranhamente, ignorou por completo a Grobells.

A mulher, por sua vez, vestia uma túnica vermelha sobre uma calça azul escura. Tinha na cintura algo que parecia uma pistola e nos antebraços sobressaiam um par de lâminas bifurcadas. Algo no rosto dela lembrou sua mãe.

– Não me lembro de dar permissão à Segurança Planetária para conversar com meu irmão – disse a mulher.

– Helena minha filha – disse mama Lina sorrindo forçadamente – não houve nada.


– Não preciso de sua permissão – Groebells olhava a mulher de túnica vermelha desafiadoramente. Pensou em aproximar a mão da pistola, mas a arma dela já havia corrido para sua mão, assim como as lâminas haviam rolado do lado externo do braço para o lado interno. Ele nunca havia visto aquilo antes e não imaginou que seriam tão rápidos. Ela era parte dos famosos GIEs – guerreiros da irmandade da escuridão. Eram também conhecidos como os não nascidos.

Menos de cinco segundos haviam se passado.

– Tenho a permissão escrita de seu irmão, continuou Grobells. Não é nada demais, comandante. – Havia visto as cinco barras negras brilhantes no colarinho da mulher. – Se você não quiser que eu fale com ele, posso voltar outra hora.

Grobells agora sorria amigavelmente para todos. Estava certo que havia consertado a situação e a mãe dela já havia dito que não era nada demais. Procurou olhar nos olhos dela, mas pupila, esclerótica e íris eram de uma só cor: negra. Deu dois passos para frente e tocou rapidamente a mão do homem deitado na cama.

– Quando melhorar vá nos contar o que aconteceu.

Acenou com a cabeça e caminhou até a porta. Contou os passos; de um a seis, sem olhar para trás. Contou também a respiração de quatro pessoas, significava que a mulher estava respirando, era um bom sinal. Abriu a porta o mais normalmente que pode e saiu. Mesmo após virar o corredor e apressar o passo – queria sair o mais rápido possível dali – ainda tinha a sensação de ser observado. De algum modo ela ainda o observava. Malditos não nascidos.

****

A casa de Mama Lina era linda, de cor branca, com uma faixa estreita marrom em toda a frente. Ficava nos arredores da cidade, mas não muito afastada. Parecia-se muito com um lugar que Henry havia visto certa vez em um documentário sobre casas interioranas. Logo que chegou ficou à vontade, afinal, era a casa de sua mãe, e também de sua nova irmã.

Era um problema o fato que a moça aparentava incomodo quando estavam juntos e conforme o tempo passava, ele percebia que o sentimento, às vezes, também tomava conta de Mama Lina e ele não queria isso.

– Teresa – disse certo dia – me explique o termo “não nascidos”, tenho certeza que me ajudará a compreender algumas coisas que eu não lembro.

Você quer saber sobre a irmandade da escuridão? É isso?

– Sim.

Teresa precisava da ajuda dele. Não apenas ela. E teria que ser voluntária, precisava convencê-lo a ajudar o grupo conhecido como sessão fantasma, ao qual ela pertencia. Aproximou-se mais um pouco dele e começou a explicar.

– A irmandade surgiu há muito tempo. De início era uma Ordem destinada ao resgate e proteção de necessitados, mas com o tempo passou a ser mais que isso. Esteve envolvida no socorro de todos os perseguidos em mais de quinhentos anos de guerras fratricidas da humanidade. Depois de nossa última grande guerra, a irmandade da escuridão ficou famosa por intervir e algumas vezes impedir conflitos. Simplesmente passamos a exterminar lideres belicosos e assassinos, – ela olhou dentro dos olhos de Henry e continuou – hoje, ao contrário da sociedade secreta que fomos por tantos séculos, nos transformamos em um grupo de intervenção, um enorme exército de choque. Nas últimas décadas quintuplicamos nosso efetivo. O termo ou apelido maldoso que nos deram ultimamente, não nascidos, é pelo fato de sermos, hoje, produto de engenharia genética, de Eugenia.

Continuaram a conversa sobre a Ordem, sobre sua importância por muito tempo. E vieram outras mais com o passar das semanas. Mas o que Henry mais gostava ali era o som de um pequeno riacho nos fundos da casa ao anoitecer, depois de o silêncio predominar.

Acordava com o cantar de inúmeras espécies de pássaros e em geral começava a procurar algo para “fazer” na casa ou no quintal, mesmo na penumbra.

Aos poucos ia se acostumando com a diferença que ele considerava extrema e já chamava o lugar de o mundo do entardecer. Não porque achava bonitinho, mas porque ali, após o advento da construção de uma máquina gigantesca ao redor do sol para captação de energia, o mundo se tornara relativamente escuro.

Apesar da satisfação de estar ali, sentia em seu íntimo que as coisas não iam bem, principalmente no lado social. Henry havia percebido que a população estava dividida em problemas internos, nos quais ele não queria se meter. Para dizer a verdade, pensava fortemente que não tinha nada a ver com as questões deles e na realidade, já pensava em voltar para casa.

Para isso, precisaria da ajuda de alguém, que tivesse uma certa influência. Helena, é claro. Tinha que conversar com a moça e, daquela noite não passaria. Esperou ansiosamente a chegada de Helena, tomando aquela cerveja adocicada que ele tanto gostava.

Helena estava mais esquiva do que nos dias anteriores e parecia realmente perigosa em dados momentos, mesmo sem o uniforme e sem as armas. Mas aos poucos, com o passar das horas, Henry conseguiu fazê-la falar. Ele queria saber como era a situação de sua família, o que aconteceu, o porque todo o planeta vivia em uma penumbra eterna.

Helena, por sua vez, demonstrava muito interesse no lugar de onde ele vinha. Mas o que ela queria saber de verdade era como ele chegou ali. Vendo que teria que ceder em algo para obter as informações queria, ela propôs um acordo. Se Henry contasse o que ela queria, contaria a ele o que acontecera ao planeta e principalmente, o que aconteceu com a versão dele naquela dimensão. Ficou observando enquanto ele ia até a geladeira e pegava duas cervejas e voltava com o mesmo sorriso maroto que ela se lembrava.

– Ok – disse ele sorrindo – mas a primeira coisa que quero saber é o porque não deixou que eu fosse conversar com aquele homem. Grobells.

– Simples – disse Helena – Ele é um colaboracionista. Graças a homens como ele, nosso planeta hoje vive em um entardecer eterno.

Henry sentiu que conseguira finalmente dialogar, não podia perder aquela oportunidade.

– Diga Helena, conte para mim o que houve, talvez possa ajudar você e Mama Lina.

Ela olhou dentro dos olhos dele por alguns instantes, do homem que era a imagem de seu irmão.

– Lembra-se que outro dia no hospital, quando nos vimos, perguntou como eu sabia que não era meu irmão? Em breve saberá o porque. Mas antes, tem que saber o contexto do que acontece aqui em meu mundo. Por volta da metade do século passado, um grupo de astrônomos que procuravam asteroides errantes em nosso sistema solar, descobriram casualmente um objeto que cruzava nosso sistema e se aproximava rapidamente do nosso sol.

– Esse objeto foi visto primeiro por observatórios no deserto de Atacama, depois no Havaí e África do Sul, e por um milagre, os governos dos países mais desenvolvido conseguiram enviar dois foguetes para interceptá-lo. Este estranho objeto, que acelerava e depois diminuía a velocidade radicalmente enquanto contornava nosso sol e apontava sua trajetória em direção à Terra, chamou a atenção de governos de todo o mundo, que se reuniram e decidiram descobrir do que se tratava. Os cientistas dos observatórios o chamaram: “El viajero sin rumbo” – o viajante sem rumo.

– Quando as cápsulas dos foguetes se aproximaram, o objeto simplesmente parou. Os seis homens que estavam a bordo das cápsulas se aproximaram e verificaram se tratar de uma espaçonave camuflada, parecia-se com um asteroide. Eles a abordaram e conseguiram trazê-la para a órbita da Terra. Estava abandonada. Levamos quase meio século estudando a coisa, demos saltos e saltos tecnológicos, principalmente em áreas técnicas e de saúde.

– Mas, descobrimos que nada no universo é de graça. Nos últimos anos do século passado detectamos outro objeto, desta vez bem maior, com quase o triplo do tamanho do anterior que além de vir claramente em nossa direção, enviava sinais de comunicação.

– Era o nosso primeiro contato com uma civilização superior, ou grupo de civilizações, já que formavam uma confederação de planetas que ficavam na Constelação de Lira. Essa Confederação buscava energia para suas civilizações e nos ofereceram tecnologias, ciências que nem de longe imaginaríamos existir. Tecnologias essas que faziam que consumíssemos mais e mais energia, de todos os tipos.

– Ofereceram naves de pesquisa para que estudássemos nossos oceanos, nosso sistema solar e começamos uma nova etapa de nossa civilização. Vieram milhares, milhões de lirianos para nosso mundo, mandamos inúmeros dos nossos para novas colônias na lua, nas luas de Saturno e em Marte. Entráramos então em um ciclo crônico na civilização humana: falta de energia.

– Após construirmos uma cidade em Marte, um sonho antigo da raça humana, com mais de dois milhões de humanos, os lirianos disseram que nos ajudariam a construir um coletor de energia solar, daí teríamos toda a energia que precisássemos. Mas tinha um preço. Três quartos do que o aparelho produzisse, pertenceria a eles.

Henry estava absorto em cada palavra que Teresa falava, sabia que algumas coisas eram similares entre as duas realidades, mas aquilo era inesperado. Perguntou a ela o que seria o tal coletor solar.

– Esse coletor – continuou Teresa – é uma estrutura que encapsulou parcialmente nosso sol. A princípio disseram que o coletor encobriria no máximo trinta por cento do sol, mas depois percebemos que não era assim. Esse percentual já chegou a sessenta por cento e a estrutura ainda não ficou pronta. Nesse meio tempo, Henry, eles praticamente construíram um governo único aqui, que é um conselho dos cinco cidadãos, dois humanos e três lirianos.

Henry ficou em silêncio alguns segundos: – Então vocês foram invadidos?– Perguntou.

– Sim – respondeu Teresa.

Henry olhou na direção dos quartos da casa, Mama Lina dormia.

– Ela parece doente… já a levou ao médico? – Perguntou com preocupação – com tantos avanços na medicina, tecnologias…?

Teresa apenas sorriu e olhou Henry nos olhos. Não precisou responder. Viu que aquele homem amava sua mãe tanto quanto ela. Olhou-o novamente e pensou em como dois homens tão iguais podiam ser tão diferentes.

– Precisamos de você Henry.

Ela ficou olhando, esperando qualquer reação do homem à sua frente. Resolveu continuar.

– Meu irmão, tempos atrás, foi convencido pela propaganda liriana e talvez procurando se espelhar em mim, resolveu entrar para a academia de segurança planetária. Para que você entenda melhor, a segurança planetária foi a Instituição que englobou as antigas forças armadas e policias de todo o nosso mundo duas décadas atrás.

– Ele era como Grobells. Não. Certamente mais inteligente, pois foi dos primeiros a investigar e descobriu que dentro do GIE existia um grupo chamado sessão fantasma, que não concordava com o “status quo” existente nas outras instituições e órgãos que eram a base de nossa sociedade ancilar. Sua busca acabou levando-o a mim, sua irmã.

Teresa havia se levantado e apesar da aparente frieza da mulher que caminhara até uma das janelas semi-abertas da sala, Henry notou de relance certa angustia.

– Naquele início de noite, estávamos à beira do riacho e ele me contou que havia descoberto tudo sobre mim, sobre a sessão fantasma, sobre todo o planejamento que fizéramos ao longo dos anos, que destruiria a GIE.

– Disse que para ele nada importava e que denunciaria Mama Lina, se fosse o caso, para que eu lhe desse provas de tudo o que eu sabia. Fiquei chocada por um instante, aquele não podia ser o meu irmão mais novo. O que teria acontecido com ele? Eu precisava sair dali, me virei para voltar para casa, dei um ou dois passos e pelo canto dos olhos o vi tentando sacar a pistola. Lutamos e…

Por alguns segundos, pela primeira vez Henry percebeu um leve traço de sentimento no rosto da mulher, quando uma lágrima solitária caiu dos olhos totalmente negros e desceu pelo rosto em direção aos lábios entreabertos.

– Por isso Henry, sei que você não é meu irmão. – Ela estava em frente a ele – por isso precisamos de sua ajuda, nosso planeta foi derrotado sem a mínima reação. Precisamos de você, pois todos os habitantes de nosso mundo foram geneticamente catalogados, menos raros indivíduos que aportam raramente aqui, ou aqueles de outras dimensões, como você. Os lirianos acabaram sabendo sobre a presença dos de seu mundo, pois sei que alguns foram capturados e, como sempre, mortos.

Henry abriu mais uma cerveja e dessa vez bebeu no gargalo mesmo. Havia visto um programa uma vez em que o pesquisador realizara um estudo mostrando que cerca de duzentas mil pessoas desapareciam por ano sem deixar vestígios. Pensava naquele momento: será que todos seriam vítimas de maniacos homicidas, ou de vendedores de escravos do submundo, quem sabe seriam fugitivos para uma nova vida ou como ele, alguns, mesmo que poucos, seriam transportados para aquele mundo ou outros, onde quer que os portais dimensionais naturais os levassem. Aquilo era realmente interessante.

– Com quantas pessoas do meu mundo você já tentou Teresa?

A pergunta ressoou fundo na mente dela. Aos poucos, diversos rostos apareciam e desapareciam em suas lembranças. Ela apenas sorriu.

****

O dia estava mais escuro que o normal. Em breve toda a vida no planeta deixaria de existir, afinal, a luz do sol era a vida. Sem o calor do sol, sem sua luz, o planeta entraria em uma nova era glacial, as plantas deixariam de existir, os herbívoros morreriam, em seguida seria a vez dos carnívoros e então o fim, a menos que os humanos pudessem pagar pelo sol. Mas pagar como? Ou com o que?

A cidade liriana em órbita do planeta era uma das mais belas imagens que Henry tinha visto no mundo do entardecer. Agora, estava ali em uma das torres mais bem guardadas do lugar. Havia ficado famoso nos últimos meses, havia desafiado a segurança planetária ao menos quatro vezes, mas sempre escapava. Eram testes para o que estava por vir. Teresa era uma mestra exigente e competente.

Lembrou-se que na última incursão, poucos dias após a morte de Mama Lina, havia tentado entrar no único local de acesso à cidade liriana. Dezenas de agentes da segurança planetária estavam em seu encalço, e o nano marcador que Teresa havia injetado não ajudou em nada. Estava preocupado com os agentes da segurança planetária mas um, em especial, conseguiu alcançá-lo.

Henry quase morreu de medo quando Grobells o encurralou em uma das salas da estação que dava acesso ao elevador orbital que levava à cidade liriana. Sua sorte foi a chegada de passageiros que apanhariam o elevador, passando em um corredor transversal ao local onde estavam. Isso distraiu seu perseguidor por dois ou três segundos. Quando ele virou o rosto para ver do que se tratava, era tarde demais. Quando voltou os olhos na direção de Henry, a arma de Grobells disparou uma vez, lutaram por alguns segundos. Naquele instante sabiam que seria um ou outro. Nada belo. Nada heroico. Nada poético. Apenas uma lâmina nas mãos de um desesperado. Apenas morte, arrependimento.

Voltou a atenção ao que se passava naquele momento, aquele era o momento crucial da sua missão. Teresa sempre lhe dizia que missão dada, devia ser missão cumprida. Não seria diferente daquela vez. Os sistemas de alarme da torre principal do lirianos haviam reconhecido a presença de alguém e haviam acionado.

A grande questão era a tecnologia, os sistemas não conseguiam reconhecê-lo. E quando o faziam, os dados apontavam para um agente da segurança planetária desaparecido há anos. As unidades cibernéticas de segurança não conseguiam encontrar os códigos genéticos, os homens da segurança planetária estavam confusos, afinal não tinham como diferenciá-lo deles mesmos. Henry vestia-se como eles, Henry era um deles.

Os homens do exército liriano podiam tentar fazer algo, mas estavam em número muito menor do que os agentes da segurança planetária terrestre. Se tentassem atirar, teria que ser em todos e a animosidade natural entre as espécies andava exacerbada nos últimos meses. A chance de vitória dos lirianos era mínima, ainda mais depois que os GIEs foram incorporados em suas linhas. A sorte é que haviam solicitado reforços.

Um grupo de três oficiais da segurança planetária se dirigia para o andar do conselho dos cinco cidadãos. Uma unidade liriana estava de guarda, mas foi rapidamente anulada e um deles entrou na Câmara do conselho. Ali, naquela sala, era onde ficavam os principais comandos tecnológicos dos lirianos. Teresa havia dito que perto dos nanocomputadores havia um comando de parada, perto do console principal do mandatário liriano, um botão que se acionado pararia de vez o coletor.

Henry precisava achar o botão correto, Teresa disse que não sabiam como era e no console tinha inúmeros controles de toque, poderia ser qualquer um deles. Henry tinha falado para sua irmã que estava preocupado de colocar tudo a perder.

Um botão estava separado dos demais e tinha uma cor avermelhada. Henry estava em pânico, tirou as luvas e apertou o botão. Nada. Apertou outra e outra vez. Nada ainda. Um pensamento veio-lhe a cabeça, justamente sobre o nome que haviam dado a astronave errante: viajante sem rumo. Era ele também. Talvez, se a astronave não houvesse chegado ali. Talvez se ele não houvesse chegado ali.

Súbito escutou barulho de armas sendo disparadas na entrada da sala, tanto armas de propulsão quanto armas sônicas, significava que humanos e lirianos lutavam no lado de fora da sala. Continuou apertando os botões no console e nos outros até que percebeu a porta abrindo, mas era tarde demais.

****

Há pouco Teresa viu outro prisioneiro ser ejetado para a imensidão sem fim. Nas últimas horas soube que o nano vírus injetado no sangue de Henry deu conta do recado, foi transmitido, por intermédio do console e inutilizou para sempre o coletor de energia solar, fazendo com que suas paletas girassem assincronicamente colidindo umas com as outras, causando enorme destruição.

Em uma questão de horas os primeiros raios de sol atingiram outra vez o planeta que, depois de décadas, teve outro amanhecer. Nunca mais seria chamado de o mundo da penumbra. Viu alguns lirianos por trás da porta de sua cela. Aqueles seriam seus instantes finais?

Lembrou-se de Henry. Ela fora dominada segundos antes da porta da sala do conselho ser aberta. Acreditava que ele não ouviu nada, que sentiu apenas dor. Percebeu que ele olhou para o console e que viu uma grande quantidade de líquido vermelho viscoso por todo o equipamento. Jamais esquecerá a surpresa naquele olhar.

Teresa voltou-se para a porta de sua prisão, uma frase que seu irmão falava vez em quando veio em sua mente, era sobre luz e escuridão e ele a recitava sempre em latim.

Ouviu ainda um som oco, sentiu um frio intenso e que lhe faltava ar. E tudo acabou.

Fim

Um conto de Swylmar S. Ferreira em 19 de abril de 2019.

Imagem meramente ilustrativa retirada de: http://www.vigilia.com.br/

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Publicado às 19 de abril de 2019 por em Contos e marcado .

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

Novo Desafio EntreContos

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