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Uma rua pequena atrás da estação


Uma rua pequena atrás da estação

Faltavam dois pontos para o ponto final da linha que ligava a Praça Olavo Bilac ao Jardim de Dentro, um bairro pouco movimentado da cidade. O primeiro ponto era em frente à padaria do “Seu” Manoel, um velhinho bem legal que aos domingos doava pães de sal e de doce para quem precisasse. O segundo ponto ficava em frente a um antigo cinema que fora comprado por uma igreja e que raramente abria as portas. O ponto final ficava onde um par de anos atrás a prefeitura havia construído uma estação que deveria funcionar como rodoviária e metrô. Isto é, se algum dia o metrô da cidade chegasse ali.

Milton ou Milt, para os íntimos, como gostava de falar para as meninas da escola, contava todos os dezesseis pontos de ônibus que separavam sua casa até o ponto final da linha do ônibus. Depois era só seguir a pé os cerca de duzentos metros até chegar à casa do seu avô, que morava em uma rua atrás da estação.

A distância a caminhar era relativamente curta e Milt estava com pressa, pois sabia que aquele era o fim de semana em que Vô Olavo recebia a netaiada. Lá, além dos adultos, que eram sua avó, mãe e duas tias mais novas, também estariam seus quatro primos: Olavinho, Carla, Marie e Alicia. Com ele formavam o quinteto furacão, como dizia sempre o velho Olavo.

Para ficar mais interessante haviam combinado que aquela seria a noite de estórias. Apressou o passo passando por todas as casas até chegar à do final da rua, a do seu avô. O restante da tarde foi sensacional, gostava de brincar com os meninos e sabia que tinha que aproveitar ao máximo que podia. Além disso, moravam ali na rua os dois únicos meninos que considerava como amigos, os dois Carlos. Seu avô os havia apelidado de o Carlos Malcriado e o Carlos Chorão. Mas era o finalzinho do período de férias do final do ano e eles haviam viajado com suas famílias.

Pelas tantas, depois do jantar, foram para o jardim no fundo da casa e começaram a brincar enquanto as suas mães jogavam buraco ou pif-paf sentadas no deck. Chegou finalmente o momento mais esperado do final de semana, a hora das estórias, de preferência que aquele que contasse tivesse participado. Nem que fosse um pouquinho. A primeira a falar foi Marie, contando como havia se divertido nas férias viajando para uma praia no litoral onde o pai dela alugou uma casa, como passavam os dias na beira do mar se divertindo. Depois foi a vez de Olavinho que apenas complementou as palavras de Marie, eles eram irmãos, afinal.

Alicia e Carla também eram irmãs, mas cada uma falou de um assunto diferente. Alicia falou sobre seu novo namorado, um garoto que havia se mudado para o edifício onde ela morava, que estudariam na mesma escola e de como ele era bonito. Não disse nada picante, nem um beijinho, uma decepção. Carla falou sobre uma amiga inseparável que fora para a Disney e lhe trouxera um presente, um ursinho de pelúcia, que era um famoso personagem e que ela adorava. Milt ficara por último.

Ele tinha dúzias para contar. Qualquer uma cairia bem, mas logo que chegou em casa escutou seus primos falando sobre a casa velha do meio da rua, sobre uma bruxa velha e má que morava no lugar. Era obvio que estavam tentando intimidar Carla, a mais nova do quinteto. Resolveu falar de um fato que aconteceu dois anos atrás e que o marcou muito até aqueles dias. Era justamente sobre a casa da velha bruxa.

Bem – começou Milt – há uns dois anos mais ou menos, eu e dois amigos que moram aqui na rua, os dois Carlos, estávamos jogando bola em um final de tarde. Naquela época eu e mamãe estávamos morando com vovô Olavo e…

– Foi quando seu pai largou vocês – disse Marie, estúpida e grosseira como sempre.

Milt apenas a olhou e continuou – bem, estávamos jogando bola aqui na rua, aproveitando que raramente passa algum carro por aqui sem ser de algum dos moradores e que a casa da velha bruxa é bem mais recuada que as outras, deixando um excelente lugar para brincar. Havíamos feito um golzinho aproveitando uma árvore e uma estaca onde a bruxa velha às vezes pendurava as roupas lavadas.

Brincávamos há bastante tempo. Já estava escurecendo quando Chorão, o dono da bola, chutou na direção da casa. Foi quando percebemos que havia algo ali, nas sombras. Chorão ficou apavorado e, como sempre, começou a choramingar, dizendo que ia apanhar de sua mãe se chegasse em casa sem o brinquedo. Malcriado bateu no ombro dele e disse que não tinha problema, que nós três iriamos até perto das escadas que levavam até a varanda e a porta da frente da casa mal assombrada. E assim fizemos.

Nos aproximamos das escadas e novamente vimos algo se mexer e no entardecer vimos a figura de um homem. Ele parecia jovem, estava com a camisa desabotoada, de calças jeans e botas, como se tivesse acabado de chegar do trabalho. Mas como ele passou por nós? – pensei. Ele desceu os degraus, aproximou-se de onde estava a bola e a pegou, colocando-a debaixo do braço, subiu os degraus, abriu a porta da casa e entrou.

Nesse instante Chorão quase desmaiou. Começou a chorar e a gritar, implorando que o homem devolvesse sua bola. Além dele, talvez por amizade ou simplesmente indignação Malcriado começou a gritar, dizendo que iria até sua casa e chamaria seu pai e que então ele, o homem da camisa desabotoada, iria ver. Eu via aquilo tudo ao lado deles e também comecei a gritar pedindo que ele devolvesse a bola. Foi quando ele apareceu na porta e disse que se quiséssemos mesmo a bola que fossemos lá dentro, e poderíamos pedir à mãe dele.

Nos olhamos por vários segundos sem saber o que fazer. Então, Chorão começou a andar na direção das escadas. Quando estava na varanda, olhou para Malcriado e eu e acenou nos chamando.

De perto, mesmo por fora, a casa não parecia tão velha assim. Talvez um pouco mal cuidada, mas por dentro era limpa e tinha móveis antigos e bem limpos e cuidados. Quando terminamos de entrar ele pediu que fechássemos a porta. Meu coração quase parou quando vi Malcriado fazendo o que o homem pediu.

– Minha mãe já está descendo – disse ele sério. – Não quero nenhum palavrão na frente dela, entenderam seus bocas-sujas.

Nós três assentimos enquanto víamos a figura da mulher descer as escadas do antigo sobrado. O homem era alto e seu rosto me era estranhamente familiar. A mulher era uma senhora que parecia ter mais ou menos a idade de minha avó. Estava elegantíssima, com um vestido verde comprido até os tornozelos, saltos altos e maquiada. Tinha os cabelos vermelhos como o homem da camisa desabotoada.

– Quem são essas crianças?

– São meninos que estão sempre jogando bola aqui na frente, mamãe – respondeu ele. Eles entraram para pedir que a senhora lhes devolva a bola.

A mulher fez uma careta rápida como se não quisesse saber daquilo, foi até uma mesa e pegou uma travessa cheia de biscoitos e trouxe dando um ou dois a cada um de nós. Eu nunca tinha comido nada tão gostoso e imediatamente me lembrei da estória de João e Maria e de como eles haviam ficado prisioneiro e quase foram devorados.

Malcriado estava cada vez mais ansioso e começou a bater as mãos, um sinal claro que estava prestes a fazer algo estúpido, mas a figura do homem da camisa desabotoada desencorajava qualquer atitude idiota.

Vou fazer uma proposta para vocês, disse-nos ela. Como podem ver, nesta sala existem cinco espelhos. Cada um de vocês terá de olhar em três, sendo que um deles, aquele coberto pelo véu azul-marinho, ela apontou o espelho, todos terão de olhar.

Malcriado riu e falou, valentão como sempre, que queria também mais daqueles biscoitos maravilhosos.

O homem da camisa desabotoada saiu rapidamente e voltou com outra travessa lotada de biscoitos e a colocou sobre uma enorme mesa decorada na sala, sentou-se em uma poltrona de braços altos e abriu uma cerveja, bebendo no gargalo.

Chorão foi o primeiro. Foi até um dos espelhos e se olhou, limpou os olhos úmidos e sorriu. Passou as mãos pelo cabelo e sorriu de novo, parecia gostar muito do que via. Só saiu quando Malcriado gritou com ele. Foi para o segundo espelho, do outro lado da sala, olhou-se mais um pouco e pareceu mais satisfeito ainda com o que via. Saiu e foi na direção do terceiro e último espelho, parou na frente e ergueu o véu azul-marinho. Ali ele não pareceu muito feliz. Ao contrário, estava desolado, triste, parecia não compreender o que estava vendo. Começou a chorar de novo e saiu em direção à porta da casa e parou, quase falou alguma coisa e saiu.

Malcriado foi o segundo. De início ele foi até a travessa de biscoitos e pegou alguns, enchendo o bolso da camisa. Olhou para o homem sentado na poltrona que assistia a tudo silenciosamente em busca de algum tipo de desaprovação. Malcriado sorriu e foi em direção ao primeiro espelho, um que ficava ao lado da porta de saída da casa. Ele parou e olhou por alguns instantes, olhou para mim, deu de ombros e saiu na direção do segundo espelho, ao lado da escada. Desta vez foi mais breve, saiu, botou um biscoito na boca e andou até o espelho do véu. Olhou-se por longos momentos e, quando virou-se para mim, parecia apavorado. Foi a primeira vez que o vi daquele jeito. Ele gritou que ficassem com a merda da bola e começou a xingar. O homem ficou em pé. Malcriado calou a boca, ainda chorando, e foi embora da casa.

Era a minha vez. Confesso que não sabia o que fazer. A senhora então veio em minha direção e pegou no meu rosto, acariciou meus cabelos e sorriu um dos mais belos sorrisos que eu já tinha visto. Olhou para o homem de camisa aberta e disse que colocasse alguns biscoitos no saco para mim.

– Eu observo você sempre que posso, mocinho – e olhou na direção do homem – ele se parece muito com você. Vi tristeza nos olhos dela. Não tinha entendido absolutamente nada.

Fui em direção a um dos espelhos que Chorão e Malcriado não haviam se olhado. Parei e me olhei, tentei ver se enxergava alguma coisa diferente, mas era só eu, de verdade. Então fui para um segundo espelho, um muito escuro. Parei e me lembrei das estórias da branca de neve e outras mais de terror. Fiquei com medo que algum monstro saísse de lá e pulasse sobre mim, mas nenhum monstro naquele momento saiu dele. Saí o mais rápido que pude. Só restava o último, o do véu azul-marinho. Fui até ele e levantei o véu o mais lentamente possível com os olhos fechados. Depois de alguns segundos eu olhei para ele durante quase um minuto, deixei cair o pano e fui na direção da senhora que estava com o saco de biscoitos na mão, ela acariciou meu rosto e me levou até a porta, abaixou-se e disse que eu voltasse quando quisesse. O homem estava na varanda, sério como sempre. Me entregou a bola e disse um até logo.

O que você viu, perguntou Olavinho encolhido. E os outros meninos, o que eles viram?

Bem, continuei, encontrei com eles no dia seguinte e entreguei a bola para o Chorão que ficou muito feliz. Perguntei a eles o que haviam visto e Malcriado contou que viu um homem taciturno, que gostava de maltratar animais, odiava seres humanos e que estava se olhando em um espelho, num lugar fechado. O homem tinha os olhos injetados de sangue com grandes olheiras e marcas de luta por todo o corpo, onde trazia tatuado no peito inúmeras cruzes que ele acariciava e ria. Eram aqueles que ele havia assassinado. Malcriado sabia que aquele homem era um monstro assassino, possuído pelo ódio e pela inveja, que semeava o terror onde passava. Chorão disse que tinha visto um homem que de início parecia bonito, estava muito bem-vestido, terno impecável, rosto luzidio e sem rusgas, mãos limpas e unhas bem-feitas e era admirado por muitos e considerado um bem feitor. Mas, na realidade, quando observou-o mais de perto, viu que o espelho mostrava sua verdadeira face, horrível, com dentes amarelados, era o monstro da vaidade que o possuía, egoísta, tendencioso e solitário. Era o responsável indireto pela morte de milhares de indefesos e se felicitava por isso. Chorão disse que aquela criatura horrenda o estava chamando, dizendo ser ele.

E você Milt o que você viu – perguntou Carla arrepiada de frio e medo.

Eu? – respondi – Nada. Um arrepio percorreu minha coluna. O terror daquele minuto infinito, os gritos, o choro, o sangue.

– Nada demais – confirmei.

– Só vi minha imagem nos três espelhos. No último, o do véu, olhei de lado e vi a senhora sorrindo e o homem pegando a bola de Chorão e indo para a varanda.

Lembrei que Vô Olavo sempre me dizia que o futuro dependia das escolhas que fazíamos.

Ficamos em silêncio alguns momentos e Carla perguntou o que havia acontecido aos meus amigos. Chorão mudou-se para outra cidade ano passado e eu só falo com ele por telefone. Malcriado está preso. Ele foi acusado de matar o pai e a mãe em um acesso de fúria alguns meses atrás.

Fim

Um conto de Swylmar S. Ferreira em 17 de março de 2019.

Imagem meramente ilustrativa retirada de:  Deviant art – the mystery house

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Publicado às 30 de março de 2019 por em Contos e marcado .

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

Novo Desafio EntreContos

Oi pessoal, o site EntreContos - Literatura Fantástica - promove novos desafios, com tema variados sendo uma excelente oportunidade de leitura. Boa sorte e boa leitura.

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