Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror
Paula finalmente estava chegando ao portão 12. Não que não estivesse acostumada a andar, pois fazia caminhada quase todos os dias no parque perto de sua casa, mas andar de salto alto e fino, andando rápido dentro do aeroporto congestionado de gente era outra coisa.
“Mais de meia hora na fila para passar com a bagagem pelo raio-X. É para detonar qualquer um”
Disse, enquanto alcançava uma fileira de cadeiras.
“Exagerada… e sorriu
O portão estava bem vazio, com várias cadeiras sobrando. Reconheceu, ao fazer um breve reconhecimento com um olhar, um grupo de pessoas que ela conheceu no evento. Estavam em pé, bebendo alguma coisa em um tipo de barzinho e acenaram para ela. Era um convite? É melhor sentar e descansar os pés, ela pensou, olhando o dedinho do pé esquerdo que latejava.
“Preciso emagrecer”, falou para si mesma olhando o espelho.
Respirou fundo ao menos uma dúzia de vezes depois que apoiou os pés em cima da mala. Seu raciocínio foi melhorando lentamente. Olhou o relógio de pulso e viu que ainda faltavam pouco mais de três horas para o embarque.
“Credo!” Falou enquanto abria a mochila e pegava o computador.
Se ajeitou enquanto o “treco”, nome carinhoso que seu pai chamava o notebook, abria a tela sozinho, isto é, depois que Paula deu uns três toques impacientes na barra de espaço.
Estava perto das tomadas, aproveitou para ligar a fonte e terminar de carregar o “treco”.
Resolveu dar uma adiantadinha no trabalho da próxima semana e pelo menos iniciar o relatório da apresentação que havia feito no evento. Começou com suas impressões, passando pelas reações dos presentes e terminaria na empresa, é claro, com as respostas dos presentes.
Mal reparou quando Lédio, um amigo antigo estava no grupo do barzinho. Ele se sentou ao seu lado e lhe passou uma lata de energético. Ela aceitou e deu um sorriso meio constrangido, voltando sua atenção para o computador e colocou a bebida no espaço vago onde estava a mochila. Foi quando reparou em uma outra bolsa, bem estranha…
…estranha e bonita. Tão bonita que seu primeiro impulso foi tocar nela. Era de couro preto, com linha avermelhadas forte que pareciam brilhar.
Saiu do transe quando Lédio perguntou-lhe algo sobre o fim de semana e ela não entendeu direito do que se tratava.
“O pessoal quer se encontrar na metade do caminho das nossas cidades amanhã, você topa?”
Ele perguntou já meio alegre, afinal tinha tomado umas três ou quatro cervejas no barzinho.
“Não posso, é aniversário do meu pai. Vamos fazer um churrasco na casa do velho.” Disse meio tonta ainda procurando a bolsa, que a essa altura já estava no colo de sua dona. Que coisa ridícula, pensou, mexer nas coisas dos outros.
Paula viu a mulher se levantar e colocar a bolsa na cadeira. Percebeu imediatamente que os olhos de todos os homens que estavam perto se voltaram para ela. Não só os homens. Era muito bonita, toda bonita, rosto, corpo, roupas tudo.
Como não percebeu que ela havia se sentado ali?
Como não viu a chegada dela? Ou ela já estava ali quando Paula se sentou? Chegou a pensar em perguntar ao seu amigo, mas ele estava hipnotizado pela figura. Tudo se desfez quando ela se sentou de novo. Paula riu do amigo e das pessoas à sua volta.
A mulher havia recolocado a bolsa, agora coberta por um agasalho, na mesa que separava as cadeiras e seus olhos se cruzaram. Paula, ainda envergonhada, se desculpou.
“Acabei encostando em sua bolsa sem querer, desculpe!”
“Imagine! Não tem importância. Eu mesma enlouqueci a primeira vez que a vi. Foi um presente do meu marido aqui” disse sorrindo mostrando um homem grisalho alto à frente dela. Ao lado dele havia outro, tão alto quanto, mas que aparentava ser mais velho e que se vestia como um piloto de aeronave.
Os dois homens agora olhavam para Paula. O marido, inclusive, com ar de preocupação, pois perguntou em tom baixo de voz e muito discretamente à mulher:
“Ela tocou na bolsa? Já falei para ter cuidado Perse, não deixe suas coisas ao alcance dos outros.”
Paula não havia reparado no homem. Não havia reparado em ninguém em frente aos portões de embarque 11 e 12 que agora estavam cheios.
“Acho que estamos indo no mesmo voo” disse a mulher sorrindo “meu nome é Perse.”
“O meu é Paula” que sorriu amigavelmente para a mulher sentada a seu lado.
Continuou a trabalhar no relatório do evento tentando lembrar de alguns detalhes. Começou a sentir uma leve sonolência, mas continuou a trabalhar bravamente, pensou em ir perguntar os detalhes do evento que necessitava ao pessoal que antes estava no barzinho e que agora estavam sentados à sua frente, em uma fileira de cadeiras, aguardando a chamada do voo.
Olhou para o portão 11 e voltou sua atenção ao grupo do evento quando percebeu uma inquietação entre alguns passageiros que estavam em pé, entre eles Lédio, que conversava com alguém animadamente. Viu que alguns tentavam apanhar suas bagagens rapidamente, ouviu gritos e sentiu as mãos de Lédio tentando levantá-la e percebeu que algo realmente estava muito errado quando ele gritou para ela.
“Corre!”
O avião estacionado no portão ao lado estava explodindo em uma bola de fogo terrível, enquanto os passageiros que desembarcavam tentavam fugir do fogo e da explosão, corriam e caiam uns sobre os outros em um frenesi de morte e horror inigualáveis, homens, mulheres e crianças gritando enquanto seus corpos eram carbonizados pelo fogo, que naquele momento estava consumindo e atravessando o finger do portão 11e queimando dezenas de pessoas que estavam no corredor e outras dezenas que já se encontravam em pé na fila de embarque. Os estilhaços de vidros ocasionados pela explosão feriram e levaram à morte outras tantas que estavam nos dois portões.
O caos era completo, havia sangue espalhado por todos os lados assim como pequenos focos de incêndio. Paula olhou para frente e viu que Lédio estava deitado de bruços no chão, tinha a cabeça queimada e ensanguentada e ela percebeu que ele estava morto, assim como diversas outras pessoas. Levantou-se tropegamente e olhou pelo vidro para a pista, o que só aumentou o terror. Um céu avermelhado teimava em afastar o pouco de azul que existia, pessoas sentadas ou deitadas pela pista entrando em aviões sujos e feios, gritando por uma ajuda que jamais viria e perto do avião um homem em pé indicava que entraria e quem ficaria ali.
Paula sentia a boca seca, as pernas fracas, ainda olhou ao redor procurando por algo, por alguém. Tudo escureceu.
Paula acordou em um grito, deixou o computador cair, tentou se levantar e caiu no chão desesperada. Lédio e o outro homem que usava uniforme da companhia de aviação e que aparentemente conversava com o marido de Perse, ajudaram-na a se levantar. Estava envergonhadíssima.
Algumas pessoas chamavam por socorristas do aeroporto para ajudá-la, outros estavam querendo ligar para o serviço de ambulância e levá-la para um hospital, Paula se recusou a sair dali e simplesmente pegou sua mala, sua mochila e seu computador e foi para o banheiro onde lavou o rosto, fez xixi e ficou sentada durante alguns minutos sozinha tentando pensar no que tinha acontecido. Quando saiu, Lédio estava esperando com ar de preocupação.
“Você está bem, Paula?” Lédio perguntou ao menos meia dúzia de vezes, sem obter resposta.
Caminharam um pouco até o portão 8, comeram cada um, um sanduiche natural e depois voltaram andando para o portão 12. Paula se sentou mais afastada, ainda com a impressão de que todos a olhavam.
“Você está bem, Paula?”
Era a sexta vez que Lédio fazia aquela pergunta e ela sempre respondia ou com um aceno de cabeça ou um simples sim. Dessa vez, colocou as mãos em seu rosto e olhou nos olhos dele para responder.
“Estou muito bem. Creio que foi só o estresse. Quando chegar em casa vou dormir. Obrigada pela ajuda”
Era a primeira vez que tocava nele, que tocava em seu rosto. Olhou ao redor procurando a mulher com a bolsa. Perse. Sim esse era o nome dela, tinha que ver a bolsa nem que fosse de longe, aí viu um outro portão.
“De onde saiu isso?” Perguntou para Lédio, apontando para um portão de embarque. sem numeração. Uma tripulação pronta para embarcar e dezenas ou centenas de passageiros em uma fila gigantesca estava no portão. O piloto era justamente o homem que conversava com o marido de Perse.
“Estava aí” respondeu Lédio olhando as pessoas na fila.
Ela pareceu não acreditar e se levantou e foi até o tripulante, o estranho piloto com quem o marido de Perse conversava animadamente alguns minutos atrás.
“Desculpe comandante?” disse tentando ver o nome dele no crachá ainda meio atônita, “é o senhor que vai pilotar esse avião?” Perguntou apontando para a aeronave no finger.
“Charon”, disse ele com um sorriso “e não”
“O meu voo é no próximo” continuou Charon falando com Paula.
De um momento para outro havia mais um portão de embarque ali e mais um grupo de aviões de uma coloração diferente, de diversos tipos, idades e tamanhos, aguardando seus passageiros em uma fila macabra.
Contrastando com o céu azul do portão 12 onde ela estava, aquele céu era vermelho acinzentado.
“Querida! Está no portão errado!”
Perse parecia chocada, olhou para o casalzinho, sorriu e resolveu tirá-los dali.
“Não pode vir para este lado do aeroporto menina” disse Perse, “não vai querer ir para onde essas pessoas vão”
“Estou perdida, vendo coisas”
Paula se sentia enjoada, como se o almoço não tivesse lhe feito bem, só que ela não almoçou naquele dia.
Perse estava em pé bem à sua frente.
“É o efeito da bolsa. Por algum tempo, algumas raras pessoas que tocam na bolsa, passam a ver acontecimentos de outras realidades, entre estas o do reino de Hades. Veja que lindo o Aqueronte”
Paula estava perplexa! Como acreditar naquilo? A bolsa teria algum tipo de alucinógeno? Que loucura seria aquela?
Viu o sorriso de Perse e percebeu que as outras pessoas ao redor a olhavam enebriadas, ela era realmente linda.
Agarrou a mão e o braço de Lédio e praticamente o arrastou os metros que os separavam da parede de vidro e do novo portão. O abraçou o mais forte que podia.
Paula via uma cena Dantesca, a pista de decolagem agora parecia um rio avermelhado, talvez fosse um reflexo do sol batendo na pista molhada após uma breve chuva e avião após avião decolavam dali para a planície do esquecimento.
Aquele era o momento que Lédio esperou a vida toda. Estudaram juntos desde o primeiro grau, fizeram faculdades diferentes, ela se casou e separou. Acabaram coincidentemente na mesma cidade, mesmo bairro, mesma quadra…
“O voo de vocês já vai embarcar”
Charon agora falava com Lédio.
“Ainda não é a vez de virem para este lado do aeroporto. É melhor irem para seu portão, o de número 12”
Quando estavam saindo, o homem que Perse havia indicado como seu marido ainda deu um cartão para Paula, disse a ela alguma coisa bem baixinho que ela, completamente desnorteada, ouviu com atenção e apenas assentiu com a cabeça, guardando o cartão na mochila do computador.
Caminharam os poucos metros que os separava do Portão 12 e entraram na fila de embarque. Até entrar no corredor, Paula ainda olhou para trás tentando ver aquele Portão.
Ela embarcou e pediu a aeromoça para sentar-se ao lado de Lédio, mesmo que fosse na fila do meio, o que acabou acontecendo.
No outro dia, em casa, depois do churrasco em comemoração ao aniversário de seu pai, Paula se sentou na varanda ao lado de Lédio. Ela estava tranquila agora. Mas os rostos do piloto do avião, daquela mulher lindamente estranha e de seu marido não lhe saiam da cabeça.
Conversou durante algum tempo com Lédio para ver se ele se lembrava daquelas pessoas e ele se lembrava apenas superficialmente, mas lhe perguntou o que aquele homem esquisito havia dito a ela.
“Ele disse que você não podia ver o que eu vi. E que eu deveria convidar você para o almoço hoje. Que seria um dos melhores negócios de minha vida. E me deu este cartão estranho, em branco dos dois lados, exceto por isso”
Passou o cartão para Lédio que olhou detalhadamente o papel com apenas uma frase escrita em um dos lados.
“Só tem o nome dele”, falou Paula tendo calafrios.
Ádis, filho de Chrónos.
Fim
Um conto de Swylmar Ferreira escrito em 15/09/2024.
Imagem meramente ilustrativa gerada por AI.