Fantasticontos, escritos e literários

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Lembranças de antepassados esquecidos


Acho engraçado vocês ficarem vendo esses noticiários.

Leonice fez o comentário mais por fazer enquanto mastigava a coxa de frango e preparava uma garfada de arroz para colocar na boca. Reparou que houve um breve silêncio na mesa, muito breve mesmo, pois logo a voz irritante do irmão do seu marido voltou ao blá, blá, blá de sempre. João parecia não se incomodar com o falatório, nem Lira, a mulher de seu cunhado. Muito menos as sete crianças que se acotovelavam ao redor da mesa junto com os adultos.

Como Lira conseguia aguentar o marido Léo, ela se perguntava sempre. Leonice ou Nice, como era conhecida em família, sentou-se e voltou a comer o frango logo depois de encher de refrigerante os copos de quatro das sete crianças, e dessa vez decidida a não prestar atenção naquela conversa que já a estava irritando.

Aquela balburdia na cidade começou quando o canal oitocentos e vinte e um passou um documentário intitulado: “Vida extraterrestre”. Não que esse tipo de programa fosse incomum naquele canal, mas o tema dessa vez fez com que os habitantes de Lirinópolis, nos dias subsequentes, só falassem naquilo.

E agora, em pleno almoço de domingo, os três outros adultos à mesa e até seu filho mais velho, Marcos, de dezesseis anos, conversavam  o tempo todo sobre o programa.

O documentário se baseava em um fato ocorrido há duas décadas e que ninguém se lembrava, exceto um dos entrevistados que dizia ter vivido à época na cidade e ter testemunhado, com mais diversas pessoas, o pouso de um triângulo voador.  

– Se ao menos fosse um disco – Nice pensou.

Isso mesmo, o tal sujeito, de quem ninguém na cidade se lembrava, dissera que havia visto um enorme triângulo pousar nos arredores da cidade de Lirinópolis e que viu dezenas de alienígenas descerem por intermédio de um raio de luz. Mas não parava aí. Falou também que tinha voltado há poucos dias na cidade e que havia visto outro Objeto não Identificado à noite.

O entrevistado disse que ficou tão impressionado com o primeiro objeto que o seguiu de carro até a cidade mais próxima e que lá aconteceu a mesma coisa. Parou perto da cidade, ficou com uma luz fraca sobre um determinado lugar por um tempo, depois uma luz muito intensa apareceu e dezenas de indivíduos desciam e desapareciam noite adentro. Quando terminou o desembarque, o objeto subiu em direção ao céu tão rápido que ele mal pode ver. 

Bastou isso para criar o maior alvoroço em Lirinópolis, que tinha pouco mais de cinquenta mil habitantes e que, além de ser a única citada na entrevista, também foi onde apareceram meia dúzia de equipes de reportagem fazendo perguntas às pessoas, que simplesmente não sabiam responder.

  – Poxa pai – falou Marcos o filho mais velho de Nice e João – o senhor não se lembra de ninguém que tenha chegado na cidade naquele ano?

João, Léo e Lira já estavam um pouco alegres com meia dúzia de garrafas de cerveja tomadas, e João só meneou negativamente a cabeça e sorriu, abraçando Nice pela cintura. Ela estava em pé retirando as vasilhas e pratos da mesa e olhou para Marcos.

– Conheci sua mãe quando estávamos na primeira série, tínhamos sete anos. Léo e Lira também se conheceram quando crianças. Mas a cidade é grande…

– Eu juro que nunca vi nenhum homenzinho cinza andando pela cidade, nem de noite, nem de dia.

Quando Marcos ia fazer um comentário sobre o programa altamente interessante, ao menos na opinião dele, Léo o interrompeu.

– Ah! Também nunca vi homenzinhos verdes de Marte. Nem você, né meu amor? – Disse perguntando a Lira que sorriu e falou um sonoro “não”.

– Ah, mas eu quero é escutar o que esse homem famoso falou na entrevista – falou Léo olhando para o irmão, que fora um dos moradores da cidade entrevistados por um dos canais de TV que estavam lá – Conta aí para nós. Deu uma sonora risada e continuou – queria mesmo era saber mais desses alienígenas.

– Gente, foi só um programa de televisão para animar as pessoas – disse Marcos.

No resto da tarde as crianças se divertiram entre as brincadeiras bobas do tio Léo ou ainda vendo filmes e desenhos na TV. A última diversão do dia foi juntar a família outra vez e comer bolo e tomar sorvete antes do tio Leo e tia Lira irem embora e levar os meninos. Nas despedidas, ao anoitecer, Lira diz algo muito rapidamente ao ouvido de Nice ao abraçá-la e trocaram beijos. Entrou no carro e minutos depois Lira e Leo estavam indo embora.

A casa deu um pouco de trabalho para arrumar, mas com a ajuda de João até que foi rápido. Sentaram-se na varanda da casa tipo rancho e como toda a noite ficaram por ali até as 10 da noite, quando João foi dormir. As outras crianças haviam ido deitar pois tinham aula cedo no dia seguinte. Nice e Marcos ficaram mais um pouco.

– Mãe, podemos voltar a falar de seus pais outra vez?

Nice ficou olhando o rapaz por alguns segundos antes de responder. Será que ele vai ficar contente com o que vou falar? Perguntou a si mesma.

– O que você quer saber? – Respondeu.

– Tia Lira falou que um dia a senhora ia falar dos seus pais. Ela disse uma vez que eles eram bastante idosos e que  faleceram quando a senhora era adolescente.

Nice sorriu, isso era típico da Lira, se meter onde não era chamada.

– Disse também – continuou ele – que nós não éramos daqui. Pelo menos vocês duas e seus pais não eram.

Depois de ficar observando a reação da mãe por instantes completou. – Mãe eu quero saber a verdade.

Nice ficou em pé e aproximou-se do filho beijando sua testa. Deu um sorriso que só as mães sabem dar.

– Pois bem – disse ela olhando os olhos do rapaz – Meus pais não eram daqui da cidade. Eram de outro lugar, com língua diferente, costumes diferentes, mas até que se adaptaram muito bem aqui. Escolheram esta cidade porque o clima daqui era muito parecido com o da terra natal deles. Quanto a mim sou a última filha deles e quando decidiram vir para cá foi para que eu pudesse ter melhores chances na vida. – Compreende?

– Sim, mãe.

Nice ficou olhando o filho que se levantava e bateu com a mão levemente na cadeira para que ele se sentasse outra vez. Vou te contar um história tão boa, na minha opinião, como qualquer outra que mostram na TV. Isso partindo da ideia que o que você e outras pessoas viram na TV foi apenas uma história, um programa de TV cheio de suposições e, é claro, de teorias de conspiração.

–  Agora – continuou ela – para ajudar a sua imaginação quero que abra sua mente e, acreditando ou não no que vou falar, que guarde para você mesmo, pois foi assim que meus pais me contaram. Me ensinaram a escutar e guardar para mim mesma.

– Imagine – disse ela olhando para Marcos – que antes dessa nossa civilização, possa ter existido outra, ou outras. Que talvez nós humanos simplesmente não saibamos ao certo nossa história. Que talvez, como falaram no programa da TV, sejamos um povo sem memória, que na verdade desconhecemos de onde viemos e por que estamos aqui.

– Imagine que antes do inicio desta civilização existiu outra bem mais avançada que a nossa. Era um tempo em que homens de duas civilizações caminhavam juntos sobre a terra. Dois tipos de homens, mas sem dúvida humanos. Diferentes, mas iguais. Eram um só povo.

– A primeira civilização havia surgido dezenas de milhares de anos antes da segunda civilização. Eles, da primeira, eram muito altos e se orgulhavam de dizer que eram descendentes dos “antigos” – aqueles que haviam vindo das estrelas.

– A segunda civilização praticamente foi criação da primeira. Surgiu por uma série de motivos, de necessidades, mas duas delas se sobressaíram: necessidade genética, ou sejam, precisavam diversificar sua raça e necessidade urgente de um aliado. O porque, só eles sabiam.

– Depois de certo tempo, a primeira raça de humanos decidiu sair deste mundo e ir em busca de outros. Mas nem todos. Os poucos que aqui ficaram, ao longo do tempo se misturaram com suas criaturas e desapareceram.

– Fora deste pequeno mundo, os homens da primeira civilização começaram a espalhar suas sementes pela galáxia, mas esta tentativa esbarrou em outras civilizações. Aqui, neste ponto da história, nos disseram que eles haviam entrado em conflito com outras civilizações e foram derrotados, sendo suas colônias procuradas e destruídas.

– É preciso dizer que mesmo após a partida dos primeiros humanos, suas cidades e principalmente alguns de seus monumentos construídos de pedras permaneceram e foram ocupados por suas criaturas, suas tecnologias foram aos poucos sendo aprendidas e assimiladas. E assim permaneceram por muito tempo.

– No final daquela época haviam poucos remanescentes dos primeiros humanos e eles haviam conseguido voltar para cá, para casa.  Mas eles simplesmente haviam chegado ao seu ocaso e estavam desaparecendo naturalmente, ou recorrendo à hibridização outra vez. 

– Então três grandes desastres aconteceram aqui no nosso mundo: o primeiro foi a descoberta de um corpo estelar que vinha na direção do nosso planeta. Foi tudo muito rápido e quando este se chocou, causou grandes desastres naturais, sendo o pior uma glaciação devido aos detritos lançados na atmosfera, nos transformando em um mundo gelado. Este foi o segundo desastre. Por último, tempos depois, ocorreu o degelo fazendo com que o nível de nossos oceanos subissem em mais de uma centena de metros, determinando o fim também de grande parte da segunda civilização.  

– Mas é claro que estes desastres não aconteceram do dia para a noite, muito menos ocorreram de uma só vez. Eles tinham tecnologia e uma grande vontade de sobreviver. Antes do fim, algumas decisões importantes foram tomadas. Foram escolhidos alguns deles para tentar sobreviver e repovoar o planeta, contavam com bancos genéticos de plantas e de animais.

Marcos estava sorrindo. Era uma das histórias mais incríveis que já tinha ouvido. Não ia interromper sua mãe agora. Ela continuou.

– Usaram as tecnologias e aproveitaram alguns lugares criados pela primeira civilização, como bases espaciais em asteroides gigantescos, que se encontravam orbitando o cinturão externo, aquelas que haviam sido construídas para que os humanos da primeira civilização continuassem observando seu planeta natal.

– Mãe, que legal a história. Mas não parece um conto de ficção científica?

Nice lhe lançou um de seus olhares de reprovação para evidenciar que o garoto estava atrapalhando e quando ele sorriu meio envergonhado ela continuou.

– Nada é para sempre Marcos. Tudo pode acabar em um piscar de olhos e não depende de nossa vontade. Aconteceu antes e vai acontecer outra vez. Hoje vemos que nossa espécie faz um esforço muito grande para se lançar ao espaço em uma tentativa de sobrevivência, então porque outra civilização anterior à nossa, não pode ter feito a mesma coisa há dezenas de milhares de anos. Porque nossa espécie não pode ascender migrando para outros mundos? Buscando refugio em outros lugares?

– Mas agora é hora de dormir. Todos temos compromissos amanhã, você tem escola e eu tenho meu trabalho e também tenho que tomar conta de seus irmãos, então…

Depois que o filho foi se deitar, ela entrou para o quarto e ficou observando longamente o marido dormir e depois foi para a janela e começou a esticar seus braços, pernas, pescoço, sentindo um enorme prazer. Olhou para João, agradecida por ele ter construido um teto muito alto no quarto deles. Lembrou-se de seus pais falarem em como inimigos acharam o planeta há muitos milénios atrás. E que eles haviam pago um preço terrível por serem os aliados e descendentes da primeira civilização. Esses inimigos os haviam encontrado e dizimado e arrasado o planeta.

Coube aos raros sobreviventes da primeira civilização recriá-los geneticamente. Um recomeço para as duas raças de humanos, e agora, depois de tanto tempo, invasores que os estavam procurando, os encontraram.

Ela respirou fundo e começou a metamorfosear voltando a ser Nice. Deitou-se na cama e cobriu João. Amava aquele homem.  E pensou no programa de TV que procurava discos voadores e seus tripulantes. Pensou nos desastres naturais que arrasaram o planeta milênios atrás, ou não teriam sido desastres? Pensou também nos invasores e na escuridão do quarto deu um breve sorriso e falou baixinho:

– Desta vez, estaremos esperando.

FIM

Um conto de Swylmar Ferreira                                        03 de setembro de 2020

Imagem meramente ilustrativa retirada de search images internet.

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Publicado em 13 de setembro de 2020 por em Contos.

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DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

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