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Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

Dentro da escuridão


A sensação de frio é muito inquietante, irritante talvez, imputa em mim medo, talvez. Sinto esse frio estranho entrar até o fundo de minha alma e me corroer por dentro. Súbito, a imagem do rosto de Larissa passa rápida pela minha mente e em segundos é substituída pela sensação de abandono e novamente pelo frio.

Olho ao redor e percebo apenas escuridão. Penso em minha casa, na pequena entrada coberta de grama e a calçada com pequenos seixos brancos de rio. Em seguida visualizo a cerca viva formada de pequenas plantas espinhosas, facilmente cuidadas por mim e que davam acesso à porta cor de âmbar, daqueles modelos antigos da década de cinquenta do século passado, as que tinham uma minijanela de vidro. Outra vez a sombra de Larissa passa como um reflexo por minha mente, desta vez apenas para me atormentar, fazendo voltar a sensação de morte e aumentando o pesar que aperta meu peito, como no dia em que ela se foi.

Preciso me acalmar, respiro fundo por três vezes seguidas, ouvi isso em algum lugar. Agora me parece bobagem, por alguns instantes procuro recordar onde ouvi aquilo. Não consigo. A sensação de angustia ainda me acompanha, como acompanha a todos aqueles que são prisioneiros, que são objetos de estudos, que não merecem mercê. Os que não merecem perdão.

A tontura e a sensação de enjôo fazem com que perca momentaneamente os sentidos. Assim que acordo, respiro fundo por mais três vezes. Que bobagem.

Consigo soltar meu braço. Estava tão preso que, mesmo sem enxergar devido à escuridão, percebo que a pele se rasgou e que o sangue corre lenta e levemente até meu tórax. Faço mais força ainda para soltar uma de minhas pernas, mas é em vão. Preciso tentar de novo, me preparo para isso dizendo que desta vez vai dar certo. Então escuto um barulho.

Não consigo ver, só agora percebo que estou com algo me cobrindo a cabeça. Os sons são metálicos, se aproximam e em seguida se afastam. Escuto também sons que parecem de alguém falando, embora não consiga entender nada. Sinto um arrepio. Espero tudo silenciar e tento tirar o objeto que me cobre a cabeça, preciso me livrar. Consigo soltar o outro braço com a ajuda do que está livre e em seguida retiro o objeto de minha cabeça. Logo depois me livro do que me prendia o abdome. Imediatamente minhas pernas são libertas também.

A luz tênue ajuda a perceber que estou em um tipo de bolha ou casulo. Outra vez outro lampejo de memória, desta vez de uma borboleta azul saindo do casulo. O que me prende é feito de um tipo de gel. Sento e começo a rasgá-lo. Fico tonto com a primeira respirada, seria muito oxigênio? Ou outra coisa? Onde estou?

Coloco os pés no piso úmido e outro flash de memória aparece, outro rosto, desta vez masculino. Grande, forte, barbudo, conheço-o com certeza. Apesar do uniforme, aquele sorriso e o belo rosto do meu filho são inconfundíveis. Está me chamando, foi um passeio que fui fazer na cidade onde mora, na fronteira. Uma menina pequena, de uns dois anos no máximo e uma moça sorridente sentada à mesa me esperam. Ele abre uma cerveja e coloca três copos, me dá um deles e me abraça. São minha família. Estou momentaneamente feliz.

O lugar é enorme. Percebo que existem outros casulos, alguns parecidos com aquele em que eu estava, outros diferentes, mas são muitos. Ando em direção a um lugar mais claro e conforme passo pelos casulos, percebo que muitos estão vazios, outros ainda não. Será que foi isso que eu ouvi? Alguém saindo de um dos casulos?

Ou o ruido de alguma coisa saindo?

Quando estou relativamente perto da luz, paro para ver um dos casulos, um dos que está vazio. O cheiro não é bom, não mesmo, e me embrulha o estômago. Tenho ânsias de vômito, mas não tem nada para sair. Me concentro naquilo que me parecem partes de algum equipamento. São muito estranhos, parecem pinças, lâminas, brocas, lentes, partes de algum tipo de macroscópio ou algo assim. Outros equipamentos estão mais em cima, fora de alcance. Perto dali há um outro casulo e algo faz com que eu me aproxime dele. É grande, duas ou três vezes maior que o meu mas sei que é diferente, o próprio gel parece diferente. Olho a criatura e meu sangue congela. Sinto uma vontade incrível de meter minhas mãos no gel e então paro. Dou meia volta. Sei que ele irá se libertar como eu, como os outros.

Caminho entre os casulos por uma centena, não, duas centenas de metros ou um pouco mais e paro perto da abertura. Aquele lugar um dia teve uma porta que vejo na areia do lado de fora, parece ter sido explodida ou arrebentada por um força descomunal. Começo a examinar detidamente o lugar e eu simplesmente estanco. Vou para uma das laterais, fico meio escondido. O que vejo me paralisa.

A paisagem é diversa, um grande lago do lado esquerdo que se perde de vista e em frente, montes rochosos com formações e deformações absurdas feitas por alguma coisa, ou talvez o vento, ou ainda chuvas ou, seja lá o que for. Olho para cima e vejo um planeta azulado que obviamente não é o meu. Ele tem uma estrutura metálica em forma de anel envolvendo-o, com inúmeras pontes ligando-as àquele mundo. Ao seu redor brilham algumas luas iluminando o firmamento. Sorrio alto, é claro que estou em uma delas, em uma das luas.

Vejo o solo logo abaixo, estou a pouco mais de um metro e mesmo assim fico pensando se salto ou continuo escondido ali. Salto.

Ao cair em um misto de areia grossa e relva, percebo a diferença de temperatura, calor. Olho para trás enquanto caminho em direção ao que acredito ser um lago e aos poucos vou tendo uma noção de onde estava. Continuo em frente até o alto de um cume e então a vejo em todo o esplendor e brilho. Uma nave espacial ovalada semienterrada no solo. Uma pergunta surge em minha mente. O que eu estou fazendo aqui?

Vou me aproximando do lago, observo o fluxo e o refluxo das águas e um medo me assalta. Será que posso entrar nas águas, ao menos para molhar meus pés queimados pela areia quente e doloridos pela distância caminhada? Tarde demais, meus pés e tornozelos são alcançados e para minha satisfação… nada.

Me ajoelho e coloco as mãos em concha enquanto me delicio na água. É tão clara que posso ver meu reflexo mesmo que turvo. Vejo figuras ao longe e me lembro outra vez de Larissa, ela brincando nas praias que amávamos com um lindo menino pequeno em seus braços. Estranho que nesse momento só me venham lembranças felizes.

Ah! Confesso que sentia falta dela, foram décadas de convivência, procurando sempre uma desculpa para estarmos juntos, a cumplicidade. Inclusive nas coisas estranhas que ela falava, como alienígenas, abduções, era fissurada em filmes e documentários sobre o assunto.

Uma sombra chegando onde eu estava e um respirar alto chamam minha atenção. Um dos grandes estava do meu lado. Não o vi se aproximando, devia ter perto de dois metros e meio, forte, a única diferença que consegui notar foram os bracos, quatro braços. Sentei na areia enquanto ele ficou se deliciando nas águas do lago. Seria ele que estava no casulo que olhei?

Mais um flash em que eu e Larissa havíamos discutido pelas crenças tolas dela em discos voadores. Ela insistia ter sido abduzida por alienígenas pequenos e cinzentos e que tinham colocado um minilocalizador metálico em seu braço. Eu apenas ri.

Descobri ser possível se comunicar com alguém, mesmo que seja de uma espécie diferente da sua, por intermédio de gestos. Rápido eu e Bomf – era assim que ele me chamava e que depois de algum tempo passei a replicar – começamos a nos comunicar e foi muito interessante para ambos, pois tínhamos um certo receio de alguns dos outros “passageiros”. Esse receio passou a ter fundamento quando descobrimos dois cadáveres boiando no lago. Bomf ficou apavorado e passei a pegar água em dos instrumentos metálicos que tivemos acesso na nave e ferver para que pudéssemos beber. Comer? Por incrível que pareça as gramíneas e uns tipos de frutas, se é que possamos chamar assim, dos arbustos mais afastados do lago pareciam ser o suficiente para nós.

Uma tarde escutei os gritos de Bomf, corri até a beira do lago e vi que uma criatura o havia pego. Corri para ajudar e consegui tirá-lo das águas e levar aquela coisa para a terra. A criatura só o soltou quando consegui enfiar-lhe um carvão em brasas, goela adentro. Bomf levou algum tempo para curar-se das mordidas, eu levei ainda mais tempo para curar minhas mãos das queimaduras terríveis da brasa. A criatura? Bem, ela não conseguiu chegar ao lago para fugir. Não era tão gostosa assim. Comível apenas. Meu companheiro recusou-se a experimentar. Passamos a ter muito cuidado com o lago.

Um dia, como outro qualquer, as águas do lago amanheceram diferentes, bravias, o céu amanheceu repleto de nuvens avermelhadas e vimos de relance pela primeira vez o sol azul daquele lugar. Decidimos que estava na hora de procurar outros lugares. Vimos certa vez um grupo de uma dúzia de criaturas saírem do esqueleto da nave ao mesmo tempo e irem em direção às montanhas. Peguei alguns instrumentos que achei que teriam serventia em caso de necessidade e saímos.

Depois de andarmos por muito tempo tive um outro flash de memória. Desta vez eu estava deitado em minha cama e vi ao meu lado quatro criaturas com grandes olhos negros. Tentei me mexer e não consegui. Estava paralisado. Mas meus olhos estavam abertos e apesar da luz branca intensa, vi quando me conduziram pelo corredor passando por outros cômodos até chegar ao lado da entrada da casa. Ali havia uma porta de luz que nunca esteve lá. Justo no lugar onde Larissa costumava passar horas olhando. No lugar onde um dia ela mandou os pedreiros quebrarem deixando os tijolos à mostra e colocar uma chapa de aço do lado de dentro, para depois emboçar. Bomf colocou uma de suas mãos em meu ombro me trazendo de volta à realidade no sopé das grandes montanhas.

Com o passar dos dias encontramos mais alguns passageiros, inclusive um humano cujo nome era Earl. Confesso que fiquei muito feliz em ver outra criatura da minha espécie. Morávamos todos não muito longe uns dos outros, em um plano alto onde podia-se ver a lua vizinha, dourada, por noites seguidas, e com sorte as chuvas de meteoro que eram constante naquele lugar.

Um dia Bomf, eu e alguns outros acabávamos de voltar da nave, há muito não havia mais nenhum casulo ocupado, quando vislumbramos outra nave da espécie que havia nos abduzido.

A astronave estava muito alta e não fez menção de descer, mas senti uma comichão forte no meu braço esquerdo e instantaneamente tive medo, como os outros, que eles viriam nos buscar. Então algo fantástico aconteceu. Mesmo estando muito alto podíamos vê-la sendo atingida, trespassada por uma chuva de asteroides queimando na atmosfera e caindo destroçada em algum lugar longínquo do lago.

Bomf havia saído cedo no outro dia e insistiu que eu fosse junto. Fomos na direção da nave e no caminho encontramos mais dois grupos de passageiros. Um deles era o grupo de Earl e carregavam em uma maca improvisada alguém que havia sido atacado por um grupo de criaturas aladas. Earl me contou que ele foi pegar comida nas falésias que culminavam no lago e foi atacado. Fomos até a nave com eles e o deitamos em um casulo iluminado. Quando tudo escureceu, partimos.

Acordei com uma forte dor no peito, Bomf percebeu que algo não estava bem comigo e foi chamar Earl. Não vi mais nada, apaguei.

Acho que acordei quando estávamos quase chegando na nave, ainda lembro da cara redonda e sem nariz de Bomf segurando em minhas pernas, me levantando enquanto outros dois passageiros me puxavam. Earl falou meia dúzia de vezes que tudo ia ficar bem. Ainda me lembro de deitar no casulo e tudo escurecer.

***

Acordei na escuridão, com muito frio e com muito medo. O rosto de Larissa me fez despertar. Puxei meu braço direito e o soltei facilmente, soltei o outro braço e o cinto que prendia meu abdome, então sentei e tirei a máscara. Puxei o casulo até rasgar e coloquei meus pés no chão úmido. Comecei a andar pelos casulos e todos estavam ocupados. Achei Earl e mais alguns que eu conhecia.

Achei Bomf também. Foi quando reparei na claridade e fui até a porta da nave. Saltei para a relva que estava mais crescida e fui até perto do lago. Algumas criaturas nativas podiam ser vistas ao longe, tudo parecia normal. Mas senti que precisava descansar mais, então entrei outra vez na nave e fui para o casulo.

Acordei com o vislumbre do rosto de Larissa, ainda na escuridão e com muito frio… desta vez, sem medo.

Fim

Um conto de Swylmar S. Ferreira Em 17 de fevereiro de 2019.

Imagem meramente ilustrativa retirada de: dropbox.com

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Publicado às 17 de fevereiro de 2019 por em Contos e marcado .

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

Novo Desafio EntreContos

Oi pessoal, o site EntreContos - Literatura Fantástica - promove novos desafios, com tema variados sendo uma excelente oportunidade de leitura. Boa sorte e boa leitura.

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