Fantasticontos, escritos e literários

Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

A sentinela da morte da Pleasence Avenue


 

Laura Méier – nome bonito que ela mesma escolheu para ajudar em sua profissão de Marido de Aluguel – desceu do fiat azul-marinho meio descorado do sol e olhou para o endereço no zap. Chegou rápido pois ficava perto de seu apartamento.

A Pleasence Avenue parecia ser tranquila, daquelas que a imensa maioria das pessoas gostariam de morar. Era uma das avenidas do condomínio, todas com nomes de atores famosos, mesmo assim não muito movimentada. Sorriu e começou a abrir a porta do carro quando um barulho estranho chamou sua atenção. Pareceu um urro. Será que tinha algum cachorro por ali? Olhou em volta e não viu absolutamente nada. Resolveu não dar muita atenção, afinal era uma bela manhã.

Havia parado em uma praça com um grande estacionamento. A praça era clássica, tinha diversos brinquedos onde as crianças da região deveriam ir se divertir e o estacionamento servia aos pais que vinham mais de longe, ou aos que não queriam andar muito.

Abriu o porta-malas para retirar a mala de ferramentas quando escutou o barulho outra vez e ficou assustada. Pensou em entrar no carro e ir embora dali, mas tinha um compromisso assumido. Pegou a mala de ferramentas e começou a procurar a casa de número 999 do condomínio. As casas da etapa A do condomínio não eram próximas umas às outras e, em geral não tinham muros, possuindo jardins relativamente bem espaçados.

Depois de caminhar alguns metros, Laura percebeu algo estranho jogado no chão, perto do gramado de uma das casas, a mais perto de onde estava. Seria uma camisa de homem rasgada e ensanguentada? Pensou se devia ou não chegar mais perto. Olhou ao redor e poucas pessoas andavam na rua naquele momento, afinal era sábado de manhã, bem cedo. Viu apenas dois casais caminhando apressadamente. Aproximou-se ainda desconfiada e aos poucos começou a entender o que aquilo era e não conseguiu conter o grito que teimou em sair de sua boca, para logo se transformar em ânsia e em seguida em vômito. Em poucos segundos a rua foi enchendo de pessoas.

***

Laura estava em casa pela manhã no outro dia, um pequeno apartamento de um quarto que dividia com Yucon, seu cãozinho de estimação. A campainha tocou pela terceira vez as oito e trinta da manhã de domingo. Apesar de aborrecida foi atender, afinal já estava acordada há muito tempo. Sabia que não era a polícia querendo outro depoimento pois tinha dado dois no dia anterior.

Era um homem jovem e sorridente.

— Bom dia!! – Disse ele com um meio sorriso — Meu nome é Cláudio Borges e sou repórter da Gazeta da Manhã.

Olhou para a mulher ainda descabelada e não conseguiu conter o riso.

Laura praticamente parou de respirar quando viu o sorriso no rosto do jovem a sua frente. A única vontade que tinha naquele instante era ir até sua mala de ferramentas e pegar o machado pequeno que usava às vezes para cortar galhos inconvenientes que insistiam em entrar pelas janelas de seus clientes e facilitavam a entrada de insetos nas casas e apartamentos. Viu a imagem clara do sujeito correndo à sua frente e gritando como uma menininha enquanto ela o acertava com o machado na cabeça.

— Dona Laura… dona Laura… a senhora está bem? — Perguntou ele agora sem rir depois de observar por vários segundos o rosto inexpressivo da mulher e seus lábios cerrados.

— Me perdoe dona Laura — falou com olhar preocupado — foi muita falta de sensibilidade da minha parte.

Esperou por alguns segundos a resposta de Laura que tentava claramente conter o choro de raiva naquele instante.

— Se a senhora não quiser conversar comigo eu entenderei, mas este é o quarto assassinato na avenida Pleasence. Gostaria muito de sua ajuda.

Laura não tirava os olhos do rapaz. De início devido a raiva que sentira pelo desrespeito, mas agora via o quanto ele era bonito. Mesmo vestido despretensiosamente e com a barba por fazer.

— Você é um estúpido idiota! — Laura disse olhando o rosto de Cláudio.

— A senhora tem razão – Cláudio quase sentiu vergonha de seu comportamento – Peço que me perdoe – continuou olhando a mulher — Preciso conversar com a senhora. É muito sério.

Laura o olhou outra vez. Abriu um pouco mais a porta e entrou, deixando aberta para que ele fizesse o mesmo.

— Feche a porta — disse indo em direção à cozinha americana — vou fazer um chá.

— Oba!!! — Acompanhou-a até a pequena cozinha.

— Sra. Méier, eu estou investigando alguns assassinatos que ocorreram nesta parte da cidade. Quando descobriu a cabeça com parte do tórax jogada, viu algo que chamou sua atenção, além do corpo, é claro?

Cláudio percebeu que Laura repugnou e balançou negativamente a cabeça. Estavam tomando chá quando ela lembrou que algo estava jogado na calçada. Parecia um dente, mas certamente que não era humano. Era um canino, grande demais e estava quebrado. Contou a ele que um dos policiais achou o dente, empacotou e levou. Falou também em como as pessoas começaram a chegar e se apavorar ao ver aquela cena. Isso sem falar que parte do rosto havia sido devorado por algum tipo de animal.

Cláudio Borges conversou a manhã inteira com a mulher que seria uma possível testemunha das mortes que ele tentava resolver. Ela ao menos achou um dos corpos. Em suas investigações descobriu que pelo menos quatro mortes apresentavam o mesmo modus operandi. Depois entrou em contato com o investigador do caso, um antigo colega de escola do segundo grau, e repassou suas informações.

***

Era quase noite quando Alexandre Sirtis da Silva, o investigador do caso da Pleasence Avenue, recebeu em primeira mão a notícia que seria publicada na segunda pela manhã. Leu com cuidado o conteúdo da reportagem e ligou para o Borges, que deu mais alguns detalhes, principalmente sobre o morador daquela casa. Havia tempos que desconfiavam dele, principalmente no caso anterior. O modus operandi do criminoso era o mesmo, agora tinha certeza, principalmente na desova dos corpos. A questão principal era que agora uma das peças do corpo havia ficado inadvertidamente para trás, permitindo que a investigação finalmente caminhasse para um final.

***

Davis N. Stocke acordou cedo no domingo depois de toda a confusão do dia anterior. Com toda aquela gente no jardim de sua casa, com todas as perguntas da polícia, dos repórteres e da entrevista quase forçada àquele repórter estúpido da Gazeta da Manhã. Na minha idade, pensou, ter que me submeter a uma situação dessas. E o pior de tudo é que a mulher que consertaria a instalação elétrica da área de serviço da casa não apareceu.

Foi até a garagem, inspecionou o golzinho 1981 e foi se preparar para sair. Colocou algumas roupas na mochila, algumas garrafas de água mineral em um isopor pequeno — ao longo dos anos passou a sentir uma sede quase incontrolável, principalmente depois que comia — e estava pronto para sua viagem ao interior. Fechou bem a casa, entrou no carro, e partiu. Não era uma viagem tão longa assim, pouco mais de trezentos quilômetros separava sua casa na cidade de seu sítio à beira de uma reserva ambiental.

Saindo agora, sabia que em quatro horas de viagem estaria no sítio, protegido de tudo e, principalmente esquecido, com um pouco de sorte.

Em sua longa vida, Davis descobriu que, por mais que tentasse, não conseguia se relacionar com as outras pessoas, nem mesmo mulheres, embora tentasse de vez em quando. Viveu grande parte de sua existência na Europa, até ser perseguido pela polícia da região. Não que estivessem errados é claro, mas depois de tanto tempo a mudança para cidades em outros continentes foi muito bem-vinda. Primeiro foi para Hong Kong, depois Beijing e Hangzou. Nas Filipinas viveu em Manila e Quenzon. Dali foi para Los Angeles, Houston, Panamá, Recife e finalmente em casa, em São Paulo. Não estava disposto a sair dali, nem da casa, muito menos do sítio.

Como pode cometer um erro daqueles? Estava a cada dia mais estúpido. Deixar uma parte do corpo para trás… Estava ficando velho e idiota. Agora, além do policial que já estava há alguns meses em seu encalço, surgia o repórter e, aquele jovem sim era determinado. Lembrava um investigador em Beijing, determinado e saboroso.

As lembranças lhe causaram um breve sorriso, passando para risos leves e terminando em uma gargalhada frenética. Involuntariamente começou a salivar. Salivou tanto que molhou toda a blusa que vestia. Olhou-se no retrovisor, como fazem as mulheres para ver a maquiagem. Apreciou, além dos grandes caninos, também seus olhos amarelos dourados.

***

Laura já tinha arrumado a caixa de ferramentas no carro e estava se preparando para sair quando chegou visita em sua casa. Ela sorriu quando o viu.

— Olá Cláudio… que bons ventos o trazem aqui?

Cláudio tinha um bom motivo para procurar a mulher uma outra vez. Ela havia falado sobre um estranho barulho que tinha escutado quando saiu do carro no sábado. Um grunhido alto que a tinha assustado e ele queria saber mais sobre esse detalhe. Poderia ser muito importante.

E agora? — Pensou ele, como responder… chamaria a mulher de Dona Laura ou simplesmente Laura? Sabia que ela era mais velha, mas não tão mais velha assim e agora que a via com calças jeans apertadas e blusa de malha…

— Oi Laura, tudo bom? — aproximou-se e beijou-lhe o rosto, percebeu que ela sorriu — vim conversar sobre um detalhe que me contou. Lembra que ouviu um urro quando saiu do carro?

Laura lembrava mas não disse nem sim nem não. Para dizer a verdade estava arrependida de ter falado sobre aquilo. Aquela não tinha sido a primeira vez que tinha ouvido aquele tipo de coisa. Lembrou-se rapidamente de quando vivia em outro lugar, longe dali, quando ouviu algo parecido pela primeira vez. Ela corria desesperadamente por uma mata fechada com seu marido para salvarem suas vidas quando percebeu que ele caiu alguns metros atrás e foi alcançado por um grupo de lobos, sendo destroçado por eles. Ela continuou correndo e se salvou. Pensou se foi um sonho ou se aconteceu mesmo. Em outra vida quem sabe.

— Já não estou bem certa. — respondeu rápido — Escutei alguma coisa, mas sinceramente não sei o que foi.

Ficou olhando a decepção no rosto do rapaz enquanto arrumava suas coisas para o atendimento daquela manhã.

— Vi que está chateado — pegou as mãos dele — fique não. Pago seu almoço hoje — sorriu abertamente para o rapaz.

— Feito! — Cláudio sorriu, afinal conseguiu um de seus objetivos daquela manhã, reencontrar Laura.

Poucos minutos depois que ele saiu, Laura Méier sentou em uma velha cadeira de madeira que ficava em um canto não tão bem iluminado de seu apartamento, voltou a pensar em uma série de coisas: dentre elas em seu primeiro marido, quando era apenas Sibíla mas, principalmente, voltou a pensar naquele tipo de lobo.

***

Davis Stoke tinha acordado cedo aquele dia e ficou arrumando o que podia na casa do sítio. Não queria ficar ali mais que o necessário mas não queria deixá-la caindo aos pedaços como quando a comprou cinco décadas atrás. Tomou uns dois litros de água gelada e saiu para sua caminhada noturna. Pretendia passar a noite toda na floresta e quando estivesse perto de amanhecer voltaria para casa para descansar.

Tinha ficado tempo demais na cidade desta última vez e precisou se alimentar. E como sempre escolheu um alvo fácil, caçou-o a noite, matou e comeu. Uma fatalidade. Agora tinha aquele policial investigando e isso, por suas experiências passadas, não era nada bom, isso sem falar da mancada monumental que deu ao perder parte de sua vítima.

Não queria admitir mas estava cada vez mais relapso. Passou séculos sem ser importunado e agora isso. Sem falar que deixou provas importantes daquela última fatalidade em sua casa. E se a polícia resolvesse fazer uma busca? Teria de abandonar tudo e fugir outra vez. Só tinha uma coisa diferente, gostava dali e estava cansado de fugir. Ia ficar até o fim. Para isso voltaria à cidade, até sua casa, removeria e destruiria as provas e voltaria para o sítio, para a floresta que tanto amava.

***

Sirtis estava de serviço na delegacia desde as sete da manhã daquela terça-feira e marcou com Cláudio um encontro para dar ao colega alguma novidade naquele caso. Ele estava mais uma vez atrasado, mas pensando bem, Cláudio estava geralmente atrasado. Sempre gostou dele, mesmo sendo do grupo dos nerds, da turma dos games. Muitas vezes, Cláudio ficava com um minigame na mão esperando Alexandre acabar o futebol para irem embora juntos.

A porta do carona da viatura se abrindo o tirou do devaneio.

— Como vai, meu brother? — Falou Cláudio sorridente.

Alexandre já tinha visto aquele sorriso antes, conhecia bem o amigo para saber quando ele estava com alguma mulher. Seja lá quem fosse a coisa tinha que ser muito recente. Balançou a cabeça em negação e riu alto.

— Amando de novo, seu porra!

Cláudio tentava tirar o sorriso de satisfação da cara enquanto lembrava um certo almoço no dia anterior que lhe rendeu uma companhia maravilhosa à tarde e uma noite de amor sensacional. Para dizer a verdade só deixou a mulher porque queria muito algum detalhe que o amigo pudesse lhe passar sem comprometer a investigação.

— É o seguinte, o suspeito principal, o gringo que você falou, tal de Stoke saiu da cidade. Vizinhos disseram que o viram sair no carro dele, um golzinho antigo. Falaram que ele saiu levando uma mochila então deve voltar em breve.

— Legal! Você acha que…

— Espera, apressado – Alexandre já havia voltado ao seu eterno mal humor — outro vizinho, um que mora aqui mais de vinte anos confirmou que às vezes ele simplesmente desaparece. Acha que deve ter outra propriedade para onde ir e por lá fica semanas a fio.

— Pois é — Cláudio estava sério outra vez — Esse cara é o único das redondezas que mora por aqui desde a construção do condomínio. E eu tenho uma desconfiança grande que é ele o cara. Só pode ser ele o responsável por essas quatro mortes. Se é que não existem outras mais. Mas conte o que a perícia falou daquela parte achada do corpo.

Alexandre Sirtis falou apenas o essencial, o nome da pessoa identificada pela arcada dentária e exame de DNA. Ao que parecia, havia sido atacada por algum tipo de canídeo muito grande, que provavelmente devorou parte de corpo. Ficou pensando no que seu amigo falou praticamente o resto do dia. Teriam eles um “serial killer” nas mãos? Teria esse criminoso treinado algum pobre animal para matar seres humanos? Uma morte terrível. Voltou a delegacia e fez um relatório escrito de todas as informações que tinha e passou ao delegado de plantão.

A única coisa que não citou no relatório, mas deixou grifado no laudo do perito entregue ao chefe e, também não falou ao amigo Cláudio, foi um detalhe importante que ele leu e releu no laudo: a saliva encontrada nas feridas do corpo tinham DNA misturado de algum tipo de animal com DNA humano. Cada momento que pensava sobre aquilo, seu coração se enchia de medo.

***

Davis estava em casa outra vez, passava das vinte e três horas e não havia mais ninguém nas ruas. As únicas pessoas que ele via eram o casal lanchando no parque e um estúpido cachorro vira-latas que teimava em olhar em sua direção.

Davis estava excitado. Sabia apenas que queria comer e aqueles dois jovens estavam a ponto de ser sua caça. Algo inusitado então passou por sua cabeça. Quantas pessoas já havia matado? Quantas devorado? Olhou outra vez para o casal e o cão. O cãozinho continuava a olhar em sua direção, assim como o rapaz, mas a moça estava de costas. Dela ele via apenas os cabelos ruivos soltos, dançando ao sabor do vento frio daquela noite. Ela parecia cantar algo, algo suave, doce.

O instinto de Davis era muito forte e ele decidiu que era hora de matar outra vez. Começou a olhar as suas mãos e os seus pés e viu que a transformação começara. A mesma transformação que já ocorrera milhares de vezes nos últimos séculos, e em vez de gritar e urrar como fazia em geral, quando se encontrava nas matas, apenas trancou os dentes e aguentou a mudança que o transformava em um mito, em um homem lobo.

***

Cláudio estava sentado sobre sua moto, ainda de vigia. Pensou em quanto era idiota. Laura telefonou duas vezes querendo saber onde ele estava e se não jantariam juntos como combinaram. Na segunda vez acabou falando a ela onde estava e sobre a vigia que fazia por conta própria, sobre o cara que ele e Alexandre consideravam suspeito. Se sentia como um sentinela tentando guardar o mundo contra o mal. Uma sentinela da morte, talvez.

Tinha mais de quatro horas que estava ali e já começava a sentir as dificuldades da “tocaia”: fome, frio e uma vontade muito grande de urinar. Este último ele poderia resolver ali mesmo, mas quanto ao frio e a fome não.

— O que é que estou fazendo aqui?

Falou consigo e acabou decidindo colocar o capacete e ir embora para sua casa e dormir. Pegou o capacete e viu um par de faróis vindo pela rua. Decidiu arriscar a sorte, mas é claro que não era seu suspeito. Já havia concluído que era uma ideia idiota estar ali esperando alguém que provavelmente estaria a centenas de quilômetros de distância, então outro par de faróis surgiu na rua. Depois de alguns segundos um fiat azul-marinho parou na sua frente e Laura desceu do carro sorridente.

— Se Maomé não vai a montanha… — Laura sorria carregando uma caixa de pizza e dois refrigerantes em lata. Logo depois dela Yucon desceu do carro com o rabo abanando. — parece que somos três para jantar — falou sorridente.

De início Cláudio ficou chateado pelo fato de Laura ir atrapalhar o seu “trabalho”, mas quando viu seu sorriso a zanga passou. Pegou na mão dela e levou-a a um dos bancos da praça, afinal era melhor comerem sentados.

Depois de alguns minutos Yucon começou a ficar zangado com alguma coisa ali perto. Seria outro cão? Ou seria alguém? Cláudio levantou para ver melhor enquanto Laura apenas ralhou com o cãozinho. Os latidos de Yucon ficaram cada vez mais furiosos e Cláudio se aproximou um pouco mais dele para ver melhor. Nas sombras avistou um cão enorme.

Seria mesmo um cão? O animal era enorme, seus pelos eram negros com listagens amarelas e ele tinha o dobro do tamanho de um pastor alemão dos grandes. O sangue de Cláudio gelou e ele ficou paralisado por alguns segundos, mas não Yucon. O cãozinho atacou com fúria o outro, que errou duas dentadas que passaram a milímetros de sua cabeça, dando tempo a Cláudio de pensar, apanhar uma estaca de madeira que apoiava uma árvore recém-plantada e tentar acertar a criatura enquanto procurava gritar por ajuda.

— Deus! O que é isso? — Olhou para trás, para falar a Laura para correr, mas ela estava a apenas uns dois passos dele.

Foi então que o impensável aconteceu. A criatura começou a ficar em pé e se equilibrar em duas pernas. Cláudio achou que tinha uns dois metros de altura, talvez mais. Tentou bater de novo na criatura, pois ele quase acertou uma pisada em Yucon. Ia falar algo para Laura quando sentiu uma das patas dianteiras da criatura acertar sua cabeça. Ele caiu de bruços no gramado a uns dois metros de distância.

Ainda viu Yucon atacar outra vez as pernas da criatura e ela se aproximar de Laura que, naquele momento, cantarolava algo. Antes de desmaiar ainda a viu assoprando algo em pó na direção do animal, dando uma volta completa sobre ele e jogando algo que lembrava uma corrente dourada que saia de suas mãos ao redor do pescoço da besta e parecia se enterrar dentro dele.

O que Cláudio não viu devido, a tontura, à distância e ao desmaio, foi Laura lançar sobre Davis um último encanto que o paralisou e não permitiu que voltasse a ser homem. Naquele estado, nem besta nem homem, ele ainda grunhiu e tentou falar.

Davis, ao longo de sua existência, viu algumas daquelas mulheres, mas sempre procurou se manter distante delas. Sabia instintivamente o quanto elas podiam ser perigosas. Em certa época de sua vida até ajudou a caçá-las, na Inquisição. Mas ali tudo chegava a um final, ela lhe mostrou sua verdadeira face. Ela tinha um enorme corte saindo dos lábios, a pele cinzenta e sem vida. Tentou fechar os olhos ainda dourados de fera para não ver mais, implorou à bruxa por sua vida e por perdão.

Laura deu outra volta sobre Davis, colocou as mãos dentro da bolsa a tiracolo e tirou uma faca de prata, ajoelhou em cima dele e a enfiou fundo no animal uma vez, duas, três, talvez dez vezes, ou muitas mais.

***

Cláudio acordou no hospital, tinha uma unidade de soro colocada no braço esquerdo. Tentou sentar mas foi impedido pela dor na cabeça e por Laura, que o abraçou e o fez deitar de novo.

— Fala herói, ha, ha, ha… — Alexandre estava se aproximando e apertou sua mão.

— Então salvou a namorada nova de um pastor alemão raivoso? Ela me disse tudo. Ela chamou inclusive a ambulância quando você bateu a cabeça no banco da praça. — Alexandre ria prazeirosamente — Muito azar um cachorro atrapalhar o piquenique da noite. É melhor ir pra casa. Deixa que eu peço para alguém levar sua moto.

***

Cláudio nunca achou o assassino das quatro vítimas. Disseram-lhe que Davis Stoke havia se afogado em um rio que cortava a floresta, perto de seu sítio.

Continuou a amizade com Alexandre.

Quanto à Laura?

Casou com ela.

A única coisa ruim de todo aquele episódio foram os pesadelos com criaturas terríveis, meio homem, meio lobo que volta e meia insistiam em frequentar seus sonhos ruins. Principalmente um, que era recorrente, onde uma mulher com olhos azuis e usando uma mantilha negra transparente, cantarolava bruxedos em seus ouvidos pela eternidade.

Um conto de Swylmar Ferreira                                                               em 27 de maio de 2018.

Imagem meramente ilustrativa retirada de search images internet.

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Publicado em 31 de maio de 2018 por em Contos.

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

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Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

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