Fantasticontos, escritos e literários

Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

Vendedor de sonhos impossíveis


Perto da janela o pequeno homem coloca as mãos enrugadas, tanto pela idade quanto pelo frio, na cortina de gorgorão vermelho sujo e a afasta levemente para observar a paisagem gélida do lado de fora da casa. O entardecer estava próximo.

O barulho vindo do leito onde um homem deitado se remexia inquieto, chamou-lhe a atenção. Viu a mulher dele levantar-se rapidamente e passar-lhe um lenço umedecido pela testa, resmungar algo ininteligível, e voltar a sentar apanhando uma revista muito velha, a qual fingia ler.

A revista chamou sua atenção. Mesmo de uma distância razoável percebeu que era de uma época em que a civilização prosperou. Ela abriu um sorriso desdentado. O ser humano nunca deixou de surpreendê-lo, pensou.

Fechou a cortina lentamente e caminhou até a porta de madeira do quarto encostando-a lentamente ao sair.

Ajudou o velho Juvenal Sdortse do melhor modo possível, perto do seu fim. A velha mandara chamá-lo deixando um recado escrito na janela do consultório. Ao chegar, quando o examinou, percebeu que de sua boca emanava um cheiro estranho, que lhe era velho conhecido.

Conhecia o velho Juvenal ha muitos anos, era um dos seus constantes “visitados”. Sabia que nunca foi um primor como homem, nem como marido, mas era um homem bom, principalmente nestes dias de tantas dificuldades. Olhou-lhe os olhos semiabertos e entendeu. Percebeu o olhar penetrante da mulher em sua direção e instintivamente não a encarou. Não valia a pena. Pegou uma das diversas cápsulas que trazia enroladas em um lenço amarelado pelo tempo e fez com que Juvenal engolisse uma, a que continha um pouco da mistura.

Estava tarde – pensou – e precisava ir embora por dois motivos. Primeiro: sabia que a quantidade de veneno que ela o fizera ingerir faria com que ele logo dormisse o sono eterno; segundo: não queria estar por perto quando o velho acordasse de seu “sono”.

Desceu as escadas indo até o sofá onde estavam seu agasalho surrado e a mala de couro velho suarento com arrebites metálicos que, mesmo após tantos anos, ainda uniam couro e metal.

A mala era o local onde estavam estocados os seus pacotes com ervas, plantas e pós dos mais diversos lugares. Olhou-a mais uma vez com todo o cuidado, fechando-a. Ao se encaminhar para a porta e sair da casa, ainda ouviu a sra. Juvenal Sdortse agradecer.

– Obrigado por ter vindo dr. Esra – a voz era nitidamente risonha.

– E não esqueça de levar esse seu bicho esquisito – continuou ela – há coisas horríveis andando nas matas hoje em dia.

A risada da sra. Sdortse agora era nítida e sonora.

Esra Conte agradeceu e saiu. Estava soltando Bichinho quando escutou o barulho de uma tranca ser colocada na porta de metal. Sorriu pensando nas possibilidades, colocou o capuz na cabeça, os óculos e se foi. Enquanto caminhava em direção à vila uma pergunta não lhe saia da cabeça: onde a megera arrumou cicuta?

Anoitecia quando entrou caminhando calmamente pela Vila. Apesar do frio e da garoa fina, ainda haviam pessoas na rua. Era impressionante, mas mesmo depois de tantos anos, ainda havia parte dela asfaltada. Olhou uma mulher jovem entrando rapidamente em um casario de madeira e tijolos com uma placa na porta onde se lia “Empório da Malu” e lembrou-se que precisava comer alguma coisa, mas não seria naquele lugar. Abanou a cabeça negativamente e com tristeza, pensando que a fome era lugar-comum por ali naqueles dias. Atravessou a rua principal e se dirigiu por uma das perpendiculares ao pequeno local que usava como consultório e casa.

Visto de fora, o lugar era miserável. Na rua principal da Vila ainda se via casas bem cuidadas, mas quanto mais se afastava maior era o caos. O lugar onde Esra entrou era assim. Teve que retirar a porta de madeira do lugar e deixar Bichinho entrar. Acendeu alguns lampiões e depois fechou a porta outra vez para ter privacidade em uma antessala mínima. Colocou a mala velha sobre uma pequena abertura no umbral de madeira, escutando os cliques metálicos da mala unindo-se aos da fechadura. Com certo prazer escutava enquanto um zumbido inquietante nascia. Era engraçado como ninguém da Vila nunca escutou … nunca desconfiou. O ser humano era assim mesmo.

Esra respirou fundo fechando os olhos, colocou a mão direita no bolso interno do paletó e com apenas três dedos retirou uma pitada do pó prateado e dourado, que os poucos que o conheciam chamavam de mistura, elevando a mão acima da cabeça e dispersando-o pelo ar. Ainda fazia uma espécie de contagem regressiva quando ouviu a voz do computador.

– Boa tarde dr. Sei que as missões são necessárias, mas o senhor precisa mesmo ficar sem tomar banho?

Esra Conte riu, enquanto tirava a capa e as luvas, pendurando tudo em um armário aberto à sua esquerda. Descalçou as botas colocando os pés no chão, sentindo o piso frio, não gelado, acariciando-lhe os pés depois de tantos dias dentro das botas rústicas.

– Olá Liu 5. Como estão es coisas?

Imediatamente o holograma feminino sorridente surgiu-lhe à frente. As tecnologias de 2555 sempre o surpreendiam. A versatilidade das máquinas a cada retorno era maior. Gostava de retornar à base, de descansar um pouco e se alimentar antes de retomar as missões.

Este era seu trabalho: monitorar os viajantes do espaço-tempo. Supervisionar quais eram as condições de vida daqueles que escolhiam viver nas Colônias e não na Grande Terra. Pessoalmente não entendia a graça de viver em um mundo governado por máquinas, ciborgs e meio-homens. Um mundo cinza dominado pela tecnologia. Entendia o porque dos poucos humanos restantes emigrarem para as Colônias, mesmo as que não deram certo. Ao menos terminavam seus dias em paz.

No início eles tinham poder de policiar e até mesmo julgar os que haviam escolhido a vida nas Colônias, mas essa função não existia mais. Era apenas um monitor.

Outro holograma acabava de se formar a sua frente e desta vez era o principal condutor de missões, repassando novos dados. O que seria desta vez? Outra colônia que não deu certo? Outro choque de realidades? Algum espaço temporal mais ou menos comprometido? Ou apenas um viajante muito velho que pereceu?

Precisava de descanso, só que desta vez não seria possível. Necessitava ao menos comer. Pediu que Liu 5 providenciasse comida para ele e para Bichinho. Bem, fosse o que fosse ele teria que vencer o cansaço e assumir a missão, mesmo que estivesse velho demais para esse tipo de trabalho.

– Que bosta de emprego – disse em voz baixa – onde estão minhas garantias?

Mas aquele era um trabalho que poucos dos poucos humanos existentes poderiam fazer. Poucos se adaptavam ao lapso e menos ainda à mistura.

Calçou botas secas e relativamente novas e pensou na mistura. Somente ela permitia as viagens entre realidades, entre os diversos tempos. Sem ela a humanidade teria desaparecido, como outras tantas nos universos. Olhou para o holograma na sua frente, depois de tantos anos passou a ter sentimentos por ela.

– Quer vir comigo Liu 5? Ficar comigo? Quem sabe nos perdermos em algum lugar e nunca mais seremos achado? Ou mesmo monitorados?

O holograma ficou em silêncio. Mas antes de retirar a mala da fechadura temporal Esra Conte olhou nos olhos do holograma por um momento e sorriu.

A Vila parecia maior, quase uma Cidade. Sem dúvidas aquela Colônia deu certo, então porque mandá-lo para lá? Saiu do habitat e andou até chegar nas vias principais. Percebeu que Bichinho parecia mais inquieto que o normal, então Esra agachou e olhou nos olhos do seu parceiro e ao redor nas ruas. Estavam sendo observados.

Alguns carros com motor elétrico e outros com moto-propulsores se aventuravam nas ruas e nos céus, assim como centenas, talvez milhares de pessoas andavam quase agitadas tentando dar conta de seus afazeres.

Depois de algum tempo procurou um local onde pudesse sentar e entreabrir sua mala. Escolheu um que parecia uma das antigas lojas de venda de aero-propulsores, bastante grande e com diversos vendedores.

– Olá cidadão – disse o homem vestindo algo que parecia um misto de macacão e terno – posso ajudá-lo a escolher seu móvel?

Esra sorriu, levantou-se do pequeno sofá e apertou a mão estendida do homem.

– Claro – sorria amavelmente – vejo que possuem diversos modelos interessantes …

Sentou-se enquanto o homem puxava um visor para lhe explicar cada máquina. Abriu a mala e, sem que seu interlocutor percebesse, em poucos segundos viu o que lhe interessava.

Ao término do diálogo, pediu que o homem o levasse até seu destino, uma gentileza que ele queria fazer. Era uma pequena rua às margens da cidade.

Depois de agradecer efusivamente ao vendedor, dirigiu-se aos habitats que serviam de residência aos cidadãos e deixou que Bichinho encontrasse o que procuravam. Afinal, precisava saber porque o viajante e antigo monitor Jadson Nurk perdeu contato.

Destravou a porta lentamente e enquanto a abria, borrifava com os dedos a mistura pelo lugar fazendo com que a velocidade temporal diminuísse quase a zero no lugar. Dois jovens estavam sentados mexendo nos equipamentos do velho viajante e traziam nas mãos armamentos perigosos. Esra continuou procurando por ele até encontrar restos humanos corroídos por ácido em um dos lavatórios da casa.

Jadson Nurk foi um de seus instrutores, mas o tempo passou e nas últimas visitas percebeu o quanto ele envelhecera. Infelizmente não foi o único a perceber isso, os dois jovens viram que ele era velho e fácil de dominar e provavelmente também de matar. Mas Esra precisava ter certeza disso. Levou os restos de ossos até a mala, abriu-a e retirou de lá um pó vermelho como sangue que parecia feito de vidro. Colocou um pouco em uma vasilha de vidro e em seguida jogou o pó em cima dos restos humanos.

Para aqueles que se dedicam à ciência alquímica é fácil ver o que outros não veem. Esra viu não apenas como foram os últimos momentos de Jadson Nurk, mas capturou todo seu sofrimento, toda a sua dor. Um grunhido de Bichinho o trouxe de volta à realidade.

Esra abriu outra vez a mala e tirou de lá um retângulo de vidro colocando-o em pé em uma mesa no centro da sala. Lá o pequeno equipamento colheu todos os principais momentos ocorridos no habitat residencial nos últimos períodos de tempo, repassando para o visor.

Jadson havia recolhido os jovens das ruas onde se envolviam com todos os tipos de ilícitos, deu-lhes uma casa e cuidou deles. A recompensa que eles lhe deram foi aquela. Eles o haviam assassinado apenas para ficar com o habitat.

Esra retirou Bichinho de perto do lugar e ficou na esquina enquanto pensava no que fazer. Há tempos aqueles que exerciam seu trabalho não eram polícia, quanto mais juiz, então o que fazer?

Não ter a função não significava não fazer justiça. O pó vermelho havia capturado o sofrimento e a dor do velho Jadson, então Esra colocou a poeira vermelha sobre as cabeças dos jovens e se afastou recolhendo, com um gesto, a mistura do lugar.

Sabia que em breve tudo voltaria ao normal no habitat e ele não queria estar ali quando os jovens acordassem.

Foi até um fone e chamou um móvel para levá-lo até o habitat onde ele havia chegado. Mesmo de longe podia ouvir os gritos de desespero dos dois rapazes enquanto vizinhos e autoridades tentavam ajudá-los descobrindo o que lhes afligia. Mas era tarde demais, o pó já havia tomado conta de suas almas e seus desespero e dor seriam até o fim de seus dias.

Esra acordou com Liu 5 acariciando seu rosto. Havia tomado a decisão de não trabalhar mais lá, estava cansado de tudo aquilo. Estava velho e precisava descansar, aquele era o momento certo para se retirar. Também não ficaria na Grande Terra, nem naquele período de tempo. Contatou o Liu do centro temporal e avisou que a partir daquele dia se retiraria.

Pegou Liu 5 e passou seus dados para a mala, havia programado o computador para que os dados do lugar para onde iriam fossem apagados. Não deixaria sua mala como os antigos monitores faziam.

Surgiu do outro lado, em uma cabana destroçada pela mata fechada que de tão densa poderiam se perder. Bichinho os conduziu até saírem em um lugar belo com uma cachoeira alta formando um salto.

Um habitat, que ele havia transferido para aquele lugar específico anos atrás, estava incrustado no sopé da montanha. Quando Liu 5 o viu, ela sorriu e correu em sua direção brincando com Bichinho que saltitava ao seu redor. Esra sorriu para ela.

A senhora Sdortse acordou cedo naquele dia. Foi a cozinha, colocou leite em uma vasilha de metal, esquentou um pouco, colocou na xícara e bebeu. Tinha certeza que quando chegasse no quarto de Juvenal ele já teria morrido. Para sua surpresa a cama estava vazia.

Desesperou-se, correu em direção às escadas e desceu o mais rápido que podia, até que algo bateu em suas pernas e ela rolou a metade das escadas para baixo desmaiando. Acordou no sofá da casa com muita dor nas costas, tentou mexer as pernas e não conseguiu, começou a gritar por socorro até que o velho Juvenal saiu da cozinha trazendo uma xícara com bebida quente. Ele estava cinza e os olhos estavam esbranquiçados, como se tivesse morrido há muito tempo. Aproximou-se dela e perguntou estendendo a bebida quente:

– Cicuta?

Fim

Um conto de Swylmar Ferreira

Imagem meramente ilustrativa ilustrativa

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