Fantasticontos, escritos e literários

Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

N a t a l i e – Um conto de Andre Bosi


Natalie

 

 

 

 

 

 

“O improvável está sempre à espreita de um cenário ideal.”

 

Naquela sexta, Joe estava mais pensativo que o normal. Imagens da noite em que fora misteriosamente presenteado com a esfera dançavam em sua mente, e provocavam-lhe uma sensação desagradável. Tentava se desvencilhar, porém sem sucesso.

Não obstante, aquele último mês tinha sido mágico na vida de Joe. Períodos em que o garoto experimentava um excesso de confiança revezavam-se com uma baixa estima, que praticamente o acompanhou a vida inteira. Apesar de ter que conviver com sensações contraditórias, Joe estava lidando bem com a situação a não ser por uma questão que o inquietava e sempre apresentava-se em seus pensamentos: “Como pode ter sido eu, justamente eu, escolhido? Às vezes penso que jamais saberei. Isto me angustia e de certa forma dói.”.

 

Vinte e nove dias e 11 horas atrás

 

Por volta das 23h45min, Joe estava no seu primeiro sono, quando um ruído grave como de um início de terremoto o acordou. O quarto do garoto não era grande, onde predominavam apenas uma pequena cama em um dos cantos, e um também não grande guarda roupas em outro. Havia uma grande variedade de objetos distribuídos em prateleiras fixadas aleatoriamente no restante das paredes. Nos momentos que se seguiram, a impressão de Joe era que o espaço se multiplicara consideravelmente. Ao abrir os olhos se assustou com uma luz azulada que parecia sair da parede perpendicular à sua cama. Para seu maior espanto, a luz foi aumentando gradativamente a ponto de tomar também parte das paredes laterais, e em seguida como uma grande tela de cinema, Joe começou ver uma sequência de imagens em incrível nitidez:

Uma mão humana ergue uma pequena esfera, e os cinco dedos estrategicamente posicionados em desenhos geométricos segmentados na superfície foram pressionados, empurrando estes desenhos para o centro do objeto, que se moveram lentamente como uma chave. Um zumbido agudo e ascendente preenche o ambiente, e de toda a superfície da esfera uma luz extremamente concentrada é irradiada, e vai aumentando até tomar conta da visão e de alguma maneira, inicia movimentos rotatórios com pulsos extremamente rápidos, que vão acelerando até que a luz se pareça com o sol do meio dia, e o movimento não ser mais perceptível. O zumbido também atinge o auge de tolerância humana. Mesmo com as mãos tapando os ouvidos, Joe não perde nenhum detalhe da visão.

De forma inesperada e instantânea tanto a luz como o zumbido cessam, restando somente uma mão segurando uma esfera. E é aí que vem o pior:

Com um forte estrondo, que parece sacudir todo o quarto, ainda aumentando exponencialmente o volume, um mini buraco negro é gerado e inicia sua jornada catastrófica, numa terrível missão de desaparecer com tudo à sua volta. Joe fica estarrecido ao ver o ponto negro ganhando proporção assustadora num ritmo frenético e inimaginável, até atingir a circunferência de mais ou menos cinco mil metros, para, a partir daí, sugar tudo à sua volta, na forma de um sumidouro negro, onde montanhas, mares e a própria terra são engolidos vorazmente até que não reste mais nada, nem mesmo o próprio buraco negro que é esmagado pela sua própria força.

Sob o manto das estrelas, onde antes existia um planeta, agora somente o vácuo predomina.

Alguns minutos se passaram e a visão se esvaece em forma de névoa, até que em seu lugar, Joe se depara com quatro grandes seres a encará-lo. Com altura que quase atingia o teto, sutilmente mexiam somente as cabeças, cobertas por uma espécie de manto negro, que descia e encobriam-se lhes também todo o corpo.

Parecia ao garoto que os sobressaltos não teriam fim. Sentado na cama, segurando as pernas encolhidas, totalmente boquiaberto e à espera de alguma resposta, Joe fitava os intrusos de grandes olhos negros e penetrantes que absorviam tudo e não devolviam nada. Seu corpo todo tremia como em calafrios de febre. Quebrando a inércia, o ser mais à sua esquerda, estende o braço onde uma mão de dedos longos e afilados é aberta, revelando um objeto, que Joe identificou rapidamente como sendo o mesmo que vira na visão holográfica, porém de cores mais vibrantes, assim como os desenhos geométricos em toda a sua superfície. A princípio houve certo encantamento do garoto com relação à esfera, entretanto, esta sensação se transformou rapidamente em medo e prudência. Como houve demora na decisão do garoto em pegar a esfera que lhe era oferecida, o ser balançou a mão três vezes, foi quando Joe mesmo relutante a pegou, pois não estava a fim de decepcionar os desconhecidos. Assim que Joe pega a esfera, o ser recolhe sua mão novamente para dentro de sua roupagem, e o garoto percebe o aceno que fez com a cabeça em sinal de aprovação. A esfera não era grande, e parecia ter sido moldada exatamente para a sua mão, deixando-o maravilhado. Não parava de encará-la, foi quando identificou que os desenhos marcados se encaixavam exatamente em seus cinco dedos. Lembrou-se novamente da visão, e simplesmente suas feições mudaram para um rosto que refletia medo. A princípio a reação foi de soltar aquilo no chão, quando um pavor ainda maior se apoderou dele. Pensou: “Se um poder tão grande era liberado apenas com o pressionar de dedos, o que não poderia acontecer se o deixasse cair?”.

Ainda sem entender muita coisa, Joe reteve o objeto e voltou a concentrar sua atenção nos misteriosos intrusos. Todas as perguntas que preenchiam sua mente ainda estavam sem respostas, mas ainda restava a esperança de conhecê-las. Contudo, para sua surpresa e decepção, irresponsavelmente os visitantes fecham os olhos, abaixam as cabeças, e aquilo que o garoto acreditava serem corpos físicos, vão esmaecendo até desaparecerem por completo. Joe ficou estático por uns bons dez minutos, como que esperando ainda o desenrolar de algo, que não aconteceu. Não havia sequer o consolo de ir para casa e refugiar-se em seu quarto, pois já estava lá. Aquela foi uma longa noite. Somente após três horas Joe pegou no sono encarando a esfera, e acordou várias vezes para novamente observá-la.

O objeto por muitos dias iria atrair consideravelmente sua atenção, que sempre o recuperava do esconderijo secreto, para observá-lo e tocá-lo, a fim de continuar acreditando tratar-se de algo real.

 

JOE

 

Joe nasceu e cresceu em Wilmington no estado de Ohio, onde muito cedo, com apenas sete anos de idade perdeu os pais de forma trágica. Franzino e de baixa estatura, foi criado por sua tia Meg, que dividia o tempo entre os afazeres domésticos, o trabalho no bar do Ben, que tomava-lhe o tempo mais do que gostaria, e por último, as necessidades extraordinárias de Joe. Com o passar dos anos, ficou difícil esconder do garoto o gosto por uma boa dose de uísque. Desta forma, Joe foi se virando mais por conta própria, do que pela ajuda de sua tia. Com dez anos de idade, teve ainda a tristeza de ter se acidentado gravemente, quando em uma curva a caminho da escola, na Oak Street, sua bicicleta foi de encontro à lateral de um carro. Deste acidente, restou-lhe um problema na perna esquerda, que o obriga a mancar até hoje.

A falta de recursos o impediu de ter tido a chance de se recuperar melhor. Como se isto não bastasse, Joe teve ainda que conviver com chacotas e apelidos daqueles que se diziam colegas de escola. Isto foi o que de fato o afetou, pois Joe não conseguia compreender como pessoas poderiam agir desta forma com as outras, ainda mais nas condições em que se encontrava. Com o tempo desistiu de entender, e apenas deixou de frequentar a escola. Isto foi um pouco antes de Joe completar onze anos.

A partir dai restou-lhe apenas a opção de trabalhar, quando aos doze anos, conseguiu um emprego no armazém do Sr. Zacary, onde está até hoje.

Wilmington é um lugar pequeno, e vez ou outra, adolescentes ex-colegas de Joe ainda o importunam, como se movidos por uma maldade viral, isenta da menor proporção que seja de compaixão humana.

 

DIVERSÃO

 

Como era de costume, nas tardes de sexta-feira Joe apreciava ir até o bar do Ben onde sua tia trabalhava, jogar umas fichas de fliperama, e mais tarde comer um generoso sanduíche de bisteca com batatas fritas. Afinal, além de seu trabalho e sua bicicleta, que habilidosamente conseguir andar, não lhe restavam muitas opções de atividades fora de sua casa. Aos olhos certos, aquela sexta apresentava-se especialmente bela. Um sol não muito forte revelava-se no céu entre nuvens que se movimentavam lentamente, e no chão as folhas das árvores dançavam ao sabor do vento, formando sugestivos mosaicos, indicando que o outono estava em seu ápice. Uma temperatura no início da tarde, por volta dos 16ºC, sugeria uma noite fria.

Neste dia Joe estava bem, e porque não dizer empolgado. Com a inseparável mochila nas costas saiu de casa um pouco antes das 16h00min, pedalando descompromissadamente. Como de costume sempre levava consigo revistas de quadrinhos e um videogame portátil, que tornou-se seu companheiro inseparável.

Diferentemente das vezes anteriores, não foi direto para as máquinas de games. Apenas sentou-se frente a uma grande janela de vidro e pôs-se a observar. Era como se não estivesse de fato ali. Com os pensamentos a vagar sabe-se Deus onde, sentiu uma sacolejada no ombro tirá-lo forçosamente do transe.

 – Joe? Joe?

Foi quando de um sobressalto virou e deparou-se com sua tia.

 – Tia Meg!

Joe, você está tão distraído. O que esta acontecendo?

 – Não é nada. Estava apenas pensando.

 – Não vai se divertir hoje?

Tia Meg estava se referindo as máquinas que tanto Joe gostava.

 – Talvez mais tarde.

A senhora controlando seu impulso desistiu de inquirir o sobrinho. ”Deve ser coisa da idade”, pensou.

 – Pelo menos gostaria de seu lanche agora?

Isto sim chamou a atenção do garoto, pois além de estar com fome, seria aquele especial, preparado por sua tia.

– Está bem tia Meg, se puder agora.

– Ok, não saia daí, voltarei logo.

Assim que a tia Meg se retirou, como que mecanicamente, Joe voltou novamente a divagar com pensamentos para além daquela simples paisagem estampada à sua frente.

As 16h50min, Joe deixou o bar com o firme propósito de seguir para um lugar que especialmente naquele dia estava a preencher seu desejo. O lago, e até mesmo os patos, que talvez com um pouco de sorte estivessem lá.

 

REALIDADE

 

O Willians Memorial Park estava convidativo naquela tarde. Ainda restava pelo menos uma hora e meia de claridade, e os raios do sol como se sujeitos a um filtro amarelo, projetavam-se sobre a superfície do lago e sobre as árvores ao fundo, de forma suave, e uma leve bruma já podia ser vista em recônditos onde a luz do sol não penetrava.

Pelo menos uma dezena de patos selvagens nadavam lentamente em direção à margem mais isolada e arborizada daquele pequeno habitat natural.

Ao longe pela Five Avenue, uma pequena bicicleta se aproximava rapidamente. Não demorou nem cinco minutos para que um garoto franzino, mas de movimentos determinados, estacionasse sua bike na calçada. O movimento de carros era pouco, ou quase nenhum. Havia uma pedra que por ter a base lisa, convidava a um repouso frente aquele espelho d’água. Joe sem pensar duas vezes, tomou assento e colocou sua mochila ao lado, pondo-se a admirar cada detalhe ao alcance de sua visão.

Tão absorto em sua contemplação, nem percebeu a chegada de um carro que estacionou a poucos metros. Somente se deu conta de que não estava sozinho, quando foi cercado por quatro rapazes, não muito mais velhos que ele, exceto um, que aparentava ter pelo menos dezoito anos. Para sua tristeza, Joe os reconheceu de imediato. Os três mais jovens eram da mesma escola onde Joe havia estudado pela última vez, e sem dúvida nenhuma, eram a maior parte do motivo pelo qual havia abandonado os estudos. Contrariamente de pouco tempo atrás, agora o coração de Joe batia em movimentos acelerados. Nem por um momento imaginou tal coisa. Não queria passar por aquilo novamente. Na verdade não tinha mais estrutura emocional para tolerar o que estava por vir. Pensou em pegar sua mochila e correr até sua bicicleta, porém logo desistiu, pois era óbvio que esta ação seria suprimida rapidamente. E o que era pior, estava completamente só. Lembrou-se de que situações como esta eram mais fáceis de lidar quando se tem pessoas por perto, como na escola. Tremeu por dentro. Temia por sua vida. Uma voz cheia de sarcasmo o tira de seus desesperados devaneios.

 – Ora! Ora! Ora! Se não é o perneta do Joe. O que faz o garotinho longe de casa? Não sabe que é perigoso andar por aí sozinho, ainda mais quando se é deficiente?

Estas palavras machucaram Joe, mas sua indignação fora um erro.

 – Deficiente é quem não respeita a diferença das outras pessoas.

O mesmo jovem que proferiu as ofensas, agora estava com a raiva estampada em sua face, e caminhou na direção do garoto. De forma truculenta, pegou o colarinho de Joe puxando-o com força em sua direção e falou de forma gritada:

 – Cuidado aleijado, nos não estamos brincando.

E após terminar esta frase, empurrou Joe no chão, de costas, que por sorte bateu a cabeça na grama.

 – Por favor, me deixem em paz!

Além de o pedido não ter sido atendido, seu algoz fez um gesto para dois companheiros que levantaram Joe pelos braços ficando assim ainda mais vulnerável. Neste instante um soco na barriga, o fez se contorcer em espasmos de dor. Ainda com a cabeça pendente e o corpo retorcido, um sentimento de completo abandono se apoderou dele. Porque aquilo estava acontecendo? Nunca fizera mal a ninguém. Sem tempo para recobrar-se da pancada, uma pergunta o desafiou novamente.

 – Onde esta a grana? Queremos o dinheiro.

Esta pergunta entristeceu muito Joe, pois sabia que pela falta de dinheiro suficiente, poderia apanhar novamente.

De forma ainda mais brusca, o rosto do jovem agora quase tocava o rosto de sua vítima.

 – Não ouviu o que eu disse sua mulherzinha? Vamos, passe logo o dinheiro, senão!

Agora com um leve sorriso sarcástico nos lábios continuou:

 – Senão!

Alguns segundos se passaram.

 – Senão, vou deixar o Caldwell cuidar de você.

E olhou para o garoto a quem chamava de Caldwell, que sorria ainda mais sarcasticamente.

 – Ele está louco para pôr as mãos em você.

Joe já quase sem forças viu-se obrigado a se defender de alguma forma:

 – Por favor, tenho nove dólares no meu bolso, podem levar.

Seu inquiridor sem pensar, meteu a mão no bolso da calça de Joe, e retirou o dinheiro. Após guardar sem ao menos contar, continuou a sessão de tortura:

 – Você pensa que isto é o suficiente? Estou vendo que quer apanhar mais.

 – Acredite isto é tudo que tenho.

Neste momento, um dos malfeitores falou em tom alto e revelador, apontando para algo no chão:

 – A mochila!

Todos voltaram sua atenção para a mochila, deixada perto da pedra.

 – Ao perceber o que estava prestes a acontecer, Joe ficou ainda mais angustiado. Além das dores, agora sentia o suor a escorrer-lhe pelo pescoço. Tentou controlar a situação.

 – Não tem nada nela, apenas umas revistas velhas.

Caldwell caminhou em direção da mochila, sob os olhares curiosos. Joe continuou tentando salvar seus pertences:

 – Já disse. São apenas revistas velhas.

O chefe percebendo a manobra que tentava dirimir sua ação para angariar mais recursos, não se conteve de raiva, e desferiu novamente um soco no ventre de Joe, e como se quisesse terminar sua odiosa tarefa, acertou novamente outro no rosto, quando o garoto não suportando mais, viu suas forças se esvaecerem por completo.

Quando seu rosto tocou o solo, a visão já turva contemplou por um breve momento os raios do sol alterando a tonalidade do lago e o bruxulear do fog se movendo lentamente rente à superfície.

A temperatura caia rapidamente no Willians Memorial Park à medida que a noite se aproximava.

 

RECONHECIMENTO

 

Tia Meg havia percebido nos últimos dias, uma mudança no comportamento do sobrinho, e estava gostando, pois Joe estava mais atirado e com decisões firmes. De certa forma, sempre soube das decepções que cercaram a vida do garoto, contudo sempre achou que era necessário que ele mesmo aprendesse a lidar com as situações. Fato é que, a mulher nunca teve a real noção da amplitude dos acontecimentos.

A última semana, sem que percebesse, refletiu bastante sobre este relacionamento.

Algum tempo depois de ter servido o sobrinho, saiu da cozinha rapidamente para ficar um pouco ao lado dele, se sentindo culpada da distância que a vida impora aos dois, e porque não dizer, poderia ter-lhe dedicado um pouco mais de tempo ao invés de buscar refúgio na bebida, quando se entregava irresponsavelmente nos braços de um sono que até então considerava insubstituível. Ao chegar à mesa onde Joe estava, decepcionou-se ao ver que o garoto já tinha saído, visto que teria que adiar sua mea culpa. Decidiu que naquela noite iria mais cedo para casa.

 

DE VOLTA AO LAGO

 

Um carro saiu cantando pneus pela Five Avenue afora. As águas do lago começaram a se agitar, quando espantosamente um gigante de doze metros de altura levantou-se e com uma rápida corrida alcançou o veículo, virando-o com um dos pés. O gigante abaixou-se, pegou-o, e levantou-o com as duas mãos. Pôde ver claramente, que dentro estavam quatro rapazes gritando aterrorizados. Sem nenhum sentimento de compaixão, iniciou um esmagamento do carro ao som cada vez maior de uma gritaria desesperada. O gigante estava sentindo enorme prazer ao ver aquilo que imaginava ser a justiça sendo feita, e começou a gargalhar freneticamente. Mas espere! Como pode isto? Quem é este gigante. Um enorme esforço estava sendo feito para vislumbrar seu rosto, até que: Não pode ser! Sou eu! Como assim isto é possível?

De um sobressalto Joe ergueu rapidamente a cabeça do solo e com os olhos arregalados, obteve as respostas para suas perguntas.

Estava visivelmente assustado e abatido, e ainda com as batidas do coração em descompasso.

O lago ainda estava lá, só que agora bem mais opaco e nevoento, e a grama parecia mais fria e úmida. Inacreditavelmente estava aliviado por não ser um gigante. Ficou ainda alguns minutos deitado na mesma posição, pois seu abdômen doía muito, sem falar na parte interna de sua bochecha esquerda, que doía e ardia ao mesmo tempo. Transcorridos alguns minutos, o jovem iniciou uma tentativa de erguer-se, independentemente das consequências que este ato lhe imporia. A princípio sentou-se, acariciando a barriga com uma mão, e com a outra tentou ajustar sua arcada dentaria, como se esta ação fosse lhe trazer alivio, quando percebeu que estava com a boca molhada. Como que de reflexo, olhou para sua mão, quando teve a certeza tratar-se de sangue. Isto mesmo, sangue humano; seu próprio sangue. Ficou ainda mais abatido psicologicamente, e sem forças para se levantar. Mesmo assim, raciocinou: Não tinha um espelho, e consequentemente não saberia a extensão da lesão em seu rosto. O mínimo que poderia fazer era caminhar até o lago e lavar-se. Estava decidido. Ergueu-se lentamente, e com o tórax contraído sobre o abdômen, caminhou também lentamente na direção do lago. Agachado à margem, lavou-se demoradamente até sentir certo alivio. À medida que a água atingia seu rosto, perguntas iam revezando-se em seu cérebro, e sem respostas, transformavam-se em uma raiva crescente em direção a um evidente acesso de fúria. “Não importa que não estejam mais aqui. Não vou permitir isto nunca mais”. Lembranças de acontecimentos semelhantes vagueavam em sua mente. “O mundo não é justo e não se importa comigo. As pessoas são essencialmente más. Se eu pudesse acabaria com tudo”. Neste exato momento, Joe lembrou-se da visão que tivera há tempos atrás.

 

DECISÃO

 

Faltavam ainda uns vinte minutos para que Joe saísse em direção ao bar do Ben. Desde que recebera o presente, mantinha-o guardado em um lugar secreto e a salvo do mundo, onde quase todos os dias passava um momento admirando-o, mesmo que com respeito e temor. Não sabia bem porque, mais hoje estava decido a levá-lo consigo.  Que mal teria isto? Afinal o objeto era seu. Fora um presente. Joe tinha certeza disto. E de mais a mais, não mostraria a ninguém, nem mesmo a sua tia. Decidido, enrolou-o em um pano, e guardou-o em sua mochila.

 

CORAGEM

 

Ainda perplexo com a expectativa de uma realidade desejada, de uma vingança primorosa, o garoto franzino e de traços puros, agora era um leão que rugia e não sentia pena de suas presas. À medida que se dava conta do poder que havia trazido consigo, bem ali, ao alcance de sua mão, uma euforia apoderou-se dele, como se acabasse de receber uma injeção de dopamina com adrenalina. Estava ofegante, com um estranho brilho nos olhos, e cenho evidente. Era certo que uma luta brutal estava sendo travada em sua mente neste momento. O bem, representado pela verdadeira essência de Joe, tentava desesperadamente demover os intuitos malévolos e destrutivos daquele novo Joe, que nascera de uma revolta criada e recriada pela profanação de uma inocência que não entendia os motivos cruéis de sua agonia. Num atino lembrou-se que sua mochila fora vasculhada, e o medo de que o objeto tenha caído em mãos estranhas fez com que um calafrio lhe percorresse o corpo. Meio paralisado, com receio de procurar e constatar que não se tratava apenas de um medo, o garoto somente fitava o horizonte à sua frente, com água a escorrer-lhe do cabelo e da face. Pelo menos cinco minutos se passaram, até Joe perceber que ficar ali parado não adiantaria de nada. Virou-se, e olhando ao derredor na tentativa de vislumbrar sua mochila, não obteve sucesso. Ao invés de receio, esta primeira constatação aumentou a irritação do garoto. “Não é possível, que além de tudo levaram meu presente. Isto não pode ser. Se isto tiver acontecido, matarei todos eles”. Tinha que continuar procurando, e na medida do possível, deixou as margens do lago, e caminhou em direção à pedra em que estava sentado. Desta feita, o raio de alcance de sua visão aumentou, foi quando percebeu ao longe no asfalto, algo que lhe chamou a atenção. Caminhou um pouco mais rápido, quando identificou sua mochila. Mesmo hesitante pegou-a, manuseando rapidamente. “Não pode ser, está vazia”. Joe não pôde conter sua decepção, e deixou-se cair de joelhos. Aquilo poderia se transformar em uma catástrofe. Uma cobrança pessoal reverberava-se em sua mente a todo instante. “Como pude deixar isto acontecer? Eles confiaram em mim”. Naquela mesma posição, o garoto se postou por longos minutos sem se mexer. Raciocinava rapidamente a procura por uma solução. “Preciso recuperar o objeto, mas como, se nem mesmo sei onde moram? Mesmo que soubesse, como faria?” Com movimentos letárgicos, e o olhar fixo sempre à frente, Joe levantou-se e caminhou em direção ao lago. Já passava das 17h30min.

Os últimos raios amarelados do sol se projetavam obliquamente à superfície do lago agora provocando uma tonalidade dourada.

Aquele pequeno habitat se preparava para chegada da noite.

Assim que Joe passa em frente à pedra em que estava sentado, uma luz concentrada lhe ofusca os olhos. Contraindo as sobrancelhas, tentou identificar o que era, e de onde vinha, foi quando percebeu o reflexo do sol saindo de uma touceira a sua esquerda. Rapidamente chegou até ela, e para sua surpresa, oculto bem no meio dos arbustos, lá estava ele, o seu pequeno grande presente. A esfera estava novamente em seu poder, aconchegada em sua mão. Um grande alivio refrescou lhe a mente, embora uma questão aflorasse incontestavelmente:  “Como o objeto foi parar ali, se estava bastante aconchegado na mochila? Como eles não a viram? Era impossível imaginar que não lhe dessem crédito a ponto de jogá-la fora pois, não bastasse apenas observá-la, ao ser envolvida na mão, ter-se-ia certeza de algo extraordinário”. Joe pensou que provavelmente nunca teria as respostas para estas indagações. Com a esfera presa em sua mão direita, Joe olhou em sua volta, e a paisagem que há pouco tempo atrás lhe acalentou a alma, agora parecia sombria e temerária. Uma grande tristeza apoderou-se de sua alma, e aos poucos foi se transformando em um misto de revolta, indignação e profunda raiva de sua condição humana. Levantou um pouco sua mão e passou a encarar o objeto. Aos poucos sua respiração foi aumentando até ficar ofegante novamente. Imagens de situações desagradáveis coordenavam um dança fúnebre em seus pensamentos. Parecia que estava tentando se cercar de convicções para aquilo que estava prestes a executar. Até mesmo a imagem de sua tia vinha envolta em uma névoa de ressentimentos. Já não havia mais o que pensar. Tudo estava perdido.

E, precisamente às 17h45min do dia 16 de Outubro de 1987, às margens de um pequeno lago da cidade de Wilmington, no estado de Ohio nos Estados Unidos da América, um pequeno jovem estava prestes a se responsabilizar pela extinção de uma raça, que se gabava em possuir grande intelecto e conhecimento, e antagonicamente mergulhava-se em um mar de estultícia e ignorância. Uma força jamais concebida estava somente à espera de um comando, para exibir-se numa dança mórbida e grotesca, completamente alheia as leis da física conhecida e do cotidiano de criaturas que ingenuamente aguardavam por mais o nascer de um novo dia ou o cair de uma noite.

Joe ergueu a mão bem alto, como se este gesto o fosse livrar do titânico poder que estava prestes a ser liberado. Contraindo o rosto, pressionou a superfície da esfera aguardando alguns segundos, sem que nada acontecesse. Foi aí que se deu conta de que tinha de posicionar seus dedos de forma correta. “Como sou burro”, pensou. Desajeitadamente pegou a esfera com a outra mão, colocou os dedos de forma precisa, e ergueu-a novamente. Ao fazer pressão com as pontas dos dedos, percebeu algo se movendo para dentro. Imediatamente um zumbido fino e ascendente começa a preencher o ambiente.

 

SURPRESA

 

Com o coração já preparado para o pior, Joe pensou escutar uma voz de criança. Tentou ignorar, imaginando ser o seu subconsciente, porém pela segunda vez a voz o tirou de sua concentração:

 – Ei garoto!

Uma luz extremamente concentrada começa a ser irradiada em toda a superfície da esfera.

“Meu Deus, será que nem para isto eu vou ter paz?” Quando a luz inicia movimentos rotatórios, Joe indignado pela repentina interferência, relaxou os dedos, quando percebeu que as depressões criadas no objeto também regrediram até nivelarem por completo com a superfície não deixando o menor sinal que fosse. Imediatamente os efeitos de luz e som acima de sua cabeça iniciaram uma reação inversa, até cessarem por completo. Não foi muito difícil Joe concluir que, a detonação total, dependia apenas que se mantivesse conectado com os comandos. Ainda envolto em pensamentos e considerações, foi novamente incomodado pela voz:

 – Ei garoto! Me chamo Natalie e você?

Joe agora com raiva pela interrupção em algo de tamanha importância virou-se para a direção aonde vinha a voz, e foi surpreendido pela visão de uma garotinha a mais ou menos cinco metros de distância, que aparentava não ter mais do que sete anos de idade. Na posição que se encontrava, parecia ter vindo da Five Avenue, na direção oposta ao centro da cidade. Com um vestido claro sem mangas, era evidente a ausência do braço direito daquela pequenina. Joe percebeu ainda, óculos de lentes bastante espessas, ocultando o contorno de seus olhos. Longos cabelos ruivos e encaracolados contrastavam com um rosto pequeno e de traços singelos, onde um largo sorriso parecia ter sido moldado definitivamente.

Joe ainda mantinha seu braço erguido, como se determinado a retomar aquilo que havia começado. Entretanto neste momento estava totalmente sem ação, apenas observava aquela menina que de forma arbitrária o havia interrompido. Uma coisa o incomodava: como alguém com aquelas deficiências poderia sorrir tão demoradamente e de forma tão contagiante? Como era de se esperar, a menina quebrou novamente o silêncio:

 – Porque está com a mão levantada? É uma brincadeira? Posso brincar também? Que luzes eram aquelas na sua mão?

Quatro perguntas ao mesmo tempo já era demais. Joe ainda estava confuso com tudo aquilo, mas sentiu necessidade de retomar o controle da situação.

 – Espere! Espere! Espere! Eu é quem pergunto: Quem é você, e o que faz sozinha neste lugar?

 – Me chamo Natalie, e você?

 – Natalie, o que faz sozinha neste lugar? Já é quase noite.

 A menina sem mudar as feições do rosto, como se aquilo não a incomodasse, continuou:

 – Estamos fazendo piquenique, eu, minha mãe e meu pai. Tenho uma amiga a Anne, mas ela não pôde vir, sua mãe disse que ela está com catapora. Você já teve catapora?

Joe visivelmente preocupado nem se deu conta de que havia baixado o braço.

 – Escute, isto não importa. Temos que encontrar seus pais.

 – Você ainda não me disse o seu nome.

Novamente pego de surpresa, Joe não teve saída:

 – Me chamo Joe.

 – É um belo nome. Eu gostaria de ter um amigo chamado Joe. Você quer ser meu amigo?

Joe foi impactado por aquela pergunta, pois durante toda a sua vida, nunca a havia escutado. Meio que sem jeito respondeu com outra pergunta feita de forma enfática:

 – Mas porque você quer ser minha amiga, se nem mesmo me conhece?

 – Só de olhar para você, sei que seria um bom amigo.

Nesta altura, Joe já não sabia mais o que dizer, e ficou a mercê daquela garota falante, e que assumiu o controle da situação, como se de fato estivesse falando com um amigo de muito tempo.

 – Sabe Joe, na verdade só tenho uma amiga, a Anne, aquela da catapora, só que não é sempre que sua mãe a deixa brincar comigo. A Anne me ajuda na escola, quando aqueles garotos malvados me xingam. E não são somente garotos, algumas garotas também puxam meu cabelo e dizem que sou aleijada. Sabe, fico muito triste, e não tenho vontade de voltar, mas a Anne me diz sempre que não devemos deixar a decisão de nossas vidas nas mãos de outras pessoas, sejam elas boas ou más.

Joe sem saber já estava envolvido, e desejou saber mais daquela pequena:

 – O que aconteceu com seu braço?

 – De fato eu não sei. Não me lembro. Minha mãe sempre diz que esta resposta não importa, e que não devemos deixar o passado parar o nosso futuro. Quer saber, isto não me preocupa mais. Tenho meu braço esquerdo, e faço desenhos muito bons. A Anne disse que são os mais lindos que ela já viu. Se você for à minha casa posso lhe mostrar. Ai poderei lhe apresentar também meu cachorrinho, o Toddy. Sabe, estou ensinando ele a empurrar o portão quando estou carregando os livros.

Neste momento, Joe já não precisava de mais nenhuma resposta, quando sentiu seus olhos umedecerem. Era a primeira vez que se identificava de fato com alguém. Para ele aquilo nada mais era do que um tipo de irmandade. Incrivelmente, sentia-se como já conhecesse aquela frágil menina há muito tempo. Sentiu-se preocupado.

 – Onde estão seus pais? Precisamos encontrá-los.

Natalie, agora já na frente de seu suposto amigo, se sentia cada vez mais a vontade:

 – Não se preocupe, logo estarão aqui.

 – Como assim? Eles sabem onde você está?

 – Fique tranquilo Joe, mamãe sabe que gosto de vir aqui apreciar o lago e os patos.

Ao ouvir aquilo Joe apenas sorriu, pois aquele gosto lhe era bem peculiar.

Naquele momento, a menina que não parava de observar Joe, percebeu que sua boca estava sangrando, e fez um gesto de espanto, falando em um tom mais alto:

 – Joe, tem sangue na sua boca!

Instintivamente Joe levou a mão nos lábios, e constatou que o sangramento ainda não havia parado. Para não preocupar a menina, deu pouca importância ao fato:

– Não é nada. Apenas cai de minha bicicleta. Já estou bem melhor.

Natalie, porém tomou as dores para si:

 – Esta doendo Joe? Sei que está. Posso fazer alguma coisa? Vou pegar água para você se lavar.

O garoto ficou meio tonto com tantas perguntas.

 – Calma Natalie, fique calma. Eu estou bem. Estou mais preocupado é com você. Vou até a beira do lago, e você fica aqui, ok?

 – Claro Joe, você é quem manda.

Joe fez um trejeito com o canto da boca, esboçando um leve sorriso. Gostou daquilo. Era incrível como aquela garotinha lhe trazia paz.

Foi até beira e lavou-se novamente, e quando retornou Natalie estava sentada na pedra lisa a observar o lago.

 – Sente-se aqui Joe, e veja como é linda a paisagem.

Joe obedeceu, e ali se postou também a admirar, esquecendo-se completamente dos recentes eventos.

Longos minutos se passaram até que Natalie quebra novamente o silêncio:

– O que é isto em sua mão Joe?

O garoto sem perceber ainda portava a esfera em sua mão direita.

Admiravelmente tranquilo Joe estendeu o braço para frente e abriu a mão, para que Natalie pudesse ter a visão precisa do objeto.

 – É linda. Como conseguiu? Quem lhe deu?

 – Uns amigos me deram de presente.

 – Devem gostar muito de você.

Joe pensou um pouco, como se esta afirmação tivesse que ser processada em seu cérebro, e respondeu sem muita convicção:

 – É, acho que sim.

 – Posso pegá-la?

A princípio, esta pergunta fez com que Joe retraísse suas feições, porém aos poucos se deu conta de que algo muito pior que aquilo quase aconteceu.

 – Claro.

E estendeu a mão para Natalie.

A menina muito lentamente e com cuidado pegou o objeto que não parava de olhar. Sentiu que era um pouco pesado para sua mão.

 – É linda esta bola Joe, para que serve?

A pergunta mexeu novamente com Joe, que ficou olhando para a menina sem saber o que responder, até que:

 – É apenas uma bola da sorte. Diz-se que, quem tiver esta bola, não ficará sem amigos.

A menina olhando para Joe, arregalou os olhos, e soltou um sonoro suspiro de admiração.

 – É incrível Joe. Acho que esta bola trouxe sorte para nós dois.

Joe ainda fitando a garota, respondeu com um largo sorriso. Natalie devolveu a esfera ao seu dono.

Neste momento a claridade era apenas uma pequena fimbria do reflexo solar nas nuvens logo acima. Sobre uma pedra lisa, em frente a um lago, dois pequenos seres compartilhavam uma experiência especial. Um simples sentimento de aceitação propiciou a construção de uma ponte entre dois mundos.

A destruição global foi legitimamente interrompida, pois seu executor já não tinha certeza de sua sequência de motivos. Na verdade até aquele momento as únicas coisas que estavam desmoronando eram convicções de uma mente que estava descobrindo uma passagem secreta, onde a visão que até então tinha de um mundo cruel e imerecido, se transformava em outra, onde o mal continuava existindo, mas não tinha o poder de propagar-se a bel prazer. A sensação era que a maioria dos seres humanos tinha uma imunidade natural, uma força pela qual valeria a pena lutar.

Era inexplicável o bem que a conquista de um novo amigo estava fazendo aos corações dos dois pequenos jovens.

Uma voz feminina interrompe despropositadamente este momento idílico:

 – Natalie! Por Deus, estamos te procurando faz tempo. Você não pode sair assim sem avisar.

Os dois jovens se voltam e se deparam com uma mulher.

 – Mamãe, eu tenho um novo amigo. Este é o Joe. Ele é muito legal.

O nervosismo da mulher dá lugar a um carinho natural que tinha pela filha.

 – Fico feliz querida, mas da próxima vez se sair tem que dizer para onde vai, ok?

 – Esta bem mamãe, me desculpe, não vai acontecer de novo.

Joe sem saber o que dizer, apenas observava. A mulher tomou a filha nos braços, e perguntou?

 – Você disse que é seu novo amigo, como é mesmo o nome dele?

 – É Joe mamãe, ele estava preocupado comigo.

 – Tenho certeza que sim.

E olhando para Joe:

 – Joe, o que faz até essas horas num lugar como este?

Joe meio sem jeito, e sem ter como explicar tudo, apenas respondeu:

 – Não podia deixar Natalie sozinha.

A resposta atingiu de cheio o coração da mulher.

 – Joe, você é um bom garoto. Já é muito tarde, você vem conosco, e te deixaremos em casa.

Joe foi pego de surpresa.

 – Senhora, não posso ir, não posso deixar minha bicicleta.

 – Não se preocupe, ela vai também.

 

EPÍLOGO

 

Neste momento uma Grand Caravan encosta no passeio. A mulher vai até o carro e conversa com o condutor, que sai, dá um beijo na filha, aperta a mão de Joe, e coloca a bicicleta na parte traseira do veículo. A mulher abre a porta de traz por onde entra primeiramente a garotinha, e depois um garoto trazendo consigo uma mochila. A noite já era realidade no Willians Memorial Park, de onde um veículo arranca e se distancia rapidamente. Assim que o carro é ligado, o garoto volta sua atenção para além do vidro traseiro, contemplando pela última vez aquele local, agora com a iluminação artificial, quando sua mente é preenchida com flashes de momentos que sucederam sua chegada ao Park. Tudo aconteceu muito rápido, e parecia que seu cérebro ainda não tinha processado claramente o desenrolar dos fatos. Uma pergunta ressoava em sua cabeça. O que teria acontecido se esta garotinha não tivesse aparecido?

Da tentativa de uma resposta que pudesse trazer um conforto, mesmo que momentâneo, para pudesse seguir em frente, restava-lhe somente uma visão, ambiguamente aterradora e bela.

O veículo desapareceu no silêncio da Five Avenue.

 

O fim teria que esperar.               

 

Em algum lugar um leve sorriso transpareceu um contentamento sereno e lúdico. Restou a incerteza da verdadeira intenção. Se a esperada pela condição humana, ou a desejosamente improvável, movida por algo que não possui a identidade dos herdeiros de um planeta que esteve a um passo de ser extinto.

 

 

 

 

Este conto é dedicado a todos aqueles que de certa forma sofreram algum tipo de preconceito.

André Bosi

 

 

Imagem meramente ilustrativa enviada pelo autor.

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Publicado em 3 de maio de 2016 por em Contos.

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

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Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

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Oi pessoal, o site EntreContos - Literatura Fantástica - promove novos desafios, com tema variados sendo uma excelente oportunidade de leitura. Boa sorte e boa leitura.

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