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Problemas Modernos – Um conto de Milton Sales Lozano de Oliveira


Problemas_Modernos

Era mais um fim de tarde, como outro qualquer, naquela metrópole. Exatamente às 17h13, enquanto o pai preparava o jantar – tomates fritos e purê de abóbora, a mãe lia na sala o segundo volume de uma série de seis livros que ela se engajara em terminar até o final do semestre e a filha rabiscava em seu caderno de desenhos o estudo de um rinoceronte em movimento.

O pai esperava ansiosamente o tempo de cocção da abóbora, fatiada cuidadosamente em pequenos pedaços, visto que assim o processo deveria dar-se mais rapidamente do que se a fruta fosse cortada de forma grosseira. O fogo esquentava o fundo da panela contendo os pedacinhos alaranjados boiando e se revolvendo na água com uma pitada de sal, azeite e grãos moídos de pimenta. A mãe, sentada no sofá amarelo e apoiando os pés em um banquinho transparente de acrílico, estava totalmente absorta na sexta linha do terceiro parágrafo da página de número 207 de seu livro, que dizia especificamente – ele então começou a viver a vida assim, de trás pra frente, como se de repente… A filha, com grandes fones de ouvido que revelavam não ter uma acústica muito boa, portando seu lápis ponta grossa, preenchia com sombras a parte esquerda da perna esquerda no rinoceronte em disparada que ocupava a zona inferior direita da folha de seu caderno de desenhos. Naquela folha, acima e ao lado, mais três rinocerontes de tamanhos diferentes, estudos para uma arte final que deveria nascer em alguns dias. Estava encantada com aquele ser que ela vira muito brevemente em um zoológico durante uma viagem ao passado, e os programas de televisão e professores de história ambiental, assim como qualquer pessoa ativamente consciente, lamentavam tanto ter sido totalmente extinto anos atrás. Sua professora engajou a classe em um projeto para solicitação de clonagem do exótico animal ao governo, e, como inclinada que era às artes, ela ficou responsável pela parte gráfica do projeto.

Bem, o fato é que, antes que o pai espetasse com o garfo um dos dançantes pedaços de abóbora, a fim de sentir sua textura e determinar se mais tempo era necessário em fogo alto; antes que a mãe deitasse sua visão sobre a linha sétima de seu livro, descobrindo assim porque alguém haveria de viver a vida de trás pra frente, e se o feito era metafórico ou literal; antes que a filha pudesse terminar de sombrear a pata esquerda, ressaltando assim a luz vinda da direita, em sua representação de um animal que ela espera ver pessoalmente, mais uma vez, em alguns anos, algo inesperado aconteceu. Acompanhado por um barulho baixo, agudo e curto, surge na sala, ao lado da máquina do tempo da família, que fica ao lado da televisão, um homenzinho atarracado, vestindo um macacão azul claro no qual estava pendurado, na altura do peito, um crachá com a foto de uma versão mais magra e sem bigode do homenzinho. A mãe, com o susto, fechou seu livro sem nem mesmo marcar a página, apenas conseguindo soltar um grito que, assim como o barulho da máquina do tempo, era agudo e curto, porém não baixo. O pai, sem desligar o fogo, correu até a sala para ver o que havia acontecido e ambos, a mãe no sofá e o pai ao lado da mesa de jantar, encaravam pasmos o homenzinho que prontamente começou a falar:

– Boa tarde e perdão pela entrada. Sou técnico da CMMT, Companhia de Manutenção de Máquinas do Tempo, e o trabalho foi finalizado. Aqui está o relatório de erros e os protocolos para apresentação na próxima visita, que deve ser agendada com o departamento de agendamento.

 

O pai, que estava em pé, sentou-se. A mãe, que estava sentada, ficou de pé e, sem esconder a indignação, respondeu:

– Nós não solicitamos nenhuma manutenção!

– Bem, senhora, eu somente faço o serviço e a entrega, o agendamento é com o departamento de agendamento, para o qual, na próxima visita, deve ser apresentado o relatório de erros e protocolos.

– Veja bem, o senhor não entendeu minha colocação, nós não solicitamos nenhum serviço. A máquina do tempo estava funcionando perfeitamente, ainda nessa semana nós fizemos uma viagem à China medieval para ver de perto a técnica de fabricação dos vasos que temos aqui.

– Senhora, como técnico da CMMT, Companhia de Manutenção de Máquinas do Tempo, e em exercício do meu dever, eu devo questionar se os vasos de que a senhora fala, e que vejo ali no canto da sala, por acaso não foram trazidos de outro tempo para este através da máquina do tempo.

– Mas é claro que não! Os vasos foram adquiridos licitamente e temos a nota fiscal para provar. O senhor entra assim abruptamente em nossa casa e ainda nos acusa de criminosos?

– Não foi minha intenção acusar ninguém de nada, mas eu, em cumprimento do meu dever como técnico da CMMT, tenho que lembrar a todos os clientes usuário de máquinas do tempo do grande perigo de transportar objetos ou seres, e mesmo o ar, para tempos diferentes. Por isso nossas máquinas são equipadas com uma câmara de vácuo, para a qual o usuário é primeiramente transportado, e aí então…

– Sim, meu senhor, nós sabemos como se dá o procedimento de viagens temporais e dos enormes perigos de transporte de qualquer substância através do tempo, e que isso constitui crime, e jamais fizemos ou tivemos a intenção de fazê-lo. Mas a questão aqui é outra, o senhor certamente cometeu um engano, não foi solicitada nenhuma manutenção para esta máquina.

– Senhora, em meus registros – disse o homenzinho retirando da pasta que carregava a tiracolo uma prancheta eletrônica de um modelo relativamente antigo, mas aparentemente em bom estado – tenho a informação de que a manutenção foi solicitada hoje às 19h03. Veja aqui.

Deu um passo a frente, esticando ao casal, e mais especificamente à mulher, com quem dialogava, a prancheta com os dados de que falava em letras verde claro no fundo verde escuro.

– Onde está a assinatura, minha ou de meu marido?

– Ah, sim. – deslizou os pequenos e grossos dedos pela tela do aparelho – A assinatura do senhor… Carvalho, é isso? Está bem aqui na segunda página.

A mãe olhou para o pai, que se limitou a enterrar a cabeça no pescoço, numa posição de estarrecimento. A mulher voltou a olhar para o homenzinho, lendo seu nome no crachá.

– Senhor… Medeiros. Está bem, mas se o senhor me diz que a manutenção será – disse essa última palavra com ênfase moderada, corrigindo, discretamente, o erro de concordância cometido anteriormente pelo homenzinho. Há muito tempo, logo após a vulgarização da tecnologia de viagens no tempo para o grande público, esse dilema gramatical surgiu e logo foi resolvido por uma junta de professores que chegou a um consenso: a tecnologia poderia mudar, mas a concordância continuaria a mesma, impassível. O que é do futuro sempre será, assim como o que pertence ao passado já foi, não importando se o passado está para acontecer na vida de alguém ou se um evento futuro foi vivido há dois meses. O fato era lembrado copiosamente por todo e qualquer professor de gramática até os tempos presentes. A despeito disso, o erro é ainda um tanto comum em situações frasais a cerca de situações já vividas por alguém que viajou ao futuro ou voltou ao passado, que também é relativamente o presente, a depender do referencial adotado – solicitada hoje às 19h03, e, portanto, meu marido e eu ainda não conhecemos tal necessidade e situação, como podemos saber que essa assinatura não é falsa e que não se trata, dessa forma, de um golpe? Veja, assim como o senhor quando se referiu aos vasos, não estou lhe acusando de nada, apenas pedindo que esclareça esse dilema.

– E mais uma coisa – disse o pai, se pronunciando pela primeira vez na conversa – se o senhor é um técnico de manutenção de máquinas no tempo, por que então apareceu horas antes da solicitação do serviço, e não alguns segundos depois desta? Não seria o mais lógico? Se eu demandasse um trabalho assim, esperaria que a conta viesse imediatamente.

O homenzinho deu um pequeno sorriso, franzindo toda sua cara redonda e fazendo o bigode ficar em formato de W.

– Eu sabia que os senhores fariam esse questionamento. Sim, é praxe da CMMT entregar o trabalho pronto, e a conta, imediatamente após a solicitação, já que nós fazemos a manutenção e voltamos no tempo, até mesmo para testar a máquina. O que aconteceu, porém, foi que os senhores pediram que a máquina fosse entregue duas horas antes, precisamente às 17h00. Aqui está no formulário, na quarta linha, estão vendo?

– Senhor, – começou a falar a mãe, com calma perceptivelmente fingida e de maneira muito lenta, como quem fala com uma criança birrenta – como podemos ter certeza do que o senhor diz? Sua empresa não nos fornece nenhuma garantia de que nós, de fato, fizemos a solicitação de manutenção da máquina. Além disso, o conserto, se é que o senhor realmente o fez, e não simplesmente hackeou nossa máquina do tempo para aplicar um golpe, – pensou se deveria novamente esclarecer que não era uma acusação, mas achou que o tom mais incisivo poderia ser necessário – foi mal executado, visto que são agora – olhou para o relógio na parede – 17h21, e estamos tendo essa conversa há no máximo dez minutos.

Olhando para o relógio e coçando a testa o homenzinho se explicou:

– Quando fazemos a primeira viagem após o ajuste, talvez também a segunda, a válvula de propulsão temporal pode ficar um pouco frouxa por causa da lubrificação em excesso, mas esse problema logo é resolvido com o próprio funcionamento do mecanismo a partir, no máximo, da quarta viagem.

– O maior problema agora não são dez minutos, mas o fato de que precisamos de uma garantia! – falou pela segunda vez o pai.

– Olha, eu posso ligar pra sede da companhia e…

– Falar com outras pessoas que nos dirão as mesmas coisas que o senhor não nos interessa, senhor Medeiros. Tudo poderia fazer parte do golpe, não temos como saber – falou a mãe.

– Bom, o que posso fazer, nesse caso, é acompanhar os senhores até o momento em que fizeram a solicitação – propôs o homenzinho, que não havia percebido a sutil correção da mulher quanto à concordância verbal temporal. – Tenho, claro, que ajustar a máquina para o modo observação, de forma que os senhores não simplesmente incorporem seus “eus” do futuro e não haja o risco de um paradigma temporal com o encontro de vocês quatro.

Pai e mãe se olharam. A mãe batia com o pé direito freneticamente no chão da sala, forrada com um tapete felpudo azul escuro que abafava as batidas impedindo que produzissem qualquer ruído audível, o que teria deixado o pai ainda mais nervoso. Enquanto se olhavam o pai fez mais uma vez seu movimento defensivo de tartaruga, enterrando a cabeça no pescoço, porém dessa vez conjugou esse gesto com outro: abriu os dois braços, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos espalmadas para cima, como quem diz que não há mais nada a fazer a não ser adotar a alternativa sugerida, mesmo que desagradável, mesmo que um homem não esperado tenha aparecido no meio da sala, repentinamente, numa tarde normal, às 17h13, e eles tivessem o direito de chamar as autoridades. A mãe então levantou uma sobrancelha, a esquerda, e retorceu levemente o canto direito da boca para baixo, expressando sua discordância àquela alternativa que obrigaria eles a sair de seu conforto por um problema desconhecido apresentado por um sujeito desconhecido. O pai então ergueu ambas as sobrancelhas e comprimiu os lábios, de forma que sua boca virou um traço na cara. A mãe entendeu que essa careta significava, ainda que o homenzinho não entendesse nada, que mesmo com um homem desconhecido e um problema desconhecido, eles, bons cidadãos, deveriam se esforçar ao máximo para resolver a questão sem leva-la às autoridades, somente com o bom e útil atributo da cooperação. Houve um tempo na história em que as pessoas tratavam-se com indiferença, como concorrentes, inimigas, mesmo numa dita cultura democrática. Em tempos assim um homem que surge magicamente na sala de desconhecidos estaria sujeito a ser atingido por armas de fogo, – objetos que eram utilizados no passado para ferir e até matar as pessoas, e que agora causavam apenas arrepios a quem ouvia as histórias – ou no mínimo ser levado perante as autoridades para responder judicialmente. Naquela época recuada muitas coisas eram resolvidas judicialmente sem que, muitas vezes, as partes ao menos se conhecessem. Finalizando o diálogo gestual o pai juntou as mãos e abaixou as sobrancelhas, indicando que era a única solução que ele enxergava. A mãe então, arrematando, parou de golpear o chão e olhou rapidamente para o teto antes de fechar os olhos e abri-los novamente, já mirando o homenzinho.

– Pois bem, – ela disse, e fez uma pausa inspirando e expirando longamente, buscando no ar a calma necessária – faremos como o senhor propôs.

– Os senhores, por favor, se aproximem da máquina.

Enquanto o casal se movia o homenzinho ajustava os controles da máquina para o modo futuro, dali à uma hora e… – olhou no relógio de pulso que marcava 17h30 – trinte e dois minutos, exatamente um minuto antes da assinatura do formulário. Apertou no painel a opção “módulo observador” e se posicionou em frente ao feixe de desmaterialização. O casal, ainda que a contragosto, fez o mesmo, de forma que uma escada se formou, o pai, mais alto, à direita, a mãe ao centro e o atarracado técnico na ponta esquerda, considerando o ponto de vista da máquina do tempo.

– Todos prontos? Vamos lá.

O homenzinho apertou o botão de iniciar e a materialização se deu um milésimo de segundo, com o barulho agudo, rápido e baixo.

O trio foi rematerializado primeiramente em uma câmara de vácuo, posteriormente em um bolsão temporal e finalmente no momento escolhido, mas todo o processo ocorre em menos de um segundo, de forma que, para os sentidos humanos, trata-se somente de um piscar de olhos, diretamente de um ponto a outro. De dentro de uma única grande bolha azul transparente que flutuava no meio da sala os viajantes temporais observavam a mãe que lia despreocupadamente seu livro, sentada no sofá amarelo com os pés apoiados no braço do móvel. Deram a volta por trás do sofá e a mãe, dentro da bolha, apertou os olhos para enxergar a página que a mãe, fora da bolha, lia: 312. Havia se passado uma hora e quarenta e nove minutos desde que ela percorria a página 207. Havia lido, portanto, 105 páginas. Sem falar nada ela olhou para o técnico, que franziu a testa olhando ao redor, se procurando na sala. Como nada acontecia ali, foram para a cozinha, onde o pai lavava as louças, com a toalha de secar no ombro e assoviando um blues antigo. Também ali nada de excepcional ocorria. Foram ao quatro da filha, que rabiscava o começo de um novo esboço de um rinoceronte em uma página em branco, os fones de ouvido deixando escapar grande parte da música. Nenhum sinal do homenzinho. Ele então fez algo que chamou a atenção do casal dentro da bolha: bateu com a palma da mão direita na testa larga dizendo “ai, caramba…”.

– O que foi? – Perguntou o pai.

– Senhores, me desculpem, mas é óbvio que nossa viagem até aqui é inútil. O passado já foi alterado, o conserto da máquina do tempo já foi realizado, portanto, seja qual for a intercorrência que levou os senhores a contatar a CMMT para uma manutenção, já foi resolvida e nunca aconteceu nesse tempo, nessa realidade.

– E o que o senhor sugere agora? – Disse a mãe com os braços cruzados e o pé batendo na parte inferior da bolha, formada por um plasma de superfície diáfana, que impedia o som das batidas de se propagar.

– Creio então que o único jeito seja os senhores me acompanharem até o passado, antes de minha visita e da entrega da máquina consertada, e que esperemos das 17h12, antes da minha chegada, às 19h03, horário da assinatura do formulário solicitando a manutenção. Sinto muito pelo incomodo, mas como os senhores exigem uma garantia, e esse é um direito do consumidor, é o que podemos fazer.

– Mas isso é demais! Não falo de perda de tempo porque voltaremos exatamente para o mesmo segundo em que saímos do presente, mas ficar duas horas aguardando dentro de uma bolha temporal vendo a mim mesma fazendo algo que eu gostaria de estar fazendo é algo que realmente não me agrada, senhor… – olhou novamente o crachá do homenzinho, pois havia esquecido seu nome – Medeiros.

– A senhora pode ler o livro junto da senhora no futuro.

– Como?

– Basta nos posicionarmos atrás no sofá e a senhora…

– Eu entendi, senhor Medeiros. O que me impressiona é a naturalidade com que o senhor trata esse problema que foi causado pela falta de organização da sua empresa. É um absurdo!

– Sinto muito, senhora, mas não havia outra maneira, visto que os senhores solicitaram que a entrega se desse no passado, não no presente ou futuro.

A mãe respirou fundo, buscando novamente qualquer calma diluída no ar que entrava por suas narinas, que estavam dilatadas por conta de sua expressão de impaciência. Não parecia haver calma naquele ar.

– Teremos que ficar duas horas em pé aguardando? – falou entre os dentes.

– Não senhora, eu posso programar a bolha para alteração em forma de bancos ou cadeiras, de acordo com a preferência.

– Isso é possível? Por que não sabíamos disso? – perguntou, perplexo, o pai, se fazendo ouvir pela terceira vez.

– Esse procedimento é descrito no manual e nas instruções holográficas, senhor. Detalhadamente.

O pai lançou mão mais uma vez de seu movimento de tartaruga, já que ele foi quem programou a máquina quando a compraram e em todas as vezes em que viajaram, e quem ficou responsável por ler o manual ou assistir aos hologramas.

– Pois bem, agora que estamos aqui não temos outra opção senão ir até o fim, não é mesmo? Vamos lá, transporte-nos para as 17h12 e vamos esperar. E por favor, posicione a bolha atrás do sofá, quero ler o que eu estou lendo.

O técnico ajustou os controles de plasma na lateral da bolha, fazendo, com uma pequena série de dígitos e códigos, primeiramente surgirem bancos, do mesmo material de toda a bolha, atrás deles. Depois, com outra pequena série, reprogramou a bolha que flutuou até a frente da máquina do tempo, onde eles haviam se alinhado instantes antes, e assim foram desmaterializados e rematerializados, desmaterializados e rematerializados e desmaterializados e rematerializados, numa fração de segundo, até o mesmo lugar, porém duas horas antes, às 17h12. Com um pequeno comando a bolha foi posicionada atrás do sofá e a mãe se ajeitou no banco para enxergar o que lia fora da bolha. Passou-se um minuto desde a rematerialização e surgiu na sala, com um barulho agudo, rápido e baixo, o homenzinho de macacão azul claro, levando a mãe a largar seu livro em cima do sofá e o pai a vir para a sala, com olhos arregalados e boca semiaberta, deixando na cozinha o forno com fogo alto.

O trio se olhou por longos segundos, imaginando se aquilo estaria correto, tentando matematizar o problema. Dando de ombros, o homenzinho disse:

– Bom, acho que temos que esperar assim mesmo.

E foi o que fizeram, esperaram até as 17h30, horário em que, conforme o script anterior, se posicionaram em formação de escada, fila ombro a ombro, em frente à máquina do tempo e sumiram dali, reaparecendo imediatamente depois, agora sem o homenzinho. O casal então, fora da bolha, se espreguiçou e esticou. A mãe simplesmente balançou a cabeça, na boca um pequeno sorriso meio de graça meio de irritação, como quem pensa em algo que aborrecia mas não aborrece mais, e voltou a sentar-se no sofá, apoiando as costas em um dos braços do móvel e os pés em outro. Tirou o livro debaixo das pernas, folheou até encontrar a página em que havia parado e voltou a ler. O pai, terminando de alongar-se, foi até o sofá e beijou a cabeça da esposa, voltando então à cozinha.

Por alguns momentos houve apenas silêncio, dentro e fora da bolha. Quem o quebrou foi o homenzinho:

– Senhores, tenho que admitir que não sei como resolver isso. Nós mudamos permanentemente a realidade e não consigo pensar em um modo de voltar ao problema para mostra-lo. Visto que os senhores não me informaram o problema, e, portanto, somente os senhores poderiam saber o que aconteceu, mas como a ciência de tal fato que gerou a solicitação da manutenção foi eliminada juntamente ao fato, que, agora, nunca aconteceu, e portanto os senhores em realidade nenhuma podem saber de algo que jamais se deu, eu terei que entrar em contato com minha empresa para procurar precedentes, ou talvez algum protocolo para situações especiais e….

– Senhor Medeiros, creio que já tenhamos rodeado demais para a solução desse problema. – disse a mãe olhando para o pai, sinalizando que falava pelos dois nesse momento – O senhor pode nos informar de uma vez por todas o valor do serviço? Prefiro pagar, ainda que indevidamente, do que passar mais um minuto nesse paradoxo.

– Senhora, se é assim deixo aqui meu cartão, no qual também consta o número do departamento de agendamento, para o qual deverá ser apresentado o relatório de erros e os protocolos quando for agendada a próxima visita. A primeira manutenção é de graça, de forma que os senhores não devem nada.

O homenzinho então reprogramou a máquina pela superfície interna da bolha e o casal se viu em casa, novamente, às 17h30.

 

 

Figura meramente ilustrativa enviada pelo autor.

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Um comentário em “Problemas Modernos – Um conto de Milton Sales Lozano de Oliveira

  1. Lucely
    17 de setembro de 2016

    Excelente conto. A coerência, coesão e a criatividade ao descrever os detalhes foram muito marcantes e nos leva a “viver” a história. Muito criativo. Parabéns!

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Publicado às 3 de maio de 2016 por em Contos, Contos de Ficção Científica e marcado , .

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
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Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

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