Fantasticontos, escritos e literários

Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

A nação South – Episódio II – Autor: Johnatan Willow


seastead j Willow

 

 

 

 

 

 

No dia seguinte, pela manhã, Ludmilla foi acordada pelo som de rumores de alguma reunião que se iniciava no pátio, lá embaixo. Então se lembrou de onde estava, da Comunda dos Carbonários, do convite da representante de participar da assembleia, da visita da deusa da internet e de tudo o que ela lhe disse. E sentiu uma leve reviravolta no estômago vazio, como se alguém socasse sua barriga.

A nação artificial de South se tornara autossuficiente em água potável apenas três anos após sua fundação e no ano passado se tornou autossuficiente em hidrogênio combustível. Hoje, com dez anos de existência, South, que tinha assumido o total compromisso de ser ter cultura de paz, já era referência em IDH (Indicie de Desenvolvivmento Humano), superando todas as outras nações (naturais e artificiais) pelo mundo. Não obstante, ela já incomodava muitos governantes que, secretamente, mal podia esperar para ver a completa derrocada do modo de vida anarquista.

A reunião da assembleia acontecia diante do prédio da representante; era a Comuna dos Carbonários que acontecia em praça pública. A presidente batia na porta, já trazendo uma bandeija com um recatado café da manhã (café, suco de caju brasileiro, bolachas e iogurte). Ao entrar, ela tratou a princesa apenas por “você” e a convidou para descer e participar da Comuna, como uma carbonária. Ludmilla bebeu apressada a xícara de café e comeu algumas bolachas. Ela tomou o suco de caju brasileiro e, com o copo de iogurte na mão, ela desceu para participar da grande reunião.

Já embaixo, todos a cumprimentavam afetuosamente, já sabendo da visita daquela Alteza Real – que não era deles. Minutos depois, iniciou-se o discurso de um dos oradores intelectuais do povo. Em seguida viria o discurso da líder – informara-lhe Juliern – e a apresentação formal de Ludmilla, que teria lugar na tribuna para discursar por alguns instantes. Ansiosa com o discurso que precisaria fazer, Ludmilla parecia não ouvir nada do que o intelectual dizia ali, em cima. Esporadicamente, ela conseguia distinguir algumas frases soltas sobre a visita inoportuna do deus do mar, e sobre a decisão de evacuação ou rendição. Este defendia a resistência, que era o simbolo da luta anarquista desde o início de sua existência. Muitos morreram, mas o ideal sempre persistiu. E, o velho terminou discursando que em seu tempo as lutas eram sempre sangrentas, mas valera a pena cada batalha pela resistência para chegar até aqui. E que, esta não seria a primeira, nem a última vez que o anarquismo sofreria perseguição. Por fim, terminou dizendo que não saíria de South, mesmo que toda a nação acordasse, no sábado, debaixo de toneladas de água, no reino de Posidon.

E houve diversos aplausos e gritos de aprovação.

Olhando ao redor, enquanto tomava seu iogurte, Ludmilla percebeu que havia inúmeras famílias nucleares (com pai, mãe e filhos) assistindo a reunião, debaixo daquele sol matinal. E percebeu, também, uma infinidade de casais homossexuais, com filhos ou não, entre a multidão. Certamente, pensou Ludmilla, preconceito quanto à opção sexual era ridículo num país anarquista. Logo, casamento homoafetivo era algo natural naquele lugar.

Por não haver creches em South, a maioria da população cuidava dos filhos e trabalhava em casa. Logo, não era difícil encontrar engenheiros de grandes empresas de softwares e antívirus do mundo, trabalhando em seus apartamentos, em South, ou grandes estilistas de grandes grifes de roupas íntimas masculinas e femininas, navegando lentamente no mar em seus iates, desenhando modelos em seus croquis. Seus ordenados eram totalmente revestidos para South, para o avanço das ciências, das pesquisas científicas, a manutenção da estrutura das plataformas, produção de energia limpa e a importação de víveres para o país artificial, que não possuia fábricas.

Enquanto ouvia o discurso do velho intelectual – que agora falava brilhantemente sobre a coragem e a pujança dos anarquistas perseguidos durante a Segunda Guerra Mundial – Ludmilla sentiu algo roçar entre seus tornozelos. Ao olhar, viu um gato angorá, observando-a alegremente. Não resistindo ao impulso de acariciá-lo (pois este era o único animal de estimação que vira no seastead, desde a sua chegada), ela agachou-se e coçou sua cabeça. O gato ronronava alegremente e ela se perguntava de quem poderia ser este tão simpático bichano.

Então ouviu um chamado de “Astro” vindo de uma voz masculina. Imediatamente, o gato obedeceu e foi ao encontro do seu dono. Ludmilla, que observava a fuga do seu novo amiguinho, viu um homem moreno, forte, vestido de blusa azul marinho com as mangas arregaçadas até os cotovelos e calça jeans azul clara. Ele estava agachado para receber seu mascote, que vinha correndo para subir em seus braços rijos e quase sem pelos. O gato ronronou feliz, encostando a cabeça em seu tórax definido, que marcava sua blusa.

– Obrigado por achar o meu bichano – disse ele à Ludmilla, sorrindo-lhe gentilmente.

– Que nada! – disse ela sorrindo em resposta. – acho que foi ele que me achou aqui.

O rapaz tinha cabelos lisos e curtos, olhos azuis, rosto triangular, moldurado por uma barba meticulosamente bem feita e um sorriso alvíssimo que a deixava abobalhada. Ludmilla (que não dispunha de tempo para namoricos nem pra nada) observava o rapaz atentamente, encantada com sua beleza e charme fora do comum.

– De qualquer forma, obrigado – ele reafirmou. – Sou Hypólito, muito prazer, princesa Ludmilla.

Eles se cumprimentaram sem grande formalidade. Então, inclinando a cabeça e admirando melhor a princesa, ele disse:

– Sabe de uma coisa: até que não tão ruim receber uma princesa na nossa nação anarquista. Devo confessar que não houve unanimidade na votação da recepção, que ocorreu numa assembleia muito parecida com essa – disse ele, de braços cruzados e olhando com desdém a reunião que se passava na plataforma. – Ontem foi publicado no nosso jornal, o Diário de South, nas sete línguas oficiais, a chegada da princesa, seus hábitos e, principalmente, seu interesse em aprender com os anarquistas da superplataforma South. Acredito que você foi a coisa mais interessante já noticiada aqui, desde a chegada do N1256 – disse ele, num sorriso torto.

– N1256? – perguntou ela, curiosa, ajeitando uma das mechas do próprio cabelo atrás da orelha.

– Sim, este foi o nome do último iceberg trazido da Antártida, há dois meses. Este enorme pedaço de gelo, maior que esta plataforma – disse ele num gesto largo, abarcando todo o meio ambiente –, se desgarrou da sua geleira em descongelamento e ficou à deriva, no Oceano Glacial Antártico, indo em direção ao Chile. Então decidimos, sempre em assembleia de votação direta, trazê-lo pra cá e consumir sua água doce. Ficamos um mês e meio sem precisar purificar água do mar! – disse ele, entusiasmado. – Mas você, é bem mais interessante e bonita, se me permite dizer, que uma pedra azulada e tosca de gelo –ele disse esboçando outro sorriso torto.

– Obrigado pelo elogio… Eu acho. Eu fico feliz que eu não seja tão feia como uma pedra “azulada e tosca de gelo” – disse ela, fingindo-se ressentida. O rapaz tinha um jeito tão envolvente e agradável que ela – apesar de jamais confessar a si mesmo – já sentia que estava irremediavelmente interessada pelo rapaz diante de si.

– Claro… Eh… Desculpe-me! – disse ele, tentando corrigir o que dissera – Não me entenda mal. Você é fantástica, e merecia muito mais destaque na nossa mídia que aquele iceberg, sabe? Eu peço que nos perdoe. Muitos ainda se ressentem dos regimes monarquistas ao redor do mundo, entende?

– Sem problemas. Acho que entendo sim. E, para ser sincera, não estou nem um pouco interessada em holofotes, jornalistas, paparazzi, atenção, etc. Estou feliz de ser apenas Ludmilla. – desabafou ela, brincando com a patinha do Astro, que agora estava miando e chamando-a. – Que gracinha!

– Astro está com fome. Eu estave procurando-o para levá-lo pra casa. Esta reunião está muito chata e, certamente vai demorar – fez ele um muxoxo de descontentamento para o palanque em que discursava um velho. – E, já que você não quer toda a atenção devida à realeza, será que Sua Alteza Real não gostaria de vir almoçar conosco? – disse o rapaz, fazendo um floreio com o pulso em sinal de reverência.

– Tudo bem! – respondeu ela, esquecendo-se completamente que receberia a oportunidade para dar algumas palavras de encorajamento à South. – Mas eu aceito com uma condição: que você pare de me chamar de princesa, de sua alteza, e de “sei-la-mais-o-quê”, está certo? Chame-me apenas de Ludmilla. Afinal de contas, estamos numa nação anarquista; não na corte do meu país.

– Como queira, princesa – quero dizer: Ludmilla – brincou ele, levando-a para longe da assembleia.

Hypólito morava na Colônia Três, apenas com seu gato. No início, Ludmilla estranhou que um rapaz tão belo e galante fosse ainda solteiro e chegou a pensar que ele era homossexual, uma vez que viu dezenas deles na reunião desta manhã. Contudo, o modo como ele a tratava fez com que essa dúvida fosse logo dirimida. Por fim, percebeu que quase não havia jovens solteiros na Colônia Um e Três (provavelmente nem na Colônia Dois, mas ela ainda não chegou a conhecer a plataforma), apenas casais formados (héteros ou homossexuais) e crianças.

A Colônia Três, para Ludmilla, não era tão diferente da Colônia Um, exceto pela cor do solo artificialmente aplainado que, na Colônia Três, era marrom-chocolate e, na outra era vermelho-cremoso. No ponto central da plataforma Ludmilla percebeu um monumento em formato retangular, feita de vidro temperado e aço, com os nomes dos primeiros habitantes-fundadores (a maioria dos inscritos ainda vivos) de South. Ludmilla se encantara pelo tal monumento, lendo cuidadosamente cada nome e se deliciando em saber que este ou aquele indivíduo era um ganhador de algum prêmio Nobel ou de outro grande premio internacional. Porém, Hypólito, que observava a garota com vivo interesse, apenas disse, desdenhando da placa, que esta era igual ao monumento erigido no Centro da Colônia Um e Dois, e ficou surpreso ao saber que a princesa não tinha notado o monumento no dia anterior, quando chegara, ou na reunião da manhã.

Caminhando lentamente pela plataforma, Hypólito levou a jovem até a entrada de seu prédio.

O apartamento do jovem era do mesmo tamanho que o da princesa, na Colônia Um: pequeno, mas moderno e perfeitamente confortável. Todos os móveis estavam organizados com precisão milimétrica, aproveitando perfeitamente o espaço do apartamento. A janela era voltada para o poente, dando para duas grandes e belas torres de pedra, a Clássica e a Barroca, que se erigiam da superfície do mar. A parede adjacente estava nua, de forma que Ludmilla estranhou o fato, pois, como ela já sabia (já que fora informada pela representante, no dia anterior, quando foi devidamente instalada em seu quarto), as paredes adjacentes de todos os quartos em South eram pintadas ou impressas, pelos moradores, com fotos e desenhos de paisagens naturais – como montanhas nevadas, florestas sem fim, praias paradisíacas, paisagens fascinantes, da terra natal da pessoa – para quebrar a monotonia ultramarina.

– Curioso – começou ela. – Sua parede é sempre vazia?

– Bem, não – disse ele, sorrindo outro sorriso magnífico. – Eu mandei fazer um papel de parede com uma paisagem brasileira fantástica, porém ainda não está pronta. Mas tudo bem; eu gosto da imensidão azul do mar – brincou ele. Satisfeita a sua curiosidade, a princesa, que mirava os intensos olhos azuis do rapaz, por um segundo esqueceu-se do tema do assunto e até do seu nome. Ela nunca tinha visto olhos tão magnéticos e atraentes como estes. Se South não tivesse com os dias contados, ela viveria com prazer, dentro daquele minúsculo apartamento. E lembrar que aquele lugar incrível estava para desaparecer da face da terra, deixou-a tristonha. E, por isso, quando o rapaz se propôs a cozinhar para ela um belo almoço, Ludmilla recusou o convite e se prontificou a ir embora. Contudo, ao mirar mais uma vez em seus olhos azuis ela acabou por esquecer o motivo de tanta pressa.

– Acho que eu já vou embora, Hypólito – disse a garota, caminhado na direção da porta, para abri-la. – Tenho algumas coisas para fazer.

– Não, por favor, não vá! – implorou ele, segurando o pulso da garota, que agora segurava a maçaneta. – Eu quero te mostrar algumas coisas incríveis, ainda. E vou te preparar um almoço digno de reis – piscou ele. Por favor, não vá agora. Mais tarde, se você quiser, eu mesmo a levarei, mas não vá agora!

– Tudo bem, então – disse a princesa, sorridente, mais uma vez fascinada com os olhos e o sorriso do garoto.

Hypólito preparou o almoço (macarrão com molho de quatro queijos e bolonhesa) para dois e abriu uma garrafa de Cabernet Sauvignon. Para Ludmilla, o almoço com o jovem carbonário foi maravilhoso. Após comerem até não se aguentarem mais, ambos resolveram dar um pequeno passeio pela Colônia Três e ver de longe, as fundações ultramarinas do que seria a Colônia Quatro, ainda em construção em alto mar.

No centro da Colônia Três, Ludmilla estacou-se para estudar novamente os nomes dos primeiros moradores desta Colônia. Ela estava curiosa para conhecer os nomes inscritos ali. Queria que Hypólito lhe apesentasse os moradores da plataforma, os célebres escritores, os filósofos famosos, os cientistas de renome e tudo mais. A excitação de poder conhecer, de uma só vez, tantas pessoas importantes para todas as ciências a fascinava. Contudo, Ludmilla pecebeu que, entre a lista de moradores-fundadores, o nome de Hypólito não contava na placa.

– Bem – começou ele, tentando se explicar – eu… Eu não estava aqui… Quando tudo começou, há dez anos, sabe? Sou habitante de South há apenas três anos. Certamente, por não ser um habitante-fundador, eu não deveria ser citado aí, deveria?

– Hmm! E seus pais? – perguntou a princesa, ainda cheia de curiosa, sentando-se num dos bancos de um minijardim logo a frente – onde eles vivem?

– Meus pais são… Muito ocupados – disse o jovem, um pouco alarmado e titubeante. Hypólito, que estava de pé, com as mãos no bolso e evitando olhar nos olhos da princesa, observava atentamente uma pequena flor de malmequeres. – Eles são um pouco fascinados pelo poder. Eles… Eles não gostam desta forma de governo, sabe? Pensam que somos arruaceiros, anarquistas sem polícia, gentinha, etc.

– Que chato! – disse a princesa, com sinceridade, enquanto se levantava e se aproximava do canteiro aos pés do rapaz. – Então você não os vê há três anos?

– Nem tanto – respondeu ele, mais seguro, colhendo o malmequer e despetalando-o lentamente. – Eu os visito bastante. Sempre que tenho tempo livre…

– E o que você faz fora do seu tempo livre? – perguntou ela, também colhendo um amor perfeito e cheirando-o.

– Bem, eu estudo. – começou ele, feliz por mudarem de assunto. – Faço Biologia Marinha na Universidade Aberta de South – disse ele, com um sorriso divino, que deixou a princesa abobalhada.

– Que legal! – exclamou ela. – Bem, eu (se já não fizesse já um curso superior de Ciências Sociais) adoraria fazer um curso de Biologia Marinha.

– Sério!? O curso, aqui, é fantástico!!! Acho que você iria adorar – disse ele abandonando a flor na última pétala – Então, você gostaria de conhecer minha Faculdade? Fica logo abaixo de nós – convidou ele, apontando para a plataforma abaixo de seus pés. Ludmilla aceitou o convite sem hesitar nem um pouquinho, pois estava curiosíssima para conhecer a célebre Universidade Aberta de South. Juntos, eles entraram no elevador da Colônia Três, que os levou a cinquenta metros abaixo do nível do mar. Lá funcionava o Campus Aristóteles, onde havia os cursos das áreas biológicas.

Não era nada parecida com as faculdades espaçosas e apinhada de alunos que a princesa estava acostumada a ver. O campus inteiro era um prédio pequeno, com janelas falsas, com retratos de paisagem e, janelas de verdade, que dava para o azul escuro intenso do fundo do mar. Iluminadas por potentes holofotes pelo lado de fora (mas que penetravam apenas alguns metros na escuridão), estas frestas de vidro grosso, possibilitavam que os estudantes tivessem o privilégio de ver diversas criaturas marinhas nadarem sob e sobre suas cabeças. Todavia, naquele momento, o Atlântico parecia deserto; não havia nenhum ser vivente há quilômetros. A princesa não conseguiu esconder seu desapontamento, ao olhar através do vidro e não ver uma única criatura viva. Hypólito não deixou que tal desagrado passasse despercebido.

Sem que a linda jovem entendesse toda a fantástica ação que ocorria, ele colocou a mão no vidro frio e murmurou algo incompreensível. Passado pouco mais de um minuto, ouviu-se ao longe, algumas jubartes se aproximando e cantando sua serenata monstruosa. Ludmilla, assustada, deu um pulo quando ouviu o primeiro grunhido; no segundo, já estava ardente de curiosidade para saber, de onde vinha o som. Chegou a ficar na porta dos pés (para ver embaixo) e se abaixar (para ver em cima), tentando ver o monstro que emitia tão estranho som. Quando viu e reconheceu o vulto de duas baleias jubartes, a princesa ficou fascinada, chegando a dar pulinhos de contentamento tamanha emoção.

– Veja! Veja! – gritava ela.

– Incríveis, as jubartes, não é? E olha que eu as vejo todos os dias – explicou-se o rapaz – Eu dei nome para elas, sabia? Aquela é Marcinota e, outra, à direita, Janota. É um casal; Janota é o macho cantor… É inegável a magnanimidade e beleza dessas criaturas. Mas elas não são tão belas e majestosas como você, princesa – disse ele, entre os sons de cânticos cetáceos. A princesa, lisonjeada, corou-se e voltou sua atenção para o vidro.

De início eram apenas duas baleias, mas vieram mais uma, e outra, e mais outra. Quando já havia sete animais cantores, Hypólito tirou a mão do vidro e parou de balbuciar.

Horas depois, Ludmilla estava fascinada com tudo o que vira. Após passar pela sala de Biologia Marinha, e ver diversos animais aquáticos através do vidro blindado, ela continuou seu passeio pelos laboratórios e salas da famosa Universidade Aberta de South (que tanto ouvira falar na sua Universidade, como referência em diversas áreas do conhecimento). Ela viu que, apesar de apertados, seus laboratórios apertados possuíam tecnologia de ponta. Ludmilla também conheceu melhor as pesquisas de fertilização in vitro e eutanásia, muito comuns na nação South, ainda que proibidas em outros lugares. Em certo momento da visita, ela foi convidada por um pesquisador a conhecer mais sobre as pesquisas de clonagem humana, em pleno vapor (já que detalhes como Código de Bioética eram irrelevantes para a nação anarquista), e ficou fascinada com as projeções. O clone escolhido seria o de Lucy, a “mãe da humanidade”.

De repente, ao passar por uma sala de controle digital, a princesa viu um vulto dentro da sala, que lhe atraiu o olhar. Ela reconheceu a deusa da internet, que lhe lançou um olhar significativo, antes de desaparecer por detrás do patch panel, a um canto da sala.

Desculpe-me, Hypólito – disse a princesa. – Foi uma tarde realmente agradável em sua companhia, mas acho que devo voltar para meu apartamento. Afinal, acredito Juliern estará preocupada comigo.

– Se você quiser posso ligar pra ela e avisar que você está comigo, afinal, eu e Juliern somos amigos e ela me deve favores, então… – começou ele, tentando obter mais um pouco da valiosa companhia de Sua Alteza Real.

– Não, eu agradeço de verdade, mas também estou cansada e preciso ir. Amanhã, se você puder e quiser, podemos nos encontrar de novo.

– Tudo bem então. Vou te levar de volta, cara princesa. – disse o jovem, sorrindo um sorriso aguado.

De volta ao elevador os jovens subiram para a superfície. Ludmilla, que não percebeu quanto tempo havia se passado enquanto estava lá embaixo, admirou-se de ver o pôr-do-sol em alto mar; e parou para observá-lo melhor. Hypólito, percebendo seu interesse neste belo espetáculo e querendo muito prolongar a companhia agradável da princesa, decidiu deixá-la apreciar o lusco-fusco.

– Dizem que, quando o Sol toca a água, pode-se ouvir o chiar da calefação – disse ele, observando o horizonte. – Alguns explicam que isso acontece porque Apolo leva o carro de Sol ao seu esconderijo, no fundo do mar. Ludmilla apenas sorriu em resposta ao comentário, certamente saboreando sua palavra neste fascinante espetáculo. Foi neste momento que ela se deu conta de jamais ter tido o prazer de parar para ver o sol se pôr (um evento que não durou mais que poucos minutos)…

Então a princesa, admirando todo o horizonte de 360º de South, se deparou com as duas torres de concreto.

– Que torres são aquelas? – quis saber ela.

– São torres construídas para serem com um viveiro para diversos animais de terra firme. Imagine-as como uma espécie de zoo erguido em alto mar – explicou o jovem. E continuou. – Aquela é a Torre Clássica (apontando para a direita com o dedo indicador) e a outra (apontando para a esquerda) é a Torre Barroca.

Ludmilla pôs-se a admirar e comparar as duas torres de concreto. A Torre Clássica, explicou Hypólito, era uma torre alta, sólida, harmônica, fracionada em diversos blocos azulados, todos simétricos e proporcionais entre si. Cada um destes blocos foi montado levando em consideração a razão áurea entre cada aresta de cada retângulo de concreto. A ideia era apontar para um novo tipo de sociedade harmônica, racional, bela e totalmente diferente da ideia caótica que se tinha do Anarquismo. Cheia de janelinhas triangulares calculadamente equidistantes entre si, a torre deixava entrever inúmeros mamíferos, insetos e arbustos que alí viviam.

Já a Torre Barroca, (cuja face era voltada de frente para aquela) era uma torra alta, esguia e de arquitetura inteligente. Toda a torre, de cor rósea, não parecia ter um bloco sequer e, portanto, qualquer um diria ter sido esculpida por inteira, em pedra rosada, e fincada no assoalho do mar. Sua estrutura era arredondada, cheia de curvas sinuosas, criativas e com pouca ou nenhuma simetria. Por isso, todo o conjunto dava a impressão de ser sustentado como que por mágica. A sua curvatura côncava de um lado e convexa do outro denotavam o dinamismo, inteligência e criatividade de uma sociedade requintada e livre. Esta torre, com diversas janelinhas redondas, servia com viveiro para diversos répteis, anfibios e plantas. E, no alto dela, havia uma espécie de terraço extendido além da base, ganhando um prolongado curvilíneo que parecia flutuar no ar sobre o oceano, onde as aves, igualmente livres e dinâmicas, faziam seus ninhos entre arbustos verdejantes.

Após admirar a beleza das torres, iluminadas com a luz aroxeada do lusco-fusco, a princesa e o rapaz embarcaram num barco de transporte particular e se dirigiram para a Colônia Um. Elegantemente, o jovem Hypólito deixou-a de frente ao seu apartamento (com um abraço e um respeitável beijo na mão) e voltou para sua embarcação.

Já a bordo, ele sentiu uma forte agitação por debaixo do barco, lá no fundo do mar. E ele sabia que aquilo, certamente, não era um bom sinal…

CONTINUA no Episódio III.

 

Imagem ilustrativa enviada pelo autor do conto e retirada do site:  http://www.seasteading.org/

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Publicado às 10 de agosto de 2015 por em Contos de Ficção Científica e marcado .

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

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Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

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