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O outro … no espelho


old_mirror_by_vickie666-d591pycChegar em casa nos últimos dias deixou de ser um alívio, serve apenas para descansar da carga diária de trabalho na transportadora, se é que tenho conseguido, não sei. O ambiente pequeno e quente da quitinete no inicio da noite, as sombras provocadas pelas luzes dos carros passando nas ruas com os faróis ligados, emprestam ao lugar um ar melancólico, como se dezenas, centenas de sombras de fantasmas passassem correndo por ali.

Entro na portaria do prédio antigo onde moro, pessoas passam por mim como se não me vissem, afinal em um edifício com trinta apartamentos por andar e quinze andares, os moradores têm um relacionamento impessoal.

Merda! Mais uma vez os elevadores não funcionam, subo as escadas irritado. Um grupo de adolescentes passa por mim na escada, rindo e soltando pequenos gritos e palavrões. Cheguei. Apartamento 606!

Fico a vontade, pego o saco de papel onde está o sanduiche que será o meu jantar e o devoro em pé mesmo, enquanto abro a geladeira e pego uma cerveja “meia boca” para ajudar a “descer”. Abro a janela e deixo o ar fresco entrar. Sinto como se um mar de gelo descesse sobre minha cabeça, escorrendo por meu corpo, aliviando, tranquilizando.

A televisão há muito não ligo, nem sei se ainda funciona, tecnologia para mim apenas o computador portátil para raramente ver noticias na internet. Fico sentado em uma poltrona velha e desconfortável apreciando a aparente calma da noite.

 Ligo o abajur para ler uma parte do jornal que ganho todos os dias no trabalho e a manchete principal é sobre o “monstro de Vila do Carmo”. Passo direto, eu detesto essas noticias sanguinolentas. Meu pai, quando vivo, dizia sobre aquele jornal que se fosse espremido sairia sangue. Vou para as partes que me interessam, o esporte e os classificados.

Já está tarde, termino de ler e dobro o jornal, mas algo chama minha atenção. Na foto, está o corpo deitado ao chão de um homem jovem, em um recuo de entrada. Tinha sido encontrado pela manhã por passantes. Era o fundo da fotografia que chamou minha atenção, um desenho estampado na parede ao lado do cadáver, lembrando uma letra antiga de algum alfabeto. Resolvi ler.

Assassino em série, era a manchete. O conteúdo do artigo dizia não existir um padrão, era um caçador, um predador, nem a policia estava a salvo. Olho na segunda página os detalhes no cadáver na foto maior, não mostram o rosto do pobre, é a décima sétima vitima, diz a reportagem. Em fotos menores mais três fotografias mostravam o que um louco psicopata poderia fazer. Traziam embaixo uma pergunta da autora do artigo: até quando?

Levantei para ir ao banheiro e passei pelo espelho de corpo inteiro na parede do mini corredor que levava ao sanitário, levei um susto. Costumo deixá-lo coberto por uma toalha velha desde que os pesadelos começaram há um ano, e ele estava descoberto. Sinto um arrepio percorrer a espinha e o medo me assola. Não quero ter mais esses sonhos.

Estou muito cansado, as pernas doem, os olhos pesam, sento na cama e adormeço.

Nevoas cinza azuladas tomam conta das ruas em que caminho ofegante, como se fugisse de algo, como se estivesse sendo perseguido por alguém. Sinto uma presença forte me observando, perto, cada vez mais perto e corro. Corro desesperado pelas ruas da cidade, pelos becos e ruelas desertas em uma paisagem escura e lúgubre da qual faço parte. Escuto chamar meu nome, como se fosse um sussurro do vento frio da madrugada, vento este que me passa pela pele nua do peito como uma navalha de gelo, cortando, gelando.

Algo me faz ir em uma determinada direção, uma praça mal iluminada, deserta onde o silencio é mortal. Estou ofegante ainda, temeroso.

Gritos! Gritos de mulher! Olho para os lados. Vêm de perto. Ela pede por socorro, sinto angustia e medo na voz. Uma sombra fugidia passa por mim na névoa quase escura agora e penso em correr, meu estomago embrulha, sinto náuseas devido ao medo. Mesmo apavorado me aproximo da figura deitada no chão entre o piso da praça e a gramínea, agora avermelhada pelo sangue da mulher. O vestido negro contrasta com a pele clara, macia, um cinto de tecido cor laranja sobressai, sua perna esquerda dobrada, entreaberta, a deixava quase sexy. Seu rosto coberto por um lenço branco, respingado de vermelho salta e ressalta movimentado pela respiração dela.

Paro ao seu lado, sua voz fraca me pede socorro, ajoelho, ela segura minha mão com força. Removo o pano, seus olhos tomados pela vermelhidão não conseguem me ver. Fica comigo, diz. Não me deixa sozinha.

Súbito um barulho atrás de mim, passos fortes, decididos vêm em minha direção, levanto. Tenho que sair daqui, penso. Uma lâmina é sacada a minha frente e vejo seu reflexo cortando a noite como se fosse manteiga, perto do meu rosto.

Acordo apavorado, suado, deitado em meu pequeno apartamento, chorando de medo daquele homem, de pena da pobre vitima, de angustia.

Já é quase manhã, vejo os primeiros raios de sol no horizonte, nascendo. Tomo um banho rápido e vou para o trabalho. No delivery entrego de tudo, desde jornais até computadores.

Conto para o “bigode” sobre o pesadelo da noite anterior, falo sobre as paisagens, o corpo da mulher, o assassino. Mas ele era um homem insensível.

– Deixa de ser cagão, seu porra! E caiu na risada como sempre fazia.

No radio do carro escutamos uma noticia urgente falando sobre a morte da jornalista que vinha cobrindo as noticias do assassino em série. Seu corpo fora descoberto em uma praça pela manhã. Não rimos mais.

De imediato tive um calafrio e nada comentei o resto do dia. Mas as imagens do pesadelo estavam claras em minha mente. Por sorte o expediente estava terminando e poderia voltar para casa. Ao passar pelas pessoas nas ruas eu percebi claramente sua preocupação, seu medo. As noites estariam cada dia mais vazias.

Já no apartamento me preparava para o jantar de hoje, yakisoba comprado em um restaurante perto de casa. Peguei uma cerveja na geladeira e abri. Tomei a lata de uma só vez.

– Esta muito quente hoje, disse alto para mim mesmo.

Sentei na frente da janela e relaxei com o vento frio da noite. Dormi.

Acordei com a luz da lua entrando pela janela aberta, iluminando todo o aposento. Levantei e fui ao banheiro, passei pelo espelho que estava novamente desnudo, procurei pela tolha que normalmente o cobria e não a vi.

Aquele espelho pregado na parede sempre me assustou, mas veio com o resto dos móveis e tinha que aceitá-lo. Olhei meu reflexo, passei as mãos pelo rosto com barba por fazer e percebi que pequenas mudanças ocorriam. Era eu e não era. Olhei outra vez e o reflexo mudou de novo, agora entrecortado por imagens que se formavam, de rostos sofridos, rostos deformados, rostos enlouquecidos pela dor, pelo medo. Aos poucos fui me dando conta de quem eram.

Eram as faces das vitimas do monstro, de todas elas, não apenas das que foram encontradas nesta cidade. Ali estavam o rosto de dezenas de outras pessoas, que por azar cruzaram seu caminho em lugarejos, estradas, bairros, cidades. Seus olhos tinham a mesma expressão de melancolia, como se suas almas estivessem aprisionadas ali, no espelho velho e desbotado da parede.

Olhei uma por uma as pequenas imagens, dezenas delas que formavam a imagem maior, me afastei. Mesmo tendo uma aparência antiga a reconheci como minha. Aos poucos fui me dando conta do que aquele espelho me dizia. Contava das almas atormentadas, dos sofrimentos causados por aquele cuja imagem eu via agora me olhando, sorrindo.

Acordei assustado outra vez, como, alias, todas as noites. As costas doíam, pois havia adormecido na poltrona. Levantei com dificuldade, a perna estava dormente e não sentia direito os pés, mesmo assim me dirigi ao espelho. Acendi as luzes e fixei o olhar, nada. Outro sonho idiota, maluco, pensei. Fui para a cama desta vez.

Os finais de semana para mim às vezes são muito bons, às vezes são terríveis. Penso que sejam tão difusos por eu não ter parentes nesta região do país. Acordei por volta das nove, sorri. Não me lembrava de quanto tempo fazia que não levantava tão tarde. Decidi ir ao jardim zoológico ou a um parque grande com muitas pessoas circulando, não queria ficar sozinho. Fui ao parque.

Bigode tinha sugerido que eu arrumasse uma namorada, afinal dizia ele, um homem grande e forte como você não teria dificuldade com isso. Mas eu não tinha relacionamento com ninguém. Não me lembrava o porquê.

No final da tarde resolvi ir ao cinema, peguei um ônibus e fui ao shopping ver um filme de ação que me interessava. Passando por uma das lojas de roupas masculinas um manequim despertou meu interesse. Não eram as roupas e sim o chapéu. Um chapéu coco preto, velho e descolorido.

De repente todas as lembranças do pesadelo vivido por mim na última noite voltaram à tona e me vi outra vez olhando o outro eu no espelho. Balancei rápido a cabeça como se estivesse acordando. Muito estranha aquela sensação.

Entrei na loja, curioso sobre o chapéu. Vi um vendedor no balcão e me dirigi a ele, decidido a perguntar sobre a estranha peça.

O homem quando me viu abriu um sorriso, como se me conhecesse ha tempos. Chamou-me por um nome que me era estranho e disse que iria embrulhar a encomenda. Fiquei pasmo com aquilo, queria dizer a ele que havia se enganado, mas a curiosidade me dominou e fiquei observando o vendedor que conversava alegremente comigo.

– Aqui está o terno que o senhor comprou e é claro que seu chapéu também. O senhor o esqueceu outro dia aqui e tomei a liberdade de vesti-lo no manequim na vitrine. Muito obrigado e uma boa noite.

Saí em silencio da loja e nem fui assistir ao filme. Ao contrário fui para casa, queria beber uma latinha de cerveja e dormir, afinal tinha andado o dia todo. Abri o armário e coloquei lá o terno e o estranho chapéu.

Fui para a casa do bigode no domingo, ele ia fazer um churrasco e é claro, precisava de um churrasqueiro, ou seja, eu.

– Alguém tinha que fazer por merecer a comida, dizia ele sorrindo, enquanto eu cortava e preparava as carnes.

Não conhecia a maior parte das pessoas, muitas famílias, muitas mulheres da empresa que o bigode insistia em me apresentar enquanto dizia o quão bom rapaz eu era.

Pelas tantas quando a maior parte dos convidados tinha ido embora, um grupo de umas dez pessoas, conversávamos sobre diversos assuntos. Então o papo enveredou para um lado que eu não queria. O monstro de Vila do Carmo. Muitos deram sua opinião, um louco disse um, um psicopata disse outro, safado, tarado, falaram outros.

Uma senhora bem idosa, uma tia da mulher do bigode, disse rispidamente que queria falar sobre aquilo, e reclamou que ninguém lhe dera atenção durante toda a tarde. Todos ficaram em silencio olhando a velha senhora, que percebendo recomeçou.

– Aconteceu na cidade onde eu nasci, disse, bem na capital, uma porção de mortes parecidas com essas. Até que descobriram que um dos habitantes do lugar estava possuído por um demônio.

Todos riram bastante da pobre velha e começaram a ir embora. Pessoalmente não achei tanta graça assim.

– Vocês riem? Acham que estou mentindo? Inventando? Eu ainda tenho as paginas dos jornais, posso provar, disse.

Eu estava tão vidrado na historia que fiquei por lá e depois de algum tempo pedi para que ela me mostrasse os recortes de jornal.

– Ela não mostra isso para ninguém, disse o bigode, é a relíquia dela, guarda com carinho, dentro de sacos plásticos em uma caixa de metal com tampa perfurada.

A velha senhora olhou em meus olhos como se procurasse o motivo de tanta curiosidade, deu um sorriso e concordou que eu visse o material, desde que ela estivesse por perto. Mesmo com mais de 40 anos de guardados os recortes de jornal ainda eram bastante nítidos, embora amarelados. Eram cinco recortes, cada um correspondia a uma morte. Em sua maioria continham apenas textos escritos com detalhes da investigação, mas dois deles exibiam fotos antigas, ainda em preto e branco. A primeira mostrava uma foto de diversas pessoas olhando um cadáver deitado em uma espécie de quarto com uma cama ao fundo. A outra mostrava a foto de um homem jovem, aparentando ter uns trinta anos, o principal suspeito dos crimes. Os olhos dela se encheram de lágrimas.

– Era o meu noivo, disse. Na época disseram que estava enfeitiçado, possuído por uma criatura do mal e que no final se suicidou. O mal nasce e renasce, sem parar. Seus olhos me lembram os dele.

Fui para casa já a noitinha, estava tonto com tantas informações, mas as palavras da tia do bigode não saiam da minha mente martelando, insistindo em bater como se fossem um sino de igreja.

Entrei no prédio, subi as escadas e fui para casa, o silencio era grande. Abri as janelas e desta vez descobri o espelho, fiquei a observar minha imagem nele. A luz clara da lua iluminava todo o cômodo ao passar pelas janelas, o vento frio e úmido. Nada, resolvi tomar um banho frio. Saí do banheiro ainda me enxugando e fui ao armário, escolhi as roupas, aquelas que o vendedor me dera e fui para frente do espelho. Comecei a vesti-las, primeiro a calça, a camisa, o colete, o paletó. A cada peça eu me surpreendia, uma gravata fina e por último o chapéu.

A posição estava errada na minha cabeça, ajeitei. A imagem no espelho começou, então a mudar, a envelhecer, dividindo-se em diversas partes, dezenas delas, centenas talvez. Imagens de sofrimento, de terror, de vitimas.

Sorri, finalmente sabia quem eu era.

Fim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um conto de Swylmar Ferreira

em 9/3/2013 

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Um comentário em “O outro … no espelho

  1. A cumade
    13 de julho de 2013

    Muito bom@

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Publicado às 14 de maio de 2013 por em Contos, Contos de Terror e marcado , , .

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
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- Sinopse -

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Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

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Oi pessoal, o site EntreContos - Literatura Fantástica - promove novos desafios, com tema variados sendo uma excelente oportunidade de leitura. Boa sorte e boa leitura.

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