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A cruz e a espada


As coisas não iam bem para Bernard de Bressan nos últimos tempos. Seu pai optou por se tornar um vassalo do rei e mesmo sendo um dos mais famosos Barões, não conseguiu garantir novos feudos para todos os filhos e ele, o terceiro e último dos filhos homens, certamente faria parte da nobreza sem terras. Era um período muito difícil, pois a situação no reino beirava o caos, com os senhores feudais não tendo mais como alimentar os servos e disputas internas muitas vezes violentas, terminando em morte.

Rumores de guerras que objetivavam a retomada e defesa do Santo Sepulcro, em Jerusalém, que estava em posse dos muçulmanos à época reinavam na Europa medieval. Tudo começou naquele ano em 1071 quando os turcos venceram o exército bizantino em Manzikert, tomando Jerusalém e proibindo as peregrinações cristãs, fazendo com que o papado começasse a pregar a tomada da cidade sagrada do domínio dos infiéis.

Bernard embarcou naquela idéia, juntou-se a um pequeno grupo de nobres das Flandres e da França liderados por Jacques de Lilac. Um dos motivos foi o fato de que não queria se tornar padre como seu pai sugeriu, apesar de ser um fervoroso cristão, e também não queria viver sob as ordens do irmão mais velho, Pierre de Bressan, quando este herdasse o feudo.

Passou-se quase um ano até o grupo conseguir chegar a cidade de Constantinopla, mas uma decepção enorme os atingiu. Com exceção de Jacques de Lilac, não tiveram permissão de entrar na cidade, permanecendo nos arredores em uma das pequenas aldeias, onde eram tratados com desconfiança pelos cidadãos locais.

Bernard surpreendeu-se quando Gregório, um dos bispos da cidade, veio lhes trazer uma missão muito especial que seria socorrer uma aldeia a meio caminho da cidade de Anchialus, no Mar Negro. O Bispo dissera que um mal muito grande e muito antigo retornara àquelas paragens. Do combalido grupo que chegou a Constantinopla apenas cinco cavaleiros, Bernard, Jacques, Brian, Henri e Antoine tinham condições de ajudar ao Bispo Gregório e partiram para o lugar.

A aldeia de São Demetrio era pequena, tinha mais ou menos quinhentos habitantes, mas devido às guerras continuas os homens eram muito velhos ou muito jovens. O pequeno grupo constituído de um guia, um clérigo enviado pelo bispo e os cinco cavaleiros, chegou quase no final da tarde na aldeia sendo recebidos com alegria por Basílio, o chefe da aldeia. Naquela noite durante o jantar o homem lhes contou o motivo do pedido de socorro.

Basílio lhes contou que depois da passagem das tropas otomanas pela região começaram a acontecer situações estranhas como o desaparecimento de animais, de inicio, e depois de pessoas da região. Disse que um grupo de invasores havia atacado uma fazenda da região das montanhas, onde havia uma pequena vila, estuprado as mulheres e assassinado os meninos, deixando vivas apenas as meninas. Uma das mulheres da vila era uma bruxa conhecida na região e após perder o marido, os filhos e ser estuprada resolvera se vingar de tudo e de todos, conjurando criaturas há muito esquecidas dos homens como forma de vingança.

Quando os ataques dessas começaram, diversos moradores foram pedir socorro às tropas otomanas, que ainda se encontravam na região. Foi designado um grupo de trinta guerreiros para ver o que havia ocorrido com os habitantes.

Apenas dois homens retornaram. Muito assustados eles falavam de duas criaturas, uma de asas e corpo de réptil, um dragão, que vivia entre as montanhas e um ogro enorme que atacava as fazendas perto da aldeia. Relataram que a criatura alada atacou os soldados otomanos durante a noite enquanto estavam acampados, matando e devorando a maior parte deles. Na manhã seguinte os sobreviventes se reagruparam e foram caçar a criatura. O resultados foram desastrosos.

– Tolice, disse Jacques de Lilac, para os seus cavaleiros, dragões não existem.

Mesmo assim Bernard e os outros estavam preocupados com o porvir. A noite foi angustiante e insone para ele.

Pela manhã partiram para as montanhas, ainda na esperança de que o ocorrido fosse apenas um mal entendido de otomanos atacados por outras tropas. Logo no primeiro dia viram uma criatura estranha, que Bernard identificou como um ogro. Com duas vezes o tamanho de um homem, a criatura seminua e grotesca atacava uma casa de fazenda.

De longe viram um grupo de mulheres e crianças correrem em direções diferentes, o ogro apanhou uma mulher que corria, arrancou suas pernas e braços e a devorou ali mesmo. O pequeno grupo de cavaleiros ficou em choque nos primeiros instantes, então dois dos cavaleiros mais eufóricos, Brian e Henri partiram juntos sob o comando de Jacques para atacar a criatura.

Atacaram o ogro que apesar de ser lento e estúpido conseguiu matar Brian com um só golpe de sua clava. No movimento seguinte, Jacques o atravessou com uma lança, enquanto Henri com um golpe de machado amputava-lhe uma perna. Quando a criatura caiu, conseguiu atingir Henri com a clava de raspão na cabeça danificando seu elmo e deixando-o desacordado. Nesse ínterim todo o grupo havia chegado e em conjunto atacaram o monstro. Antoine decepou a cabeça da criatura com um golpe de sua espada.

Como se um portal do inferno tivesse sido aberto, eis que surgiu um dragão negro voando e atacou os cavaleiros. Agarrou o clérigo com as patas e, elevando-o no ar, arrancou os braços do pobre homem. Os cavaleiros começaram a alvejar o dragão com flechas e lanças até que ele pousou.

Em um segundo ataque a criatura avançou contra Jacques de Lilac, derrubando-o do cavalo e pisoteando-o, mas Bernard e Antoine foram em socorro do amigo atacando o dragão, rasgando e quebrando uma de suas asas, fazendo com que a criatura soltasse um urro enlouquecedor. De imediato o dragão saltou sobre Antoine e seu cavalo, matando o jovem cavaleiro e sua montaria a dentadas.   Jacques estava muito ferido e foi arrastado pelo guia bizantino até perto da casa enquanto Bernard atacava solitariamente o animal. Com uma coragem impar Bernard cavalgou contra o animal atravessando seu pescoço com a lança enquanto a criatura derrubava sua montaria com o enorme rabo. Bernard levantou-se rápido e atacou o dragão a golpes de espada, decepando-lhe a cabeça.

Neste momento uma mulher se aproximou, era jovem e bela, mas marcas visíveis de tortura e um ódio transparente em seu rosto a identificava, era a bruxa. Ela se aproximou do ogro que estava morto e começou a falar com a criatura tentando revivê-la, dizia palavras ininteligíveis para Bernard. Como cristão fervoroso, ele se aproximou da mulher que num impulso rápido se virou e começou a lançar um bruxedo contra ele.

Bernard com a espada na mão, se ajoelhou, virou-a com a ponta para baixo transformando-a em uma cruz. Ele pensava que era sua salvação. Jacques de Lilac via a cena a poucos metros e percebia a força do jovem cavaleiro contra a maldade. Sacou seu arco e alvejou a mulher com uma flecha no coração.

Bernard de Bressan sepultou seus amigos naquele dia e retornou para Constantinopla com Brian e o guia, marcados para sempre pelo ocorrido e lá permaneceu até o fim de seus dias.

Um conto de Swylmar Ferreira

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Publicado às 19 de setembro de 2012 por em Contos Fantásticos e marcado , .

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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