Fantasticontos, escritos e literários

Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

NAIL’S ART – Um conto de Wagner De La Cruz


bruxa-pinterest

Daniela assustou-se ao voltar da pequena cozinha do salão de beleza onde trabalhava. Eram 12:34, e, até onde lembrava-se, havia fechado a porta da frente. Devia ter se confundido, já que, ao regressar ao hall de entrada, havia uma cliente lhe esperando.

A manicure nunca tinha visto aquela senhora, nem lembrava de ter agendado algum serviço para o horário do almoço. Clientes ao meio-dia eram muito raras, ainda mais em uma terça-feira fria e chuvosa de agosto. Sua patroa, Beth Rossner, havia saído há menos de dez minutos e também nada lhe dissera.

– Bom dia, digo, boa tarde senhora… Pois não? [Disse Dani, colocando seu prato fumegante de miojo feito no microoondas sobre a bancada da recepção]

– Olá. Eu gostaria de um serviço completo de manicure. É possível?

A cliente tinha uma voz arrastada, mas decidida. Algo em seu olhar pareceu cativar Dani. A mulher beirava os cinquenta anos, tinha a pele muito branca e usava uma maquiagem um pouco exagerada, mas bem feita. Ao falar, esboçava um sorriso discreto e insinuante, que se emoldurava bem em combinação com os longos cabelos lisos, o rosto comprido e nariz adunco.

Um trovão ribombou ao longe enquanto a cliente aguardava a resposta. Dani sorriu um pouco insegura:

– Claro! Não tenho ninguém marcado até as 15 horas. Só um momento [Dani respondeu e, com o prato de comida, dirigiu-se rapidamente de volta à cozinha]

– Que ótimo! Você é a Daniela né?

Outro trovão.

Ainda mais surpresa com aquela situação atípica, Dani voltou lentamente até o hall, carregando sua maleta de ferro com os utensílios de serviço.

– S-sim… C-como sabe meu… como sabe meu nome?!

A cliente mexia em sua pequena bolsa de couro negra, que parecia ser adereço do vestido que utilizava, e se voltou sorrindo para Dani, mostrando-lhe um pequeno panfleto rosa que acabara de tirar.

– É o que diz aqui, no anúncio do salão…

O folder dizia ESPAÇO BEAUTIFUL & CHIC – SALÃO DE BELEZA, com informações e gravuras dos serviços do local, e, bem no rodapé, os números de telefone e WhatsApp ao lado dos nomes das responsáveis pelos trabalhos, incluindo Dani.

A manicure sentiu o rosto arder e corar. Que gafe! E era uma cliente nova! Devia achá-la maluca…

– Perdão, senhora…

– Jéssica. Jéssica Dumore.

– Bem, me perdoe, dona Jéssica, é que fizemos os folders há pouco tempo, não me acostumei ainda e…

– Tudo bem [disse Jéssica, simpática], não se incomode com isto. Mas gostaria que começasse o quanto antes, ok? [desta vez, mais rompante]

– Sim senhora. A senhora já escolheu o esmalt…

– Sim! [cortou a cliente] Aquele vermelho, o primeiro da segunda prateleira.

Dani virou-se para as enormes prateleiras de esmaltes. Havia pelo menos duas centenas de vidros, com absolutamente todas as cores e uma infinidade de marcas. O que Jéssica indicou era de um vermelho escarlate, encorpado, com um frasco único e com o rótulo apagado. Ao pegá-lo, Dani não se lembrou dele. Parecia um produto artesanal. Tinha certeza que o modelo do recipiente e o formato do pincel estavam fora de linha há muito tempo. Será que já não estaria seco?

Enquanto colocava a água para ferver na jarra elétrica, Dani abriu o frasco. Incrivelmente o pincel estava úmido, e não havia o menor sinal de crostas. Era como se o velho esmalte nunca tivesse sido aberto. O cheiro do produto era forte, acre, mas a cor… ah! A cor era belíssima! Um vermelho vivo, pungente, parecia capaz de hipnotizar. Por quê nunca ninguém o havia escolhido? Estava no salão há quase dois anos e não entendia como não o utilizara antes. Vou oferecê-lo a todas as clientes daqui por diante, pensou. Ante o pensamento da manicure, Jéssica sorriu na poltrona.

***

A chuva tornou-se mais forte e os relâmpagos mais constantes enquanto Dani manicurava. A temperatura pareceu diminuir drásticamente, mesmo para a época. Jéssica não era exatamente uma cliente ‘falante’, de modo que, após duas ou três tentativas de puxar assunto retribuídas com falas monossilábicas, Dani desistira de qualquer interação

Na verdade, a manicure sentiu-se um pouco intimidada durante a execução do trabalho. Jéssica Dumore parecia ter os olhos fixos em Dani, como se avaliasse algo mais do que seu desempenho profissional.

Por fim, as unhas ficaram prontas. Mais uma vez, Dani ficara orgulhosa de seu êxito. Era, de fato, excelente naquilo que fazia. Um sorriso tão enigmático quanto o de uma Monalisa moderna surgiu nos lábios de Jéssica quando examinou o serviço.

– Perfeito! [disse Dumore, com a voz ronronante de Kathleen Turner] Quanto lhe devo?

– Obrigado. [Dani sentiu-se encabulada] São quinze re….

“I’ve had, the time of my live…”, a música tema de Dirty Dancing começou a tocar. Era o toque do celular de Dani. Ela havia deixado o aparelho sobre a pia quando preparava o almoço. Pela hora, talvez fosse Amanda, sua filha mais velha. Sempre ligava por volta das duas da tarde. Pedindo licença para Jéssica, dirigiu-se rapidamente à pequena cozinha.

O telefone parou de tocar quando Daniela foi atender. O visor mostrava <NÚM. RESTRITO>. Deve ser alguma empresa de cartão, pensou a manicure, enquanto regressava para o local de trabalho.

– São quin…

Novamente não terminara a frase. Jéssica Dumore havia desaparecido! Impossível, pensou Dani, ela estava aqui há vinte segundos!

Sobre a mesa de serviço estava uma nota de R$50,00, dobrada abaixo do vidro do esmalte escolhido. Ao lado, um cartão de visita com os dizeres JÉSSICA DUMORE em letras estilizadas, com um número de telefone com o DDD 92 em relevo, margeado por tribais de cor dourada.

Intrigada, Dani tentava imaginar o quê afinal de contas fazia sua nova cliente, já que o cartão que agora segurava nada especificava, quando uma mão repousou sobre seu ombro esquerdo. Dani gritou, girando nos calcanhares, encontrando o rosto surpreso de Beth Rossner.

A manicure perdeu e equilibrio e Beth precisou segurá-la e ajudá-la a se sentar.

– Meu Deus, Dani! O que houve, criatura?! Você está tão pálida!

Dani lhe contou, sentindo-se tola e levemente irritada quando Beth finalmente riu do susto involuntário que causou.

– Calma, amiga. [Beth falou] Ela devia estar com muita pressa, você mesma disse que ela queria um serviço rápido.

– Mas… você não a viu quando chegou?

– Não, mas ela pode ter saído por outro lado. E também, posso ter visto e nem notado.

– Sim, mas,.. Ai, sei lá!

Beth riu novamente da confusão de Dani. Desta vez, tendo companhia da mesma.

– Olha [disse Beth], vai almoçar, amiga. Sei que tá com fome. Pode até ir na lancheria alí da frente, hoje tá bem tranquilo.

– Tem certeza?

– Claro! Você merece, depois de hoje!

E novamente riram. Dani, ainda nervosa, mas um pouco mais calma, levantou-se e foi pegar sua bolsa. Beth, distraidamente, guardou a chave que usara para entrar e foi preparar um café para as possíveis clientes.

2

A chuva amenizara na tarde em Imbé. O Beautiful & Chic localizava-se na área nobre do município, na avenida principal, rodeado por lojas e comércios. Beth inaugurou o salão no início de 2008. E agora, oito anos depois, já era um dos mais conceituados da pequena cidade gaúcha.

Daniela morava em Imbé há pouco mais de dois anos, vivia com suas duas filhas em Santa Terezinha, bairro de classe média no extremo norte da cidade. Seu falecido marido, Roberto Ciechoski, era professor de história em Porto Alegre. Quando Roberto morreu, quase três anos atrás, vítima de um enfarto fulminante enquanto dava aula, Daniela ficou arrasada. Amava demais o marido, estavam juntos desde que tinham 14 anos. Sua filha mais nova, Luísa, tinha menos de dois meses. Viúva, com duas crianças pequenas para criar, e sem o homem de sua vida! O cenário não poderia ser pior para Daniela.

Após crises de depressão, apatia e sucessivas idas a psicólogos, Dani decidiu mudar-se para o litoral norte. Em Imbé poderia iniciar uma nova vida e, com o tempo, aprender a conviver com a dor. Porto Alegre lhe fazia mal, tinha muitas lembranças, e precisava de novos ares para superar a perda. Mais do que isto: precisava ser forte, já que agora tudo que as meninas tinham era ela! Assim, juntou suas economias, vendeu sua casa na capital e partiu rumo à praia.

Apesar de receber uma pensão de seu falecido marido, o dinheiro não era suficiente para proporcionar a ela e às filhas uma vida suficientemente confortável. Sendo assim, Dani voltou a exercer a profissão que tinha antes de casar-se: manicure e pedicure. Era um verdadeiro dom, tinha noção disto. Ninguém que conhecia era mais hábil.

Após dois meses atendendo em sua casa e esporadicamente à domicílio sem ter um retorno satisfatório (a população de Imbé era de apenas 15 mil habitantes), Dani resolveu tentar um emprego em algum salão de beleza. Amanda já tinha 13 anos, e poderia cuidar de Luísa a tarde, quando retornasse da escola e pegasse a irmã na creche.

Sua primeira tentativa foi exatamente no Beautiful & Chic. Quando Beth pôs os olhos nas unhas decoradas de Dani achou que eram decalques, tal a perfeição na arte. Ao descobrir que era pura técnica, Beth não deixou Dani sair do salão sem a garantia de que a manicure faria parte do seu quadro de funcionários.

Agora, dois anos depois, os problemas de Dani pareciam algo distantes. Aos 33 anos, bem empregada e gozando de ótima reputação, sentia-se feliz. Roberto sempre lhe fará falta, obviamente. Foram dezesseis anos de casamento. Mas já lidava bem com isto, e transferira todo o seu amor para suas meninas. Eram sua vida e motivação.

– Mais alguma coisa? [perguntava-lhe a atendente da Lancheria Shallom]

– Pode me trazer também uma lata de Coca-Cola.

Enquanto aguardava o xis salada com refrigerante, Dani resolveu ligar para Amanda. Já eram 13:45, geralmente ligava para a filha quinze minutos antes disso.

No segundo toque alguém atendeu, e uma voz de choro do outro lado da linha fez Daniela afastar o celular do ouvido.

***

O telefone do Beautiful & Chic tocou no exato instante que Leonardo, um dos cabeleireiros, chegava. Com um aceno de cabeça cumprimentou Beth, que distraidamente lia o Diário Imbeense, acompanhando o desenrolar da campanha política que só terminaria em dois meses.

– Beautiful & Chic, boa tarde! [Falou Leonardo, com sua voz afetada característica]

– Oi Léo, é a Janaína.

Janaína Dias, primeira-dama da cidade, uma das clientes fixas do salão. Beth não nutria grande simpatia nem por ela nem pelo marido. Não tornava isto público, evidentemente, mas também não se importaria se o atual prefeito fosse derrotado nas urnas em outubro.

– Faaaala, guria! [prosseguiu Léo] O que é que manda?!

– Amanhã vou querer um tratamento completo, ok? Cabelo, sobrancelhas, depilação, unhas… tudo que tiver direito! Tem como marcar?

– “Tem como marcar?”? Menina, aqui você maaanda! Claro que tem! Que horas vai querer?

– Pode ser umas nove da manhã? Pedro e eu vamos à Brasília e…

– Marcadinho, amiga! Te aguardamos amanhã então.

– Certo. Obrigada Léo. Você é um amor!

Dindim torna as pessoas tão amorosas, pensou Léo. Despediu-se e, após anotar na agenda os horários para Janaína, serviu-se de um café. Sem açúcar e quase escaldante, como ele gostava.

– E a Dani? [perguntou o rapaz à Beth]

Beth recapitulou o que Daniela lhe contara. A cada evento estranho Léo, um notório medroso, levava as mãos à boca, exclamando um AI! meio assustado meio afeminado.

***

– O que está acontecendo, Amanda?! [falava Daniela ao celular]

– Tiraram o Chaves! [disse a filha, enquanto o berreiro seguia ao fundo, na linha, como uma música incidental]

– Ãhn?! [Dani pegou-se confusa]

– Assim, o SBT tirou o Chaves para botar um jornal que ninguém olha. E agora a Luísa quer ver o Chaves e não pára de chorar!

– …

– Mãe?

– Sim, filha.

– O quê que eu faço?!

– Ai, Amanda. Não sei. Por que você não brinca um pouco com ela? Já, já ela esquece e…

– Já tentei! Ela só quer ver o Chaves, mãe!

Daniela respirou fundo. Não gostava de ver a filha chorando. Queria poder fazer todas as vontades das garotas, mesmo quando não dependia dela, como era o caso. Não poderia obrigar o SBT a passar o maldito Chaves.

Então, lembrou que tinha ganho um dinheiro a mais pelo último trabalho, e sugeriu à Amanda que fosse com Luísa até a locadora do centro do bairro, há dez minutos de casa, e alugasse em sua ficha um DVD do Chaves. A diária não era muito barata, dava quase duas passagens de ônibus, mas faria isto pela sua caçula. À noite, explicaria para ela que Chaves agora só teria aos fins de semana. Mas, por ora, resolveria assim a situação.

Quando o lanche chegou, cinco minutos mais tarde, Dani despediu-se da filha, e recomendou que se cuidasse, como fazia todos os dias. Mal deu a primeira mordida no cheeseburguer e seu celular novamente vibrou. Era um Whatsapp. Léo estava avisando do serviço marcado para o outro dia.

OK. Digitou e enviou.

E pôs-se a comer rapidamente. Estava com muita fome. E o lanche dalí era delicioso! Dani parecia comer como se fosse o último xis que poderia degustar.

Se pensasse realmente isto, não estaria tão errada.

***

O restante do dia foi um tanto tedioso. Apenas duas clientes, ambas depilação para Beth, foram ao Beautiful & Chic. A maior parte do tempo Dani e Léo falaram sobre alimentação, como quase todos os dias. Ele, esguio e rato de academia, era um perfeito natureba. Não comia nada que pudesse, em suas palavras, “prejudicar o corpinho”. Já Daniela, mais para Melissa McCarthy do que para Gisele Bündchen, era totalmente avessa a dietas. Gostava de comer aquilo que tinha vontade e pronto.

A tarde se arrastava lentamente. Já não chovia, mas o vento que soprava era gelado e desmotivava qualquer pessoa a sair de casa. Eram 18:25 quando Dani se dirigiu ao ponto de ônibus. Pelos seus cálculos não esperaria mais do que dez minutos até o Expresso Boto passar, mas, infelizmente, o relógio do motorista não estava alinhado ao seu, de modo que só embarcou às 18:48.

Chegou em casa já passava das sete e meia da noite. Amanda havia preparado uma macarronada de carne moída e aguardava a mãe assistindo ao Atualidades Pampa, um velho hábito que a garota involuntariamente herdou do pai. Sempre antenada com os assuntos mais relevantes.

Luísa já estava dormindo. Era muito raro Daniela encontrar a filha ainda desperta quando chegava do serviço, mas nunca deixara de dar-lhe um beijo de boa noite e passar o início da manhã com a garota. Como já dito, não queria que lhes faltasse nada, principalmente amor.

Após o jantar, lavou a louça enquanto ouvia a Rádio Gaúcha, hábito que ela mesma adquirira do marido. Mal prestava atenção às notícias, mas era algo que a fazia sentir como se Roberto estivesse alí.

Quando Amanda foi deitar-se, lá pelas 22 horas, Daniela foi tomar um banho quente. Deu-se ao luxo de demorar 25 minutos sob a ducha, e, ao sair, tomou um copo de leite quente, para ajudá-la a adentrar no mundo dos sonhos. Teria um grande dia pela frente.

3

Pela manhã, como de praxe, Dani acordou antes do despertador tocar para preparar o café das garotas. Ainda que não tivessem a convivência adequada à noite, nas primeiras horas do dia, à mesa, eram uma família digna de comercial de margarina, tão unidas e felizes quanto pudessem ser.

Apesar de Luísa choramingar pelo término do Chaves, Daniela conseguiu contornar este problema e, aparentemente, evitou o início da terceira guerra mundial. Ficou combinado que a caçula ganharia um presente no fim de semana caso se comportasse e não chorasse mais. Evidentemente, a mãe nem sabia qual presente daria à filha, mas não queria iniciar o dia se indispondo.

Antes de Amanda sair para levar Luísa na creche e ir para a escola, Dani lhe deu dez reais para pagar a diária do DVD, além de fazer as recomendações que repetia diariamente e que Amanda, em piloto automático, apenas assentia.

Por fim, depois que as filhas saíram, Daniela aprontou-se rapidamente e também saiu. Não era do tipo que se atrasava, principalmente quando tinha cliente pela manhã. Também não era muito fã da primeira-dama, a achava fútil e prepotente, tal qual o prefeito, mas serviço era serviço. Não faria juízo de caráter.

Irônicamente, o ônibus em que Daniela estava precisou pegar uma desvio em Mariluz, bairro centro-norte de Imbé, devido a um bandeiraço matutino em prol da candidatura à reeleição de Pedro Dias. O caminho pela RS-786 iria atrasar a chegada de Dani em pelo menos vinte minutos.

– Que droga! [pensou em voz alta] Quem faz bandeiraço numa QUARTA às 8:45?!

***

– Boa tarde! [disse Janaína, de forma debochada, quando Daniela chegou ao salão, às 9:25]

Daniela devolveu o cumprimento apenas com um aceno e um sorriso, elementos que seus amigos sabiam ser algo quase cínico, mas que para a primeira-dama soaria como um pedido de desculpas.

Quando Janaína chegou, pontualmente às nove horas, Leonardo já tratou de começar os trabalhos nos cabelos da cliente. Também não tinha muita afeição pela mulher, mas estava interessado é no pagamento que receberia, sobre tudo nas gorgetas. Beth chegou a se oferecer para fazer as unhas, mas, como não tinha o nível artístico de Dani, fora rejeitada.

– E então, dona Janaína, qual cor vai querer? [perguntou Daniela, simpatissíssima para quem não a conhecia]

– Ah, pode ser aquele vermelho que fiz a última vez… [dizia Janaína, quando Léo fez uma pausa para que pudesse escolher o esmalte certo. Então, os olhos da mulher se fixaram em um vidro específico] Não! Eu quero AQUELE vermelho!

O vidro que Janaína fitava com olhar fascinante era o mesmo que encantara a própria manicure no dia anterior. Aquele tom de vermelho se sobressaia aos demais, tal era sua beleza. Ao pegar o vidro para iniciar o serviço, Dani podia jurar que o mesmo estava aquecido pela intensidade e força do esmalte colorido. Bonito demais para esta vaca, pensou.

O dia estava com céu de brigadeiro. Depois da tempestade sempre vem a bonança, dizia o velho ditado. Seria uma tarde que daria praia, pensava a manicure. Enquanto trabalhava, Dani refugiou-se nela mesma, ignorando o papo furado da mulher do prefeito, imaginando-se à beira-mar com as filhas, promessa que fizera e adiara inúmeras vezes no último verão, e respondendo com monossílabas esporadicamente. Se estivesse um dia cinzento, imaginaria-se em uma tarde em casa, com Amanda e Luísa, vendo um DVD (poderia até ser o do Chaves!) e comendo pipoca. Afinal, qualquer refúgio interno era melhor do que ouvir conscientemente a falação fútil e desenfreada de Janaína.

De fato, a cliente era apenas uma esposa troféu. Só acompanhava o marido em viagens para servir de adorno, e não se importava com isto. Tampouco dava sinais de se incomodar com os falatórios sobre a diferença de idade de vinte e sete anos entre eles. Sua vida era ter um cartão de crédito com um belo limite, visitar locais chiques, ter as melhores roupas, frequentar os melhores hotéis e, o mais divertido, contar tudo para os menos afortunados e causar inveja.

Nem Daniela, nem Janaína perceberam quando, por menos de cinco segundos, uma nuvem passageira cobriu o sol, criando uma sombra sobre o salão que logo se dissipou. Mas ambas perceberam que a temperatura caiu uns cinco graus repentinamente, já que quase coordenadamente sentiram um arrepio na espinha dorsal.

– Léo e a mania de ligar o ar no mínimo! [disse Daniela]

O aparelho de ar condicionado localizava-se na parede atrás do cabeleireiro. E marcava exatos 25°.

***

Perto das 11 da manhã o trabalho de Dani havia sido concluído. O esmero era impressionante e louvável. As decorações em amarelo e preto sobre o esmalte vermelho, as cores do partido do atual prefeito, assentaram bem, tendo a mulher escolhido tribais indistintos e, no polegar da mão direita, um símbolo chinês que significava “fortuna”.

Enquanto Léo dava os últimos retoques no penteado de Janaína, Dani foi consultar a sua agenda. Lembrava-se de ter um serviço marcado para o meio-dia, mas quis confirmar. Encontrou o nome da cliente riscado.

– Ué?! A Thaís desmarcou? [perguntara à Beth]

– Sim, ela me mandou um WhatsApp pela manhã, remarcou para sexta. Tudo bem?

– Sim, sem problema. Vou aproveitar e marcar para a Amanda. Quinta tem Feira de Ciências, aí já faço as unhas dela hoje, já que não sei que hora vou chegar em casa depois do trabalho.

As engrenagens do destino novamente funcionavam à todo vapor, e o rumo da vida de Daniela, Amanda e até da pequena Luísa seria alterado drásticamente com um punhado de palavras enviadas através de um aplicativo de mensagens eletrônicas: “Filha, vem aqui no salão a uma hora. Marquei horário para ti”.

***

Sem nenhum evento político, os ônibus puderam trafegar novamente pelas rotas pré-determinadas. Eram 13:25 quando Amanda e Luísa desembarcaram no ponto mais próximo ao salão da mãe.

– Promete que deixa eu pintar as unhas também? [perguntara Luísa. A caçula era fascinada pela arte. Apesar de Amanda também gostar, Dani sabia que Luísa é quem seria sua sucessora]

– Sim. Anda, mana, senão vamos nos atrasar!

Amanda sabia o quanto a mãe era ocupada, e estava ansiosa: faria todas as amigas morrerem de inveja. Sempre ficavam roxas de ciúme cada vez que Daniela decorava as unhas dela.

Ao chegarem no salão, cumprimentaram Léo, que estava saindo para almoço. Daniela estava no sofá, lendo uma velha edição da Revista Contigo. Luísa desvencilhou-se da mão da irmã e foi correndo abraçar a mãe.

– Mãe! Te amo!

– Também te amo, filha. Como foi na creche?

– Bom! A gente olhou o Chaves! A tia levou um DVD com um monte de episódio!

– Uau! Por isto que tu não chorou?

– Não, mas porque a mana falou que, se eu não chorasse, a mãe ia pintar a minha unha.

Dani não pode deixar de sorrir, abraçar e beijar a caçula. Em seu depoimento à polícia na tarde seguinte, Léo descreveria esta cena.

– E então, Amanda. [perguntou Dani] Já escolheu a cor?

– Já, mãe. Vou querer este vermelho que tu tá usando.

É impossível resistir a ele, pensou Dani. Será que aquele velho esmalte seria tendência? Será que ela o havia ressucitado para brilhar?

– Ah! Eu também! [disse Luísa] Todo mundo de vermelho, igual o Chapolin!

Dani e Amanda riram com gosto, enquanto a garota se instalava na poltrona de serviço. Novamente, quando Daniela pegou o velho frasco, uma grande e densa nuvem tapou o sol por uma fração de segundos, seguida por uma queda brusca na temperatura. O ar condicionado ainda marcava amenos 25°, e Dani estranhou o arrepio que sentira. Coisas da idade, concluiu, enquanto ajeitava-se para manicurar as unhas da filha.

***

Um Logan escuro com um adesivo escrito DELEGADO TOFFANI PREFEITO e placas de Porto Alegre parava no estacionamento do Cemitério Municipal de Tramandaí, cidade vizinha a Imbé. O motorista, um atraente jovem senhor, dirigiu-se a loja de flores e velas que comodamente instalara-se onde antigamente era a Lancheria Vegas.

Todos os anos aquele homem repetia o mesmo ritual, na mesma data, há pelo menos 25 anos. Estar na reta final da campanha política onde era candidato à prefeito em Torres, cidade há duas horas de distância de Tramandaí, não iria impedir de visitar o túmulo de alguém por quem ele nutre tanto carinho, tantos bons sentimentos. Apesar de já ser casado há duas décadas, certas paixões nem a morte consegue fazer esquecer.

– Pai? [uma voz o chamava na entrada do cemitério]

– Sim, Elisa.

– Posso ir contigo? Não quero esperar no carro. E cemitérios me dão medo… [disse Elisa, com um sorriso trêmulo, enquanto roía as unhas curtas, vício hereditário do qual ele não se orgulhava]

Eduardo sorriu. Elisa já tinha 14 anos, dois anos a menos do que a garota que ele visitava teria eternamente. Não haveria como elas se parecerem, mas ele achava que, de certa forma, tinham alguma semelhança na parte da ingenuidade.

– Claro. Não vamos demorar, filha.

4

Já passava das duas e meia da tarde quando Daniela terminara as unhas das filhas. Para agradar Luísa, desenhara um coração amarelo preenchido com um “CH” em seus polegares, o símbolo do Chapolin Colorado, herói que a menina tanto gostava.

A esta altura, o salão já estava relativamente movimentado, com mulheres tagarelando freneticamente enquanto aguardavam atendimento, barulhos de secadores e do autoclave sendo ligados, televisão sintonizada no Fofocando e os odiosos caminhões com as odiosas campanhas políticas.

Daniela e as filhas estavam na pequena cozinha, saboreando uma bela pizza recém-entregue. A manicure teria mais dois serviços marcados para aquela tarde, mas achava que estaria cedo em casa. Luísa estava encantada com suas unhas, e segurava a fatia de pizza com delicadeza, para não desmanchar o desenho que a mãe fizera com tanto carinho.

– Dani? [disse Beth, sua voz chegando antes dela aparecer no umbral da porta da cozinha]

– Fala, Beth.

– A dona Leonora ligou desmarcando, deixou para amanhã. Tudo bem?

– Sim, sem problemas.

– E a Camila marcou cabelo comigo para as três horas, mas eu ainda estou com a Emanuelle. Se tu quiser, pode iniciar as unhas dela antes.

– Tudo bem. Só vou terminar aqui.

– Claro, fique à vontade. Aí depois da Camila, pode ir para casa. Acho que hoje não vem mais ninguém, já que marcaram para amanhã.

***

No aeroporto Salgado Filho, enquanto Dani tratava das unhas de Camila Mitsuo, um avião da TAM levantava voo, seguindo para o Rio de Janeiro e, em seguida, Brasília.

Pedro estava acomodado ao lado de sua esposa-troféu, lendo a última edição de Zero Hora. A viagem até a capital era apenas protocolar. A imprensa local achava que o prefeito iria tratar de assuntos pertinentes ao executivo, mas, na realidade, o gestor da cidade estava mais preocupado com os valores que lhe seriam pagos por aquela viagem, através de diárias.

Ainda faltava muito para as eleições, e qualquer grana extra que ele tivesse acesso lhe garantiria mais alguns votos. Para quê falar com seu deputado aliado por telefone se poderia ir até ele e ainda ser pago por isto, não é mesmo?

A seu lado, Janaína navegava na internet em seu Iphone, consultando os novos modelos de bolsas e sapatos e acompanhando as tendências da moda. E o Facebook, claro. Ainda não havia postado o check-in na rede social.

“Janaína Dias está com Pedro Dias viajando para Brasília: ao lado do nosso prefeito, em busca de mais recursos para Imbé”, escreveu.

“Boa. Deus abençõe este casal. Lindos”, uma garota que Janaína nunca vira e que se identificava como Gabriela Barcelos, funcionária da prefeitura segundo seu perfil, comentou menos de dez segundos após a postagem da primeira-dama.

Duas coisas que Janaína adorava: que lhe invejasse e que lhe inflassem o ego.

***

Diferente das clientes tradicionais, Camila Mitsuo levava seu próprio esmalte cada vez que queria pintar as unhas. Era uma espécie de TOC, no qual Dani já estava acostumada. Advogada, a mulher sempre gostava de cores mais discretas e nenhum tipo de decoração. Evidentemente, não pegaria bem para uma advogada aparecer para alguma audiência com qualquer estilo de unhas que fugisse ao formal.

O serviço era completo (mão e pé) e demorou um pouco mais para ser concluído. Camila, apesar de ser uma cliente assídua, demorava tempo demais entre uma sessão e outra, de modo que Dani precisou de mais tempo para tirar-lhe as cutículas e desencravar o canto das unhas, sobre tudo as dos pés. Finalmente, passando das quatro e meia, Daniela terminou seu dia de serviço.

A esta altura, Beth já iniciara os reparos no cabelo de Camila, enquanto Léo, atarefado, escovava sua quarta cliente do dia. Pelo visto, as desmarcações eram apenas para Dani. Paciência, pensou ela. Fim de semana sua agenda estava lotada, recuperaria o fraco movimento do dia.

– Acorda, filha. [Dani falava para Luísa, adormecida no colo de Amanda] Hora de ir para casa.

Sonolenta, a menina coçou os olhos, bocejou e espreguiçou-se ruidosamente, atraindo olhares das clientes, e alguns risos posteriormente. Sem graça com a atenção inesperada, colocou-se de pé, deu um beijo em Beth e Léo e pegou um punhado de balas da recepção antes de despedir-se.

Os presentes no salão ainda não sabiam, mas comunidade imbeense teria uma noite inesquecível.

***

O sol já ameaçava se pôr no litoral. Enquanto dirigia de volta a Torres, após ter tomado um belo café da tarde na Confeitaria Bolo Fofo no centro de Tramandaí, Eduardo sintonizara o rádio numa estação de música popular da cidade.

Elisa mexia em seu smartphone, ignorando a música que envolvia o interior do carro. Uma banda gaúcha chamada Musical JM performava a canção chamada “O Último Baile”. Eduardo se sentia desconfortável com a estranha coincidência da letra quando relacionada à sua própria história pessoal.

– Pai, [disse Elisa] a mãe pediu para a gente passar no mercado. A vó e o vô ficaram de vir amanhã.

– Certo.

A partir de quinta-feira a sua rotina política rumo à prefeitura seria ainda mais corrida, então seria mesmo melhor adiantar as compras. Pelo menos para o churrasco que prometera há mais de um ano para o pai e a mãe.

Há muito havia passado pela ponte Giuseppe Garibaldi, que divisava Tramandaí e Imbé. Quando Elisa passara a ele a mensagem da mãe, o Logan estava quase em frente ao prédio do executivo municipal. Um quilômetro adiante, Eduardo avistou o SuperBom, uma enorme filial de uma rede regional de supermercado. Apesar das várias placas de promoções, o lugar não estava muito cheio.

Ao descer do veículo, Eduardo notou que um salão chamado Beautiful & Chic funcionava quase em frente ao mercado. Estranhamente, foi a primeira coisa na paisagem que chamou a atenção do delegado. Quando Elisa desceu, sem tirar os olhos do smartphone e roendo as unhas novamente, Eduardo compreendeu o motivo para seu subconsciente o ter direcionado para aquele local.

– Filha, quer fazer as unhas antes da gente voltar a Torres?

– Claro, pai! Agora?

– Sim, aí enquanto você faz as unhas, eu vou no mercado. Vou só ligar para a sua mãe para avisar.

***

No instante em que Eduardo e Elisa Toffani confabulavam sobre o que fariam nos próximos minutos em frente ao SuperBom, dois indivíduos que posteriormente só seriam identificados por suas iniciais saiam em uma CG150 roubada, indo de Santa Terezinha em direção a Tramandaí pela avenida principal.

Precisavam de dinheiro rápido, tanto para investir em seu próprio conforto quanto para saldarem as dívidas com um traficante da cidade e salvarem seus rabos, mas não iriam roubar ou assaltar em seu território, já eram bem conhecidos no bairro em que residiam.

Ambos tinham 17 anos, M., o mais velho, estava a dois meses de atingir a maioridade. L. H., o mais jovem, recém havia completado mais um ano de vida. M. estava guiando a moto e, a medida que escurecia e aproximavam-se de centro de Imbé, vinha estudando mentalmente qual a situação mais segura para assaltarem. Um ponto de ônibus? Um mercado? Uma revenda de gás? Talvez arrombar uma loja fechada…

L. H. segurava firme o seu .38 no bolso do moletom. Era a sua vez de ser o agente passivo no assalto, aguardando na moto enquanto M. realizava o roubo. Esperava não falhar como há quatro meses atrás, quando assaltaram um motel. Havia esquecido de abastecer a Honda Biz que utilizaram no crime, não tiveram chance de fuga e amargaram dois meses na FASE. Não haveria margem para erro agora, e talvez não achassem uma defensora pública que simpatizasse com a causa novamente.

Ao passarem em frente ao SuperBom, L. H. pediu para que fizessem o retorno.

– Aquele salão?! [perguntou M., incrédulo]

– Claro! Quer coisa que rende mais e que é moleza de assaltar?!

– Sei não, meu…

– Relaxa! Só trabalha mulher e viado lá.

– Tu quem sabe…

– Confia em mim, cara. Vai dar tudo certo.

Gradativamente, M. ia diminuindo a velocidade conforme se reaproximava do Beatiful & Chic, para realizar aquele que seria o último assalto de sua carreira.

5

O final do expediente aproximava-se. Beth já estava calculando os valores e comissões da féria do dia, enquanto Léo resolvera manicurar-se.

A esta altura, o cabeleireiro já havia lixado as unhas e retirado as cutículas. Gostaria que Daniela tivesse feito o trabalho, mas a garota já estava em casa com as filhas. Teria de ser ele mesmo. Não era um especialista na arte, mas também não era tão ruim. Antes de iniciar o procedimento, Léo havia escolhido o esmalte vermelho vivo, que, aparentemente, quase todas as clientes estavam pedindo.

Léo agitou o vidro e, após destampá-lo, aproximava o pequeno pincel encharcado do produto quando escutou uma batida na porta. E então, quando Eduardo Toffani entrou, o cabeleireiro paralisou, com o pincel molhado há quinze centímetros de sua mão esquerda.

Tinha fascínio por homens mais velhos, e Eduardo, além da genética lhe ter sido generosa, ainda aparentava uma aura de poder. Léo não tinha a menor ideia de quem era aquele homem, não imaginaria que, em pouco tempo, Eduardo seria eleito prefeito de uma cidade próxima, mas algo no ar mudou após o mais jovem dos garotos Toffani entrar no recinto. Poderia jurar que a temperatura teria baixado um ou dois graus.

– Boa noite [disse Eduardo, sempre cordial]. Vocês ainda estão atendendo?

– Claro… [disse Beth, também impressionada com o homem]

– Quanto está o serviço de manicure?

– Ah. Perdão senhor, nossa manicure nã…

– Ei! Pode deixar, eu faço! [adiantou-se Léo, fechando o vidro de esmalte]

Beth franziu as sobrancelhas, e encarou o cabeleireiro, sem entender. Mas, pela prontidão com que Léo se dispôs a realizar a tarefa, resolveu não falar nada. Nunca se nega serviço a um cliente em potencial, e algo lhe dizia que Léo iria caprichar.

– Que ótimo! [continuou Eduardo] Quanto custa para fazer as mãos?

– Ah. Doze reais para você, moço.

– Bem, não é para mim, é para a minha filha.

Disfarçadamente, Beth mordeu os lábios para não rir. Talvez o cliente não percebesse, mas, para quem o conhecia bem, a decepção no rosto do cabeleireiro foi bem visível.

– Elisa? Elisa?! [Eduardo chamara a atenção da filha]

Elisa voltou-se para o pai. Estava distraída e curiosa com a movimentação da rua. Pareceu-lhe que uma moto passou em alta velocidade e, em seguida, retornou pela mesma pista, passando mais devagar, como se estivesse procurando algum endereço. Claro, estava escurecendo, e a garota não podia ter certeza. Por isto, resolveu deixar para lá.

– Sim, pai?!

– Pode passar com aquele rapaz alí.

– Sim, querida [disse Léo]. Já pode escolher uma cor.

– Quanto tempo demora, em média? [perguntou Eduardo]

– Ah, só a mão?! No máximo meia hora.

– Certo. Bem, vou alí no mercado e volto em meia hora então, pode ser?

– Claro. À vontade [disse Léo]

Elisa queria ter falado ao pai a respeito da moto suspeita que vira. Mas, ao ver o esmalte que estava na mesinha de Léo, esqueceu tudo imediatamente. Teve de pegar o vidro, desenroscar a tampa e ver bem de perto, pois a cor vermelha do produto possuía uma beleza quase palpável.

– Vou querer esta aqui! [disse animadamente a garota]

– Ótima escolha, ahn…. Elisa, né? [disse Léo, dirigindo-se para a mesinha] Todo mundo tem escolhido esta cor ultimamente.

Eduardo agradeceu a atenção de Beth e havia feito menção de sair. Mas, antes de chegar ao umbral, virou-se para a proprietária.

– Perdão… posso usar o banheiro antes de sair? [perguntou o cliente]

– Claro. É logo alí, à esquerda.

O policial dirigiu-se para o banheiro, e, no instante em que encostou a porta do pequeno cubículo, a porta de correr da entrada do salão foi aberta, surpreendendo Beth, que calou-se ao ver a arma na mão de M. apontando para seu peito.

***

– Passa a grana, vadia! [gritou M., para Beth]

O marginal havia engatilhado a arma, e a balançava diante de Beth. A cabeleireira ficou sem reação, sentindo a boca secar, e as mãos não obedecerem.

O som do tapa que M. deu no rosto da mulher fez eco. Horrorizado, Léo deu um grito agudo, o que chamou a atenção do assaltante, que não prestara atenção na sala de unhas.

– Olha… [disse M., maliciosamente, aproximando-se de Elisa] O que temos aqui…

– P-por fa-favor, mo-moço… [pedia Léo, segurando o vidro aberto de esmalte] não nos machuque.

Uma coronhada no rosto do cabeleireiro arrancou, desta vez, um grito de Beth. Léo imediatamente levou uma das mãos ao local da pancada, e teve a vista turvada ao ver o sangue que jorrava de seu supercílio. O vidro de esmalte girou no ar ao escapar dos dedos de Léo, sujando as pernas de M., que usava uma curta bermuda, antes de espatifar-se no chão.

– Machucar?! [falou M.] Um tipo que nem tu só matando mesmo! Viado de merda! [virou-se para Elisa, que se encolhia na cadeira, buscando uma proteção que, conscientemente, sabia não existir] Já tu… Tu eu ia querer machucar… machucar bem gostoso…

M. estava de pé, Elisa tinha o rosto a poucos centímetros da cintura do rapaz.

– Mo-moço… [disse Beth, saindo do transe, com o rosto inchando] Pegue o dinheiro. Pegue tudo o que quiser, mas, por favor, não a machuque, é só uma criança.

– Criança é?! [disse M., acariciando o rosto sério de Elisa, que lutava para não demonstrar fraqueza] Tem razão, é só um bebê… todo bebê gosta de mamar, não é?

Com a mão livre, enlaçou os cabelos de Elisa, puxando seu rosto para mais perto da virilha, onde uma ereção era visível por qualquer ângulo. Utilizando o cano da arma, tentava baixar a frente da bermuda, quando uma forte dor, precedida de um estampido, o atingiu.

Sua bermuda azul imediatamente coloriu-se de vermelho na altura do púbis. M. respirou fundo e, já sem forças, soltou os cabelos de Elisa, que se enfiara ainda mais na cadeira. Ao averiguar o ferimento, viu que seu pênis fora dilacerado com um tiro. Jamais ficaria ereto novamente.

Ainda em choque, sem poder falar ou entender o que se passava, o rapaz lentamente subiu o olhar, e se deparou com um homem bem vestido, semi oculto pelas sombras na sala de corte e tintura com as luzes ainda apagadas, apontando-lhe um Colt fumegante. M. reagiu, erguendo a mão com a sua pistola o mais rápido que pôde. Não foi suficiente.

Um novo tiro atingiu-o no centro do peito, causando-lhe uma morte instantânea, atirando-o contra a parede azul. Enquanto o corpo já sem vida do rapaz deslizava lentamente na vertical, Eduardo disparou pela terceira vez. A bala penetrou-lhe o olho direito, deixando um enorme buraco de saída na parte de trás da cabeça. Uma massa de sangue, miolos e cérebro subia quase até o teto no local da chacina.

O corpo do marginal tombou para a direita, batendo contra o piso lajotado. O sangue escorria abundantemente, formando uma poça ao redor da cabeça. Um único olho sem vida fitava Léo que, nunca tendo visto nada parecido, esvaziara a bexiga. Só muito mais tarde o cabeleireiro fora perceber a gafe que cometera.

***

Ao ouvir três tiros enquanto aguardava o colega, L. H. mentalmente avaliou suas opções: fugir e deixava o amigo se ferrar sozinho na mão da polícia (quem mandou aquele idiota atirar?! E TRÊS vezes!) ou aguardava e fugiam juntos, e aguentavam juntos as consequências.

Escolheu a segunda opção. Afinal, M. fora compreensivo quando L. H. falhara no roubo ao motel. E, mesmo que fugisse, estaria ferrado, já que não teria dinheiro. Não iria muito longe e ainda teria de fugir simultaneamente da polícia e do traficante para quem devia uma nota preta.

Como M. estava demorando muito, L. H. empunhou seu .38 apenas por precaução (afinal, mulheres e gays não usam armas) e resolveu entrar no salão. Talvez o comparsa tivesse muitos reféns para limpar.

***

Elisa correu para abraçar seu pai, já não conseguindo segurar o choro. Eduardo a abraçou fortemente, pensava em como gostaria de ter sido tão ágil assim tempos atrás.

– Você está bem, fi…

Pelo canto do olho, através da visão periférica, viu um vulto aproximar-se da porta de entrada. Empurrou Elisa para o lado e novamente tentou engatilhar a arma, mas não foi rápido o suficiente. Um tiro no ombro o fez cambalear e cair ao tropeçar em uma cadeira de corte. A arma escapou de sua mão, e a dor onde foi atingido era enorme. Sentiu todo o braço inutilizar-se. A bala devia ter atingido algum tendão.

L. H. adentrou no salão e encostou a porta de entrada. Ficou boquiaberto com a cena que viu. Sentiu o estômago contrair-se e, sem poder controlar, dobrou o corpo e vomitou sobre o cadáver mutilado do amigo. O cheiro de vômito, sangue e excrementos tornava a respiração dentro do salão uma tarefa hercúlea. Zonzo, o bandido desequilibrou-se e tombou para a frente. Para não cair sobre seu almoço parcialmente digerido, levou a mão ao piso, sobre uma mancha vermelha que parecia deslocada da cena do massacre. Mais tarde, a perícia constataria ser esmalte misturado a sangue.

Com os olhos injetados, L. H. se reergueu, e sem olhar previamente, abriu fogo contra o local em que Eduardo estaria caído. Tomado pelo ódio, só parou de atirar quando o tambor da arma girou vazio, sem projétil. Somente após os estrondos dos disparos L. H. percebeu que o homem que ele derrubara anteriormente já não estava mais onde havia tombado.

Um silêncio, entrecortado apenas pelo choro baixo de Elisa, Beth e Léo, pairou sobre a cena. Sem entender, L. H. virou-se para a saída. Não teria muito tempo para fugir. Ao abrir a porta, assustou-se ao se deparar com Eduardo. A última visão que teria.

Um tampo de privada de mármore atingiu o alto da cabeça do assaltante. Apesar de só ter um dos braços em condições plenas, anos de academia e treinamento deram uma enorme força ao policial. L. H. ouvira um som parecido com um galho se partindo e depois apenas escuridão.

Mesmo com o rapaz caído à sua frente, Eduardo juntou o tampo de mármore e o deixou cair sobre o crânio do adolescente uma segunda vez. E uma terceira. Quinta. Oitava… Seu terno já estava encharcado de salpicos de sangue e a cabeça de L. H. parecendo o recheio fumegante de uma torta de morangos recém saída do forno quando o policial decidiu que já era suficiente.

– Ligue… ligue para a polícia, por favor. [pedia exausto o homem]

Enquanto Beth ligava, Elisa, aos prantos, correu e abraçou o pai, desta vez com jeito, para não machucá-lo.

– Desculpe pela janela do banheiro… [disse Eduardo, sorrindo debilmente para Beth] Não tinha outro jeito, senhora.

Como há 26 anos, Eduardo não conteve as lágrimas. Mas desta vez, não eram de tristeza, já que podia abraçar fortemente e ser abraçado por alguém que amava depois de tudo.

6

(Retirado do jornal Folha de São Paulo, de 04 de agosto de 2016)

HOMEM ARMADO INVADE CÂMARA DOS DEPUTADOS

Oito feridos e um morto em atentado na capital

Um homem identificado como Lázaro Silva, 35, invadiu o salão verde da câmara federal no fim da tarde desta terça, 03.

Segundo testemunhas, o homem entrou atirando aleatoriamente, gritando palavras ininteligíveis. Seis funcionários que estavam no local foram alvejados, dois permanecem internados mas não correm risco de vida.

No momento apenas o deputado Mário do Rosário (RS) estava no saguão. O parlamentar foi ferido com um tiro de raspão no ombro enquanto conversava com Pedro Dias, prefeito de Imbé/RS e seu aliado político em seu estado. Dias foi baleado no joelho e já ganhou alta.

Janaína Dias, esposa de Pedro, não teve a mesma sorte. A primeira-dama da pequena cidade foi atingida por quatro disparos e morreu na hora. De acordo com os presentes, após assassinar a mulher, Lázaro deixou a arma cair e desmaiou quase instantaneamente, sendo encaminhado ainda inconsciente ao Hospital Geral, onde permanece desacordado.

Natural de Canhotinho/PE, Lázaro vivia em Brasília há três anos, onde trabalhava na construção civil. Era tido como um homem bem-humorado e (…)

7

“(…) a mais difícil tarefa de uma bruxa é convencer as pessoas ao seu redor de que bruxaria não existe, que isto é apenas crendice popular ou folclore.

(…)

Existem bruxas seculares (…), com coração verdadeiramente mau, servas de Satanás. Pode ser uma vizinha, uma amiga, ou mesmo uma filha que não resistiu à tentação do filho das Trevas.

(…)

Motivação para criar o caos é irrelevante (…). Qualquer ser, bom ou mau, humano ou não, é um potencial alvo para uma bruxa, um sacrifício para seu mentor (…) em gratidão a uma pseudo-eternização, só vencida por fogo ou pela fé-verdadeira.

(…) artefatos amaldiçoados e/ou enfeitiçados constantemente são utilizados em diabruras. (…) é muito comum aspergir sangue virginal enquanto são proferidas as “juras de maldição” para tornar um produto totalmente profano(…)

(…) a Inquisição falhou (…).”

DAHL, John Alexander; Que existem, existem!; páginas 133-135; 1955

8

(retirado do jornal Diário Gaúcho, de 04/08/2016)

TRAGÉDIA NO LITORAL

Mãe e filhas morrem em incêndio na praia de Santa Terezinha

No mesmo dia em que Imbé perdeu sua primeira-dama, uma nova tragédia entristeceu a pequena cidade.

Daniela Cienchoski (33) e suas filhas Amanda (13) e Luísa (3) tiveram seus corpos carbonizados quando a casa da família pegou fogo na noite de ontem, 03.

Dani, como era conhecida, residia em Imbé há três anos, vinda de Porto Alegre. Trabalhava em um dos grandes institutos de beleza da cidade e era considerada uma ótima pessoa pelos vizinhos.

Segundo dados do Corpo de Bombeiros de Tramandaí, sucessivas chamadas relatando um incêndio começaram a ser feitas a partir das 20 horas. Infelizmente, o único caminhão disponível apresentou pane mecânica, de modo que os bombeiros só chegaram ao local perto das 22 horas, quando a residência já estava totalmente consumida pelo fogo.

Os corpos foram encontrados no mesmo cômodo, abraçados.

A polícia investiga as causas do incêndio, não descartando nenhuma hipótese.

9

O sol brilhava na tarde de Maricá/RJ.

A confeitaria D’Goulart tinha um movimento razoável para uma quarta-feira.

– Obrigado, querida. Boa festa! [dizia a garota do caixa para a última cliente que atendera]

Clara, a cliente, saía com um enorme bolo de churros. Encomenda a festa de aniversário de sua mãe. Glutona, não parava de imaginar o quão gostoso devia estar.

– Com licença? [uma voz sussurrante lhe abordava quando saía do estabelecimento, tocando-lhe o ombro e pedindo passagem]

– Ah, claro. Desculpe, senhora.

A garota achara a nova cliente atraente de uma forma que não sabia explicar. Já devia ter seus 40 anos, mas era linda, jovial, elegante e bem vestida. Os cabelos lisos e escuros juntamente com o nariz levemente adunco tornavam seu rosto belíssimo, único e impactante. Mas, ao entrar no táxi que a aguardava, Clara logo esqueceu-se do ocorrido e voltou a pensar no bolo de churros e seus prazeres gastronômicos.

Na confeitaria, a mulher sentou-se em um local mais afastado. O garçom logo apareceu:

– Pois não?

– Boa tarde, eu gostaria de um misto quente e uma Coca-Cola.

O garçom estranhamente tinha dificuldade de desviar o olhar do sorriso enigmático da cliente. Era luxuriante ao mesmo tempo que intimidava.

– Cer-certo senhora… Mais alguma coisa?

– Por enquanto não. Muito obrigado, moço.

– Às ordens.

Daniela, que muitos anos antes fora Jéssica Dumore e em breve deveria ser Clara, sorriu simpaticamente para o garçom enquanto o rapaz dirigia-se à cozinha. Furtivamente, tirou da sua bolsa de couro negro um frasco de catchup, deixando-o sobre sua mesa quando recolheu um frasco semelhante do mesmo produto oferecido pelo estabelecimento.

FIM

Imagem meramente ilustrativa retirada de https://br.pinterest.com/pin/549228117033715294/

Anúncios

Um comentário em “NAIL’S ART – Um conto de Wagner De La Cruz

  1. AntimidiaBlog
    26 de dezembro de 2016

    Republicou isso em REBLOGADOR.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 25 de dezembro de 2016 por em Contos.

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

Divulgação

Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

Novo Desafio EntreContos

Oi pessoal, o site EntreContos - Literatura Fantástica - promove novos desafios, com tema variados sendo uma excelente oportunidade de leitura. Boa sorte e boa leitura.

Publique aqui.

Convidamos você que gosta de escrever contos e mini contos dos gêneros de ficção científica, literatura fantástica e terror a nos enviar seus trabalhos para serem publicados neste site, com os créditos ao autor, é claro.
PARTICIPE!

Divulgação

Prezados leitores e colegas. Faço uso do post para divulgar os trabalhos de nosso colega Luiz Amato no site Wattpad.

Literatura fantástica, ficção cientifica, terror

Espaço dedicado à escrita e leitura deste gênero literário.

Estatísticas do blog

  • 94,450 hits

Arquivos

Categorias

Publique aqui.

Convidamos você que gosta de escrever contos e mini contos dos gêneros de ficção científica, literatura fantástica e terror a nos enviar seus trabalhos para serem publicados neste site, com os créditos ao autor, é claro.
PARTICIPE!

Divulgação

Prezados leitores e colegas. Faço uso do post para divulgar os trabalhos de nosso colega Luiz Amato no site Wattpad.
%d blogueiros gostam disto: