Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror
Anne corria rápido no final da madrugada. Percebia que os primeiros raios do astro-rei em poucos momentos a alcançariam e seriam muito bem-vindos. Pulou do teto da antiga loja de ferragens para o beco ainda escuro, por ali cortaria grande parte do caminho até chegar à casa. Saltou sobre um grande vasilhame de plástico azulado que servia de lata de lixo ao lado de duas caçambas abertas e malcheirosas derrubando a caixa de pizza envelhecida que, naquela noite era sua tampa, avançando rápida pela ruela escura perdida em pensamentos. Quanto mais rápido andava mais lhe parecia irreal os acontecimentos das últimas horas, afinal não estava mais na idade média. O mundo evoluiu. Ou não?
Tinha que colocar os pensamentos em ordem, acertar a cabeça antes de entrar em casa. Saltou novamente sobre o muro, meio alvenaria meio grade metálica, passou por entre as barras e olhou para ver onde estava Buck, o cão de guarda da casa. Soltou um miado longo e ele logo apareceu abanando o rabo. Caminhou lado a lado com ele que insistia em querer brincar, entrou na varanda e saltou na velha poltrona de madeira olhando para ver se a janela ainda estava entreaberta, enquanto Buck se deitava no piso frio esperando o raiar do dia.
Atravessou a janela e andou pelo corredor que unia a cozinha à sala de jantar. Escutou com atenção procurando barulho de passos e olhou ao redor para ver se Walter havia acordado. Nada.
Andou poucos passos até a pequena sala que funcionava como seu escritório e parou em frente ao velho espelho que em dias normais ficava coberto com uma colcha de chenile azul escura com detalhes geométricos brancos. A vasilha de louça colocada no chão ainda queimava a mistura que, como todos os dias, havia preparado horas antes e continuava exalando a fumaça escura de odor adocicado. Ela aproximou o rosto da fumaça, cheirou o máximo que pode, em profundas inspirações até sentir o corpo inteiro impregnado com a essência do bruxedo, olhou o espelho velho e soltou um miado baixo e fino, e enquanto miava e cheirava a fumaça, observou a transformação lenta e gradual do corpo da frágil felina se esticando perdendo a pelagem, transformando. O miado aos poucos tornou-se em voz feminina entoando uma cantiga tão antiga como o tempo, conhecida apenas por poucas iniciadas, em instantes era novamente uma mulher. Uma mulher jovem e bela.
Anne saiu nua do escritório e foi para o banheiro do quarto onde Walter dormia, tomou um banho rápido, secou-se indo para perto da cama, puxou o edredom e se deitou ao lado dele. Não conseguia relaxar e dormir. Por menos que quisesse começou a relembrar os últimos acontecimentos.
O rosto daquele homem, ou o que fosse, não lhe saia da mente. Tudo foi tão rápido, se ela não fosse tão experiente, tão … “antiga”.
Começou na tarde do dia anterior, a mensagem na caixa de entrada do e-mail era estranha, um convite, praticamente intimando-a a comparecer em um cinema no centro da cidade usado como espaço de eventos e convenções para um “Encontro com a magia”.
Até aí tudo bem, ela era a feliz proprietária de uma loja de conveniências exotéricas. Lá estariam ilusionistas, mágicos e magos famosos, inclusive uma atração internacional onde prometiam que o artista principal levitaria sobre o palco. Ela riu e deletou a mensagem.
Como a propaganda não lhe saia da cabeça, resolveu ir até o lugar e ver do que se tratava. Chegou, comprou o ingresso — cem reais para ajudar um determinado orfanato — e entrou. Mais da metade das cadeiras haviam sido retiradas em uma reforma anterior dando lugar ao espaço para convenções, e colocadas paredes de drywall para estabelecer uma separação dos ambientes, isso limitou o número de pessoas sentadas na sala de apresentações, uma centena ou pouco menos. O lugar estava repleto.
Pode-se dizer que as atrações eram interessantes, um ilusionista vestido de palhaço, uma feiticeira fazendo truques baratos e então a atração internacional.
A princípio não o reconheceu, devido ao chapéu talvez, mas logo no primeiro show Anne percebeu que aquilo não era truque. Era magia. Magia negra!
O ilusionista chamou uma das espectadoras e colocou uma pedra vermelha brilhante na palma de sua mão esquerda virada para cima, pedindo que a mulher colocasse a mão direita logo em baixo e diante de todos a pedra atravessou a mão da mulher caindo na outra mão. Todos aplaudiram entusiasticamente.
Algo no rosto do homem a incomodava e de súbito ela lembrou exatamente de onde o conhecia. Mas não podia ser. Ainda estaria vivo após tantos séculos? Mas ela não estava?
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Viu-o pela primeira vez em Clermont sua cidade natal, quando um grupo de monges chegou de Djon falando de caça às bruxas. Era a inquisição e ele era um dos monges, os mesmos olhos, mesmo nariz adunco e quando sorria repuxava o canto direito da boca para cima.
Anne tinha quatorze anos na época, ano de 1517, e vivia na casa de sua tia, madrinha e mestra, Agnes Berwick, nos arredores de Clermont desde que o pai, mãe e dois irmãos mais novos morreram de uma doença estranha que fez com que sangrassem até o fim. Agnes veio ainda jovem de um lugar da Alemanha chamado Salzburg para se casar com o irmão mais velho da mãe de Anne.
Certo dia no outono um grupo de soldados maltrapilhos chegou à sua casa. Escoltavam seis monges e traziam uma carroça com duas mulheres acorrentadas que ela não conhecia. Elas estavam maltratadas, notava-se que haviam apanhado e tomado chibatadas, choravam copiosamente se lamuriando todo o tempo. Um deles gritou pelo nome de Agnes que ficou parada a porta da velha choupana desconfiando das intenções dos homens.
Agnes gritou para que Anne corresse o mais rápido e para o mais longe que pudesse, mas não adiantou, rapidamente foram aprisionadas. Na luta para escapar à captura Agnes arranhou o rosto de um dos soldados e teve a mão direita amputada por ele com uma machadinha.
Agnes olhava perplexa o cotó, seu rosto ficou vermelho de ódio, ela gritou durante alguns instantes aí começou a cantar um de seus bruxedos e o rosto do soldado começou a apodrecer, larvas saiam do lugar arranhado por ela e ele gritava ensandecido, logo todo o corpo do infeliz estava tomado por pústulas e larvas. Ele morreu na frente dos outros, enquanto as duas mulheres riam, pulavam e dançavam na carroça fazendo estardalhaço.
O monge de nariz adunco com a ajuda de dois soldados amarrou Agnes, colocou panos dentro de sua boca e a amordaçou, em seguida bateu-lhe com um martelo de madeira na cabeça, e ela desmaiou.
Jogaram-nas dentro da carroça, Anne rasgou um pedaço de sua saia e amarrou no cotó para parar o sangramento e as mulheres a ajudaram a deitar Agnes.
Pararam em outra choupana e fizeram mais uma prisioneira, uma moça de dezesseis anos chamada Lizette, seguindo viagem até o centro da cidade onde eram aguardados por dezenas de pessoas.
Passaram a noite fria e chuvosa dentro da carroça, vigiadas por soldados armados e nas primeiras horas do dia seguinte um tribunal foi composto pelo Nobre local, governador da cidade e dois dos monges que fizeram as acusações formais tendo como base o Malleus Maleficarum – o martelo das bruxas.
O julgamento aconteceu na prefeitura, dezenas de moradores se acotovelavam para ver as cinco mulheres amarradas e jogadas ao chão. Foi muito rápido, as acusações e penalidades, todas foram condenadas.
As duas primeiras mulheres, as que já estavam na carroça, foram decapitadas ainda no meio da tarde. Agnes, Anne e Lizette foram condenadas à fogueira, sendo que Lizette e Anne, ainda dependeriam do perdão do Nobre local por serem muito jovens.
No final da tarde as três foram colocadas em uma carroça aberta e levadas a praça principal da cidade, com os cidadãos gritando e urrando impropérios contra elas. Na praça, Agnes foi retirada da carroça e amarrada a um poste acima de um monte de lenha colocado ao redor. Os monges determinaram que ela tivesse a cabeça raspada e a blusa rasgada e arrancada, além disso, tiraram a mordaça e os trapos de sua boca.
Anne, na carroça, olhava sua madrinha. Mesmo tendo os cabelos ruivos raspados, de saiote, descalça e acorrentada ao poste Agnes ainda era uma mulher muito bonita. Ela arfava rápido, lutando contra o pavor que teimava em apoderar-se dela. Seus seios firmes saltavam das correntes e ela olhava para Anne e mesmo sobre os gritos da multidão procurava conversar com a sobrinha, lembrou-lhe do feitiço do sono e pediu que se conseguisse fugir, fosse à choupana e levasse o “livro” para longe. Quando atearam fogo, Agnes, em meio aos próprios gritos, olhava Anne e dizia: fuja … fuja.
Naquela noite elas foram levadas à presença dos monges que comemoravam as condenações bem-sucedidas. Começaram a fazer perguntas: se conheciam outras bruxas, que poderiam ser libertadas se acusassem mais alguém. Um deles sempre as ameaçava com um porrete e depois ria, já ébrio pelo vinho. Quando se foram ficou apenas um deles, o de nariz adunco. Ele trancou a porta e levantou Lizette, jogando-a de frente a uma mesa; levantou sua saia expondo suas partes intimas. A garota chorava enquanto ele fazia sexo com ela. Anne olhava a cena ainda atordoada até prestar atenção ao rosto de Lizette e ela falava: o feitiço, use o feitiço.
Quando Anne começou a falar o bruxedo, o rosto do homem ficou estranho, balançava a cabeça com rapidez e seus olhos estavam amarelados. Anne lembrou-se do que sua tia havia dito sobre os incubus – demônios que atacavam sexualmente suas vítimas. Lizette virou-se e o agarrou enquanto ele ainda a penetrava e gritou para Anne fugir dali.
Anne não a atendeu, pegou o porrete de madeira deixado pelo monge ébrio e acertou a cabeça do homem por duas vezes até ele cair ao chão, em seguida ajudou Lizette a se levantar e ambas fugiram daquele prédio. O encanto funcionara perfeitamente. Continuaram juntas, uma irmandade, por muitos anos até Anne decidir ir para o novo continente.
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Os aplausos da plateia fizeram-na voltar à realidade, o show e as lembranças haviam terminado e os espectadores ou iam embora ou se dirigiam ao palco para cumprimentar os artistas. Ela passou a mão sobre um antigo colar, que há séculos não saia de seu pescoço, examinou-o brevemente, era de vidro em formato cilíndrico, tendo como conteúdo duas ou três gotas de um líquido amarelo dourado. Ela levantou e começou a andar em direção ao palco, esperou pacientemente na fila cantarolando baixo uma melodia caótica que as duas mulheres à sua frente teimavam em tentar entender. Derramou o conteúdo em sua mão e quando se aproximou do ilusionista deu seu melhor sorriso e apertou-lhe mão.
O homem, abraçado a uma jovem, pareceu reconhecê-la e perguntou:
— Eu a conheço de algum lugar?
— Sim — ela respondeu — meu nome é Anne de Clermont.
O homem a olhou surpreso e puxou a mão olhando-a aflito. Anne sorriu e continuou falando.
— Matamos sua cria, incubus maldito. Agora é sua vez.
O homem balançou a cabeça rápido e tentou falar, mil pensamentos passaram por sua mente naquele momento, mas o feitiço o amordaçou e o estava matando, estraçalhava-o por dentro. Caiu de frente para o chão com a cabeça totalmente virada para trás como se lhe tivessem quebrado o pescoço.
As pessoas gritavam, dezenas, afastando-se do morto. Anne saiu andando normalmente e atravessou o velho cinema até perceber que a segurança fechava as portas. Entrou no banheiro feminino, tirou do bolso uma mistura que rapidamente acendeu e começou a exalar uma fumaça densa e acinzentada que ela inspirou profundamente enquanto cantarolava algo incompreensível e transmutou-se em uma gata negra, saltou pela janela aberta e fugiu correndo dali.
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Agora deitada ao lado de Walter observava o sol passar pelas frestas da janela criando desenhos na parede do quarto, lembrava-se Lizette, de como estudaram juntas o livro das bruxas, e principalmente do rosto de Agnes e de seu sorriso enquanto desaparecia nas chamas.
Um conto de Swylmar Ferreira Publicado em 14 de outubro de 2026.
Imagem meramente ilustrativa e modificada por IA.