Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror
Altamir estava sério enquanto se olhava no espelho, passava o creme de barbear no rosto úmido, e apanhava um barbeador. Estava relativamente contente já que havia sido convidado pela filha para participar de uma festa de aniversário na empresa em que ela trabalhava, a editora Sun-et-sky Magazine Digital, que publicava revista na net. Não ia a uma confraternização desde que se aborreceu com colegas de trabalho e seu sócio ficou chateado com a situação.
Gabriela, sua filha, estava sempre que podia a seu lado e um pedido dela era uma ordem. Foi um convite simples: Pai – disse ela excitadíssima – inscrevi você para ser um dos três convidados a contar uma história sobre um tema que será escolhido pelo presidente da empresa. O sorriso dela naquele momento era, como sempre, contagiante.
Terminou de se barbear, dessa vez sem nenhum corte no rosto, e foi para o banho. A roupa já havia sido escolhida desde cedo, então era só de vestir e ir encontrar Gabriela.
A tarde de apresentações que começaria às 16 horas havia sido definida assim: O primeiro a falar seria o namorado de Diana, a secretária do editor. Diziam que ele era um cara muito engraçado, gozador mesmo. Tanto que ganhava dinheiro fazendo stand-up em bares e casa de festas noturnas na cidade. E estava sempre disposto a fazer outras pessoas rirem. Caberia a ele falar sobre algo que acontece em seu dia a dia e que tenha sido engraçado.
O segundo a falar era uma convidada do editor chefe da revista, Ana Ágata, uma escritora “relativamente famosa”. Ela contaria sobre um caso que havia acontecido com ela quando estava fazendo uma trilha no interior e se perdeu dos outros que a acompanhavam.
O terceiro a falar seria Altamir. Gabriela tinha-lhe dito que o tema dele seria falar sobre algo diferente que ele havia vivenciado, ou que houvesse acontecido com alguém que ele conhecesse. Gabriela contava sempre aos amigos que o pai era um bom contador de histórias e que quando ela era criança ele sempre lia um livro ou inventava alguma coisa para ela.
De repente bateu-lhe um frio no estomago. Contar histórias para a filha, uma adulta, era uma coisa, mas falar em público era outra completamente diferente. Terminou de se vestir e foi para a tal festa.
O evento começaria com a mostra de novas linha de colunas no magazine, o ponto alto da festa, e depois a apresentação dos contos.
Logo de cara, no início do evento, após as boas-vindas a todos dado por um mestre de cerimônias contratado a peso de ouro, segundo Gabriela, o Diretor da revista, Pedro Alcântara, pediu que invertessem a ordem de apresentação. O tema escolhido por ele foi: “Um dia interessante de sua vida”.
O evento havia sido solicitado por ele e pela editora da revista, Sandra Veiga para a divulgação da revista nas principais redes sociais e canais de comunicação da internet. A live estava programada para durar cerca de duas horas e previam uma audiência de ao menohoduzentas pessoas inscritas.
A primeira a falar foi Ana Ágata, a escritora. Era famosa por escrever livros sobre romances e colunas na revista e jornais eletrônicos. Depois seria a vez de Augusto, cujo nome artístico era Kiko que falaria sobre suas experiências como comediante de stand-up e por último ele.
Ana Ágata começou bem. Confessou de início aos pouco mais de cinquenta convidados, que tinha ojeriza de falar em público, fez um preambulo interessante de sua vida, falando mais do marido que estava sentado à sua frente, do que outra coisa, então contou o que lhe havia acontecido.
“Aquelas ideias idiotas que temos de vez em quando, sabem como é? – Começou ela sorridente. – Eu tive uma dessas. Saí com um grupo de amigos e fomos passear no interior, em um hotel fazenda sensacional com cachoeiras, piscinas naturais e diversas trilhas. A maioria do meu grupo optou por não fazer as trilhas e ficar nas cabanas.
Mas e eu?
Ela balançava a cabeça negativamente, ainda não acreditando no que havia acontecido.
Era obvio que não.
Decidi fazer a tal da trilha, afinal não era tão longa assim e eu gosto de caminhar.
Depois de umas duas horas de caminhada pelo meio de uma mata intensa, mas não tão densa assim, afinal era um misto de mata atlântica e cerrado, chegamos em uma lagoa que era fonte de água tão limpa que a maioria decidiu por tomar um banho no lugar.
Não sei o que pensei na hora ou o porquê, mas resolvi seguir em frente pois escutava o barulho de um rio que não deveria estar tão longe assim e fui seguindo aquele som delicioso até encontrá-lo. Fiquei muito contente comigo mesma.
Mateira, disse para mim em voz alta e soltei uma gargalhada alta que, com certeza, todos os que haviam saído na caminhada tinham escutado. Só que não.
Estávamos no final da manhã, havia uma árvore com frutas verdes e muito cheirosa, repletas de pássaros que faziam a festa nos frutos que ainda estavam nos galhos, mas principalmente, os que estavam no chão. Fui até ela, peguei pelo menos uma dúzia das frutinhas – gulosa não é mesmo? – falou com a plateia – voltei para a beira do rio e me sentei recostada em algumas pedras. Comi as frutinhas e relaxei ouvindo o canto dos pássaros, sentindo a brisa fresca no rosto e vendo pequenos peixes nadando nas águas transparentes e fria. Depois descobri o nome da frutinha deliciosa. Curriola!
Adormeci ali, sentada!
Quando acordei, lavei o rosto, bebi a água do meu cantil, que o George, meu marido – apontou para ele – insistiu para que eu levasse e disse para mim mesma: hora de voltar para o grupo.
Juro para vocês que tentei achá-los. Andei mais de uma hora pelas trilhas e não encontrei ninguém. A essa altura já estava preocupada. Pensava no George, meu marido, e que ele devia estar movendo mundos e fundos para me procurar.
Quando me dei conta já havia andado umas duas horas a mais e não achava a lagoa onde o grupo que fazia a trilha deveria estar.
Perdida! A constatação foi como se um prédio caísse sobre mim.
As horas haviam se passado e meu celular não pegava nenhum sinal. O desespero e o medo de passar a noite sozinha no meio da mata, com criaturas selvagens, frio, sem fogo ou luz me paralisava. Milhares de pensamentos me vinham a mente em segundos. Simplesmente não sabia o que fazer. A única coisa que conseguia fazer era chorar feito uma idiota.
Ali estava eu, sozinha no meio do mato, a água acabando, nada de comida, com fome. Resolvi continuar andando e quando percebi estava anoitecendo.
Estava com muito medo de que algum predador estivesse me seguindo e que viesse a me atacar. Encostei em uma árvore e apesar de estar muito cansada me apoiei de costas contra ela. Senti que algo estava passando pelo meu braço. Seria o que? Formigas? Cobra? Fechei os olhos, desesperada e paralisada. Foi quando fui fortemente abraçada, era George, meu marido que tinha ido me buscar.
Então foi isso.”
Ana Ágata foi aplaudida efusivamente pela plateia. Afinal tinha sido uma aventura e tanto.
Kiko, como Diana, a noiva quase esposa costumava chamá-lo, foi o segundo a ser chamado. E começou como se estivesse em um teatro. Tropeçou e algumas pessoas começaram a rir. Foi a deixa para ele começar a contar sobre o trajeto de sua casa até a editora.
“Oi pessoal – começou ele olhando fixo para as pessoas convidadas pelo magazine – saí de casa para vir para cá meio atrasado.
Primeiro acordei tarde, pois ontem depois do show, fui tomar umas e outras com uns amigos e acabei passando da hora. Cheguei em casa meio tonto, quase derrubei a cristaleira quando dei um encontrão nela. Juro para vocês que a cristaleira saiu correndo na minha frente, me encarou, xingou e me derrubou no chão.
Foi complicado levantar sozinho.
Depois o problema foi o banho.
Gente – disse ele olhando para a plateia sorridente à sua frente – demorei demais no banho.
Eu tinha até pensado em vir de metrô, mas eu tinha que andar umas cinco quadras e aí a preguiça bateu forte. Chamei um uber.
Primeiro o aplicativo demorou um tempão para achar um carro disponível. Até que achou um.
O aplicativo, como sempre informou o modelo do carro, placa e o nome do motorista, Eusébio, que estava a oitocentos metros de distância e chegaria em uns cinco minutos. Olhei no relógio. Ia ser mole, pensei, vou chegar cedo. Peguei minha garrafa de água na mochila e bebi uns goles. Depois bebi mais um pouco e quando vi, já tinha bebido a garrafa toda. Quinze minutos depois o aplicativo informou que ele estava a trezentos metros e chegaria em um minuto. Esse um minuto se transformou em cinco e depois mais uns três. Aí eu falei pra mim mesmo – Fudeu, vou atrasar e acabar apanhando da Diana.
O carro chegou vinte minutos atrasado e a bexiga já começou a dar sinais de que eu precisava ir ao banheiro.
O carro tinha uma pintura fosca, velha, mas eu entrei assim mesmo, pois estava com medo de atrasar para o compromisso e Diana me dar uma bronca. Não que ela faça isso sempre. Não é assim. Quando estamos juntos, no máximo de dois em dois minutos.”
Todos riam sem parar.
“O carro – Kiko continuou – segundo seu Eusébio, estava sem ar refrigerado, e àquelas horas eu não tinha muito o que fazer.
O carro tinha um cheiro forte de perfume, daqueles cheiros doces, enjoativos, e parecia querer esconder algum outro aroma secundário, em uma tentativa fútil de deixar o carro apresentável.
Será que esse cara atropelou algum bicho? Ou esqueceu a carne que deveria ser do almoço de ontem no porta-malas? – Pensei.
O motorista naquele momento parecia não querer conversa. Percebi isso depois de fazer umas cinco perguntas a ele sobre trânsito, sobre o trajeto e ele simplesmente me ignorar. Melhor eu ficar na minha – falei comigo mesmo.
Eusébio tinha um cacoete engraçado, a todo momento ele coçava o queixo, pigarreava e fungava o nariz. Ele fez isso umas duzentas vezes no trajeto.
Enquanto isso, a vontade de ir ao banheiro só aumentava. Trânsito desgraçado!”
Naquele momento todos não paravam de rir. O Kiko realmente era muito bom. Fiquei pensando em como todos tinham realmente um dom na vida. E o dele, que era trazer momentos de alegria a outros, era sensacional.
“Ainda fiz mais uma ou duas perguntas, sobre se estava tudo certo, então vi que ele errou a saída da avenida principal. Nesse momento – disse Kiko para a plateia – eu não sabia se ria de nervoso pelo atraso ou se chorava pela vontade de urinar. Seu Eusébio rodou uns dez quilômetros a mais até chegar aqui na porta do edifício da editora.
Quando abri a porta do carro para descer, escutei seu Eusébio falar para alguém no telefone, que tinha que trocar a pilha do aparelho de surdes, pois mal escutou o obrigado que o cliente lhe dissera.
Entrei correndo na editora e o desespero em meus olhos era tão evidente que Diana apontou o banheiro masculino assim que me viu”.
Kiko, contou sua penúria no uber de um jeito tão engraçado que todos riram praticamente sem parar.
Depois de um breve intervalo para o café, Altamir foi chamado pelo cerimonial e agradeceu o convite.
“Bem – começou – fica meio difícil falar sobre isso, apesar de já ter conversado com minha filha algumas vezes, sempre acaba em risadas porque ela acha que estou surtado.
Foi há alguns meses. Não vou falar só do dia, especificamente. Vou falar também do que aconteceu no período.”
Parou e olhou para o pequeno público, principalmente sua filha e o chefe dela.
“Estava chegando de uma viagem, onde tinha ido representar a empresa onde trabalho em um evento internacional do setor. O voo chegou de madrugada, apanhei as malas e fui para o estacionamento onde havia deixado meu carro. Afinal havia sido menos de uma semana e estava previsto nos gastos. Entrei no carro, e fui para casa. A viagem seria curta. Uns trinta, trinta e cinco minutos no máximo.
Apesar do cansaço da viagem de avião eu estava muito bem.
Não sei o porquê, mas sempre durmo quase a viagem toda quando entro em um avião. Creio que seja devido a compressão e descompressão da aeronave.
Depois de dirigir um tempo vi a saída da rodovia que eu deveria seguir e entrei, saindo em uma avenida paralela ao bairro onde moro, andei mais umas centenas de metros e a placa indicava o retorno a frente.
Desacelerei o carro e instintivamente olhei a velocidade e a hora. Trinta e oito quilômetros e 6h02minutos, mostrava o painel digital. O sol nascente daquele dia, de um amarelo muito claro, quase cegante, bateu de frente no meu rosto.
Então aconteceu a coisa mais estranha que eu já tinha visto. Um feixe de luz azul clara cortou minha frente, na direção contraria a minha. Tive a sensação de cruzar aquele feixe de luz e pisei no freio instintivamente. No mesmo instante senti que um outro carro vindo na mesma direção que a passou a meu lado.. Então senti que mais um carro, de um verde estranho, muito chamativo, atravessou o feixe de luz ao meu lado e virou na saída onde eu entraria. Um outro automóvel cruzou também e seguiu em frente. Era branco, grande e ovalado, nunca tinha visto nada igual.
Meu carro estancou com a freada.
Olhei para trás assustado e nada. Não vinha nada! Ainda bem
Fiquei tonto por alguns segundos, realmente não sabia o que fazer então decidi terminar de chegar em casa, me deitar e dormir, afinal faltavam duas quadras para chegar. Devia estar cansado, pensei! Estacionei o carro na entrada da garagem e fui retirar as malas.
Quando olhei para a janela da sala, me pareceu que as cortinas haviam se mexido. Mas não dei importância. Abri a porta e entrei.
Pensei ter ouvido alguém andando no segundo andar da casa. Um medo frio encheu meu coração, larguei as malas e dei alguns passos na direção da escada de madeira que levava ao andar superior onde ficavam os quartos. Conforme andava as lâmpadas do pequeno corredor se acenderam, os passos continuaram lá em cima e eu ouvi o barulho de alguém descendo as escadas, então o som alto da buzina de um carro chamou minha atenção o suficiente para que eu não percebesse a moça chegar à sala e sorrir. Fiquei chocado, conhecia aquele rosto, mas não o via há pelo menos 25 anos.
– Bem-vindo, pai – disse ela com um sorriso no rosto enquanto me abraçava e beijava – O Jack está ai na porta e já estamos atrasados para o trabalho – continuou ela de maneira efusiva. Não parava de falar nem por um segundo.
– O Malcon está de mal humor hoje. Sinceramente, acho que deve levar aquele gato maluco a um psiquiatra, ou seja lá o que for.
Ela saiu deixando aporta aberta. Não consegui nem abrir a boca, pois parecia um furacão nível quatro.
Fui até a porta e ainda consegui vê-la entrando no carro que a esperava e sair para o trabalho. Sem querer meus lábios se moveram e eu fiz duas perguntas.
-Quem é você e que história é essa de pai? – Minha nossa ela é a cara da Elsa. Idêntica, disse.
Voltei para dentro e perguntei – Quem é Malcon? – E fui dormir.
Acordei e fui tomar banho. Estava tudo normal na casa. Gostava dali. Mais de 20 anos atrás recebi um e-mail de um escritório de advocacia chamado Belos & Belos, nome estranho – sempre achei, me chamando para tomar ciência de uma herança que havia sido deixada para mim por uma tia, irmã de minha mãe.
Fiquei bastante surpreso pois a última vez que a tinha visto havia sido no enterro de minha mãe, há mais de trinta anos.
Movido mais pela curiosidade do que pela necessidade, fui ao lugar combinado e no escritório informaram que ela possuía um único bem, uma casa, que havia me deixado em seu testamento. A casa era situada em um dos bairros mais antigos e tradicionais da cidade, relativamente perto de tudo, mercados, shopping center, aeroporto e principalmente, era perto do meu trabalho
Assim que vi o imóvel, inúmeras lembranças de minha infância vieram a minha mente, muitas dali. Confesso que fui várias vezes ver a casa e que a cada ida ficava mais animado com a tranquilidade do bairro, com o pouco movimento das ruas e da beleza simples da casa, que por sinal estava muito bem cuidada.
Na época resolvi me mudar para a casa e alugar o apartamento. Depois da mudança senti que minha qualidade de vida melhorou, pelo silêncio e tranquilidade do lugar, mais espaço e uma monte de razões que me fizeram mudar para lá.
Acordei, desci para cozinha para um chá, algo na sala estava diferente, o sofá era novo demais. E tinha um pequeno escritório aberto para a sala com um computador de última geração que se parecia com o meu, do meu trabalho. Do outro lado da sala, na parede, ao lado das duas estantes muitas fotos em porta retratos, inclusive um grande, com fotos minha, minha mãe, tias e tios primos. Nunca fui chegado a isso.
Será que aquela moça tinha feito isso tudo em poucos dias? Olhei um outro porta retratos grande na parede ao lado e o que tinha lá me surpreendeu. Fotos minha e de Elsa, uma antiga namorada, aquela que a moça em minha casa se parecia tanto. Eram fotos de uma família, minha família. Eu, ela e uma menina pequena, linda em meus braços.
Eram várias fotos, inclusive uma que estava em cima do aparador, e nela estávamos eu e a moça de hoje cedo, abraçados e sentados em meu sofá predileto, com os seguintes dizeres escritos a mão: “te amo pai” e assinava “Gabriela”.
Estava perplexo! Aquela não era a minha vida!
Procurei pela casa toda e praticamente tudo estava como deveria estar com exceção da sala em alguns detalhes e de um dos outros quartos que estavam sem uso e vazios.
O outro quarto que estava ocupado além do meu, o maior de todos, era um quarto de mulher e que parecia evoluir pertencendo a uma menina até se tornar adulta. Ainda tinha algumas roupas no armário, muito poucas, o que significava que ela já havia ido viver a própria vida. Provavelmente com o tal de Jack.
– Será que me drogaram no avião? Ou no café? – Perguntei a mim mesmo olhando no espelho.
Saí e fui dar uma volta pelas ruas que sempre gostei. Tudo estava como deveria, exceto por um shopping center em estilo americano, grande com dezenas de lojas espalhadas pela quadra que ele ocupava, estacionamento gigantesco. Fiquei feliz e decidi que no fim de semana iria “dar um passeio” ali.
Fui para o trabalho entregar o relatório da viagem e descobri que não tinha mais sala.
Luís, meu sócio, sorriu ao me ver. Tudo muito igual com um detalhe mínimo. Ele tinha uma foto de família na mesa. Ele nunca foi casado também e esse era um dos detalhes que forjaram nossa amizade desde jovens. Perguntei pela família e ele levou quase uma hora me contando sobre os mais de vinte dias de férias viajando pelo nordeste do país. Acertamos alguns detalhes e olhei para os funcionários na sala, todos estavam lá. Fiquei até o fim do expediente e marcamos minha próxima ida.
Passei grande parte daquela noite pensando em o que poderia estar acontecendo. Eu estaria alucinando? Estava enlouquecendo? Afinal que porra era aquela?
No dia seguinte liguei o computador e resolvi procurar nos buscadores e ver se alguém tinha tido o mesmo problema. Para minha surpresa vi alguns casos e um deles era muito parecido. Mas entrei na página e ela estava desativada há algum tempo. Liguei para familiares fui a casa de alguns e nada havia de diferente, nem mesmo o jeito de falar ou de me tratar.
Procurei também em redes sociais, criei contas naquelas redes e postei uma parte do que estava acontecendo comigo. As respostas foram sensacionais. O mínimo que me chamaram foi de maluco. Algumas repostas foram bem ofensivas e eu simplesmente ignorei os energúmenos, afinal tinha muito trabalho a fazer e eu tinha uma empresa para tocar.
Apenas uma resposta me chamou atenção e veio de um site de sci-fi onde o autor de um conto me respondeu que ele tinha elaborado um conto sobre universos paralelos, com as mesmas característica do que eu havia escrito, e para minha surpresa ele me enviou o endereço específico do conto. Lí.
Então, algo me passou pela cabeça. Se aquela não era a minha vida, onde estaria o eu verdadeiro daquele lugar? Foi quando me dei conta que, muito provavelmente ele seria o motorista do primeiro carro e que estaria em outro lugar, em uma outra vida, talvez a minha. Pobre homem.
Voltei a procurar por diferenças de minha vida na casa e encontrei uns cadernos de anotações, não era diário, deixando bem claro, onde o outro eu fazia uma série de anotações de coisas importantes e lá eu descobri muitas coisas da vida dele. Eu pessoalmente nunca escrevi algo deste tipo.
Teria sido ele que escreveu? Peguei uma caneta, um bloco de papel e escrevi algumas frases idênticas as dele. Depois os detalhes que me lembrava do episódio. A letra era igual. Tinha que contar aquilo para a Gabriela.
Liguei para ela no final do dia e pedi que fosse em casa. Estava com medo que achasse que tinha surtado a acabei contando a ela o que estava se passando comigo, em detalhes. Ela me olhou fixamente por algum tempo e disse:
– Pai!!! Essa é a melhor história que você já me contou. Que bacana! É ficção né?
Daquele dia em diante todos os sábados nos encontrávamos. As vezes somente eu e ela e em outras o Jack também.
Pode parecer estranho. Uma inquietude sempre esteve presente, mas eu estava me ambientando bem na nova situação.
Foi aí que algo novo aconteceu. Semanas tinham passado e em um dos meus passeios a pé pelo bairro eu o vi, no fundo de uma garagem com outros dois à sua frente. Aquele carro verde estranho. Pareceu o mesmo que tinha passado por mim e entrado na mesma rua.
Parei e me aproximei. De um dos carros da frente saíram duas mulheres. A primeira nem me olhou indo apressadamente em direção a casa e entrando. A segunda, alta cabelos ruivos e rosto fino me olhou séria e disse:
– Pois não?
– Bom dia – respondi – que bela cor aquele carro tem – disse em tom casual – sempre gostei de cores diferentes em carros. É seu?
Ela demorou alguns segundos para responder me olhando fixamente.
– Sim – e está a venda. Interessado?
Olhei pela primeira em seus olhos e balancei a cabeça positivamente. Ela sorriu e me pediu para entrar em contato outra hora pois estava atrasada para um compromisso. Dei-lhe meu nome, telefone enquanto ela ainda me olhava fixamente, perguntei-lhe seu nome.
– Olivia – disse calmamente enquanto se virava para entrar na casa.
Observei-a até entrar e fui embora.
Passaram-se algumas semanas e um dia eu estava no shopping perto de casa em uma tarde quente e chuvosa, quando percebi que ela estava em pé na minha frente.
– Oi sr. Altamir. Tudo bem? O sr. esteve na frente de casa e perguntou do meu carro. O verde estranho, lembra?
Me levantei e a cumprimentei. E instintivamente, a convidei para um café. Ela aceitou e ficamos conversando até o anoitecer. Ela inicialmente foi cautelosa conversando sobre diversas coisas até que ela perguntou se eu também tinha passado pela luz azul na rodovia.
Fiquei parado olhando, surpreso com a pergunta. Algo nos olhos dela me intimidava e naquele momento, mais ainda.
-Sim, respondi, poucos segundos antes de você.
A curiosidade tomou conta de mim mais uma vez e eu perguntei se ela viu se algo passou por mim naquele momento.
– Por você não – disse ela – passou por nós. Mais dois carros, o primeiro muito rápido. O branco na mesma velocidade que que nós, mesmo sentido. Tudo igual. Você não é daqui também não é verdade?
– Minha vida aqui é um pouquinho diferente, mas é muito melhor.
Ela sorriu!
– A minha também respondi. Tenho até uma filha.
Ela continuou sorrindo. Se levantou enquanto seu celular tocava.
– Gostaria de encontrar você de novo, Altamir. Para conversarmos mais.
– Você tem meu telefone – eu disse – é só ligar.
Antes de ir ela fez uma última pergunta, uma provocação mesmo. – O que acha de verdade que aconteceu?
Fiquei semanas pensando, pesquisando em sites de internet, redes sociais, bibliotecas de universidades e não cheguei a nenhuma conclusão, mas uma hipótese viável, ao menos para mim, nasceu em minha mente.
Ficamos dois dias sem nos ver, até que em um entardecer de um feriado, Olivia apareceu. Gabriela e Jack tinham ido passar o dia comigo e depois do almoço foram para a casa deles.
Eu estava sentado na varanda olhando calmamente as pessoas caminhando pela rua. Um movimento raro de carros passando muito lentamente e Malcom deitado preguiçosamente em cima da mesinha, ao lado da minha xicara de café quando o carro verde estranho parou.
Olivia parecia calma, vestida com umas calças jeans marrons, botas da mesma cor e camisa pesada. Servi-lhe um café, que ela aceitou sorrindo.
– Que gato lindo!
– Olivia – falei – esse é Malcom, meu gato – Malcom, essa é Olivia, uma amiga!
Ela sorria – agora sim somos amigos – conheci seu gato, ele me conheceu, e vou te convidar para dar uma volta no meu carro. Ciclo fechado.
– Quando? – Perguntei.
– Agora – ela respondeu.
Malcom pulou da mesa e entrou em casa pela porta semiaberta.
Mandei um recado para Gabriela no celular avisando que iria sair.
– Vou me vestir, abri a porta e entramos. Mostrei-lhe o sofá e fui trocar de roupa. Quando voltei ela observava as fotos na sala, sorriu.
– Vamos? – Me perguntou.
Balancei positivamente a cabeça. Estava estranhamente contente por entrar no carro verde estranho.
Quando dei por mim era madrugada, a companhia, o jantar e o passeio estavam ótimos. Olivia foi parando o carro em uma das principais avenidas da cidade, perto do aeroporto, me olhou e disse que precisava ir para a realidade dela, a de onde tinha vindo.
Me contou que da última vez que foi até lá, ficou apenas poucas horas e sentiu que algo estava errado, tinha pessoas estranhas perto da casa e que tinha ficado assustada.
– Não quero voltar lá sozinha. Não posso simplesmente pedir para alguém da minha família daqui para me acompanhar porque não acreditariam. Você pode ir comigo?
Olhei para ela e depois de pensar por alguns segundos, concordei.
Tomamos o caminho da avenida que entraria no bairro da serra, Olivia acelerou na saída do retorno. Olhei para o painel do carro, mesma hora, mas a velocidade era maior, 56 km. O feixe de luz estava esverdeado e desta vez senti um leve tranco no carro, como se tivesse atravessado alguma coisa, mas o resto estava tudo igual com o dia clareando, carros passando, mesmas ruas, mesmas casas, mesmos vizinhos caminhando.
– Você passou em cima de alguma coisa? – perguntei procurando algum ressalto no asfalto ou qualquer coisa que justificasse o tranco.
Olivia me falou que seria um tipo de barreira na passagem dimensional. Era uma passagem natural, com as mesmas leis físicas em todas as realidades.
Fomos para a casa dela. Nos sentamos no sofá e a casa estava estranhamente vazia. Percebi rápido que ela era a única que vivia ali.
Ela fez um chá de maçã com canela e mel para nós e eu aproveitei cada gole.
– Então? – Fiquei olhando para ela que me olhou nos olhos.
– Está bem.
Ela me olhava nos olhos, daquele jeito estranho.
– Aqui -disse – algumas coisas são diferentes. Minha família não vive nesta casa, apenas eu e minha irmã. A Olivia de lá era uma fugitiva. Ela fugiu de casa com um namorado quando era adolescente e desapareceu. A família nunca mais ouviu falar dela ou do rapaz, até que eu cheguei.
– Eu, na minha realidade – continuou – nunca fugi com ninguém, nem namorado tinha para dizer a verdade. Sempre fui arredia e meus familiares, com o passar dos anos, foram se mudando para outros bairros mais afastados, outras cidades e fiquei com minha avó e uma irmã. Vovó se foi a cinco anos e nós ficamos sozinhas.
– O que você veio fazer de verdade aqui e qual o seu medo?”
Fiz uma pausa e me dirigi ao público no salão. O silêncio era total e continuei.
“Olivia serviu mais um chá e contou que da última vez que lá esteve – percebeu que nem tudo estava como deveria, pessoas estranhas andando de madrugada. Carros ovalados e quase translúcidos, com uma tecnologia claramente diferente, rodando a todo o momento, como se estivessem procurando alguma coisa ou alguém ou a ela mesmo. Depois de um tempo ela conversou com os vizinhos sobre aquelas pessoas e eles os chamam de seekers, os que buscam. A irmã dela lhe disse que eles podem parecer humanos, mas que ela pessoalmente acreditava que não eram. Falou uma frase interessante: – O Criador parece ter feito mais do que uma criatura à sua imagem e semelhança.
Fiquei olhando para ela, seus cabelos ruivos compridos e ondulados. Ri ao nos comparar, ao menos os cabelos, eu tinha um tufo de cabelos de um lado da cabeça e outro tufo de cabelos do outro lado da cabeça, como dizia Luís.
– Vou te mostrar -disse ela – venha.
Subimos as escadas para o andar de cima e ela abriu a porta de vidro da varanda que saia do corredor de separação dos quartos e me mostrou dois carros com pessoas do lado de fora.
Ela estava certa. Era como se procurassem por alguém ou alguma coisa, parando moradores que andavam na rua, que dirigiam seus carros e pareciam interpelá-las sobre alguma coisa.
– Bem. O que eu vim fazer aqui foi buscar informações, que é o ativo mais importante em qualquer lugar. Seja neste universo ou outro qualquer. A grande vantagem que descobri é que mesmo parecidos as realidades não são completamente sincronizadas e essas pequenas diferenças podem fazer a diferença em nossas vidas.
Olivia estava muito séria naquele momento. Continuei observando o grupo até se dispersarem.
Depois fui procurar meu outro eu, dali. Tinha que saber como ele seria. Tinha família também? Ainda estaria casado? Como ele seria? Eu tinha apenas que tomar cuidado para não ser descoberto e nisso Olivia ajudou.
Para minha surpresa, ali eu não existia. Olivia e eu procuramos no que ela chamou de rede legal do sistema. Procurei, a princípio pelo meu nome, encontrei uns quatro homônimos, depois pelos nomes dos meus pais. Descobri que minha mãe também não constava da rede, depois pelos pais dela, meus avós. Também não.
– Seja o que for que houvesse ocorrido, aquela parte de minha família não existia ali, nunca existiu. Não satisfeito fui até o local onde ficava a casa em que eu morava. Minha surpresa foi grande ao ver que na quadra onde deveriam ter dezenas de casas, havia um condomínio de edifícios populares. As coisas na realidade da Olivia fugitiva eram substancialmente diferentes.
À tarde, ela me levou para ver a cidade, bairros iguais, edifícios diferentes, as casas e modo de vida aparentavam ser mais prósperos e ao menos naquelas ruas, distante do centro da cidade, também mais seguras. Penso que os carros brancos ovalados e seus ocupantes contribuíam para isso.
Quando voltamos para a casa, Olivia entrou outra vez na rede legal e depois no que ela chamou de rede de ciências e me passou o acesso ao computador.
Passei diversas horas navegando na rede deles, pesquisando sobre o assunto. Pareceu que na realidade que eram mais avançados que nós em alguns pontos e mais atrasados em outros. Li documentos e artigos que citavam um grupo de criaturas chamadas “seekers”. Mas o que mais me chamou a atenção foi um vídeo em uma das diversas redes sociais onde o autor dizia que havia descoberto casualmente uma passagem entre as realidades, depois de pesquisar sobre o assunto, e que viu ser possível atravessar de um lado para o outro fisicamente em determinados horários e dias, por serem passagens naturais. Disse que era possível pois o que ele chamava de muro de contenção dimensional em determinadas condições se tornavam frágeis e possibilitava o atravessamento abrindo portais visíveis ao amanhecer. Finalmente eu tinha parâmetros para teorizar sobre o que estava acontecendo.
No outro dia voltamos para esta realidade, a da minha filha. Eu fiquei feliz em ir à empresa, conversar com o Luís, percebi que o pessoal estava mais relaxado. Mostrei a todos algumas ideias que tinha recém aprendido e eles ficaram encantados. Olivia estava certa, informação é tudo.
Desde o retorno, confesso que minha vida tem sido muito boa, nem mesmo penso em voltar ao meu mundo original, primeiro porque não tenho ideia de como voltar para lá e segundo porque o meu eu daqui pode estar lá. É uma possibilidade. Estou adaptado aqui e minha filha me aceita como eu sou, apesar de achar que eu simplesmente surtei.
Ah! Uma última coisa. Percebi, de um tempo para cá que estou sendo observado! Engraçado pois tenho certeza de que são os ocupantes do automóvel branco. Mas creio que, como eu e Olivia, eles só querem ficar em paz.
Para terminar, nunca mais vi carros ovalados. Ainda vejo Olivia de vez em quando.”
As pessoas na sala de leitura pareciam atônitas e me olhavam sem saber o que fazer. Alguém no meio da plateia se levantou e começou a aplaudir. Outros deram parabéns, inclusive Kiko que se aproximou e apertou minha mão. Pedro Alcântara se aproximou sorrindo e parabenizou pelo conto.
– Sua filha disse que você era bom, mas não pensei que pudesse ser tão criativo assim – falou sorridente.
Depois foi servido um lanche e uma série de grupos se formou, mas o maior de todos sem dúvidas foi o do Kiko, que fazia todos rir.
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Altamir olhou no celular e viu que era o momento de ir, afinal, tinha um compromisso. Despediu-se da filha, do Jack e foi andando calmamente em direção a saída do edifício pelo corredor iluminado.
Pedro e Sandra o acompanhavam no computador, pelo conjunto de câmeras do sistema de vigilância da editora. Depois, enquanto atravessava a pequena praça que dava acesso a rua. Viram quando ele se virou na direção de uma das câmeras e fez um breve cumprimento com a mão, enquanto um carro de cor verde estranha parava e a porta do carona se abria. Altamir entrou e o carro despareceu ao virar a esquina da avenida.
Fecharam a sala da diretoria enquanto saiam discretamente da pequena recepção e desceram até a garagem. Sandra acionou algo em sua pulseira e em uma das vagas um carro branco, ovalado pareceu tornar-se mais nítido. Novo toque e ele praticamente desapareceu na escuridão. Entraram no carro ao lado, uma pick-up preta, e Pedro disse a Sandra: – vamos para casa.
Fim.
Um conto de Swylmar Ferreira em 12 de julho de 2026.