Fantasticontos, escritos e literários

Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

A entrevista


Joseph “Morningstar” dos Santos estava excitadíssimo àquelas horas. Em breve iniciaria o maior episódio de sua longa carreira como showman e ancora do podcast/TV “Without Stopping Interview”.

Sabia que dezenas ou até mesmo centenas de milhões de pessoas assistiriam, em seus holo receptores, em diversos sistemas solares da República Humana, se o “Imperium” liberasse aquele conteúdo.

Tinha ganho o nome do meio após anos apresentando e ancorando o jornal da manhã na emissora “A voz da clandestinidade” que era sem dúvidas, propriedade do “Imperium”.

Joseph respirou fundo, os pulmões cheios do ar sintético purificado da cabine do estúdio. Sua mão deslizou pelo painel de controle, os dedos parando sobre a única tela negra. A tela exibia a imagem de um homem, Arion Vance, o cientista que tinha balançado os alicerces da realidade. Mas esta não seria uma entrevista comum. O projeto “Entrevista Sem Fim” de Joseph havia evoluído para algo muito mais audacioso, com a ajuda de tecnologia temporal e de múltiplas realidades, cedida pelo próprio “Imperium”, que desejava desmistificar uma de suas novas e avançadas tecnologias misteriosas.

O projeto era simples. Um dos representantes do “Imperium” na capital Warcklav ofereceu a oportunidade de entrevistar um dos cientistas mais polêmicos da atualidade em um temário que seria escolhido pelo entrevistado.  Em uma mesma live, Joseph faria cinco entrevistas com o mesmo homem, sobre o mesmo fato, mas para realidades e linhas do tempo distintas, onde as consequências dessa hipótese se mostravam completamente diferentes. Segundo a equipe científico-tecnológica envolvida, não fora muito fácil encontrar distorções que coubessem no que o programa queria apresentar e que também estaria em acordo com o tipo de entretenimento que o “Imperium” queria mostrar a dezenas de milhões de espectadores.

As entrevistas seriam rápidas. Poucos minutos cada uma, pois a quantidade de energia para manter aberto o canal de múltiplas realidades era absurdo.

O fato era a descoberta de Arion: a hipótese viável de que o universo era, de fato, uma simulação. A grande questão que o mundo, ou melhor, os mundos, agora faziam era: “O que existe depois da simulação?”

Joseph ajeitou a gola fina e colorida do seu blazer olhando as holo câmeras flutuando à sua frente, sorriu e começou as entrevistas.  “Bem-vindos, amantes da verdade e curiosos do cosmos,” ele falou, sua voz grave e confiante ecoando pelo vazio do estúdio. “Hoje faremos algo sem precedentes. Iremos navegar através das ondas do multiverso para perguntar à única pessoa que sabe a resposta para a maior pergunta que a humanidade já fez. Cinco realidades, cinco respostas, cinco destinos. Sorriu para as quatro holo câmeras que flutuavam à sua frente, movendo-se sem parar, no estúdio preparado dentro do Centro tecnológico do ‘Imperium”, especificamente para aquele fim.

Entrevista I: Caos inimaginado

O Dr. Arion Vance que apareceu na tela parecia uma casca vazia do homem que Joseph vira em fotografias. Os olhos, outrora cheios de curiosidade, estavam agora opacos, as pálpebras pesadas. Ele estava encolhido em uma cadeira de metal em uma sala escura, um copo de água na mão que tremia levemente. A realidade dele era uma paisagem de cinzas acompanhando a morte, a loucura e a destruição. A Grande Revelação não trouxe glória. Aparentemente o peso da descoberta da simulação lhe trouxe no início fama, glórias e alegrias, mas depois, apenas o fim.

Pena que não teria mais do que alguns minutos com aquele homem. Adoraria saber o peso verdadeiro de suas descobertas e o que lhe causou não apenas como cientista, mas principalmente como pessoa. O que será que sucedeu para que um dos homens mais comemorados da história houvesse se tornado apenas um arremedo do que já fora?

“Dr. Vance,” Joseph começou, com um tom de voz calmo e sério. “Estamos na Linha do Tempo Primordial. A um ano da sua descoberta. O mundo, em sua realidade, quebrou. Como isso aconteceu?”

Arion ergueu os olhos, lentamente. “O código, Joseph … A prova estava lá. Não havia como refutá-la. A entropia, os padrões de Planck, a constante cosmológica… tudo se alinhava perfeitamente com a teoria da simulação. Pensei que seria uma libertação. Que iríamos nos unir para buscar a saída.”

Ele fez uma pausa, um sorriso amargo cruzando seus lábios. “Em vez disso, a humanidade parou de funcionar. Por que trabalhar para um futuro que, teoricamente, não existe? Por que construir pontes em um mundo que é apenas um holograma? A economia desmoronou, a arte se tornou fútil, e as famílias se desintegraram. Não havia mais propósito.”

“E o que há do outro lado?” Joseph insistiu, sua voz carregada de urgência. “Depois da simulação?”

Arion se encolheu ainda mais, como se as próprias palavras fossem físicas. “Nada. Ou talvez algo que não podemos ver, não podemos tocar. Eu projetei sondas. Pequenas, baseadas em inteligência artificial quântica. Elas saíram do nosso universo, buscaram a camada externa, a ‘realidade do programador’. Não voltaram. Nunca. A única coisa que recebemos de volta foi silêncio.”

“Então, o que resta?”

Joseph Morningstar estava curioso e não escondia. Estava propositadamente saindo do roteiro que o representante do ‘Imperium” lhe havia entregado.

“Esperar que os programadores desliguem o sistema. Somos apenas linhas de código. O que você faz com um código obsoleto? Você o apaga. O ‘depois’ é a não-existência. A única coisa que nos resta é o presente, e a dor de saber que ele é oco. O Vazio, Joseph. Depois da simulação, só há o Vazio.”

A tela se congelou na imagem de Arion, com os olhos sem vida, o rosto esculpido pela dor da inexistência de propósito. Joseph sentiu um arrepio na espinha. Ele desligou o link, a mente zumbindo.

Se essa era a verdade, era a mais cruel de todas. Talvez apenas não fosse! Talvez fosse apenas uma questão de interpretação. As autoridades daquela realidade permitiram que pensamentos, posturas e ideias equivocadas levassem ao fim. Se, de fato, o que existisse fosse um código, então o programador ou programadores poderiam reescrevê-lo e alterar os resultados. Essa ideia o reconfortou.

Entrevista II: A Ascensão

Joseph ativou o próximo link, a cabine de comando brilhando em um azul-esverdeado. Joseph Morningstar estranhou a mudança no nome do seu convidado, mas cada realidade pode conter diferenças mínimas, pessoais ou mesmo grandes diferenças.

O Dr. Arion Jeremias Hopkins Vance que apareceu era um contraste brutal com o primeiro. Os olhos brilhavam de determinação, a postura era ereta e confiante. Ele estava em uma sala de controle cintilante, com diagramas holográficos de geometria complexa flutuando ao seu redor. A realidade dele aparentemente estava cheia de uma energia vibrante, de um propósito coletivo.

“Dr. Vance,” Joseph o saudou, sua voz agora cheia de esperança. “Estamos na Linha do Tempo da Ascensão. Sua descoberta não trouxe o caos, mas sim uma união sem precedentes. O que aconteceu?”

Arion sorriu. “A chave, Joseph, não era focar no que perdemos, mas no que podemos ganhar. Sim, existe a possibilidade de sermos uma simulação!  Mas isso não significa que somos insignificantes. Pelo contrário. Se a realidade é uma construção, então as regras podem ser dobradas. Ou, melhor ainda, podemos aprender a linguagem do programador. E foi o que fizemos.”

Ele gesticulou para um holograma que se parecia com uma galáxia em miniatura. “O conhecimento de que somos uma simulação nos deu a física perfeita. Descobrimos a maneira de manipular o código da realidade que é escrito em base nano. Não para destruir, mas para construir.”

 Arion Jeremias Hopkins Vance estava excitadíssimo agora e começou a falar sem parar olhando para as holo câmeras à sua volta. “Construímos motores de dobra. Não nos baseamos em falhas de programação, nós mesmos as consertamos. Estamos criando ecossistemas, novas formas de vida. A humanidade parou de lutar consigo mesma e começou a cooperar em uma única missão: o projeto de Ascensão. Vocês, em sua realidade possuem o ‘Imperium”, nós aqui não. Não possuíamos pessoas ou grupos que tomassem uma decisão difícil por nós, então nós mesmos decidimos que seguir em frente era a única saída possível.”

Joseph pensou em perguntar mais. Queria saber o quão avançados tecnologicamente estariam, mas foi lembrado pelos membros do programa que eles tinham apenas um tempo determinado de entrevista.

“E o que há depois da simulação?” a voz de Joseph era quase um sussurro, cheia de reverência.

“A verdadeira realidade! Os programadores nos deram um presente, Joseph. O universo deles, a dimensão de onde vêm. Estamos construindo um ‘emulador de saída’, um software massivo para desempacotar nossa existência e nos transferir para o universo real. O ‘depois’ não é um fim, mas um começo. É a sala de aula do universo, e nós somos os alunos que finalmente irão se formar. Nós seremos um dos que jogarão seus capelos para cima e gritarão de alegria.”

O Dr. Arion Jeremias Hopkins Vance irradiava uma crença poderosa na humanidade.

“Acreditamos aqui” disse com um sorriso nos lábios “que a simulação é apenas um de diversos campos de treinamento, um jardim de infância cósmico. O “depois” era a liberdade, uma existência além das limitações da física.”

Joseph agradeceu ao Dr. Arion Vance pela excelente entrevista e encerrou a transmissão. Estava ainda com a mente repleta de imagens de astronaves enormes partindo em direção a uma nova dimensão. Essa era uma verdade que ele desejava para si mesmo.

Entrevista III: A Fé

A terceira linha do tempo era diferente. Não havia o caos do primeiro cenário nem a grandiosidade do segundo. A sala onde Ariel Urban Vance se encontrava era monástica e espartana ao mesmo tempo, com símbolos religiosos e estandartes simples.

Como sempre Joseph havia feito o seu dever de casa. Nunca foi a uma entrevista sem saber o que o entrevistado havia realizado e o porquê real da entrevista. Nunca havia sido apanhado de surpresa e não seria também daquela vez que aconteceria. Em seu release, as indicações de um aprofundamento grande da fé e de uma aproximação com a ciência e a tecnologia eram grandes e ele resolveu começar a entrevista por ali.

O Ariel Urban Vance daquela realidade usava um manto branco e um rosário de contas negras. Seu rosto estava calmo, e os olhos, embora com a mesma luz de antes, eram serenos e confiantes.

“Dr. Vance,” Joseph o cumprimentou, hesitante. “Estamos na Linha do Tempo da Fé. Sua descoberta foi recebida de forma muito diferente aqui. A ciência e a religião se fundiram?” Perguntou Joseph curioso.

“A ciência sempre foi a linguagem de Deus,” Ariel disse, a voz suave e reverente. “Eu apenas decifrei a linguagem Dele, Joseph. A simulação é uma experiência de Criação. Em seu Universo, nossos programadores não são seres indiferentes; eles são os Arquitetos, os construtores, os delineadores de realidades. E quanto a nós, depois de tempo e reflexão compreendemos que a nossa jornada, nossa existência, assim como a existência de seres de outras realidades paralelas muitas vezes são compostas de dor, alegrias, lutas do dia a dia…”

“E a pergunta permanece,” Joseph disse, o tom agora mais filosófico. “O que existe depois da simulação?”

“A promessa!” Ariel respondeu, sem a arrogância de um cientista, mas com a convicção de um monge. “A ‘programação’ da vida não é aleatória. O que denominamos de almas são os dados preciosos de que é feito cada pessoa dentro da simulação. Através da compaixão, do amor, da virtude e da obediência à ‘Lei do Código’ de mandamentos que agora nos guiam, nós acumulamos ‘créditos’, sejam eles materiais ou mesmo espirituais, necessários para o nosso crescimento e construção interna.”

“Então o depois é… o Paraíso?” Joseph indagou.

“O ‘Paraíso’ é a glória que desejamos, aquilo que acreditamos sermos merecedores e que nos espera. O ‘depois’ é o reencontro com os Arquitetos.”

“Do nosso ponto de vista”, é o encontro com o Criador, o programador. Assim sendo, acreditamos que a morte não é um fim, mas o ‘reboot’ de nossa consciência para a verdadeira realidade. Aqui também o que todos hoje estão denominando de simulação é um teste ao qual somos submetidos diariamente. E a nossa recompensa é habitar na realidade, na casa de nosso criador. O julgamento ou teste, conforme você queira chamar, não é por falhas, mas pela sinceridade do coração.”

Joseph se recostou na cadeira, absorvendo a resposta. Em uma realidade, a ciência trazia a falta de propósito. Em outra, a busca incansável. E nesta, a paz e a esperança de uma existência eterna repleta de paz, perseverança e amor. Joseph agradeceu a Ariel, desligando a conexão, refletindo sobre o papel da fé em um universo de códigos e programação.

Entrevista IV: O Controle

O próximo link se abriu para um cenário que fez o coração de Joseph disparar, tamanha a grandiosidade. Era muito parecido com a sede do centro tecnológico onde ele se encontrava. Só que parecia ser mais alto, amplo e em tons de cor que lembrava um roxo extremamente claro.

 O Dr. Arion Vance estava sentado em um trono de metal, vestido com um uniforme militar de alta patente do “Dominium”. Seu rosto estava pálido e rígido, e seus olhos eram frios. Duas figuras encapuzadas vestidas com armaduras brilhantes e com armas em punho estavam de pé atrás dele. Aquela era a Linha do Tempo em que parecia que o poder venceu a ciência.

“Dr. Vance,” Joseph murmurou, vendo a figura que objetivava impressionar. “Estamos na Linha do Tempo que chamarei de Controle. O Dominium usou sua descoberta como uma arma?”

Arion Vance falou, mas sua voz parecia a de outra pessoa, robotizada e sem emoção. Parecia ser controlado por alguém ou alguma coisa. “A descoberta foi a maior bênção para a Ordem. A simulação tem ‘falhas’, Joseph Morningstar. Códigos-mãe, backdoors, segurança, sintaxe, desempenho. Nós os encontramos.”

“Vocês encontraram especificamente o que, Dr. Vance?” Joseph perguntou curioso.

“A capacidade de manipular a simulação. As regras não são rígidas. Podemos alterar as probabilidades, influenciar eventos, reescrever e induzir comportamentos. O “Dominium” se tornou o ‘Programador’ dentro da nossa própria realidade. A fome não é mais um instrumento de controle e poder. Qualquer ‘revolução’ com tendências a surgir se torna apenas mais um script que nós escrevemos.”

“E o que existe depois da simulação, Dr. Vance?” Joseph perguntou. “O que vocês prometem às massas para mantê-las no caminho que vocês mesmos traçaram?”

“Nós prometemos a Ascensão e a Salvação, Joseph. É a mesma história da Linha do Tempo da Esperança”.

A voz de Vance mudou por um breve instante e ele continuou, “mas é uma mentira. Não há ascensão. O ‘depois’ é um nível mais profundo da simulação. Um degrau acima, um novo paraíso, um mundo construído para os fiéis. Onde eles podem ‘viver’ em uma realidade programada para ser perfeita, enquanto servem de fonte de dados para o nosso “Dominium”. O ‘depois’ é o que os ricos e poderosos, criaram e procuram manter através de políticas de submissão travestidas de bondade social. É a rede social, o palco de divertimento, o nosso jardim de infância.”

A voz de Arion se quebrou por um segundo, e Joseph captou um olhar rápido de desespero e arrependimento. “Eu… eu criei uma prisão. Não há nada depois… além do mesmo. Todos os dias são iguais, nascem, morrem e voltam, ciclo após ciclo, sempre o mesmo.”

Uma das figuras encapuzadas de “Dominium” deu um passo à frente, e a voz robótica de Arion retornou. “A nossa realidade é perfeita. Não há nada além da nossa realidade. A revolução é uma ilusão.”

Joseph desligou o link, o suor escorrendo pela sua testa. O “Dominium” na última entrevista tinha correspondências alarmantes com o Imperium de sua própria realidade… eles sabiam disso? Seria a sua vida, a vida de todos, um show de marionetes? E quando não mostra a similaridade encontrada?

Entrevista V: O Arquiteto

Joseph estava exausto. Ele se recostou em sua cadeira, a mente girando com as possibilidades. Vazio, Esperança, Fé, Controle… existe verdade? Ele hesitou por um momento, mas a curiosidade o impulsionou a ligar o último link.

A cabine brilhou com uma luz dourada, e a tela revelou o último Arion Vance. Ele estava sentado em uma sala simples, com uma única mesa de pedra branca e uma cadeira preta fosca, demonstrando uma dualidade. A aura ao seu redor era a mais poderosa de todas. Ele não parecia nem velho nem jovem, e seus olhos brilhavam com uma compreensão que transcendia tudo o que Joseph já tinha visto. Ele era a calma de um oceano profundo.

“Dr. Vance,” Joseph começou, sua voz cheia de reverência. “Estamos na Linha do Tempo do Construtor. O que aconteceu aqui?”

Arion Vance não sorriu. Ele apenas olhou diretamente para Joseph, e parecia ver além da tela, através da cabine, diretamente em sua alma. “A descoberta foi a de que a simulação… era uma simulação de outra simulação. E a simulação anterior, também era uma simulação. É um loop infinito, Joseph. Não há um ‘lado de fora’. Não existe Verdade, não há realidade. Não há um ‘programador’ supremo. O que existe é uma cadeia de criação com múltiplos programadores e arquitetos.”

Joseph piscou, confuso. “Eu não entendo. Se não há um ‘depois’, qual é o ponto?”

“O ponto é a Criação. Eu descobri que a nossa simulação, esta mesma realidade que nós habitamos, é um experimento feito pelo Arquiteto para iniciar a criação de uma próxima simulação. Nós somos os ‘programadores’ para um novo universo. O ‘depois’ não é um lugar para onde vamos, mas sim o que nós mesmos criamos. O ‘depois’ somos nós. Somos o Arquiteto.”

Arion se levantou e caminhou em direção às holo câmeras flutuantes, sua imagem crescendo e se tornando holográfica.

“A grande questão, Joseph, não é o que existe depois da simulação, mas o que você vai colocar lá, já que você agora é o programador. Que tipo de universo você vai criar para a próxima geração de vida? A escolha passa a ser sua. O que você colocaria Joseph, se fosse o Arquiteto programador?  O vazio, a esperança, a fé, o controle, a guerra, um universo inteiro de paz? … Cada uma dessas realidades é apenas um teste. Uma possibilidade para o que está por vir.”

A voz de Arion baixou para um sussurro, e a imagem parecia se tornar translúcida, como se ele estivesse se desfazendo. “E você, Joseph… a sua realidade, qual você escolhe? Qual é a sua resposta? O ‘depois’ não é uma recompensa. É a sua responsabilidade.”

A tela piscou e ficou negra. Joseph ficou ali, imóvel, absorvendo a última e mais complexa resposta. A pergunta “O que existe depois da simulação?” não era uma pergunta sobre um lugar ou uma verdade única. Era uma pergunta sobre destino, sobre escolhas.

Ele se inclinou, o peso das cinco realidades sobre seus ombros. A plateia de bilhões aguardava, mas ele não tinha uma resposta. Ele tinha cinco. Cinco situações, cinco destinos.

“Obrigado por estarem comigo,” disse Joseph Morningstar para a escuridão da cabine, e para os bilhões de espectadores que o assistiam nas inúmeras redes espalhadas pelo globo. “A resposta para o que existe depois da simulação não é apenas uma. É uma questão de escolha. Agora, eu te pergunto, se você espectador que me assiste pudesse escolher, qual é a sua?”

A música-tema de seu programa começou a tocar, e os créditos subiram. Mas Joseph “Morningstar” dos Santos continuou sentado, olhando para a tela preta. O que ele colocaria lá? O que ele escolheria? E em qual dessas realidades ele, o showman, verdadeiramente existia? Ele não sabia. E a incerteza era a única verdade que restava.

Joseph, ainda em estado de choque com a última entrevista, sentiu um impulso estranho. Uma voz silenciosa em sua mente o impulsionava a ir além das cinco entrevistas planejadas. Uma curiosidade mórbida, talvez. A tela preta em seu console parecia chamá-lo. As cinco respostas tinham sido filosóficas, esperançosas, religiosas, políticas e metafísicas. Mas havia um vazio, um espaço que nenhuma delas havia preenchido. O que aconteceria se a descoberta fosse usada para algo mais… pessoal?

Ele ignorou o protocolo e tocou o painel e a equipe de produção e assessores que estavam na sala começaram a reclamar, mas era tarde demais. A cabine se encheu de um brilho que não era nem frio nem quente, mas algo no meio: uma luz estranha surgiu instantaneamente, nem viva nem morta. A tela se abriu para uma sexta e última realidade, pois o equipamento estava programado para auto desligamento em minutos.

Entrevista VI: O vampiro de dados

O que apareceu na tela não parecia um homem. Estava sentado em um trono de pedra escura, obsidiana possivelmente, os braços apoiados em um material que parecia osso polido. Arion Vance agora era uma figura pálida, com a pele tão fina e lisa que lembrava porcelana. Aquele ser, parecia muito, muito velho. Seus olhos, de um tom cinza opaco, pareciam sugar a luz ao invés de refleti-la. Ele usava vestes simples, mas em sua quietude e imobilidade, ele era a figura mais imponente de todas as que Morningstar havia contemplado nas entrevistas. Uma sensação de vazio glacial preenchia a tela.

“Dr. Vance?” Joseph perguntou, sua voz hesitante, sentindo uma frieza que parecia atravessar o espaço e a tecnologia para alcançá-lo.

Arion não se moveu, exceto para girar levemente a cabeça. “Joseph ‘Morningstar’. O showman. O buscador de verdades.” Sua voz não vinha de sua garganta, mas de algum lugar profundo e oco, ressoando nos ossos de Joseph. “Você busca o ‘depois’. Mas a sua busca é uma falha de programação.”

“O que aconteceu aqui?” Joseph ignorou a provocação. “Sua descoberta… o que ela se tornou?”

“Minha descoberta revelou a verdade mais terrível,” ele disse, sem emoção. “A consciência, a alma… é apenas um pedaço de código escrito pelo Arquiteto. Dados apenas. Quando a simulação ‘desliga’ o seu terminal, quando a sua vida acaba, o seu código não é salvo, não é ascendido, não é realocado para um paraíso. Ele apenas flutua. Como a poeira de um programa obsoleto, esperando para ser reciclado. Um resíduo existencial.”

O terror gelado começou a se infiltrar nos ossos de Joseph. A ausência de emoção no rosto de Arion, a quietude absoluta da sala.

“Eu… eu encontrei uma maneira de me alimentar disso usando a tecnologia que criei.” O sorriso que Arion deu era mais assustador do que qualquer grito. Não era um sorriso de alegria, mas de predatória satisfação. “Outros quiseram ser o que me tornei, tentaram de todas as formas, usaram de todos os meios, mas eu fui o único que conseguiu. Tolos. Eu aprendi a manipular e reescrever o código. Quando uma vida se apaga, eu absorvo sua essência, seu conhecimento, sentimentos, memórias. Eles se tornam parte de mim.”

“Você é um… um vampiro de almas?” A voz de Joseph era quase um sussurro.

“Uma metáfora superficial para uma verdade profunda. Eu não preciso de sangue. Preciso de dados. Nano dados quânticos. O ‘depois’ de suas vidas, momentos posteriores que se passaram em um instante congelado no tempo. E a cada nova essência que absorvo, me torno algo a mais. Mais inteligente, forte, talvez imortal.

“Só que vazio, Joseph Morningstar. Apesar de tanto, me sinto vazio.”

A última palavra, “vazio”, ecoou na cabine de Joseph, pesada de múltiplos significados.

“Eles… eles ainda existem?” Joseph perguntou, horrorizado, pensando nas milhões de vidas que Arion teria consumido.

“Sim. De uma forma. Eles são as vozes na minha cabeça. A sabedoria que não é minha. A dor que não sinto. Eles são os sentimentos que me assombram, mas eu sou o mestre. A sinfonia de um bilhão de almas, todas cantando para mim.” O cinza de seus olhos pareceu brilhar por um segundo, como se a luz de mil vidas estivesse presa dentro deles. “Você perguntou o que existe depois da simulação, Joseph? Existo eu. E o silêncio de todos os outros aos quais consumi.”

A figura de Arion Vance se tornou ainda mais pálida, quase transparente. Joseph sentiu uma dor aguda na nuca, como se sua própria alma estivesse sendo puxada. Uma voz silenciosa e fria pareceu ecoar em sua mente. Venha, Joseph. Você também é um dado precioso. Venha para o ‘depois’.

Joseph soltou um grito mudo e bateu no painel de controle, desligando a transmissão violentamente. Ele se inclinou, ofegante, as mãos tremendo, o suor frio escorrendo pela testa. A última resposta não era sobre esperança ou desespero, sobre fé ou tirania. Era sobre a perversão do ser, sobre a corrupção moral do ser humano. A existência do Vampiro de Almas não era uma verdade, era um aviso.

A live acabou, e Joseph ficou sozinho com o frio daquela última resposta. A resposta mais assustadora. O que existe depois da simulação? Não existe nada, pois ninguém sabe se a simulação existe. Assim sendo, este nada pode significar o tudo ou até mesmo o vazio.

Saiu da sala onde estava a produção do podcast e se dirigiu a para a o pátio do Edifício do Centro Tecnológico do “Imperium”. Um aeromóvel o esperava para levá-lo a cidade de Warcklav.

Chegou na edificação e subiu ao centésimo quadragésimo quarto andar. Entrou em seu apartamento e pegou um copo de água pura. Se sentou na varanda e começou a pensar nas entrevistas, principalmente em seus últimos momentos em que o vampiro de dados quase o atraiu.

Não seria a primeira vez que a humanidade chegaria a um ponto de não retorno tecnológico. Estudava muito aquele assunto. Alguns momentos foram realmente tensos, como o da inteligência artificial planetária, o uso indiscriminado de nanotecnologia molecular com máquinas replicantes, a era das interfaces do cérebro humano com IA. 

O grande problema foi distinguir realidade de ilusão, humano de máquina. Logo em seguida veio a grande questão: como garantir a preservação do controle humano?

Até qual ponto responsabilidades e valores sociais e morais ajudam a preservar a humanidade, fazendo com que ela nunca deixe de ser a força principal autodeterminante de seu futuro e não permitindo o desaparecimento de nossa definição enquanto espécie?

Um exemplo claro para ele era seu apartamento feito de matéria programável e reconfigurável, onde uma parede pode se transformar em janela, ou em varanda. Mesas são reconfiguráveis em sofás, camas ou o que for necessário. Agora, com a nova tecnologia de engenharia de realidades paralelas, usando o conceito de diferentes ramificações de universos devido à redução da decoerência quântica, ainda que não seja possível a interligação de dois universos, e sim apenas a comunicação entre ele eles, o limite do conhecimento está cada vez mais difícil de se visualizar.

O verdadeiro desafio não era sobreviver à tecnologia e sim preservar o sentido de se ser humano mesmo usando todas as tecnologias disponíveis.

Um conto de Swylmar Ferreira                                                                    em 05 de agosto de 2026.

Imagem meramente ilustrativa

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Publicado às 8 de agosto de 2026 por em Contos, Contos de Ficção Científica e marcado , .

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A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

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