Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror
Marta saiu cedo naquela manhã, isto é, mais cedo do que costumava sair nas manhãs de sábado. O dia estava claro quando ela puxou as cortinas azuis claras e o blecaute e abriu a janela do quarto, sentindo o ar frio do outono penetrando apartamento adentro. Foi para a cozinha, abriu alguns armários e por fim a geladeira. “Nada”, disse em um misto de tristeza e revolta.
Trocou o pijaminha de dormir e saiu. Tomaria um café grande na padaria mesmo, comeria uns dois pães de queijo ou um enroladinho de queijo e presunto e de lá decidiria se iria para a praia ou não. De maiô já estava.
Não estava mais frio aquelas horas, principalmente perto da praia. Ao menos ali na cidade onde morava, o sol era sempre quente e gostoso. Sabia que queria se encontrar com alguém, mas não conseguia se lembrar.
“Enfim, a padaria”, disse após caminhar por duas quadras!
Depois de comer foi andando pelas três quadras que a separavam da orla marítima da praia de São Tomé até a barraca do caranguejo, um dos seus pontos prediletos. Gostava de andar por ali, pelas calçadas largas, cumprimentando as pessoas, não importando se as conhecia ou não. Olhando as casas coloridas, a maioria com jardins na frente, as arvores na calçada, o ar puro de cidade do interior.
Ficava sempre na areia, na frente da barraca do caranguejo não só pela comida, mas também pelas diversas arvores e coqueiros que havia na orla do calçadão.
Já estava quase na rua da orla quando algo chamou sua atenção. Viu que diversas pessoas olhavam para o céu azul observando alguma coisa. Uma mulher passou por ela depressa e pareceu chamar alguém de nome George que ia mais a frente em disparada. Resolveu prestar mais atenção no céu azul quando viu algo com formato de esfera passar zunindo.
“Que que é isso? “disse surpresa.
Tirou os óculos escuros e passou a observar uma outra esfera que estava parada, flutuando no céu azul. Conforme girava, aquilo emitia luzes, conforme a cada volta de revolução as cores trocavam, de início rapidamente, até que foram ficando cada vez mais lentas e ela podia ver a esfera brilhante.
Diversas outras esferas surgiram descendo do céu, sem nuvens daquela manhã. “Será que as pessoas estão vendo aquilo?”, disse em voz alta.
“Sim” respondeu uma moça parada quase ao seu lado.
Algo inesperado começou a acontecer. As esferas começaram a se juntar se tornando cada vez maiores e seus movimentos rotacionais mais lento, embora nunca parassem e não deixassem de emitir as luzes brilhantes.
Marta se deu conta que carros paravam, motos estavam sendo deixadas na rua da orla e que centenas de pessoas já olhavam a esfera. Viu quando diversa outras, mais afastadas por sobre o oceano, também começaram a se juntar, formando uma segunda uma esfera gigantesca, e outra e outra e outra.
Marta se apavorou. Viu que diversas pessoas saiam da praia, a maioria correndo ou andando muito rápido, deixando carros, motos, bicicletas, o que houvessem trazido para trás.
Mas ainda não era uma fuga massiva. Centenas e centenas ainda olhavam para o céu, como ela o fazia agora. Nuvens começaram a se formar ao redor da primeira esfera. Nuvens claras quase brancas e sem formato, carregadas de eletricidade como demonstravam os raios que saiam dela. Envolviam a esfera totalmente apesar de ainda conseguir ver um brilho gigantesco,
Então Marta começou a ouvir um zumbido. E de dentro das nuvens gigantescas surgiam algo que de início ela pensou serem foguetes, daqueles que aparecem em filmes antigos, mas eram as verdadeiras naves. E eram muito grandes.
Uma delas, a primeira que surgiu, foi se aproximando da praia e em instantes parou acima do oceano fazendo com que as pessoas ficassem em sua sombra que cobriu toda a praia e a maior parte da cidade.
Mais um zumbido, como um urro, e todas as pessoas cobriram os ouvidos. Ela viu que a garota a seu lado se ajoelhou no chão cobrindo os ouvidos com as mãos. Marta estava tonta e ao mesmo tempo enjoada. Tinha conseguido andar alguns passos até a sombra de uma árvore e ali se deitou, no chão mesmo. Ainda procurou com um olhar sua sacola, vendo que ela estava perto de um carro estacionado. Tentou se levantar e não conseguiu, procurou com os olhos alguém para pedir ajuda, mas todos estava na mesma situação que ela, alguns desmaiados.
“Vou morrer aqui”, falou desesperada percebendo só naquele momento que não queria estar ali. Fechou os olhos ainda apavorada e sentiu como se algo a estivesse escaneando. Sentiu que tudo foi ficando escuro e em silêncio, uma paz que não sentia há muito a envolveu e simplesmente apagou.
Marta abriu os olhos de uma vez. Estava assustada, sentiu que o zumbido diminuiu de intensidade. Viu que a sombra do objeto tinha se afastado, do continente e agora pairava sobre o mar. Mesmo àquela distância podia ver que a nave era enorme.
O sol ia pelo meio do dia e voltou a ficar quente. Ela se levantou. As pessoas ainda não sabiam o que fazer. Então foi até a outra moça e a ajudou a ficar em pé, equilibrada e sem dizer nada saíram dali.
A única coisa que Marta queria agora era chegar em casa. “Ainda bem que está perto”.
Só que nem tudo na vida é conforme queremos. Ela conseguiu chegar até a porta de entrada do prédio onde morava e acionou o botão de chamada do elevador.
Então, de dentro da portaria do prédio onde morava, viu dezenas de esferas pequenas do tamanho de uma pequena poltrona passando pelas ruas e destruindo tudo, de carros, casas e prédio, o que fosse.
Resolveu sair do prédio e olhar. Era como um filme de horror. Uma das esferas atravessou um edifício quase ao lado do prédio onde ela morava. A cena parecia retirada de um filme de ficção de décadas atras. A esfera se aproximou em alta velocidade e estancou quase ao lado da parede de fora da edificação. Pareceu aumentar a rotação e as cores que emanava, adentrando parede adentro e deixando um buraco onde se podia ver que algo escorria, talvez uma mistura de concreto, tijolos e o que mais estivesse em seu caminho.
Correu portaria adentro de novo e fechou a porta. Esperou alguns segundos enquanto ouvia gritos e outros sons de moveis se quebrando e paredes caindo. Viu que as esferas não procuravam especificamente por pessoas, mas as vezes acontecia de ocorrer o choque. Quando isso acontecia, as esferas absorviam os corpos.
Marta subiu correndo para seu apartamento e se escondeu. Ficou lá por horas até que a noite chegou, e com ela o silêncio. Um silencio estranho, acompanhado pelo medo.
Nada de comunicação funcionava. Telefone, redes sociais, … nem pensar! Televisão? Nada! Nem eletricidade, direito. Sua sorte é que no teto do edifício havia uma pequena geração com painéis solares. “Estamos na idade das pedras,” disse.
Já estava em desespero. Queria ficar escondida. Em seu íntimo sabia que tinha que sair dali. A coragem veio repentinamente na forma de um estomago vazio e de sede. Desceu e viu dezenas de pessoas andando pelas ruas e por incrível que pudesse parecer, não se via esferas voando pela cidade e nem a grande nave que pairava sobre o oceano, invisível agora na escuridão da noite. Mas todos sabiam que ela estava lá pois escondia as estrelas por detrás de sua massa gigantesca.
Marta foi até onde estava estacionada sua moto, conseguiu ligá-la e saiu. Ia tentar chegar até a casa de uns amigos. Normalmente seriam uns dez minutos para chegar, pouco mais de três quilômetros que as vezes ela fazia a pé, mas nem eles e nem a casa estavam mais lá. Para dizer a verdade a quadra onde moravam havia desaparecido, como se algo enorme houvesse pousado lá, esmagando tudo.
Na escuridão da madrugada, Marta sem combustível se juntou ao vai e vem de pessoas desnorteadas, que sem rumo, àquelas horas perambulavam pelas ruas, avenidas e estradas.
Chegou a um lugar que lhe pareceu familiar. Sim, era ali que trabalhava, uma pequena loja de dois andares quase a beira mar. Viu que duas outras pessoas tentavam se esconder perto da entrada, ao menos uma delas era conhecida. Sorriu para ambas, se sentou perto da parede, recostou-se e dormiu.
Na manhã seguinte, pensou ter acordado de um pesadelo, até se dar conta de onde estava e o que acontecia a seu redor. As esferas gigantes ocupavam o céu mais uma vez. Homens fardados tomavam conta das ruas, mas sem armas, sem nada. Em seus rostos Marta via apenas tristeza. Um dos objetos parecia ter feito uma amerissagem e se via, ao longe, ondas enormes quebrando contra os arrecifes perto da costa.
Foi então que percebeu seres enormes, parecendo os tritões das lendas que existiam sob o mar. As criaturas saiam das águas e andavam pelas ruas se misturando à multidão que não se movia. Todos estavam paralisados. Eram centenas, talvez milhares e pareciam escolher alguns seres humanos e arrastá-los para o mar. Um raio cruzou os céus e aquele torpor das pessoas cessou, começando a gritaria e o frenesi da caça e do horror. Instintivamente sabiam sobre o porquê de as criaturas estarem ali. Sabiam que eram apenas alimento.
Então um grito, era ela. Mãos a agarravam e uma voz conhecida a acordou. Sem nem mesmo pensar, Marta abraçou seu marido até conseguir parar de tremer.
“O que foi isso meu bem?”
Ela ainda apavorada com as cenas que persistiam em permanecer em sua memória conseguiu responder quase inaudível.
“Pesadelo.”
Fim
Um conto de Swylmar Ferreira em 13 setembro 2026.
Imagem criada por AI, baseada neste conto, para esta publicação.