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A sala principal de estudos ambientais do Consórcio Adiunctam Chalcitis em Nestor 4 contava naquele instante com apenas dois módulos de observação e monitoramento ativos. Seria um bom número se os outros vinte e oito módulos estivessem ocupados pelos observadores da atividade principal da empresa: mineração, o que não era o caso.
A enorme sala possuía dez telas de monitoramento por satélites e vinte e oito monitores individuais, para os técnicos em mineração, rodeada por antessalas de reuniões e descanso para os técnicos que monitoravam continuamente, durante as trinta e uma horas do dia, os ambientes sensíveis do consórcio naquele mundo.
Apesar de ser considerado um planeta da classe super terra, o Consórcio obteve autorização para explorar apenas uma pequena região do planeta onde, mantinha um grupo de minas exploradas de tritium.
Nestor 4 havia sido vislumbrado pela primeira vez pela sonda pathfinder 2829 que transmitira uma série de dados criptografados para a base do Consórcio, onde haviam uma série desses dados indicavam um excelente potencial de exploração mineral em diversas partes do planeta.
Uma morena em um uniforme padrão do consorcio, mais apertado do que deveria, observa a tela e ao terminar grava no pequeno cristal que estava em sua mão o relatório que acabou de chegar no intervalo eletromagnético do planeta. Se levanta e caminha lentamente até a mesa de monitoria sendo observada gulosamente pelos colegas da sala que chegavam aos poucos para o primeiro turno do dia. Estende a mão e coloca a pequena peça circular de cristal na mesa, ao alcance do homem sentado que a observa visivelmente irritado.
– Chegou o segundo relatório da base de estudos avançados, Dr. Zecker. – Diz a mulher muito pouco interessada no estado de espírito do homem.
Ele pega o pequeno cristal parecido com uma das antigas moedas, levemente azulado e transparente e o observa por poucos segundos.
– Agora poderemos entender, quais os estudos que o Dr. Santos tem feito nos últimos meses – disse o cientista chefe do setor de pesquisas exoambientais, mais para ele mesmo do que para os colegas dos módulos de observação.
Lin Mayer olhou sem acreditar para o homem de barbas esbranquiçadas. O que ele acabara de falar soou em seus ouvidos como o mais profundo descaso. Nunca gostou dele, sabia que ética não era o seu forte, mas aquelas palavras mostravam todo o descaso que ele tinha para com os pesquisadores em Nestor 4.
– O senhor não leu o relatório anterior? Perguntou a Dra. Mayer demonstrando claramente sua insatisfação com o comentário.
Samuel Zecker tirou os óculos e olhou para Lin e Walter Mayer que acabava de se aproximar de sua estação de trabalho. Não esperava que Walter tivesse coragem de afrontá-lo na frente de todos.
A presença dele ao lado da mulher significava que a coisa não ia ficar boa e naquele momento não queria confusão. Além disso, dos três grupos de observadores, eles formavam o melhor time e ele não queria encrenca com seu próprio grupo, eram poucos e competentes, já bastava os problemas com a equipe de segurança e dos entraves com os trabalhadores. Preferiu dar um sorriso, mesmo que forçado.
– Me passe o primeiro relatórios no palm outra vez Lin, afinal para que dormir não é?
Walter segurava de leve o braço de sua mulher, não queria que ela entrasse em discussão aberta com Zecker, mesmo sabendo que ele estava errado naquele ponto, pelo menos não na frente de todos da monitoria.
Zecker sabia que era sua obrigação como líder do grupo de estudo ambiental ao menos ler os relatórios dos três núcleos avançados. Principalmente os relatórios do núcleo que agora era ocupado por Marcos Santos.
– Não vale a pena Lin, Walter falou em tom de voz baixa. Ele vai ler o relatório. Tem que apresentar ao conselho amanhã na audiência.
Lin Mayer olhou enquanto o cientista chefe saia da sala com visível desprezo.
– Esse cara é um imbecil – disse olhando o marido – gente muito boa já morreu por decisões erradas que ele tomou nos últimos meses. Voltou para o módulo que ocupava e continuou a avaliação dos exoambientes.
Ainda irritado com as cobranças da “fedelha”, Zecker caminhou rápido pelos corredores do centro de pesquisas do Consórcio. Desceu os vinte níveis do bloco de pesquisas até sair da edificação e se dirigiu ao centro de convivência e alimentação do complexo, comeu uma salada e algumas frutas e foi andando calmamente pelo complexo até a área de moradias onde ocupava um dos apartamentos de gestores. Eram grupos de edificações baixas com seis andares e dez apartamentos por andar.
– E ainda tem a “merda” de audiência no conselho amanhã, falou baixo para si mesmo. Sabia que sua atuação neste trabalho não era das melhores e não queria sair mal do emprego.
Não gostou da “fedelha” desde o dia em que a conheceu. Bonita demais, um belo traseiro que chamava a atenção dos colegas de monitoria e ainda por cima tinha um marido grande, forte e extremamente inteligente que formava com ela o melhor time de observação do consórcio. Walter e Lin já estavam lá quando ele chegou, era sua segunda passagem deles no planeta.
E, além disso, ele tinha que agradar aos comissários do consórcio, uma espécie de triunvirato que dirigia aquela operação mineradora e que tinham suas próprias pesquisas em andamento, algumas delas eticamente questionáveis.
Estava velho para tanto aborrecimento, pensou consigo mesmo, deixara sua mulher, filhos e netos na Terra, para trabalhar dois anos para um consórcio de mineração. Primeiro pensou em recusar a oferta, mas quando soube o valor do contrato mudou imediatamente de idéia, era irrecusável.
Já no pequeno quarto do alojamento ele se sentou na poltrona em frente à cama esticando as pernas.
***
Nestor 4 era um dos planetas mais belos e parecidos com a Terra encontrados nos dois últimos séculos. De inicio, apesar de sua enorme distância, o Parlamento Terrestre havia considerados a hipótese de transformá-lo em um planeta de veraneio até chegarem as primeiras informações sobre a vida nativa e isso foi completamente esquecido. Os grandes conglomerados financeiros começaram então a enviar sondas para lá.
Zecker sabia que as coisas andavam mal, ele havia liberado passeios dos mineradores no entorno da empresa com o apoio da gerencia de segurança que lhe prometera proteger a área e infelizmente dois dos grupos de trabalhadores que haviam saído de licença para uma curta aventura em local seguro tinham sido atacados nas últimas semanas. Não houve sobreviventes nos grupos.
Além disso o Parlamento Terrestre constantemente ameaçava revogar a licença de operação do Consórcio devido as mortes dos mineradores, se isso acontecesse cabeças rolariam na empresa e Zecker sabia que a dele era a primeira. Ligou o palm e colocou as lentes para visualizar e ler os relatórios do Dr. Santos. Conhecia o homem, deveria ter trinta e poucos anos. Alto, inteligente e com um enorme instinto de sobrevivência, por isso havia sido realocado para atuar no núcleo especial.
A voz de Santos soou meio saudosa aos ouvidos de Zecker, embora a imagem fosse nítida. Afinal, neste primeiro relatório ele tinha pouco mais de um mês no núcleo avançado do lago Qiri. Aquele era um núcleo especial, significando que no local haveria a presença de formas de vida superior e inteligente, ficando na região mais fervilhante de vida do planeta, distante mais de treze mil quilômetros da cidade mineradora mais próxima. Mesmo assim a apenas vinte minutos de distância nos veículos de transportes, motoplaners ou cargos, se as tempestades magnéticas permitissem o uso constante de tais equipamentos.
“As noites gélidas da colônia em Nestor 4 – começou o Dr. Santos – lembram as regiões subtropicais do hemisfério sul do nosso planeta natal. As brumas envolvendo a paisagem noturna me recordam os antigos filmes que mostravam na época da escola, com as brumas estacionadas por sobre a cidade ao romper do dia, até o sol dissipá-las. Aqui na colônia é sempre assim nesta época do ano onde os efeitos de proximidade e as órbitas das três luas conjugadas enfurecem os oceanos e rios.
Durante a maior parte dos dias o azul esverdeado da flora e o tom levemente amarelo da terra da região está coberta por gramíneas, arbustos e árvores esparsas fazendo com que eu pense no cerrado de minha região e também no seringueti do continente próximo onde estudei. Uma mistura de ambos, talvez. Falo isto, pois creio que devo explicar melhor o lugar e como vim parar aqui.
Estranho pensar nisto agora, mas esta é minha segunda passagem como pesquisador de campo em exobiologia neste mundo. Na primeira passagem fiquei lotado na base e nesta segunda fui voluntário para o núcleo especial depois do desaparecimento do último pesquisador.
O lugar é repleto de vida nativa em ambiente selvagem, é também o maior dos continentes da colônia, lamento que foi pesquisado rapidamente nos primeiros anos, apenas para justificar a motivação real presença da raça humana no planeta – a exploração mineral.
A colônia é pequena com uma centena de trabalhadores na estação espacial e em torno de dois mil técnicos em terra, escavando para o consórcio de exploração mineral que mantém, além do pessoal das minas, um pequeno grupo de pesquisa de outras áreas, cerca de duzentos pesquisadores,inclusive flora e fauna. Sou um deles. Mas existem os Marauders, é claro.
Fui inicialmente contratado para resolver um grave problema de aproximação de alguns predadores que resolveram transformar o entorno da colônia, em território de caça, fazendo com que o grupo de segurança tomasse providencias para proteger os trabalhadores. Infelizmente, apesar de seus esforços, dezenas de trabalhadores que se arriscaram fora da zona de segurança pelos mais diversos motivos foram mortos, a maioria, devorados. Foi horrível de se ver.
Minha missão era estudar essas criaturas e apresentar uma solução, porém não tive tempo hábil para isso. O consórcio cercou a colônia com um campo de energia resolvendo parte do problema.
Outro ponto importante foi a questão política. O conselho do consórcio foi obrigado a atender as diretivas do Parlamento Terrestre quanto a estudos de formas de vida em estágio de inteligência comprovada, mesmo que primitivas.
Em Nestor 4 o primeiro grupo de pesquisadores identificou duas formas de vida inteligentes, ambas em estágio primário. A primeira delas, uma forma insetóide, em outro continente, com muita formação vulcânica, eles eram basicamente pescadores, o que facilitou sua inserção em ilhas menores ao redor do lugar. A segunda forma de vida também em estágio primário eram criaturas estranhas e belas, um misto de primatas e anfíbios, esses eram humanóides.
Como estes últimos eram os que estavam mais próximos, ao menos no mesmo continente, foram os eleitos para os estudos. A estes últimos, nós do grupo de pesquisa chamamos: nativos alfa.
Os nativos alfa eram a outra parte do problema. Eles eram predadores cruéis, lembrando muito os humanos.
A situação exigia que eu deixasse a segurança da colônia para fazer minhas pesquisas, então me candidatei ao núcleo especial. Eu queria descobrir mais sobre este novo e maravilhoso mundo, suas diversas formas de vida não catalogadas, a climatologia, sobre tudo.
Como pesquisador, sempre tive interesse, confesso exagerado, pela vida nativa da colônia, principalmente por aquela espécie, como se comunicavam, onde viviam… Tudo era mistério.
Dois outros pesquisadores estiveram neste núcleo avançado antes de mim. O primeiro, Ed Hensel, morreu. Encontramos partes do corpo, semidevorado por alguma criatura selvagem. Do segundo, Roderick Barter, nada foi encontrado, era como se tivesse desaparecido no ar, desintegrado.
De inicio pensou-se que ele havia tido o mesmo fim que Hensel, depois que ele havia desertado ou sido sequestrado por marauders. Sei disso, pois participei das investigações do seu desaparecimento na primeira passagem. Conto isto agora, pois o que tenho vivenciado esclarece a morte de meus antecessores e neste momento eu acredito que é extremamente relevante.
Pode-se dizer que fui “descoberto” pelos nativos logo nos primeiros dias de meus estudos, em que cheguei ao núcleo. Fui recepcionado com uma chuva de pedra e lanças jogadas por eles contra o observatório. Percebi que tinha que viver aqui sempre com a armadura de proteção para evitar surpresas desagradáveis.
Creio que é melhor descrevê-los: os nativos se assemelham bastante com nossa espécie, andam sempre nus, ao menos os dessa aldeia perto do núcleo, na cabeça tem cabelos e de cada lado há pêlos compactos endurecidos que formam um tipo de chifres pontiagudo nos machos e nas fêmeas, lembrando os rinocerontes da Terra, essa é uma característica que me chamou a atenção, a outra é que eles quando estão nas águas do grande lago ficam horas submersos, pescando, se divertindo. São criaturas muito belas, tendo partes do corpo pintada, cada indivíduo, apresentando desenhos, pintas de tamanhos e formatos diferentes.
O que mais interessa relatar foi à reação a minha presença. Nos primeiros dias um grupo vinha diariamente me “visitar” no núcleo, lançavam pedras, gritavam algumas coisas e saiam, às vezes ficavam e impediam que eu saísse do observatório, até que um dia algo diferente aconteceu. Por acaso um deles me chamou a atenção, uma das fêmeas me pareceu familiar.
Naquele instante tomei uma atitude que agora não sei se foi corajosa ou estúpida, em uma demonstração fútil de força acionei o escudo de energia e saí enquanto pedras e lanças eram jogadas contra o escudo e arremessadas em diversas direções. Uma parte dos alfas correu para longe menos quatro indivíduos, entre eles a fêmea. Me aproximei com cuidado e pude confirmar que era a mesma que eu tinha visto tempos atrás, eles recuaram um passo e ela esticou a mão como se quisesse me tocar, me olhava com curiosidade, falou algo aos outros e eles se foram olhando para trás receosos.
Já a tinha visto antes na colônia durante minha primeira passagem, a segurança havia atendido ao pedido de socorro de um grupo de trabalhadores que haviam sido atacados pelos nativos quando saíram da área de segurança. Eles entraram em ação, matando quatro deles e ferindo outros dois, um macho grande, mais de dois metros e uma fêmea pouco menor de cabelos avermelhados.
O macho era violento e tentava se livrar das algemas e correntes, se retorcendo e urrando, o que forçava os seguranças a aplicar-lhe choques elétricos dos bastões, a fêmea permaneceu sentada no chão da sala de reclusão. Eu a observei por um tempo razoável da sala ao lado até que resolvi me aventurar, afinal ela estava acorrentada. Entrei na sala e fiquei atrás da linha amarela que indicava a zona segura, olhando para ela.
Algo impensável para mim aconteceu, ela que me olhava a princípio de soslaio, virou e ficou em pé e ficamos nos olhando por vários minutos, olhos nos olhos. Eu parecia hipnotizado por sua presença, pelo seu olhar, ela esticou a mão em minha direção, como se me chamasse.
Ela sorriu para mim? Perguntei-me naquele instante.
Voltei de meu breve devaneio quando Walter Meyer tocou no meu braço e perguntou se eu estava bem. Mal começamos a estudar o comportamento deles, quando recebemos ordens de soltá-los onde os achamos. Nunca mais a tinha visto até aquele dia.
Como a aldeia era relativamente perto no núcleo, eu ouvia durante as noites, quase que ininterruptamente as enormes trompas de madeira e os tambores dos seus rituais. Então algo incrível aconteceu, mesmo com a proteção de energia do núcleo passei a acordar no período da noite com a impressão de ter alguém me observando, ou seria alguma coisa?
Isso aconteceu durante várias noites, e um dia aconteceu pela manhã. Eu havia subido no poste de observação e passei lá umas duas horas, quando entrei pensei ter visto uma sombra, alguém ou algo passando por mim. Estremeci.
Imediatamente apanhei o bastão de choque e me preparei para algum ataque, quando me dei conta que ninguém poderia ter invadido. Estava começando a relaxar quando um grito horroroso de desespero ou ódio pareceu sair do nada na minha frente. Aquilo gelou o meu sangue e o pavor tomou conta de mim, pensei em sair correndo dali o mais rápido que podia só que minhas pernas estavam congeladas e não se moveram. Isto aconteceu mais algumas vezes nos dias seguintes.
Acreditem, não foi engraçado!
Ontem durante a noite vesti a armadura, acionei a camuflagem e saí, fui em direção da aldeia e lá presenciei uma das coisas mais estranhas da minha vida. Os nativos tocavam as trombetas e tambores enquanto comiam um tipo de planta misturada com sangue de caça, preferi observar de longe.
A fumaça que saia da fogueira era amarelada, densa e parecia bruxulear conforme a música compassada tocada por eles naquele instante, assumindo formas que assustavam os nativos e a mim também.
Senti necessidade de sair dali e caminhei na direção das cabanas, que eram em sua maioria um misto de folhagens entrelaçadas e peles de diversos tipos de animais, uma delas me chamou atenção. Aproximei-me aos poucos sem acreditar no que via, levantei o visor do capacete e por alguns instantes desliguei a camuflagem para ver melhor. Finalmente podia confirmar o que tinha acontecido ao meu antecessor, eles o assassinaram, foi esfolado, arrancaram toda a pele de seu corpo e costuraram-na junto à de outros animais para construção daquela cabana.
Senti um enjôo momentâneo, acionei a camuflagem e me virei para ir embora daquele lugar quando vi alguém andando em minha direção, tateando o ar, como se me procurasse. Era uma nativa, parecia ter a idade avançada, tinha espinhos grandes atravessando seu rosto e os olhos pareciam ter sido arrancados há muito tempo, mesmo assim falava algo para mim, que não entendia. Impossível! Devia ser o medo.
Percebi então o que havia se passado, de alguma forma os alfas haviam conseguido colocar aquela mistura na água que eu bebia ou o cheiro da fumaça das plantas queimadas atravessavam a distância entre a aldeia e o observatório do núcleo fazendo com que eu imaginasse coisas. A outra opção seria que o fantasma de um de meus antecessores estivesse ainda preso naquela fumaça que teimava em sair da fogueira no centro da aldeia todos os dias e fosse enviado pra me atormentar. Confesso que prefiro a primeira opção.
Estou agora no núcleo avançado, pensando se realmente valia o risco, tentando adivinhar o que aconteceu de verdade com meu antecessor. Quando ele morreu? Como? Será que foi pego desprevenido em algum momento? Ou abaixou a guarda propositadamente? Pode ter se apaixonado por alguma das belas nativas? Sabe como é a solidão. O equipamento pode ter falhado? Qualquer coisa.
Envio este relatório ao comando do grupo de pesquisas, solicitando minha retirada na maior brevidade possível deste lugar, creio não valer a pena o risco de manter um pesquisador aqui. Sou apenas mais uma presa para essa espécie.
Fim do relatório.”
***
Samuel Zecker se ajeitou na poltrona, as costas doíam e resolveu se esticar um pouco, foi até a pequena geladeira e pediu água gelada. Tomou de uma só vez enquanto pensava no relatório do Dr. Santos. Ele tinha ficado trinta e três dias e neste ínterim resolveu questões que estavam abertas há mais de dois anos como a morte de Roderick Barter, pobre homem. Será que ainda estava vivo quando foi esfolado? Ninguém merece morrer assim, Zecker estremeceu só de pensar.
De qualquer forma agora ele sabia o porquê dos Meyer e dos outros técnicos andarem tão mal humorados ultimamente, a causa era Marcos Santos. Ele enviou o relatório no modo aberto, o f d p, queria que todos soubessem o que estava acontecendo.
Mas Zecker sabia que a principal falha tinha sido dele, não respondeu ao relatório, nem fez nenhuma comunicação ao conselho, optou por informar direto ao triunvirato. Não respondeu a Santos por que simplesmente não leu. Recordava-se agora que por quatro ou cinco vezes teve o relatório aberto nas mãos e nem mesmo iniciou sua leitura.
Se o conteúdo do relatório chegou nas mãos do conselho, as possibilidades de demissão eram enormes, com Santos pedindo remoção imediata e considerando os riscos como altos, e o pior, haviam se passado cinco meses até a chegada do segundo relatório e ele nunca tomou nenhuma atitude. Nada restava a fazer agora a não ser ler o segundo relatório e se preparar para a audiência.
“Devo dizer Dr. Zecker, que estou profundamente desapontado com o senhor e com o comando de pesquisas. Apesar de meu pedido, até o momento não fui retirado deste lugar. Podem dizer que foram as tempestades solares ou falhas nas comunicações, ou mesmo o forte campo eletromagnético, sinceramente não acredito. Avaliando meu primeiro relatório, sinto que é meu dever como pesquisador relatar o que se passou nos últimos duzentos e sete dias. Vou me ater apenas aos fatos que considero mais relevantes.
Zecker parou o palm e tirou as lentes. O fdp está se dirigindo diretamente a mim, ele me culpa pelas mazelas da própria vida, pensou. Se não fosse a audiência… Ligou o palm e recolocou as lentes.
Em primeiro lugar, posso lhe dizer Zecker que nunca fui completamente aceito neste lugar pelos nativos com exceção de um indivíduo, a fêmea sobre a qual falei em meu primeiro relatório. O nome dela é E-kzia.
Com o passar dos dias me aventurei cada vez mais longe em minhas andanças, na direção contrária a aldeia dos alfas, confesso que procurava evitá-los principalmente depois de achar a pele de Barter. Aquilo me revoltou e como um ser humano comecei a achar que ele merecia um desfecho digno e então voltei um dia no inicio da tarde enquanto eles se preparavam para as festividades da noite, entrei no lugar e me assegurei que não existia ninguém lá dentro e ateei fogo na parte da cabana onde estava a pele dele. Não sei se sequer desconfiaram que fui eu, sei apenas que apedrejaram o núcleo por dias seguidos até desconfiarem que eu não estava lá. Observei tudo de cerca de vinte quilômetros de distância de cima do monte pardo. Levei E-kzia comigo.
Creio ser o momento adequado para dizer que fizemos de início uma estranha amizade, minha culpa admito, porque ela sempre foi muito propicia ao relacionamento. O meu medo sempre atrapalhou, até que um dia aconteceu. E-kzia, que já morava comigo no núcleo, veio para perto de mim. Ela havia se banhado em uma pequena cachoeira na descida do monte e o vento frio daquele inicio de noite fez o resto, ela se deitou ao meu lado e acabamos fazendo amor. Foi estranho, mas gratificante. Ela nunca mais voltou para a aldeia.
Um outro acontecimento deve ser relatado. Acabei voltando para o núcleo especial e certo dia captei uma mensagem no comunicador, em uma faixa de comunicação diferente da usada pelo consórcio. Vi ali uma oportunidade de sair deste lugar e comecei a procurar a fonte, mesmo sabendo que eram exploradores corsários, provavelmente violentos.
Segui o sinal pelo meu palm pessoal, visto que o do consórcio poderia enviar sinais inadequados. Eles estavam em um vale distante cerca de quatro dias de caminhada, arrisquei e parti em sua direção ainda que sem conseguir estabelecer contato devido ao eletromagnetismo forte na região. Era uma área localizada abaixo de confluência de dois montes e eles haviam pousado uma nave pequena na base. Para o azar deles não fui o único a procurá-los. Um contingente de duas aldeias de nativos alfas que viviam na região os acharam antes de mim e os atacou.
De um ponto mais alto, nas montanhas vi alguns dos exploradores ainda vivos, dois deles. Com o visor de proximidade esquadrinhei toda a área, eles haviam descoberto um veio de minério de trillium e o estavam minerando quando foram atacados. Conseguiram matar alguns nativos, vi cerca de uns vinte corpos, mas o resultado foi desastroso.
Durante o ataque os nativos haviam conseguido provocar uma avalanche e ao menos dez pedras gigantescas rolaram na direção da nave atingindo o motor principal, a ancoragem lateral e outras partes, incapacitando-a para sempre.
Ao anoitecer vi o que os nativos fazem com os humanos, mal acabaram de matar um dos homens que haviam feito como prisioneiro e começam a devorá-lo. O outro não teve tanta sorte e ainda estava vivo quando começaram a esquartejá-lo aos poucos e devorá-lo, enquanto dançavam e cantavam em uma espécie de ritual. Faziam sexo enquanto comiam as carnes do infeliz, foi uma visão de puro horror. Ouvi seus gritos de medo e suplica durante horas até o amanhecer do outro dia quando um deles se aproximou e arrancou a cabeça dele. Voltei para o núcleo especial e vi que E-kzia continuava lá.
Os dias se passavam lentamente e eu ainda acreditava que vocês viriam me buscar, aí em uma manhã, percebi que o núcleo estava cercado por pelo menos cem nativos, entre caçadores e feiticeiros, não era uma completa surpresa, pois neste período, E-kzia passava todos os dias comigo e não na aldeia e isto, causou ciúmes em alguns caçadores. A propósito E-kzia é um dos caçadores, e dos bons.
No final daquela tarde, ouvi os gritos de E-kzia do lado de fora do núcleo. Eu ainda vestia a armadura, estava alerta e fui até o armário de armas e peguei o bastão e o estilete, não estava disposto a arriscar minha vida mesmo tendo feito o juramento de jamais tirar a vida de qualquer criatura seja ela inteligente ou não.
Saí do núcleo e olhei para eles, vi que seus olhos em geral amarelos estavam vermelhos, nunca os havia visto assim. Fui recebido com um tronco de árvore lançado em minha direção, percebi então que teria que tomar uma atitude mais drástica, avancei na direção do nativo que jogou o tronco e disparei o bastão em sua direção, ele caiu com o choque elétrico. Um segundo nativo jogou uma lança enorme contra o meu peito me derrubando, se não fosse a armadura eu estaria morto agora. Apesar de tonto e com dor no peito consegui me levantar, mas o caçador já estava em cima de mim e me ergueu do chão, vi que ele ia me jogar contra uma árvore enorme e por reflexo e medo enfiei o estilete em seu pescoço. Ele parecia não acreditar, caiu sentado com as mãos tentando evitar o fluxo de sangue, levantei e tentei correr para dentro do núcleo, o primeiro caçador se levantou e correu em minha direção, desta vez atingi sua cabeça com outra descarga elétrica em máxima potência, ele caiu desmaiado tremendo e babando. O resto do grupo se afastou para a mata enquanto eu entrava no núcleo que estava sendo protegido por E-kzia que gritava desesperada para sua gente. Tranquei as portas e observei que os olhos dela estavam vermelhos como dos caçadores. Tive medo.
Eu tremia descontroladamente, fiquei encostado nas paredes do circulo interno do núcleo com E-kzia em pé encarando a porta com uma lança afiada nas mãos. Depois de alguns minutos eu a chamei e ela veio para perto de mim e ficamos abraçados por um tempo.
Demorei certo tempo para entender os gritos dos nativos, eles queriam nos matar, a mim por ser um invasor de seus domínios e a E-kzia por preferir viver comigo. Não sei o que aconteceu aos alfas que atingi, E-kzia foi lá no outro dia, mesmo sem que eu concordasse e quando voltou trouxe uma da trombetas para mim, perguntei o por que e ela apenas sorriu.
A última informação que posso prestar parece-me obvia, aprendi parte do idioma dos nativos que além de falado tem movimento de mão e assovios, entendo parte de sua cultura e compreendo até mesmo sua crueldade. Tenho uma série de informações detalhadas nos cristais de armazenamento, milhares de imagens que podem ajudar vocês a entendê-los. Este foi o motivo de minha vinda para cá, ao menos o meu. Se julgarem essas informações úteis venham buscá-las, mas cuidado com os nativos.
Agora Zecker, enquanto termino este relato, me pergunto o real motivo por você nunca ter expedido ordens para me buscar. Nunca lhe fiz nada, então não pode ser pessoal.
Pensando bem você não tem coragem suficiente para decidir sozinho me abandonar neste local e é claro que pensei em Ed Hensel e em Roderick Barter e o triste fim que ambos tiveram, eram bons pesquisadores e certamente não mereciam o fim que tiveram, espero que quem determinou o abandono de ambos pague um dia pelo que fez. Creio que existe alguma motivação para isso e não sei qual o desfecho que você esperava. Espero um dia lhe perguntar pessoalmente doutor.
Como você pode perceber doutor, tudo de errado que eu poderia fazer eu fiz. Para mim a missão foi um fracasso desde o início.
E-kzia e eu vamos embora daqui para o mais longe que pudermos, não posso voltar para casa, para o convívio com vocês, tenho a ela agora e ela tem a mim. Nunca pensei que fosse ter uma mulher, ainda mais assim. Não creio que vocês entenderiam essa conexão, esse elo mental criado entre nós desde o encontro na colônia. Mas agradeço a você por isso doutor, de verdade.
Não tentem me procurar, estou desligando todos os nano equipamentos e levando o essencial para nossa sobrevivência. Não atenderei suas chamadas, você nunca retornou aos meus pedidos de socorro.
Já não tenho mais medo!
₰ ₵ ┌ ┌ ₵ ¥ﷲ┌ ײַ
Fim da transmissão.
***
– Dr.Decker, esta é a história mais fantástica que eu já ouvi, acredita mesmo que esse homem de sua equipe viveu entre os nativos, aprendeu sua língua? De acordo com as pesquisas do Dr. Santos os nativos alfas estão tecnologicamente comparados a nossa idade do bronze. Este fato comprova que são uma espécie inteligente e têm possibilidades concretas de evolução.
Os três homens sentados do outro lado da mesa pareciam incrédulos.
– Acredito que sim Comissário Klauss, Marcos Santos sempre foi um dos melhores pesquisadores de campo do Consórcio, além disso, quando enviei ontem uma missão para sua retirada, o núcleo estava vazio e as informações relatadas estavam onde ele falou. Do lado de fora a equipe encontrou resquícios de luta e manchas de sangue denso, marrom avermelhado dos nativos. Eles foram até a aldeia, mas não havia nada no lugar, eles simplesmente foram embora, creio que os seguiram, pois a mulher que passou a viver com ele devia ser um dos líderes da aldeia. E como os satélites e a base do consorcio não conseguem imagens do planeta não temos como saber onde eles estão. O que o senhor acha comissário?
O homem sorria, estava perto de completar um centenário de vida.
– Creio que a história de Marcos Santos é uma das aventuras mais instigantes e bizarras que já escutei. Um erro nosso que se transformou em acerto. Você cumpriu muito bem as ordens que lhe demos em relação ao Dr. Santos, deixá-lo lá junto aos nativos nos trouxe uma série de benefícios. Nosso objetivo sempre foi o cruzamento de nossa raça com a deles, de inicio pensamos em engenharia genética até eu ver pessoalmente os alfas a cinco décadas atrás e ter as idéia da manipulação inter espécies. Qual humano se apresentaria para uma experiência dessas? Seria difícil encontrar, principalmente nossas mulheres. Teria que ser um homem então. As duas primeiras tentativas de inserção de um individuo em uma comunidade não deu certo. Com o Dr. Santos deu.
– Talvez Comissário, mas nunca entendi o porque de Santos. Podiam ter enviado um dos ex militares que compõe a equipe de segurança, o resultado seria melhor, disse Decker bebendo um refrigerante.
Ele acha que realmente nós não tentamos essa hipótese, pensou o Comissário Klauss olhando para Decker sem nada responder.
– Agora temos acesso às gravações, aos vídeos, comunicações. Vaze o material para os outros pesquisadores.
– Sobre este relacionamento pensávamos apenas em reprodução, não contávamos que ele fosse se envolver sentimentalmente com uma das alfas e decidir viver com ela. Vi os vídeos e ela realmente é muito bonita. Diria que posso imaginá-lo em uma região qualquer deste maravilhoso planeta, vivendo com E-kzia…
Depois que Decker saiu da sala, o triunvirato está livre para recomeçar suas discussões.
– Este é o quinto casal que conseguimos em Nestor 4. Podemos dar início à fase dois do nosso plano senhores.
Fim
Um conto de Swylmar Ferreira escrito em 30/09/2013. Revisado para publicação em 29/06/2023.
Imagem meramente ilustrativa retirada de alien_freak_fantasy_girl_woman_female_lady-hd-wallpaper-75332.jpg