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Observador sombrio – Uma biografia não autorizada.


“E Ele me criou desde o princípio, antes dos séculos, e eu nunca deixarei de existir”

É verdade que no sábado o dia passou todo nublado. Lembro-me do que havia falado a “moça do tempo”, de nome Ana Cláudia, uma repórter bonita de cabelos cacheados que aparecia diariamente no jornal matutino da televisão:

– “Ventos fortes para moderados com chuva todo o período”.

            Mas nada havia preparado as pessoas da cidade para aquele temporal. Muito menos aqueles que moravam no lado da cidade onde a chuva caiu mais pesado.

– Mais parecia um furacão – ouvi uma mulher ainda assustada com o furor da tempestade, enquanto descia a rua amparada por outra, pouco mais jovem.

– Credo Maria… Era um horror… Os ventos pareciam ter vida própria – comentou com a outra, ainda lembrando os rodamoinhos de vento e chuva que arrastavam de tudo naquela parte da cidade, desde sacos de papel e plásticos, até tampas pesadas de caixas d`água.

            Talvez a mulher – a Maria, seja lá quem for – tenha razão. Talvez tenha vida própria – pensei enquanto sorria

            ****

As ruas do pequeno condomínio onde Adoniram Caldas morava estavam completamente inundadas, ainda bem que a casa ficava na parte alta, isso a salvou de ser inundada. Parecia que o clima ia melhorar quando grossas nuvens cinzentas voltaram a atormentar os céus da região, fazendo com que tempestade de raios se formassem e enchesse de medo outra vez o coração das pessoas, talvez também o de Adoniram. Apenas talvez.

            Ele observava a alguns minutos um vento misturado com poeira e fragmentos leves de resíduos de tudo o que havia na região, desde pequenos lixos, de padarias a marcenarias da região. O vento passou duas, três vezes pelo mesmo local, sendo que na última passagem pareceu-lhe, a Adoniram, que havia a forma de um rosto.

            Ele estava encostado na janela, segurando o acortinado denso estilo blecaute, meio de lado, como se procurasse se esconder ao vislumbrar algo estranho. Uma coisa que procurava há muito tempo. Parou de respirar quase que em seguida. Naqueles segundos apenas o medo lhe era companhia, enquanto esperava aquilo passar junto com o vento, enquanto esperava a sensação de pavor aos poucos desaparecer. Depois, em silêncio, sorriu.

            Rosalin Caldas há um ou dois minutos estava a seu lado, olhando o temporal que se aproximava. Ao ver o rosto formado de resíduos e poeira, imediatamente ela soltou o acortinado e deu alguns passos para trás tendo uma crise de calafrios. Começou a benzer o corpo e desceu as escadas para o andar de baixo da casa, para onde seu marido havia acabado de descer e sentou-se a seu lado. Agarrou-se ao braço dele, pegou o “Livro Sagrado” e começou a ler como sempre fazia e não largou nenhum dos dois pela próxima hora.

            Afastou-se do marido apenas para fazer o jantar, ainda assim com a sensação de que algo estava muito estranho. Bem-feito pensou para si mesma, isso ensinava a ficar dando ouvidos às histórias do padre Jesualdo. Sabia muito bem que todas as vezes que escutava as lorotas do velho Padre tinha pesadelos à noite.

            Adoniram, por outro lado, aguardava o noticiário da TV, tinha curiosidades de saber mais sobre as curiosas mortes que aconteciam na cidade naqueles dias, principalmente sobre a morte da âncora do canal de notícias noturnas. Tinha certeza de que seria uma comoção Nacional. Se não tanto, ao menos regional.

            A comunidade jornalística estava em polvorosa, assim como a polícia local. Ninguém esperava que o “assassino das noites frias” – como ficou conhecido o matador – atacasse alguém famoso como a âncora do jornal noturno.

****

            Em outro lugar, eu também olhava uma pequena televisão, com curiosidade. Não queria admitir, mas tinha que saber o que seria noticiado. Para “o monstro”, como havia dito a moça, parecia ser indiferente quem ela era. Isso ensinaria a qualquer um, principalmente aos meios de comunicação, a insinuar que eu fosse um covarde qualquer.

****

Adoniram já não escutava mais a televisão, nem mesmo os lamentos de sua mulher lendo o Livro Sagrado, naquele momento raciocinava sobre algo que lhe vinha às vezes à mente nos últimos dias. Achava que tudo tinha a ver com a demolição de um velho prédio mais em cima na rua onde morava.

Começou quando da demolição do velho Shopping Center, que ficou parada por meses a fio. Questões judiciais, disseram os jornais e programas de televisão da época, parecia que esperavam apenas a autorização de algum juiz para demolir o prédio principal. Então grupos de pessoas começaram a frequentar o lugar – ouviu alguém na padaria falar que havia sido comprado. De início eram três ou quatro pessoas, então com o passar de semanas e meses, vieram outras mais. Às vezes centenas.

Cobriram algumas das velhas janelas e portas com madeirite e, em certas noites, ouvia-se cantos e gritos no lugar. Aquilo despertou a atenção e a curiosidade de Adoniram. Ele arrumou um binóculo potente e começou a “vigiar” o esqueleto do Shopping Center. Coisa de aposentado, pensava.

****

Enquanto Adoniram aguardava Rosalin terminar o preparo do Jantar, o inspetor Clésio Maia e o delegado Wilson Frota, no centro da cidade, haviam acabado de chegar à delegacia. Estavam investigando o caso já a um par de meses e, por incrível que pareça de todas as pistas que haviam seguido, nenhuma levava a lugar algum.

– É Doutor Frota – disse Clésio enquanto abria uma latinha de refrigerante que comprou no bar em frente à delegacia – matar aquela menina foi muita sacanagem.

– Agora o meliante conseguiu atenção que queria – falou entre goles olhando fixamente para o chefe.

– Também foi muita burrice dela – comentou o delegado Frota – falar o que falou de um assassino psicopata como esse, e achar que ia sair impune? Só porque era repórter e famosa? Foi muita ingenuidade. Burrice mesmo.

            Clésio apenas acenou positivamente com a cabeça enquanto bebia o refrigerante e se preparava para comer a coxinha de galinha com catupiry que, às 9 horas da noite seria o seu almoço. Enquanto comia lembrou-se de como a jovem repórter, Flora Baudoin, fizera os comentários sobre o chamado “assassino das noites frias”. Ela o chamou de monstro, covarde e outras coisas mais, pior de tudo, riu-se dele na frente das milhares de pessoas que assistiam à TV naquele horário.

Gostava dela, além de bonita era inteligente, ganhando notoriedade pelos comentários que costumava fazer nos dois últimos anos como âncora do telejornal noturno. A princípio fazia comentários sobre episódios políticos que aconteciam na capital, mas também passou a fazer sobre diversos assuntos, desde fatos internacionais até, como aconteceu duas noites atrás, sobre o homem mais procurado pela polícia no momento. O problema, Clésio pensou consigo mesmo, não foi apenas comentar, mas principalmente o fato de o ter chamado de assassino covarde. Menos de 24 horas depois ele a matou na frente das câmeras de televisão, e na frente da polícia. Tiro certeiro na cabeça.

Com a morte de Flora, completaram oficialmente quatro mortes nos últimos 60 dias, mas pelas investigações feitas pela equipe do doutor Frota, sabia que, eram mais.

Se sua desconfiança caísse no ouvido da mídia, além de atrapalhar as investigações, poderia fazer com que a pessoa, quem quer que fosse, simplesmente deixasse a cidade.

Mas ele podia sentir em seus ossos que o “assassino das noites frias”, estava cada vez mais ousado e isso faria com que mais cedo ou mais tarde a polícia o capturasse. Nem que fosse usando a ajuda da população que, ou já usava o disk denuncia, ou ainda no caso, alguém como o idoso que o havia procurado algumas noites atrás, para falar de pessoas que se encontravam em um Shopping Center que seria demolido.

O delegado observava enquanto o investigador pegava a segunda coxinha e a lambuzava toda com maionese e ketchup dando ao salgado uma tonalidade estranha. Por um instante tentou se lembrar exatamente o que tinha visto em todos os anos em sua profissão que se parecia com aquilo, como não conseguiu, deixou pra lá.   Continuou pensando em Flora, em como por poucos minutos, não conseguiram prender o assassino.  Se tivesse chegado aos estúdios dois ou três minutos antes …

****

Em casa, Adoniran subiu as escadas e foi até o quarto olhar se Rosalyn já estava dormindo. Sabia que os remédios para dormir que ela bebia faziam efeito bastante rápido. Abriu a porta do armário, pegou a jaqueta de couro e, como fosse um rapaz de 19 anos, colocou-a sobre os ombros e desceu as escadas, abriu a porta de casa indo até a garagem montar na motocicleta de 1500 cilindradas. Riu consigo mesmo ao falar baixinho: – vou rodar.

***

Rosalin acordou abruptamente. Ficou deitada por breves momentos apreciando os braços, quando os colocou para o alto. Logo em seguida foram as pernas. Acariciou-as e sorriu. Tirou o remédio meio que dissolvido debaixo da língua e cuspiu-o no chão do quarto. Se levantou e foi ao banheiro vomitar. Aproveitou para olhar no espelho escuro e de formato retangular seu reflexo e, meio que satisfeita começou a pintar a boca com o batom vermelho e a massagear os seios.

Rosalyn tirou o camisolão, colocou soutien, calça jeans apertada e uma blusa, por último o par de tênis mais confortável que possuía. Para onde iria?

Resposta fácil essa. Para o shopping abandonado, é claro. A diversão nas noites do bairro estava lá. Antes, porém, uma última olhada no espelho do canto da sala.

Talvez… apenas talvez, o reflexo que tenha visto no espelho não correspondesse à realidade.

****

O barulho alto na boate “abandonada” do shopping nesta noite, me incomodou a tal ponto que simplesmente abandonei a mulher. Deixei-a caída em um sofá velho enquanto fazia amor com um homem qualquer, e desesperadamente agarrava-se a ele. Ela já não me interessava tanto assim. Ao menos não naquele momento, diga-se de passagem.

Tinha alguém em mente para onde ir, alguém que me agradava e quando juntos, existia uma libertação conjunta. Certas coisas eu jamais faria, ao menos não sozinho, disso já sabia. Não que me faltasse coragem, mas porque não me parecia certo.

Perambulei pelas ruas da cidade, passando por diversas delas, algumas repletas de luzes e pessoas que viviam a noite, em uma festa sem fim em bares, restaurantes, boates, tudo era alegria. Outras ruas eram escuras e sombrias onde criaturas, as mais vis, usavam-nas como esconderijo.

Algo então chamou a atenção. Um jovem corria tropegamente pela avenida semideserta, seguido de perto por cinco outros que riam e lhe tacavam objetos que encontravam pelo caminho. O primeiro jovem passou por mim e bateu violentamente na parede do prédio antigo, ricocheteando como uma bola de borracha. Foi rapidamente alcançado e enquanto tentava se levantar era agredido a socos e pontapés pelos outros, até que um dele tirou uma faca da cintura e a enfiou no peito de sua vítima indefesa jogando-a ao chão.

Nenhum sorria, apenas observavam a agonia do que estava caído, parecendo apreciar a seu martírio final. Aproximei dos jovens e num ato impensado tomei o moribundo. Senti a presença de seu espírito junto a mim, senti o medo da morte, a impotência, o horror. Abri os olhos e vi quando um deles sentou-lhe sobre o peito colocando as mãos sobre o pescoço enforcando, ao tempo em que movia a faca causando mais um gemido de agonia.

Cansei daquilo. O moribundo agora era meu. Segurei o agasalho do matador puxando-o para mim, tirei a faca do peito e a enterrei o mais fundo que pude em seu pescoço. Virei invertendo as posições, enfiando a faca por três, quatro vezes em seu peito. Um segundo indivíduo tentou me segurar pelo pescoço, mas a faca afiada praticamente decepou sua mão, ele gritou e tentou correr, mas minha faca cortou-lhe o pescoço de lado a lado. Um terceiro bateu-me com uma barra de ferro me derrubando. Levantei e atirei-me sobre ele enfiando as mãos em sua boca e arrancando seu maxilar inferior. Olhei procurando os outros, mas não estavam mais ali.

O espírito ao meu lado parecia mais tranquilo, resignado, era o momento de libertá-lo. Deitei-o afastado dos outros corpos e segui meu caminho, eu estava estranhamente satisfeito.

****

Clésio acordou antes do despertar do relógio no telefone celular. Dezoito horas. Merda, estava atrasado para o plantão. Chegou a delegacia e recebeu logo a incumbência de investigar as mortes estranhas no centro da cidade. Quatro mortes. A delegacia havia recebido o filme de duas câmeras de segurança e a seu ver estava tudo muito claro. Um desentendimento de rua que causou as mortes. Ia começar a fazer o relatório quando o delegado Frota o chamou.

– Viu o filme Clésio?

Olhou para o homem a sua frente que lhe parecia retesado, agitado.

-Vi sim doutor.

– E o que achou?

– Briga de rua que acabou mal. Nada demais. Prendemos os outros dois já no final da tarde e eles confessaram que foram atrás do rapaz para dar uma surra nele. Então um deles esfaqueou o garoto e tudo acabou mal.

O delegado parecia cada vez mais inquieto. Clésio sentou e ficou olhando para o chefe.

– Eu mesmo falei com um dos agressores. O que correu por último. Ele estava transtornado, ia fugir para a casa de um tio no interior.

– O rapaz disse que eles tinham enfrentado o demônio. Falou que a vítima já estava morta. Então sem mais nem menos tirou a faca do próprio peito e enfiou no amigo dele. Ele falou que o rosto estava transformado em uma coisa distorcida, foi quando viu o colega correr.

– E ainda matou os outros dois. Vi pelo filme que depois da briga, ele se afastou dos corpos retalhados e simplesmente se deitou na calçada e morreu.

– Nunca tinha visto uma coisa dessas, chefe – disse Clésio balançando negativamente a cabeça – parecia mesmo que era outra pessoa, mas sabemos que ninguém estava lá. O vídeo é claro nisso.

            Frota estava perdido em pensamentos. O caso estava esclarecido. Os dois sobreviventes contaram que a vítima era um viciado e que devia dinheiro a eles. E para piorar, estava comendo a namorada do líder do bando. Não podia ser diferente, eles o seguiram, viram quando ele se drogou e começaram a perseguição.

            Clésio esboçou um sorriso e pensou se falava ou não uma de suas habituais gracinhas pro chefe. Olhou para Frota que lhe fez um sinal para que prosseguisse.

– Além de corno, o cara era burro. Certo que o garoto fazia alguma arte marcial ou coisa parecida – falou mal contendo o riso.

            O rosto de Frota estava impassível quando respondeu que o rapaz era da periferia da cidade e que nem ele nem o pai que o criou, nunca tiveram dinheiro para isso.

– De qualquer forma o caso tá encerrado. Não acredito em assombração – disse o delegado – temos que trabalhar é no caso do “assassino das noites frias”. Esse é o que temos que resolver – falou enquanto fechava uma pasta em cima da mesa e passava para o investigador – vamos correr atrás.

****

            Rosalyn pela manhã estava arrasada. É certo que se lembrava de tudo. Certo também que decidiu de momento, fazer amor com o jovem. Mas sentia-se estranha com aquilo. Desconfortável. Será que colocaram algum tipo de droga em sua bebida?

            Não fora aquela a primeira vez que dormia com outro homem, além de seu marido, mas aconteceu há a décadas. Começava a acreditar que a implicância de Adoniram com o lugar era certa.

            Apesar de abandonado, o velho shopping abrigava uma casa de diversões muito legal onde pessoas de todas as idades iam se divertir. Até mesmo Adoniram arriscou um par de visitas semanas atrás, então ele começou a ficar estranho. Na última vez que esteve no shopping ele parecia maravilhado. Moças jovens davam em cima dele, agarravam-no e o beijavam, sentavam em seu colo e esfregavam-se nele, languidas, totalmente fora de controle. Ela pensou em ir até lá e tirar satisfações mas algo a impedia de se aproximar… uma força.

            Será que foram drogadas por alguém? De qualquer modo, ela – Rosalin – estava pasma com tudo aquilo, seu marido parecia outra pessoa, alguém que ela nunca tinha visto antes. Deu as costas e foi embora.

            Adoniram, dia seguinte, olhou-a nos olhos e pediu perdão, disse que aquele comportamento era inaceitável e aquilo jamais tornaria a acontecer. Meses se passaram, mas nos pesadelos de Rosalin, ela o via naquela mesa de canto com cinco ou seis moças nuas e ele fazia amor com todas elas, como fosse um menino.

            Algo nos pesadelos a atormentava, ela se aproximava da orgia e via que algo nele estava diferente, eram os olhos, olhos amarelos que pareciam brilhar à noite, carregados de maldade, ódio e solidão.

            Além de não ir mais ao lugar, Adoniram pegou verdadeira implicância chegando mesmo a denunciar na delegacia do bairro e dizer que lá poderia ser o esconderijo do tal “assassino das noites frias”. Para o azar dele, ninguém acreditou.

****

            Frota abaixou-se ao passar pelo arbusto baixo na praça em frente a delegacia, afinal cortar o rosto ou a cabeça em um dos galhos estava fora de cogitação. O caminho estava forrado de folhas velhas, amareladas e murchas que caiam das árvores e arvoredos naquela época do ano. Já estava no final da tarde e o cansaço estava evidente, além de estar de saco cheio de tantos repórteres pedindo entrevistas.

Parou em seu banco favorito, sentou dando um suspiro de alívio e fazendo alguns exercícios respiratórios para aliviar a tensão. Abriu o saquinho de papel onde estava a refeição do dia, dois pastéis de carne e um refrigerante, e começou a comer.

            Comer e pensar. Não era a toa que estava um pouquinho mais forte naqueles dias, mas afinal de contas comer era uma das raras alegrias que tinha naquela fase final de sua vida. Aos poucos o pensamento voltou-se para a maior de suas preocupações: o trabalho. Levaram-no a alguns meses, quando um idoso apareceu na delegacia dizendo que o assassino das noites frias poderia estar se escondendo em um shopping abandonado perto do condomínio onde morava. Lembrou-se que ninguém deu muita atenção ao homem, ao contrário, ele mesmo havia mandado Clésio correr com ele. Colocou na boca o último pedaço de pastel e ponderou: e se ele estivesse certo?

            Tentou lembrar das palavras confusas do homem. Ele falava coisas sem nexo como se estivesse em transe, falava de orgias na madrugada, passeios pela cidade de motocicleta, de como vigiava o lugar de binóculos, que havia visto sua mulher fugir de casa e ir para lá e no outro dia ela nem se lembrar. Não custava nada dar uma olhada, pensou.

Horas mais tarde naquela mesma noite os dois policiais vigiavam o lugar em um carro descaracterizado.

– A tocaia tá interessante chefe – falou Clésio entre goles do energético sabor laranja – não acha melhor a gente entrar? Ver qual é da festinha… dar um rolé…

            Frota olhou o relógio no celular e faltavam poucos minutos para meia noite, ele ainda não estava pronto para entrar. Sabia que quando entrasse, todos saberiam que ele era polícia, e muita gente se mandaria, talvez perdessem quem procuravam.

– Mais uns minutos Clésio e você entra. Vou depois. Mas não vai ficar dando mole lá dentro que me falaram que rola tráfico. Coisa da pesada.

            Depois que Clésio saiu, ele ficou contando o tempo até sair do carro. Ajeitou o paletó, conferiu a pistola e entrou no shopping. A entrada lateral tinha uma porta de vidro com dois seguranças que mais pareciam armários. O que ele ia fazer, pensou.

Claro, ia se fantasiar de delegado. Chegou próximo a porta e mostrou o distintivo aos homens. Um deles abriu a porta e disse um boa noite entredentes.

            Frota subiu rapidamente os degraus até o segundo andar e foi para a boate no fim do corredor. Chegou na bilheteria, pagou a entrada e foi direto ao bar onde Clésio estava agarrado em uma bela morena.

            Olhou para o bar onde eram servidas as bebidas, viu um ou dois garçons passarem com tira-gostos indo em direção às mesas, um grupo de mulheres dançando livremente no salão, então algo aconteceu, como fosse um déjà vu. Já estivera naquele lugar antes. Quando? A sensação foi como um banho de adrenalina.

– Conheça minha nova amiga chefe – Natali – ela quer saber tudo sobre mim.

Clésio ria satisfeito, abraçava a moça ainda mais apertado. Ela parecia estranha, seus olhos pareciam vazios.

Pegou Clésio pelo braço ante a reclamação do colega e só o largou quando entraram no carro, agora entendia a reação do velho.

Falando nisso, agora sentado no carro e vendo Clésio vomitar um estranho líquido esverdeado e gosmento – o que será que havia bebido? – reparou que havia um homem em uma mesa no canto esquerdo da boate que via a tudo e a todos, cada reação. Sabia que conhecia o rosto, era Adoniram.

****

            A noite estava clara e a jovem que estava comigo havia praticamente desmaiado de tanto beber. A beleza do lugar onde estávamos me chamou a atenção. Como podia existir um lugar tão belo dentro da cidade? Como não conheci aquele parque antes?

            Caminhei para mais perto do lago observando o reflexo da lua nova contra o chafariz. Por um segundo, quando a luz bateu contra algumas plantas flutuantes tornando as águas róseas e a imagem das estrelas no céu refletiam-se na água límpida, afloraram lembranças há muito esquecidas.

Lembranças de coisas que para mim ocorreram infinitos atrás e que os homens nem sonhariam, de belezas indescritíveis e perigos inimagináveis. Portais interdimensionais se abrirem para transportes superlotados de seres tão amedrontados que seu terror era quase palpável. Nebulosas de poeiras e hidrogênio de infinidades de tamanhos e cores. Planetas gigantescos, mais de mil vezes maior que este, cuja vida era uma luta constantes pela sobrevivência, com criaturas tão grandes, fortes e monstruosas que a imaginação humana teria dificuldades em conceber. Formas de vida que viviam no vácuo do espaço, com um poder tão imenso que outras formas de vida evitavam os lugares onde elas existiam.  Tempestades em estrelas tão gigantescas que fariam este minúsculo sol parecer um grão de poeira.

Sentei sobre a grama, encostado em um arvoredo ainda olhando o pequeno lago, permitindo que as lembranças se desvanecessem. Eu que fui e tive tudo, repentinamente me vi aprisionado, apenas por discordar do modo que os poderosos pretendiam reinar. Pensaram os tolos, que me colocando neste mundo, encarcerado, me privariam do conhecimento, mas com o transcorrer inexorável do tempo desenvolvi habilidades que me permitiram sair daquela cápsula velha e carcomida pelo tempo e conviver com os habitantes daqui, mesmo que de forma etérea.

Essa convivência, quase nunca pacífica, talvez tenha me feito mal… é certo que nunca dei grande valor a essas formas de vida, como também é certo que se me descobrissem tentariam me destruir, pois sua criação foi assim. Foram projetados e desenvolvidos desse modo, para sentir temor.

Sou o observador sombrio, mas aqui sou aquele que chamam de “assassino das noites frias”. Não porque gosto especificamente da noite, não que goste de frio. Para dizer a verdade não faço distinção, para matar prefiro o dia – como foi o caso de minha última vítima – a famosa. Mas é à noite, ao cair das chuvas, que estes seres ficam mais sensíveis à minha presença, o coabitar se torna mais fácil.

****

            Clésio atravessou a pequena casa que servia de delegacia do bairro quase correndo enquanto olhava para todos os lados a procura do delegado Frota. Viu-o na pequena copa tomando café com uma das investigadoras de plantão. Procurou se acalmar e caminhou lentamente até ele.

– Tá bonito chefe – falou apontando para a camisa social azul marinho com detalhes coloridos.

            A mulher deu-lhe um sorriso forçado enquanto Frota perguntava se o que tinha era importante. Imediatamente Clésio pensou que com certeza era muito importante, então assentiu com a cabeça e saiu indo ficar na porta da sala do delegado. Poucos segundos depois Frota entrou na sala, parecia ter pressa.

– É importante mesmo ou só tava a fim de me sacanear – falou apontando com a cabeça para a inspetora com quem estava conversando.

– Olha o que a perícia descobriu: a bala que matou a repórter saiu de uma das armas que investigamos em um caso de bala perdida que atingiu uma criança uns três anos atrás. Lembra?

            Frota lembrava. Eles haviam feito um bom trabalho investigando os donos de armas de fogo registradas na redondeza, como sempre não dando em nada. Descobriram depois que tinha sido uma troca de tiros entre dois grupos de traficantes da região e é obvio que as armas usadas pelos meliantes não eram registradas. Fez algo que não fazia há muito tempo: sorriu.

            Quem diria. O próprio Adoniram era o dono da arma. O que ele tinha ido fazer na delegacia? Se certificar que as pistas e provas não levariam a ele? E se levassem, ele tentaria incriminar mais alguém dando pistas disconexas como o shopping center? Avaliar seus “adversários”? Não, pensou o delegado, ele não era ou não aparentava ser um criminoso tão sagaz assim.

– Chefe – Clésio começou a pegar o celular no bolso da calça jeans – deixe eu tentar uma coisa. Fiquei com o telefone da casa dele.

            Frota observava impaciente enquanto Clésio conversava com alguém. Seria o próprio Adoniram, a esposa dele? Outra pessoa qualquer. Quem?

– Era uma senhora que trabalha para eles. Uma diarista. Ela informou que o sr. Adoniram e a mulher dele foram ao médico.

– E? – Frota estava excitadíssimo.

– Tenho o endereço dele chefe. Vou chamar a equipe.

****

            Eram cinco horas da tarde, talvez uns minutos a menos. O clima havia esfriado prematuramente naquele dia, o vento assim como a garoa fria emprestavam um ar melancólico àquele fim de tarde. Wilson Frota e a equipe saiam para tentar prender um dos criminosos mais famosos que a cidade conhecera nos últimos anos.

Nesse momento a médica cardiologista ainda hesitava em liberar Adoniram Caldas de seu consultório no centro médico. Os resultados de os exames não eram satisfatórios. Algo estava errado, quando ela os comparou aos últimos resultados, pioraram muito.

            Finalmente, para Adoniram e sua mulher, a médica os liberou. Ele já não aguentava mais a demora. Desceram pelo elevador. Rosalin estava estranhamente quieta, mas afinal ela estava geralmente assim desde a semana que passou.

– O que foi Rose? Algo errado?

            Rosalin sorriu

– Claro que não – disse olhando o rosto do marido ao tempo em que levantava a mão para acariciá-lo – é só minha bolsa que hoje está me incomodando. Tenho que tirar algumas coisas daqui.

            O elevador parou direto no subsolo 3 e abriu as portas escancarando a garagem mal iluminada, enquanto Rosalin continuava a mexer na bolsa ainda na porta do elevador para aproveitar a excelente iluminação. Enquanto isso Adoniram parou a poucos passos de sua esposa que fez a cara de enfadonho que ele conhecia há tantos anos.

– Achei! – disse ela sorrindo para Adoniram enquanto puxava de dentro um estranho objeto metálico de cor negra – me sinto tão estranha, leve, como se não fosse eu mesma.

            Adoniram estranhou quando Rosalin retirou da bolsa a arma, ela sabia muito bem que eles só tinham licença para tê-la em casa, para própria defesa. Então um certo temor lhe veio à mente.

– O que é isso mulher? Para que isso? – perguntou enquanto observava Rosalin levantar a pistola e apontar em sua direção.

– Deus, Rosalin! – continuou falando baixo enquanto a observava – seus olhos…

O estampido do tiro soou como um canhão dentro do estacionamento fechado.

****

            Os carros da equipe do Dr. Frota chegaram na surdina no Centro Médico, sem sirenes, sem alardes e foram direto para o subsolo 3, onde haviam informado estar o carro de Adoniran. Saltaram das viaturas e começaram a procurar o automóvel. Foi quando os viram saindo do elevador.

Clésio estava mais à frente, abaixado atrás de um sedan verde, a poucos metros de onde ocorreu o disparo. Frota e os outros policiais estavam um pouco mais atrás, também ouviram o estampido do tiro e o cair suave de Adoniran Caldas ao chão. Primeiro seus joelhos dobraram, em seguida ele estendeu a mão na direção da esposa que ainda lhe apontava a pistola, então o corpo foi virando devagarinho para a frente e ele tombou de vez batendo com o rosto no solo. Imediatamente Clésio levantou e apontou sua arma para Rosalin.

            Frota e mais cinco policiais apontavam também as armas para ela ao tempo em que pediam e gritavam para que largasse a arma, pois a mulher ainda mirava o corpo do marido.

Frota deu alguns passos a frente sentindo uma sensação estranha, uma leveza que fazia seus movimentos e os dos outros parecer que estavam em câmera lenta. Enquanto a observava, os olhos da mulher pareciam amarelados, sua boca parecia fina e comprimida para dentro fazendo com que seu rosto se transformasse em uma máscara horrenda. Em uma velocidade incrível ela apontou a arma para a própria cabeça e falou alguma coisa, aí disparou a arma, um último xingamento de uma assassina louca.

– Lixo miserável – falou Wilson Frota assustado.

– O que foi dr. Frota?

            Ele se aproximou dos corpos tomando cuidado para não pisar no sangue e nos restos do cérebro da mulher que se espalharam pelo chão. Ainda estava atônito com tudo aquilo, virou-se para Clésio para responder:

– As últimas palavras dela: “lixo miserável”. Aquela foi a voz mais cruel e horrenda que escutei em toda a minha vida – disse o delegado tendo calafrios.

            Olhou para trás e viu as rotolights de duas viaturas chegando e afastou-se para que os outros trabalhassem. Aos poucos um grande número de curiosos chegavam ao terceiro subsolo da garagem pelas escadas, alguns para apanhar seus carros enquanto outros apenas para satisfação pessoal. Clésio ainda balançava a cabeça incrédulo.

– Acho que esse foi o fim do “assassino das noites frias” – disse para o inspetor que assentiu com a cabeça.

            Frota ainda acompanhava a movimentação geral quando viu ao longe um homem vestido de terno entrar em um sedan escuro, ligar o carro e lentamente ir em direção à saída da garagem.

            Quando ele e Clésio saíram do centro médico, a rua estava tomada de viaturas da polícia, ambulâncias, bombeiros e de canais de televisão. Queria apenas se afastar dali, não parava de ter calafrios. Naquele momento a garoa fina e fria se transformava aos poucos em chuva, enquanto a noite tomava a cidade.

****

            Talvez meus gostos sejam realmente incomuns, exorbitantes. Arranjei um novo amigo e neste pouco tempo de conhecimento vi que vamos nos dar muito bem. Claro que ele possui grandes barreiras ao meu modo de agir, mas nada que impeça um bom convívio.

            Viajamos juntos para uma região de praias mais ao sul, onde há muitos turistas. O hotel é excelente e o clima maravilhoso. Fomos passear no final da tarde de ontem e fiquei animado com a chuva do entardecer, com o vento forte misturado à areia da praia que parecia formar um rosto estranho, não necessariamente humano. Uma turista do país vizinho comentou que aquela mistura de chuva, vento e areia, agora dançando no entardecer, pareciam ter vida própria.

Quem sabe, não é?

Fim

Um conto de Swylmar Ferreira                                                                         em 15/01/2018.

Imagem meramente ilustrativa gerada por AI baseada em parte do texto escrito.

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Publicado às 16 de fevereiro de 2026 por em Contos, Contos de Ficção Científica, Contos Fantásticos e marcado , .

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A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

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Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

Novo Desafio EntreContos

Oi pessoal, o site EntreContos - Literatura Fantástica - promove novos desafios, com tema variados sendo uma excelente oportunidade de leitura. Boa sorte e boa leitura.

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Convidamos você que gosta de escrever contos e mini contos dos gêneros de ficção científica, literatura fantástica e terror a nos enviar seus trabalhos para serem publicados neste site, com os créditos ao autor, é claro.
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Prezados leitores e colegas. Faço uso do post para divulgar os trabalhos de nosso colega Luiz Amato no site Wattpad.

Literatura fantástica, ficção cientifica, terror

Espaço dedicado à escrita e leitura deste gênero literário.

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