Fantasticontos, escritos e literários

Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror

Onde os tiranos desaparecem


Sob o céu carmim no fim daquele dia a Dra. Ariel Thremm observava fascinada a construção secular que era lenta e pacientemente escavada em Katram 6138. Saiu da área protegida onde estava para observar melhor os dois sóis moribundos, de cor laranja-pálido, que teimavam em iluminar e mal aquecer as ruínas daquela civilização esquecida.

Por aquela hora, era fácil distinguir as sete luas coloridas daquele lugar e sempre que conseguia um tempo, Ariel se dedicava a filmá-las em toda a sua majestade, dedicando momentos preciosos para isso ao longo dos anos. Enquanto apalpava uma incômoda mancha avermelhada que tinha no braço, observava a maior das luas, a que tinha diversos tons em verde, surgir no firmamento. Como sempre, estava extasiada.

Do alto das dunas de onde estava virou para o lado oposto, para apreciar as montanhas de quartzo multicoloridas que pareciam surgir no meio de um deserto de areias de basalto amarelo, que por pouquíssimo tempo emprestava um tom surreal a Katram 6138, contrastando com um mar de metano líquido, que se aproveitava das luas próximas, causando efeitos de marés naquele mundo.

Ariel sorria ao pensar que “vida sempre encontrava um jeito” e que as mais diversas formas de vida dividiam o ar rarefeito, terras de basalto e mares gasosos criando, um bioma que poucos homens poderiam prever.

Ela havia sido convidada para participar do 93 Seminário Galático de Paleoantropologia que se realizaria no sistema Próximo Argos e estava revisando seus dados. Sabia mentalmente o que deveria constar da apresentação e sua assessoria de inteligência artificial já havia providenciado tudo. Durante os últimos dez anos ela fora o único elo existente entre a humanidade e a tentativa de recuperar as memórias daquela civilização perdida.

Junto com ela iria o também convidado Dr. Karl Tiberious Nouk, um linguista de renome, que havia sido contratado para decifrar o que continha na principal descoberta que ela havia feito, o cubo de Katram.    

Eles viajaram para a estação orbital Sorgos 2, que orbitava o único planeta aquático de Próximo Argos, uma pirâmide de metal e luz flutuando na escuridão daquele sistema solar.

A gravidade artificial era um alívio, seu corpo tinha dificuldades de se adaptar à pressão ideal a seres humanos depois de tanto tempo em Katram. Ariel as vezes sentia-se esmagada. Não estava ali apenas para apresentar suas descobertas sobre sistemas de irrigação e métodos de construção antigos, que sabia serem importantes, mas para mostrar como havia conseguido encontrar e recuperar o Cubo e, principalmente, para testemunhar algo monumental.

O burburinho na seção de pesquisa avançada do Seminário era sobre o Sítio ‘O Complexo dos Dois Sóis’, descoberto por Ariel Thremm no equador de Katram 6138, onde os paleoarqueologos haviam encontrado algo impossível.

O seminário começou com formalidades cansativas. A apresentação de Ariel lotou o espaço físico e precisou de mais tempo que o previsto nas respostas aos presentes, mas a tensão aumentou com a chegada do Dr. Karl Tiberious Nouk, chefe do Projeto de Decodificação Linguística. Nouk era conhecido por sua capacidade de traduzir e dar sentido a idiomas alienígenas que desafiavam a lógica fonética. Ele subiu ao tablado ainda um pouco acanhado e olhou diretamente nos olhos de Ariel e sorriu. O brilho que havia em seus olhos, que Ariel conhecia bem, era a euforia da revelação.

“Nossa missão neste sítio,” Nouk começou, “era entender a catástrofe que extinguiu esta civilização. Encontramos evidências de guerras, sim, mas a causa final foi surpreendente. Então, sob uma camada de sedimentos metálico-polimerados, ainda magnetizados de mais de quatro milênios, encontramos isto.”

Ariel viu a imagem holográfica de sua descoberta surgir no telão multidimensional: “um bloco perfeito de quartzo-galático, medindo cerca de um metro e meio de altura, translúcido, com uma luz dourada interna fraca que parecia pulsar com vida própria. Sua superfície estava coberta por milhões de glifos microscópicos, mais densos do que qualquer registro digital conhecido” disse Nouk.

Ali, Ariel sabia estavam contidos todos os conhecimentos daquela espécie. O valor do objeto era inestimável.”

“Chamamos de ‘O Códice de Katram’,” continuou Nouk, “nome dado pela Dra. Ariel Thremm, aqui presente”.

Ariel sentiu que todos os olhos se voltavam para ela. Nouk permitiu um breve momento de silêncio para o impacto.

“Além de ser o registro do povo” continuou ele “parte significativa deste objeto trata da biografia de um deles. A história de Ghorg, O Regente Supremo.”

Nouk explicou que o quartzo-galático era um material místico para os Katrams, uma forma tecnológica que eles ainda estudavam de preservação atemporal. A narrativa exposta, gravada com tecnologia que desafiava a compreensão humana, pois se renovava apresentando inúmeros textos no Códice, era a versão oficial daquela espécie e em um determinado trecho, da ascensão de Ghorg, um testamento de sua glória, que deveria durar pela eternidade.

Ariel sentiu um frio na espinha. Um amargo tomou conta de sua garganta e conforme Nouk discorria sua apresentação daquela parte do conteúdo, em sua mente veio apenas uma palavra. Vaidade!

Nouk ativou o equipamento de apresentação em multi-D e o texto era retirado do Códice, traduzido e apresentado, literalmente fluindo na tela, um relato vívido, grandioso, da vida do regente.

Ariel fechou os olhos e mesmo que inconscientemente, começou a imaginar o que via na tela.

Dr. Nouk continuou sua apresentação: “Mesmo nascido de uma família abastada, depois de um período de turbulência social, descrita como uma de suas piores polarizações sociais, engendradas por clãs tecnologicamente avançados, mas politicamente caóticos, o que gerou uma sociedade fragmentada, Ghorg teve uma ascensão política fulminante”.

A plateia estava maravilhada e o Dr Nouk era um especialista em suspense. Ele sorriu ao perceber a reação da maioria de seu público.

“Ghorg construiu metodicamente sua ascensão. Não apenas com armas, aplicou logística e manipulação de recursos para aumentar sua influência política. Nunca foi eleito, apenas escolhido ou nomeado para postos importantes. Em dez anos, Ghorg uniu seis dos sete domínios do planeta.

O próximo texto mostrava que a sociedade de Katram 6138 além de celebrar sua vitória na maioria dos domínios daquele mundo, agora falava de ações necessárias, que constituíam na abolição, muitas vezes por meio de atitudes violentas, de direitos individuais de cidadãos que não concordavam com o ‘modus pensantes’ do que eles chamavam de elite intelectual.

Ghorg via a diversidade de Katram, as variações de pigmentação, cultural, ideológicas e religiosas, como uma fraqueza a ser erradicada. Ele não queria apenas unificar, pretendia homogeneizar.

 Ao chegar ao poder planejou e implantou uma campanha brutal, com guerras étnicas e, posteriormente, guerras eugênicas. Em sua mente pretendia criar uma ‘Espécie Katroniana Perfeita’. “

“Os textos mostrados na tela, copiados do códice e traduzidos automaticamente, registravam essas campanhas com uma frieza burocrática aterradora, listando as cidades varridas do mapa e as populações “realocadas” ou, “eliminadas” pelos governantes apoiados por Ghorg. Este episódio em Katram ficou conhecido como a “guerra genética”.

O grito dos que agora eram considerados como minoria perigosa, continuava sendo um ruído incomodo para a Sinfonia da Ordem Imposta.

Com o tempo, Ghorg se tornou a personificação da lei. As Cartas Legais dos Domínios foram esquecidas, burladas e muitas vezes interpretadas de acordo com o interesse daqueles que serviam ao Estado, agora imposto por Ghorg e seus lacaios. Seu poder agora era total em todos os Domínios, controlando desde a produção e distribuição de energia, água e a educação e o conhecimento, usando para isso aqueles que acreditaram em seu grupo. Ele financiou megaprojetos como o controle climático. Com o passar do tempo se tornou “Regente Supremo”. Sua imagem estava em cada tela, cada moeda. Tudo passou a ser vigiado e cada sonho monitorado”.

Ariel observava a apresentação não com indignação ou surpresa, como as pessoas que assistiam com ela a narrativa mostrada por Karl Nouk do Códice. O que de início parecia ser criada como um testemunho de glória, ironicamente se tornava o relato de traições, assassinatos, corrupção e miséria.

Ariel Thremm, na plateia, podia sentir o peso do genocídio naquelas palavras frias expostas na tela.

“Ghorg tinha alcançado poder total, político, econômico e sociocultural, além do tecnológico e militar, é claro. Aqueles que ele chamou de inimigos estavam mortos em grandes expurgos, seus exércitos eram leais, suas tecnologias inexpugnáveis”.

“Estranhamente” Nouk salientou, “a partir deste ponto, a apresentação mostrou o Códice mudando de voz e de narrativa. Não mostrava mais uma celebração triunfal e sim evidenciava a paranoia, o cansaço, e a crescente indignação que dominavam os Domínios e o povo. Ghorg sabia que seu governo se sustentava apenas pelo medo e pela completa apatia da população que ele afirmava ser composta por covardes e corruptos. Ao logo dos tempos ele compreendeu que o preço do poder era a solidão”.

Dr. Nouk agora mostrava que o Códice “relatava festas monumentais destinadas apenas aos seus lacaios, outras comemorações planejadas e realizadas apenas para serem canceladas, de monumentos construídos e imediatamente desmantelados por não serem significativos o suficiente. O desperdício de alguns privilegiados contrastava com a miséria em que vivia a maioria da população”.

Dr. Nouk continuava sua apresentação enquanto a plateia composta por seus pares se dicotomizava entre indignação e asco. “A mudança final” – disse – “veio com uma entrada de dados inesperada, como fosse um ‘post script’, um adendo inserido por um escriba apavorado. Falava de guerra civil!”

“A revolução planetária não começou com uma bomba, mas com um silêncio.

O povo não gritou, apenas parou. Agricultores pararam de plantar; a Indústria parou de produzir; os transportes estancaram; a rede mundial de comunicação se esfacelou, e por fim os técnicos pararam de manter os sistemas de climatização controlados. Policiais e soldados não apareciam mais. O sistema complexo e totalitário implantado por Ghorg e seus cumplices desmoronou, não apenas sob o posterior ataque de armas, mas sob a greve total dos bilhões que ele escolheu por oprimir. A revolta foi curta e avassaladora.

Sua polícia política e seus exércitos, cansados de lutar em guerras eugênicas e ideológicas sem sentido, se desvaneceram. Muitos, quando aprisionados, alegavam covardemente apenas cumprir ordens, não admitindo seu conluio, sua participação voluntária em todo aquele horror. Ghorg, o homem que tinha massacrado mundos e reescrito a história foi encontrado em seu gigantesco palácio, sem família, sem amigos. Não tinha mais nem a própria razão. Apenas um trapo, um arremedo do que já fora.”

“Em sua parte final” – disse Karl Nouk – “o Códice revelava o destino de Ghorg: deposição imediata e sem julgamento longo. Sua punição não foi a morte, o que faria com que seus lacaios tentassem torná-lo um mártir por meio de narrativas fúteis e mentirosas. Sua punição foi a dissolução de sua existência.

Ghorg foi submetido à prisão temporal, não a um cárcere comum, mas uma cápsula de estase molecular, onde ele existiria em um único e congelado momento, consciente e imutável, por tempo determinado. Ghorg deveria se lembrar para sempre de seu castigo e de sua punição, então o marcaram geneticamente para que ele jamais se esquecesse. Após esse período determinado a cápsula se abriria e ele estaria em uma época na qual ninguém saberia quem ou o que ele foi. Um monstro!”

A Dra. Ariel Thremm foi acordada de seu devaneio quando o apresentador iniciou sua conclusão sobre a escrita e dificuldades encontradas na tradução dos textos do Códice.  Terminou informando à plateia do Seminário que o “Códice de Katram foi selado com um pequeno apêndice, um adendo escrito por uma geração posterior. Eles optaram por não destruir o quartzo-galático, apenas o lacraram, garantindo que aquele momento triste de sua espécie só fosse descoberto depois do ocaso de sua civilização. Viam com verdadeiro terror a possibilidade de existência de um novo tirano”.

“A última página no holograma era o epitáfio dos revolucionários:

Ghorg teve tudo, força, poder, riqueza, tecnologia, respeito e amor de seu povo, mas perdeu tudo quando buscou a eternidade pelo medo. Seu castigo é a prova de que todo o poder é, e sempre será finito. Que suas estátuas sejam pulverizadas, e seu nome apagado de todos os registros históricos e preservado apenas neste bloco de quartzo-galático. Que as areias do tempo o varram para sempre. Que seu nome e sua memória sejam entregues ao mais temido dos castigos: o esquecimento”.

Ariel Thremm olhou para a imagem que surgia do bloco de cristal. A imagem irreconhecível de um humanoide ajoelhado e recurvado.  Ela sabia que a civilização de Katram 6138 sucumbiu poucos séculos depois em algum evento cósmico posterior.

Ariel se levantou enquanto a maioria da plateia ia ao encontro de Karl Nouk, para cumprimentos formais. Ela se afastou e saiu do local onde se realizava o Seminário na gigantesca estação espacial piramidal que outrora pertencera ao povo de Katram 6138, caminhou até uma área de visualização e olhou o mundo aquático em que a estação orbital estava estacionada. Sentia como se houvessem colocado uma montanha em seu peito e sua garganta parecia se fechar. há muito não se sentia assim. Observou os elementos produzidos artificialmente ali, lembrando paisagens de praias, mar e sol.

“Tantas coisas foram feitas”, disse apalpando a mancha avermelhada que nunca desaparecia de seu braço, enquanto uma lágrima solitária corria em seu rosto e o frescor do vento artificial abraçava seu corpo.

Um conto de Swylmar dos Santos Ferreira.                            Em 29 de setembro de 2025. Imagem meramente ilustrativa gerada por AI baseada no texto escrito.

Deixe um comentário

Informação

Publicado às 7 de dezembro de 2025 por em Contos de Ficção Científica e marcado , , .

Navegação

A saga de um andarilho pelas estrelas

DIVULGAÇÃO A pedido do autor Dan Balan. Sinopse do livro. Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco) Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco. Andarilho da estrela cintilante Por onde vai sozinho em pensamento, Fugindo dessa terra de tormento, Sem paradeiro certo, triste errante? E procurar o que no firmamento, Que aqui não encontrou sonho distante Nenhum outro arrojado viajante? Volta! Nada se perde com o tempo... “Felicidade quis, sim, encontrar Nesse vasto universo, de numerosas, Infinitas estrelas, não hei de errar! Mas ilusão desfez-se em nebulosas, Tão longe descobri tarde demais: Meu amor deste lugar partiu jamais!”

Divulgação

Bom dia.
Aproveito este espaço para divulgar o livro da escritora Melissa Tobias: A Realidade de Madhu.

- Sinopse -

Neste surpreendente romance de ficção científica, Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um androide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudará sua vida para sempre.
Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, a personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, farão de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer.
Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.

Novo Desafio EntreContos

Oi pessoal, o site EntreContos - Literatura Fantástica - promove novos desafios, com tema variados sendo uma excelente oportunidade de leitura. Boa sorte e boa leitura.

Publique aqui.

Convidamos você que gosta de escrever contos e mini contos dos gêneros de ficção científica, literatura fantástica e terror a nos enviar seus trabalhos para serem publicados neste site, com os créditos ao autor, é claro.
PARTICIPE!

Divulgação

Prezados leitores e colegas. Faço uso do post para divulgar os trabalhos de nosso colega Luiz Amato no site Wattpad.

Literatura fantástica, ficção cientifica, terror

Espaço dedicado à escrita e leitura deste gênero literário.

Estatísticas do blog

  • 288.227 hits

Arquivos

Categorias

Publique aqui.

Convidamos você que gosta de escrever contos e mini contos dos gêneros de ficção científica, literatura fantástica e terror a nos enviar seus trabalhos para serem publicados neste site, com os créditos ao autor, é claro.
PARTICIPE!

Divulgação

Prezados leitores e colegas. Faço uso do post para divulgar os trabalhos de nosso colega Luiz Amato no site Wattpad.