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A confusão estava instaurada no pronto socorro do hospital municipal, parecia ter-se transformado em um purgatório. Macas atravessavam os corredores, enfermeiros corriam de um lado a outro, médicos gritavam instruções, aparelhos apitavam em uníssono.
O plantão de Cecilia – Cissi para os amigos e familiares – havia terminado há mais de seis horas e ela não tinha conseguido ir embora ainda.
O acidente com dois ônibus, no centro da cidade, em uma avenida próxima levara para o hospital em que trabalhava mais de cinquenta feridos. Alguma chegaram já em óbito. Outros em sofrimento, devido à violência do desastre. Em cada leito, maca ou mesmo cadeira ocupado, a morte parecia aguardar.
Cissi já avia operado três pessoas no centro cirúrgico e ajudado outras mais no pronto socorro e estava muito cansada. Sentia os músculos dos braços latejarem, as pernas pesadas como chumbo, a mente enevoada, mas continuava alí, só ia arredar pé dali porque recebera ordem do diretor para ir para casa e descansar.
O diretor do hospital lhe colocou a mão no ombro.
— Cecília, vá para casa. Vá descansar. — Sua voz não admitia réplica. — Amanhã não servirá a ninguém se desmaiar aqui dentro.
Ela se dirigiu a sala dos médicos, sentou-se em uma das cadeiras e colocou a cabeça na mesa tentando relaxar um pouco.
No vestiário, que estava estranhamente vazio, vestiu-se devagar, olhando-se no pequeno espelho, como se cada peça de roupa pesasse mais do que deveria. Ainda tinha esperança de ver alguém, talvez colegas jogados nas cadeiras, outros trocando uniformes manchados de sangue. Mas não havia ninguém.
Quando saiu no corredor, de novo o caos instaurado a envolveu, mas saiu rapidamente dali e foi para uma das saídas laterais onde haviam menos pessoas transitando. Passou por uma ala de enfermarias onde alguns pacientes já atendidos descansavam quando algo lhe chamou a atenção e ela resolveu observar.
Uma das enfermarias, de portas semiabertas, repousava na penumbra. Os quatro leitos ocupados, apenas os equipamentos que monitoravam os pacientes estavam ligados, piscando em silêncio. Cissi viu o vislumbre. Uma pessoa? Uma sombra? Não se movia, não falava. Apenas estava. De pé no meio do quarto. O que fazia lá, pensou?
Ela achou estranho. “Talvez fosse perigoso para os pacientes” pensou.
Então Cissi se aproximou da janela interna e viu algo que arrepiou seu corpo e a encheu de pavor. De onde estava viu, no leito mais próximo, que algo emanava de um dos pacientes, era tênue, translucido, se ergueu e foi flutuando em direção ao estranho. Ele se virou e o mesmo aconteceu com um segundo paciente, uma mulher que parecia se levantar e levitar, indo também se juntar ao estranho que, em resposta, pareceu se inclinar levemente, como se acolhesse ambas as essências.
O ar gelou.
Cissi recuou, os pelos do corpo eriçados. Não podia ser real. Estava cansada, exausta, talvez sonhando de olhos abertos. Mas o medo, aquele frio visceral que não se confunde com imaginação, não a deixava.
“Chega!” Cissi pensou, tirou sua atenção da cena, deu quatro passos e chegou à porta do quarto, a abriu e entrou. Nada!
O homem não estava mais lá. Estaria vendo coisas? Estava exausta, sabia, mas ter alucinações era diferente. Mal se virou para sair do quarto e o alarme de um dos monitores cardíacos disparou. Um segundo alarme também. Equipes de enfermeiros entraram correndo. Outro médico, um plantonista, correndo quarto adentro. Cissi recuou devagar, saindo do quarto. Sabia que não tinha mais nada a fazer.
Esperou maus alguns momentos enquanto a equipe lutava para devolver a vida àqueles pacientes, mas sabia que devia sair e deixá-los trabalhar em paz, afinal estava amanhecendo.
Saiu do trabalho, entrou no carro ainda há tempo de ver os primeiros raios de sol do dia e aquela visão lhe trouxe conforto. Os raios de sol aqueceram seu rosto. Ligou o motor do carro e foi para casa, seu próximo plantão seria dali há dois dias, ou dia e meio, mas ela teria tempo para descansar. Respirou fundo. Por ora, estava livre.
Chegou em casa, se arrastou até o quarto e desabou na cama apagando imediatamente.
****
Acordou horas depois, assustada na penumbra de seu quarto, tinha a sensação de que alguém estava ali. Abriu as cortinas de todo o apartamento até que aquilo passasse, mas um arrepio insistia em percorrer sua espinha.
Foi até o banheiro. Abriu a torneira do chuveiro e esperou a água quentes relaxar seu corpo, mas, mesmo assim, os calafrios de medo teimavam em continuar. De volta ao quarto, olhou o celular para ver se alguém havia telefonado, uma mensagem ou coisa assim, mas incrivelmente não havia nada.
Chegou à sala do apartamento e antes de se sentar no velho sofá desbotado que havia herdado de sua mãe, olhou pela janela da sala, deixando a vista do décimo andar do prédio onde morava acalmar seus nervos enquanto bebia um café de máquina.
– Será que estou tendo alucinações? – Perguntou a si mesma enquanto olhava para o dançar das luzes noturnas da cidade.
Outra pergunta veio, inevitável:
– Será que aquelas pessoas morreram?
Apagou as luzes no threeway e sentou encolhida, esperando ainda algum tempo até o silêncio chegar e sorriu. No dia anterior, não fora a exaustão de quem salva vidas o que sentira, mas o nada de quem decide encerrá-las. Uma exaustão fria, calculada. Seu sorriso agora era tranquilo, mas seus olhos, escondiam uma frieza gélida.
Lembrou-se de minutos antes do caos se instalar no trabalho, de quando dirigia-se a sala dos médicos, ignorando as vozes e o desespero. O ar pesado do hospital para ela era como perfume, e os sons de dor e desespero eram sua melodia. Após um breve descanso, foi para o vestiário e, ao sair, o caos se intensificou.
Passou de leito em leito, escolhendo suas vítimas. Um idoso que se recuperava bem, um jovem atleta com uma cirurgia de rotina, uma mulher que acabara de dar à luz. Pacientes cujas vidas estavam longe de terminar eram seus favoritos. O sorriso morreu em seus lábios quando se lembrou não do caos, mas do que viu naquela enfermaria.
O que aconteceu depois ainda a deixava apavorada. Ela não precisava ter alucinações. O Ceifador existia. E, naquela noite, ele a observou não como a um parceiro de trabalho, não como um outro ceifador de almas. Tinha certeza de que a viu como o que realmente ela era, uma assassina fria e cruel. Sabia em seu intimo que ele a via com um olhar de desaprovação.
***
Cissi estava eufórica quando chegou ao hospital e quis saber como os pacientes da enfermariam haviam falecido. Suas mortes registradas como “falência múltipla de órgãos”. O coração da Dra. Cissi bateu forte, não de satisfação e sim de medo.
Durante seu plantão, ela ficou em um estado de hipervigilância. E ela o viu novamente. Na ala infantil. Um menino de uns dez anos, dormia se recuperando de uma queda que ocorrera em sua casa. Chegou a pensar no menino como uma vítima futura, mas percebeu que a sombra estava parada ao lado dele.
Ela se aproximou do quarto, cada passo mais próximo ao menino, viu que ele abriu os olhos e a viu. Continuou andando lentamente até sentir que tocara em alguma coisa. Seria o Ceifador?
Deu meia volta e correu quarto afora, respirando com dificuldade. Algo havia barrado seu caminho, como uma parede de gelo. O resto do dia ela ficou praticamente reclusa na sala de descanso, até conseguir ir embora. Estava com raiva do ceifador, ele havia impedido que ela se aproximasse do menino. O protegera.
“Um absurdo!” pensou.
***
As semanas se transformaram em meses. Cissi voltou a trabalhar, mas nunca mais foi a mesma. Sua rotina agora incluía um ritual silencioso. À noite, ela caminhava pelos corredores vazios do hospital, escolhendo suas vítimas. Ela às vezes via o ceifador e ele a observava. As vezes interferia, as vezes não.
Certo dia, a Dra. Cissi estava em uma das enfermarias viu a sombra do Ceifador. Ele estava próximo a um paciente, então viu que algo translucido saia do paciente e ficava ao lado dele. Ambos se viraram e desapareceram quando uma lufada de vento entro pelas frestas de uma janela entreaberta do quarto. O monitor cardíaco alarmou e Cissi sentiu uma paz avassaladora. Mas a paz que ela sentia se desfez em um instante. Uma dor aguda e esmagadora, como um ferro em brasa, atingiu seu peito. Ela se contorceu, incapaz de respirar, o suor frio escorrendo por sua testa. Tentou apoiar em um leito, sentiu as pernas fraquejarem e caiu sentada encostada à cama.
Ainda escutou gritos. A equipe de enfermagem chegou correndo, médicos vieram o mais rápido que conseguiam, mas era tarde demais.
O Ceifador se materializou no quarto, e com a mesma frieza que ela tinha com suas vítimas, ele a observou agonizar.
Cissi olhou para o ele, e em seus olhos, não havia aceitação e sim um terror puro. Ela não queria morrer, havia se acostumado a ver a paz em seus pacientes, mas ela não sentia paz. Sentiu-se flutuar e ir em direção ao Ceifador. Os olhos dele pareciam censurá-la. Ela percebeu que aquele não era o momento de ela partir, então o que estava acontecendo ali?
Simplesmente, ele a puniu.
***
Meses se passaram, anos talvez e o menino voltou mais uma vez ao hospital. Outro tombo, dessa vez de bicicleta e de novo bateu a cabeça. Enquanto esperava o atendimento em uma das baias da emergência, ele viu duas figuras, uma masculina e outra feminina, se aproximar do leito à sua frente, aonde uma mulher que fora vítima de acidente de moto estava deitada. Ele se arrepiou ao ver sair dela uma coisa esfumaçada, translucida, que se ergueu e foi flutuando em direção aos estranhos reconhecendo a figura feminina imediatamente. Era a mesma mulher da última vez.
Um conto de Swylmar Ferreira em 21 de agosto de 2025.
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