Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror
– Mas que droga Léia, o que é que você tanto procura no céu?
Disse em tom jocoso o homem de calças preta listradas de amarelo berrante para a mulher à sua frente.
Léia estava sentada em uma cadeira de balanço de madeira, bastante confortável, diga-se de passagem, daquelas bem antigas e que, naquele caso, havia pertencido à avó do homem a sua frente.
– Se deu na televisão que eles avistaram alguma coisa. Não seja cético apenas por ser – falou a mulher olhando o companheiro de soslaio – Todas as agencias desta porcaria de mundo anunciaram que avistaram alguma coisa estranha e disforme no espaço. Não só a NASA.
– Deixa de ser turrão. – Continuou Léia já zangada olhando para o rosto zombeteiro do homem.
Levantou-se zangada. Foi até um pouco mais para fora da varanda para ver se via alguma coisa no céu nublado, mas a chuva fria e fina dificultava que até os pássaros voassem por ali naquele momento. Quanto mais de alguém ver alguma coisa em plena luz do dia.
Dinarte se levantou preguiçosamente de sua cadeira. Viu Léia andando na chuva e riu. Bem baixinho é claro. Se tinha uma coisa que não queria era brigar com ela, isto é, que ela brigasse com ele. Em seus mais de dez anos de relacionamento não se lembrava de ter se zangado com ela.
Já Léia brigava diariamente com ele. Pelos motivos mais fúteis e tolos, desde um copo fora do lugar, farelo de pão sobre a toalha na mesa, dentre outros. Mas ele já estava acostumado e se fosse diferente, talvez não gostasse tanto assim dela. Estava um dia frio! Ainda olhou para a mulher e resolveu entrar para dentro de casa. Foi para a cozinha começar a preparar o almoço. Hoje, como dizia seu pai, era dia de comer o guardado.
Depois do almoço Dinarte desceu o lance de escada que separava os quartos do piso superior e da sala e cozinha do cômodo de baixo. Saiu e andou o quase meio quilômetro que separava a casa onde moravam da pequena loja que ficava aberta 24 horas, ou deveria, e vendia desde lanches rápidos até pequenos acessórios de automóveis.
– Comeu? – Perguntou Léia meio distraída e tentando conversar com ele e atender um cliente.
– Sim, bem. – Dinarte deu seu melhor sorriso para a esposa – virou-se na direção de uma cliente que acabara de entrar e lhe dedicou toda sua atenção.
E assim foi todo o dia quando foram substituídos pelo irmão e pelo pai da Léia que trabalhariam a noite.
Dinarte ajudou Léia a fazer uma sopa para o jantar. Logo em seguida voltaram a conversar sobre o estranho objeto que fora avistado. Era alguma coisa estranha e disforme no espaço como se fosse uma mancha na lente do telescópio James Webb, isto é, se ele pudesse ter alguma mancha. O estranho é que em uma segunda série de imagens nada mais fora “avistado”.
– Não tem como conversar com você Dinarte – Léia olhava diretamente para o homem com sorriso jocoso à sua frente.
Quando ele ficava daquele jeito, isto é, sacaneando, ela se arrependia de ter se casado com ele.
– Tá bom, desculpe!
Dinarte ainda mostrava o sorriso pateta. Ela se levantou da mesa, calmamente, deu boa noite e foi dormir. Dinarte foi logo em seguida.
Uma luz quase imperceptível cruzou o céu naquela noite. De todos os habitantes da cidade apenas um teve consciência de sua passagem. Abriu os olhos e como se estivesse em um sonho viu uma estranha mancha esbranquiçada parar por menos de um segundo sobre a cidade. Ele abriu os olhos insatisfeito e ficou observando o teto de madeira por alguns segundos, em seguida foi ao banheiro, voltou, cobriu Léia e dormiu outra vez.
***
Alguns meses haviam passado quando, um dia pela manhã Léia abriu a porta de casa excitada. Ela havia ido cedo substituir o pai e o irmão que iam em uma consulta médica na cidade.
– A TV está mostrando a tal mancha do espaço outra vez. Talvez agora você acredite!
Léia ligou rápido a TV e ficou estática em frente à televisão que mostrava as imagens de supostos UAPs pairando sobre algumas cidades importantes. Um deles estava sobre um posto de gasolina e simplesmente voavam em direção ao céu quando as pessoas que estavam próximas começaram a filmá-lo. As imagens como sempre eram borradas ou a distância impedia uma filmagem melhor, mas ela era a animação em pessoa.
– E agora? Você acredita?
– Eu acredito.
Ela sorriu mostrando estar satisfeita com a resposta do Dinarte.
– E então Dinarte? Quer ver de novo as imagens das manchas que as agências espaciais publicaram? – Léia continuava agitada com tudo aquilo.
– Agora não. Vou na loja.
Dinarte ainda sorria quando a acompanhou para a loja. Pode-se dizer que sorriu durante todo o dia, aliás, como lhe era peculiar. Naquela noite em um curto intervalo de tempo, afinal, haviam se passado poucos meses, uma outra luz quase imperceptível cruzou o céu na madrugada. Outra vez, de todos os habitantes da cidade, apenas ele teve consciência de sua rápida passagem. Desta vez Dinarte abriu os olhos e viu claramente a mancha esbranquiçada parar por menos de um segundo sobre a cidade, mais especificamente sobre a loja.
Nesta noite em especial, a loja de 24 horas estaria fechada. O pai e o irmão de Leia ainda estavam na capital e ele não havia conseguido ninguém para ficar à noite.
Dinarte desceu o lance da escada e percorreu a distância da casa à loja, como já fizera milhares de vezes. Estava com a chave na mão, mas nem fez menção de usar, mesmo assim a porta velha abriu. Ele olhou para os lados e para trás e entrou. Ao invés de escuro, o local estava iluminado, mas não era a loja onde ele costumava entrar todos os dias.
O local era diferente, iluminado e repleto de equipamentos que nenhum humano jamais viu, mas quem disse que ele era humano? Se posicionou em cima de um local densamente iluminado e fez as perguntas de praxe, recebendo as respostas de sempre da inteligência artificial da pequena astronave camuflada. Perguntou também quem eram os visitantes, se representavam algum perigo para ele ou sua família, obtendo uma resposta negativa. Colocou um bracelete que Leia e a família jamais perceberiam e saiu de lá, voltando para cama. E adormeceu.
Dinarte estava preparando o café quando Léia acordou. Ela desceu as escadas ainda de pijamas, deu um beijo no marido, bebeu sua vitamina matinal e ficou vendo a TV. Léia acabou de beber a vitamina, levantou-se da mesa indo até a pia lavar o copo e outras louças que estavam lá. Apenas um canal falava das manchas que o telescópio espacial havia fotografado e a ancora do canal, uma morena bonita, falava sobre a possibilidade que um dia faríamos contato com outra civilização.
Léia olhou para Dinarte que assistia ao noticiário, parou entre ele e a TV, como sempre fazia quando queria sua total atenção e perguntou;
– Quem foi que viu alguma coisa afinal?
Fim
Um conto de Swylmar Ferreira. 24 de maio de 2024.