Blog para contos de ficção científica, literatura fantástica e terror
Desci do carro, um Ford que eu tinha há vários anos e que poderíamos chamar de antigo. Peguei uma mochila azul desbotada que combinava perfeitamente com o automóvel. A viagem toda, contando desde que saí de casa até chegar ali, não passou de trezentos quilômetros. Era a primeira etapa do passeio, pois o pacote incluía uma viagem de barco e um pernoite em segundo hotel. Tirei do porta-malas duas malas, uma grande azul e uma pequena preta.
Olhei para o prédio a minha frente sentindo certa satisfação e fui direto para a varanda, toda feita em madeira, do pequeno hotel às margens do rio. Havia ficado ao menos a última hora na estrada de cascalho onde mal caberiam dois carros lado a lado. Olhei as cadeiras também de madeira, mas que me pareciam confortáveis e sentei um pouco esticando as pernas no corrimão.
Um minuto depois um rapaz sorridente apareceu na varanda onde eu estava com um bule de café e uma xicara em uma travessa de metal, colocou-os em uma mesa de madeira ao lado e me serviu um café. Sorri na hora.
– Por conta da casa – falou.
– Começo a gostar desse lugar! – disse sorrindo para o rapaz que levava minhas malas para a recepção.
Olhei para ele quando retornou à varanda e continuava a sorrir, enquanto eu via ao fundo uma família com três crianças saírem do hotel. O menino e as duas meninas foram correndo brincar em um tipo de praça com diversos brinquedos, quase em frente ao hotel.
Ainda fiquei sentado observando o lugar alguns instantes, depois fui fazer o check-in. Esperava muito daquele fim de semana, mesmo não sendo apenas férias.
Às vezes penso em como o mundo pode mudar tão rápido. E não é só em caso de guerras, mas outras coisas como epidemias, pandemias e a entrada de novas tecnologias no convívio diário da civilização fazem com que nossos hábitos, costumes e até mesmo tradições se transformem completamente.
Hoje para mim é melhor trabalhar de casa – trabalho remoto. Fico praticamente em casa de short e camiseta fazendo aquilo que mais gosto.
Passei anos no trabalho normal, em escritórios, atrás de mesas, fazendo pesquisas para as empresas que me contratavam. De repente, em um piscar de olhos, fazia a mesma coisa de casa. O mesmo trabalho, mesmo salário.
Penso que se faz necessário, neste momento, eu falar um pouco mais sobre mim, ao menos da minha vida profissional. Pesquiso e escrevo sobre diversas coisas. Faço isso há muito tempo. Na maioria das vezes consigo bons resultados, outras não. Uma dessas poucas vezes que não tive o resultado esperado foi no mínimo estranho.
O Instituto, permitam chamar assim o lugar onde trabalho, me enviou um email com três folhas escaneadas. Queriam saber se eu poderia fazer uma pesquisa mais aprofundada sobre uma matéria de segunda página de um jornal que circulava na cidade nos anos de 1890. Me deram a data exata da publicação, certamente isso facilitaria minha vida.
Era uma matéria curta de página secundária e trazia uma figura desenhada, um tipo de criatura, meio homem meio reptil, saindo do mar, mostrando uma praia e ao fundo o porto e a cidade. Dizia que o desenho havia sido feito por uma testemunha ocular. A pessoa havia ficado tão apavorada com o acontecido que se mudara de lá.
Achei o máximo me darem aquela pesquisa. Levei semanas pesquisando em periódicos da época e livros antigos de bibliotecas da região e achei apenas uma nota de rodapé, no mesmo periódico, informando que uma semana depois que um barco pesqueiro havia sido encontrado abandonado no mar e seus seis tripulantes estavam desaparecidos. O autor da matéria sugeria que o desaparecimento da tripulação poderia ter algo a ver com o tal homem reptil anteriormente noticiado, mas não havia indícios nenhum de que tal fato realmente acontecera.
Depois disso, no mesmo jornal ou em outros da região, nunca mais houve publicação sobre a tal criatura. Em duas edições posteriores foram publicadas gravuras sobre o tal homem reptil, mas via-se claramente que eram brincadeira dos autores.
Apesar de não acreditar no que estava escrito e de até achar o desenho engraçado e me perguntar como alguém, mesmo em 1890, poderia publicar algo como aquilo, um ponto me permaneceu na mente. Porque o autor insistiu na história? Seria o fim de sua carreira. Ou não?
Assim foi meu primeiro contato com aquela figura. Nada demais. Apenas a comprovação de uma publicação que poderia ser apenas uma brincadeira de alguém muito bem-humorado que viveu nos idos de 1890.
A segunda vez que ouvi falar dele foi agora.
Tudo começou no barco, a beira de um rio que, a menos de um quilômetro, desembocava no mar. Estava um dia muito claro e eu fazia parte de um grupo de turistas eufóricos em uma excursão.
As pessoas que formavam o grupo ou reclamavam, ou riam ou dançavam pelo barco afora, tudo ao mesmo tempo, excitados com a visão maravilhosa que a mãe natureza ofertava.
Não era um grupo grande, umas sessenta pessoas no máximo e a excursão de fim de semana era composta de um passeio de barco com pernoite em um hotel em uma ilha com tudo incluído, desde lanches até refeições, bebidas e até mesmo algumas guloseimas para as crianças.
Sempre gostei de me aproximar das pessoas, fazer amizades, escutar suas histórias e naquele dia, uma desses turistas, uma mulher já grisalha de seus sessenta e tantos anos, acompanhada por um casal de netos contava uma história intrigante. Seu nome era Lúcia e falava ao casal de adolescentes que a acompanhava e mais alguns meninos, como forma de mantê-los quietos perto dela e não participarem da algazarra dos outros.
Confesso que perdi parte daquela história, de seu início. Não sei sinceramente se era a melhor parte ou não, mas o que escutei me deixou, digamos, curioso.
Lúcia falava de alguém, um homem. Ela mesmo não sabia dizer muito sobre ele e quem realmente era. Mas para ela, aquele homem em particular era no mínimo estranho.
Lúcia o conhecera acidentalmente e com o passar de décadas parecia não haver mudado nada.
– O tempo parecia não fazer diferença para ele – disse a mulher em tom dramático para os que a ouviam.
– Andava apenas à noite, vó? – Perguntou a garota cada vez mais curiosa com a história que Dona Lúcia contava.
– Não, Carmem – disse a mulher – ele andava durante o dia, não era um vampiro como nos filmes e livros que você gosta de ler. Mas tinha algo incomum nele, ele preferia caminhar nas sombras a maior parte do tempo.
– A menina fez uma cara de dúvidas e Dona Lúcia percebeu.
– Mas não tinha medo de se expor ao sol e à luz do dia – falou para a moça.
– Que estranho – falou Alberto, irmão de Carmem, um ano mais novo, embora muito mais perspicaz.
Dona Lúcia agora olhava para os netos e também fixamente para mim, pois havia percebido meu interesse e o de mais uma dou duas pessoas perto, em sua história, ao mesmo tempo em que dava um leve sorriso e continuou.
– Ele era estranho, mas não diferente. Era bem comum para dizer a verdade, um homem de altura mediana, forte, careca, daqueles sem um fio de cabelo na cabeça e com olhos grandes e azuis. O que mais me chamou a atenção para ele era o fato de que na época em nossa cidade, as pessoas que às vezes iam passear no campo ou mesmo alguns moradores de sítios ou fazendas diziam que viam um enorme lagarto andando em duas pernas. Outras diziam ser um chupa-cabras, outros que se tratava de um monstro que vivia no rio que passava contornando a cidade. Seria ele uma dessas criaturas?
Sem a menor vergonha resolvi intervir no conto da mulher. Afinal, eu estava boquiaberto com a história. Eu estava sentado junto à D. Lúcia e seus dois netos e bastante concentrado na história.
– Qual o nome desse personagem – perguntei.
Ela me olhou e com um sorriso contagiante e respondeu…
– Walter.
– Bem – continuou ela – Walter morava na casa ao lado da minha, no subúrbio de Sta Maria. Costumava vê-lo todos os dias, pelo terreno dele ou andando na rua ou no mercadinho lá perto. Ele era interessante e sua idade era uma incógnita. Sem um fio de cabelo, barba ou bigode, apesar de ser adulto, quase idoso eu diria, era difícil dizer.
Olhou atentamente a pequena plateia que ela alcançava naquele momento, já que alguns meninos haviam voltado para o barco, e continuou, visivelmente satisfeita.
– Naquela época, nosso bairro estava repleto de bandidos, desde trombadinhas, ladrões, sequestradores.
– Ao voltar para casa um dia, tarde da noite, fui cercada por três homens que começaram a me ofender, querendo dinheiro e quem sabe mais o quê, quando Seu Walter apareceu e em um piscar de olhos, os bandidos ficaram em silêncio. Pareciam paralisados, pareciam estar em agonia, colocavam as mãos nas bocas e nos pescoços como se não conseguissem respirar. Eu e Seu Walter aproveitamos e fomos embora. Apesar de estar muito escuro naquela noite, pensei ver algo estranho que parecia sair de seus olhos e de seus narizes enquanto eles gritavam e gemiam. Certamente eu estava enganada.
– Seu Walter me deixou na porta de casa. Entrei apavorada e falei com meu pai e um tio meu que estava em casa. Voltamos ao local com a polícia, mas não tinha mais ninguém. Nem sinal de nada. Como se nada houvesse acontecido ali. Para dizer a verdade, nunca mais vi nenhum dos três por lá. Ninguém mais os viu. Foi como se tivessem desaparecido completamente.
– Meses depois deste episódio soube que Seu Walter tinha se mudado e fiquei muitos anos sem vê-lo. Passou-se tanto tempo que me casei com Carlos e vivi uma vida. Mas a necessidade da vida fez com que eu e meu marido nos mudássemos para outra cidade.
– Em uma tarde de sol bem quente eu o vi quando eu e Carlos saímos do cinema. Seu Walter continuava o mesmo, parecia não ter envelhecido um só dia, seu sorriso até mesmo parecia mais jovem. Como era possível?
– Ele olhou para mim e sorriu. Jamais me esquecerei. Ele estava na sombra de um edifício do outro lado da rua, sentado em uma das mesas de uma chocolateria e tirou o chapéu cinza-claro que estava usando, me cumprimentando.
– Atravessamos a rua e eu o apresentei a meu marido. Ambos se deram muito bem instantaneamente. Foi como se se conhecessem a vida toda e coincidentemente havíamos nos mudado para o mesmo bairro onde Seu Walter morava. Pedi um chocolate e Carlos um café e passamos bastante tempo conversando.
O passeio de barco foi mais rápido do que imaginei. Quando prestei atenção estávamos aportando no cais do hotel onde pernoitaríamos e a confusão de turistas desembarcando era enorme.
– Vó – disse Alberto cortando a história que sua avó contava – podemos ir brincar agora?
Fiquei observando Carmem e Alberto aos pulos junto com outros meninos e meninas irem para a praia se juntar há ao menos uma dúzia de crianças enquanto eu me refestelava em uma cadeira de praia e tomava o sol a pino na pele. Aquilo me fazia muito bem, ajudava com a vitamina D, eu dizia aos amigos. Sempre gostei de ficar nas soleiras dos hotéis onde me hospedava. Depois fui para o quarto, coloquei um short de banho e desci para o pequeno saguão
Vi quando Lúcia saiu do elevador e foi olhar as crianças de perto. Afinal, eram netos dela.
Depois de um tempo subi ao meu quarto. Tomei um banho frio e dormi, afinal eu estava de férias. Quando acordei desci e entrei na piscina do hotel ficando lá mais de uma hora. Comi as frutas que estavam na mesa e fui para a beira praia. Estava anoitecendo e eu pretendia ficar só.
Não consegui, é claro. Logo um grupo de crianças barulhentas passou correndo me jogando areia. Isso nunca foi incomodo para mim. Gosto delas.
O hotel tinha ao menos umas cinco áreas de convivências e, depois do jantar, fui para uma delas, perto da praia e longe da maioria dos hospedes. Havia uma fogueira feita pelos funcionários do hotel e eu me sentei em uma das cadeiras confortáveis e fiquei por lá.
Confesso que peguei no sono e quando dei por mim acordei com Dona Lúcia ao meu lado, me chamando e desta vez cercada por umas dez crianças.
– Senhor… Senhor… – me chamou ela.
– Estou contando às crianças aquela história que vínhamos falando no barco. Se o senhor tiver interesse, foi mais ou menos nesse ponto que parei naquela hora.
Dona Lúcia me deu um belo sorriso. Fiquei tão contente que fui para onde eles estavam, me sentei em uma cadeira e me ajeitei para ouvir melhor. Quando o garçom passou pedi que me trouxesse uma bebida com chocolate quente. Certamente me manteria acordado, além da algazarra da garotada.
– Bem! – disse Lúcia feliz com a audiência – vou continuar de onde parei. Onde foi mesmo?
– Na chocolateria – gritaram algumas crianças.
Ela apenas acenou positivamente com a cabeça, passando um olhar rápido por todos e continuou a falar, olhando mais demoradamente para mim.
– Depois disso nos reunimos, eu, Carlos e Seu Walter, diversas vezes e Walter sempre parecia, ao menos para mim, rejuvenescido.
– Com o passar dos meses o nosso novo bairro foi ficando cada vez mais perigoso. Nossos vizinhos, quem tinha condições é claro, mudaram-se para outros lugares. Infelizmente não era o nosso caso. O do Sr. Walter eu não sabia.
– Então, um dia pela manhã, um tiroteio entre traficantes rivais aconteceu e um grupo de pessoas ficaram presas em um mercado na beira do porto da cidade e não conseguiram sair. Foi tão violento que foi noticiado pela tv em todo o país e no exterior. Além dos tiros havia incêndios em armazéns no porto, explosões em prédios e lojas comerciais. Algumas pessoas perderam tudo por causa dos incêndios, tiveram que fugir às pressas. O lugar se transformou em uma loucura.
– Eu estava desesperada, a polícia não conseguia nem chegar perto do lugar e as famílias não podiam se aproximar. As horas passaram e a noite já havia caído quando encontrei Seu Walter. Ele estava muito agitado com toda aquela situação. Me disse que alguém precisava parar tudo aquilo. Eu olhei nos olhos dele e, desesperada, pedi para que trouxesse Carlos de volta para mim. Ele apenas me deu um abraço, acenou positivamente com a cabeça e saiu.
– Passei a noite toda vendo as notícias na TV. Não consegui dormir, desligar ou tirar os olhos da tela, do telefone, de nada, pois a polícia e bombeiros haviam invadido vários lugares. Ninguém sabia ao certo o que havia acontecido.
– Os incêndios na região do porto deixaram muitos desabrigados, feridos, mortos e alguns desaparecidos. No outro dia pela manhã, Carlos chegou em casa.
– Sinceramente nunca pensei que Sr. Walter fosse uma das vítimas, apesar de achar estranho não o ter visto mais. O mais intrigante foi uma manchete de jornal que mostrava a foto de alguém saltando de um dos armazéns incendiados diretamente no mar.
– Mas o Sr. Walter, levei mais de uma década até vê-lo outra vez.
Todos se inquietaram, isso significava que tinha mais um ponto na história da vovó Lúcia.
Lúcia se levantou da cadeira e foi até uma mesa, pegou uma das jarras de refrescos que estavam em cima e começou a servir as crianças. Virou-se de novo para onde estava a algazarra e serviu mais dois copos de plástico antes de liberá-los para as crianças. Ela me olhou, deu um sorriso e perguntou.
– Vamos?
Eu sorri de volta, plenamente interessado e lhe respondi.
– Sim – em voz alta enquanto tomava o refresco de uva.
– Bem! – disse Lúcia – quando vi Walter de novo minhas duas filhas já estavam moças. Estávamos de férias e naquela tarde passeávamos na beira da praia, no calçadão. Carlos havia ficado em um quiosque na beira da areia bebendo cerveja e conversando com algumas pessoas sobre o jogo de futebol do dia anterior e eu e as meninas estávamos andando e chegamos perto de um local onde os artesãos expunham suas obras e outros comerciantes vendiam desde roupas até lanches e comidas.
– Passei em um dos locais de lanche, comprei o que elas queriam e nos sentamos. Foi quando o vi. Quase não acreditei, ele não havia mudado nada. Eu já tinha algumas rugas de idade, mas ele parecia não ter mudado nada. Levantei e fui até a mesa onde ele estava sentado olhando para o mar.
– Sr. Walter? – perguntei. – Ele ficou me olhando por alguns instantes até que sorriu.
– Lúcia – disse ele sorrindo – como você está?
Ele me convidou para sentar e ficamos um longo tempo conversando, contei sobre minhas filhas, sobre como estávamos indo de vida. Ele estava muito interessado. Me contou que morava ali perto, que se mudara de onde vivíamos por estar muito conturbado. Me contou que andava meio esquecido e que às vezes demorava a se lembrar de algumas coisas. Contei a ele que Carlos chegou no outro dia pela manhã a salvo, mas que não lembrava de nada da confusão da noite anterior.
– Ele trabalhava em que? Perguntou um menino que comia uma enorme barra de chocolate perto dela.
Lúcia parou por alguns instantes e deu um sorriso bobo, como se aquele tipo de coisa nunca tivesse passado pela cabeça dela.
– Não sei – respondeu olhando para o garoto – nunca soube. Assim como nunca entrei nas casas onde ele morava. – Estranho, não é? – Perguntou para as crianças.
O menino do chocolate ia levantando o dedo para fazer mais uma pergunta, mas uma menina que estava atrás dele deu um beliscão para que ele ficasse quieto.
– Desta vez, ao se despedir – continuou Dona Lúcia – ele disse que iria nadar um pouco e ir para casa. Fiquei olhando ele desaparecer na escuridão da confluência entre a areia da praia e o mar.
– Mas ele era o homem lagarto ou não? – Perguntou Alberto já se levantando para acompanhar as crianças que estavam saindo.
– Vou deixar para sua imaginação decidir isso – falou Lúcia dando uma grande risada com a confusão criada e crianças gritando ao mesmo tempo que era sim, era não.
Fiquei olhando as crianças saírem daquele espaço e ficamos Lúcia e eu, além de uns dois casais nas proximidades. Sabia que se houvesse ocorrido realmente um caso como o do século passado seria apenas uma pessoa com alguma doença de pele como psoríase ou ictiose ou outra qualquer. Mas algo na história de Dona Lúcia não batia, ou era apenas uma história para divertir as crianças?
Resolvi ir nadar e como sempre acontecia, me perdi na imensidão do mar. Como me sinto bem nadando, principalmente durante a noite. Fui me afastando, afastando da praia até que o hotel não passava de um pequeno ponto no continente. Quando dei por mim o dia já dava sinais de nascer, mas aquela hora eu já estava perto do hotel. Sai da água, peguei minhas roupas, fui para uma das redes estendidas e adormeci. Acordei com um dos empregados do hotel me chamando para o café da manhã.
Só voltaríamos ao hotel da cidade mais para o fim da tarde e eu fiquei no saguão enquanto os outros turistas andavam freneticamente de um lado para outro. Em um certo momento Dona Lúcia sentou perto de mim e depois de conversar sobre algumas amenidades, pensei que eu poderia perguntar sobre um ponto da história que ela falado. Afinal, que mal haveria?
– Dona Lúcia, a senhora nunca mais viu aquele homem mesmo? O Sr. Walter?
Ela me olhou séria e sorriu.
– Eu o vi sim. Ele era diferente. Mais diferente do que você possa imaginar. Nos vimos todas as semanas por meses, anos a fio até que ele sofreu um acidente. Mas eu sempre tive muito carinho e muito o que agradecer ao Walter. Ele me contou muitas coisas.
Lúcia me olhava nos olhos agora. Estava tão perto que acariciou meu rosto e sorriu de novo.
– Me contou que estava há muito tempo entre nós. E eu não digo dias, meses ou anos. Estou falando de séculos.
Quase ri naquele momento, mas algo nos olhos dela me fez ver que ela me contava a verdade que ela conhecia.
– Ele me confidenciou uma vez que chegou junto com um grupo da gente dele. Eles estavam aqui apenas para observar e intervir somente para salvar a própria vida. Depois de um tempo o grupo deveria ir embora para outro lugar previamente escolhido por eles e apenas um ficaria aqui como observador.
– Walter foi o escolhido para acompanhar como nossa civilização se desenvolveria. Nos observou por tanto tempo que um belo dia resolveu que deveria dar um passo além em seu trabalho e passou a viver entre nós, não apenas conviver, mas fazer parte mesmo, inclusive parte de família. Nessa época eu diria que ele já se considerava um nativo daqui.
– Nos séculos em que esteve conosco ele só interviera por duas vezes e depois que me conheceu interveio o triplo disso, inclusive uma das vezes a um pedido meu.
– Porque a sra. acha isso, Dona Lúcia? – Perguntei curioso.
Ela me olhou longamente sem responder. Percebi em seus olhos a tristeza de quem perdeu alguém muito querido.
– Não sei – se ajeitou melhor no sofá – o que sei é que ele foi um grande amigo de meu pai. Depois foi como um irmão para meu marido. Até o acidente com o barco.
Havíamos chegado no ponto onde eu queria. Já estava a um passo de continuar com as perguntas quando ela se levantou.
– Tenho de buscar meus netos – me olhou constrangida – prometi a Walter não falar sobre isso, ele achava que não tinha sido acidente.
Lúcia deu-me as costas e após um par de passos em direção ao balcão do saguão, virou para mim e perguntou.
– Uma mulher pode amar dois homens ao mesmo tempo? – E se um deles não for exatamente um homem?
E continuou até o balcão onde se encontrou com Alberto e Carmem. Dali foram em direção a um dos barcos que levavam turistas para o hotel principal. Metade dos turistas entrou no primeiro barco e alguns ficaram esperando a próxima embarcação.
Eu estava listado para a segunda embarcação. Lúcia parou na proa e virou-se, claramente procurava alguém, nossos olhos se cruzaram. Levantei o braço. Mesmo distante vi o sorriso em seus lábios.
A viagem de volta ao hotel principal foi tranquila. Ao entrar avisei que ficaria até o outro dia.
– Sem problemas – disse o recepcionista – temos bastante vagas.
No entardecer decidi nadar de novo. Vou até o cais quase na frente do hotel e salto no rio.
Nos últimos tempos, penso que estou sendo vigiado e isso me deixa ansioso. A tecnologia está muito avançada nesses dias. Mergulho e vou sob as águas o mais longe e mais profundo que consigo, nado e relaxo, depois volto ao cais. Não há mais ninguém por perto na madrugada, posso voltar ao meu quarto.
Está clareando quando chego, tranco a porta e coloco uma poltrona encostada para evitar intrusos. Abro a mala azul e retiro uma caixa de polímero, negra como a noite mais escura, que ocupava toda ela. Levo para o banheiro e a coloco sobre a pia.
Olho minha imagem no espelho e me angustio. Passo as mãos diversas vezes em meu rosto e em seguida sobre a caixa, até que ela começa a emitir um som quase impercetível e a soltar uma névoa azulada que desce ao chão e começa a cobrir todo o lugar. Inspiro profundamente aquele ar denso e colorido por tantas vezes que algo semelhante a uma saudade insaciável de casa toma conta de mim. Olho enquanto a figura no espelho muda lentamente acompanhando a cor da névoa até se tornar algo indizível, diferente, parte em couro amarelado, parte com escamas azuis e olhos alaranjados. Fico ao mesmo tempo perplexo e feliz. Eu sei que este sou eu.
A caixa de polímero agora está transparente, zumbindo alto e forte. Em um nano segundo lembro de Lúcia e dezenas de outros com quem vivi. Vejo a imagem no espelho ficando cada vez mais transparente, fecho os olhos e tudo escurece. Uma alegria imensa toma conta do meu ser, afinal, era chegada a hora do observador voltar para casa.
Fim
Um conto de Swylmar Ferreira 14 de maio de 2024.